“O Polícia”, de Navad Lapid

Brigada anti-terrorista israelita, a apresentação ténue da violência gratuita de adolescentes ou jovens revolucionários do país judaico… é este o cocktail servido por O Polícia, num filme que, na forma de mini-mosaico, está notoriamente dividido em duas partes. Na primeira, acompanhamos um polícia israelita na intimidade, no contexto familiar e da futura paternidade, no companheirismo com os colegas, nomeadamente com Ariel que está em fase terminal, ou na forma como gere a acusação da morte de civis no processo de eliminação de um terrorista palestiniano. Na segunda, observamos o plano de um conjunto de jovens revolucionários de esquerda para raptarem alguns magnatas económicos israelitas, responsáveis pela aplicação do capitalismo mais selvagem no país, de forma a transmitirem uma mensagem ideológica ao país. Quando o rapto acontece, o destino das personagens de ambas as partes acaba por cruzar-se de forma inevitável.

Um dos aspectos curiosos deste filme israelita é precisamente o de mostrar um lado menos óbvio da sociedade nacional. Assim, o destaque é dado à lógica social de Israel e ao conflito interno entre classes, que acaba por ter, no restante mundo ocidental, um papel mediático muito secundarizado em relação à questão do problema palestiniano. E mostra-o por uma via humana e psicológica suficientemente profunda, muito mais na via da problematização do que de um moralismo simplório. Por outro lado, conta com uma montagem que, de uma forma pausada, mas sem ser entediante, vai dando corpo à história. Tome-se, como exemplo, a panorâmica extraordinária das fotografias do casamento.

É pena que, por vezes, haja algumas cenas que afastem o filme de Nadav Lapid do essencial e que, na fase final, haja algum desnorte e uma teatralidade pouco realista (a presença da noiva em tudo aquilo roça o absurdo). É que poderia estar aqui uma obra-prima, capaz de denunciar as desigualdade sociais de uma forma complexa e não panfletária e de mostrar a necessidade de se distinguir o cidadão comum israelita do Estado que promove essas mesmas injustiças. Até porque o último momento de O Polícia é de uma força emotiva tremenda.

7/10

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Uma resposta a “O Polícia”, de Navad Lapid

  1. An Lage diz:

    Sem comentários? Parece que enfatizar os conflitos de classe internos não parece ser do agrado da malta.

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