À esquerda

Tanto nas eleições gregas como nas francesas o eleitorado apresentou uma sonora moção de censura às políticas europeias confiando o seu voto à esquerda. Em França, o “centro-esquerda” joga a sua última cartada com Hollande. Fazendo uma campanha política com propostas de esquerda (incluindo algumas que o PS português ou grego têm vindo a rejeitar), gerou um capital de esperança que só será cumprido se rasgar, de facto, a aliança com Merkel.
Na eleições gregas a vontade de mudança ainda foi mais clara. Os inúmeros partidos de esquerda somados obtiveram 36% dos votos contra os 32% da troika e os 17,5% da direita antitroika. Em dois anos, o PASOK perdeu 2,3 milhões de votos e mesmo com a ND insuflada por uma antidemocrática regra que lhe permite receber 50 deputados em que ninguém votou, só conseguirão formar governo se um pequeno partido de esquerda antitroika, composto por dissidentes do PASOK e do Syriza, se prestar a trair quem nele votou – à hora a que escrevo ainda não é claro o que  sucederá. Das eleições gregas emerge o Syriza com 16,8% dos votos, a 130 mil votos do partido mais votado, e com 27,7% na primeira sondagem pós-eleitoral realizada durante esta semana.
Na maior parte da Europa o eleitorado está a dar sinais ruidosos de que quer rapidamente virar à esquerda. Aos partidos de esquerda cumpre fazer as alianças necessárias para que emerjam plataformas unitárias capazes de construir um projecto de governo de esquerda – de mudança e ruptura política. Mas esse projecto de esquerda também significa traçar uma linha sanitária que o torne imune a potenciais namoros de oportunidade com o velho “centro-esquerda”, a partidos muletas ou a estrelas mediáticas que o utilizem como barriga de aluguer da sua carreira política.

Hoje no i

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged . Bookmark the permalink.

16 respostas a À esquerda

  1. Antónimo diz:

    Espero que actualizem isto depressa que é para não tramar o debate, aparecendo uns 12 comentários ao mesmo tempo, vários sem acrescentar nada a outros.

    Quase de acordo com tudo, mas dizer que “na maior parte da Europa o eleitorado está a dar sinais ruidosos de que quer rapidamente virar à esquerda” cai mais nos desejos que na realidade. A própria primeira parte do artigo contradiz o final ao esbarrar no Hollande, que foi eleito pelo centro-esquerda, talvez ligeiramente mais acirrado que é costume. E Méllenchon não teve assim tão bons resultados como chegou a parecer. A ver se limpa Marine Le Pen, corajoso é.

  2. Subscrevo!
    Eu sei que Obama não é Lenine, que Dilma Russef não é Rosa Luxemburgo e que Hollande não é Trotsky. Mas algumas mudanças positivas ocorrem pelo mundo ocidental e, como disse Karl Marx, “as mudanças quantitativas operam mudanças qualitativas”.
    O que é preciso é que a Esquerda conserve essa linha sanitária de que fala, para que seja realmente reserva de confiança numa alternativa.

  3. Pai dos povos diz:

    A esquerda não está contra a direita. Está contra a Matemática.

    • De diz:

      Um alter-ego daquele tipo de que não me lembro o nome,mas que é ministro da educação?

      Uma coisa é certa.Um neoliberal PP que não renega as suas origens.De direita troikista a fazer-se passar por aquilo que é

  4. JDC diz:

    Embora a votação na grécia tenha sido histórica, convém não escamotear o facto de que, tudo somado, a esquerda no seu todo perdeu votos e que a abstenção foi assustadora, face às circunstâncias.

  5. JgMenos diz:

    Esta conversa da esquerda e da direita é um exercício de ociosos!
    Falem-me de capitalismo e socialismo e digam-me quem se propõe instaurar o socialismo e quem se propõe manter o capitalismo.
    Porque a esquerda que DE FACTO quer instaurar o socialismo é uma minoria tão insignificante que mais valeria identificar a esquerda com uma qualquer doutrina social do que insitir oportunisticamente em relacioná-la com socialismo!

    • De diz:

      Sorry JMenos.
      Ninguém está interessado em lhe falar a música que deseja para os seus ouvidos.Só mesmo os seus exercícios diletantes como os acima reproduzidos
      Já agora tente ao menos que o seu texto lhe saia coerente,.Porque como está parece o que é.Um amontoado de palavras a tentar jogar com as ditas e que se anulam a si próprias.
      (Quer venham ou não em formas maiúsculas, a ensaiarem os pretensiosismos de que infelizmente padecem)

  6. João Jordão diz:

    A questão não estará tanto na viragem à esquerda ou à direita; o mais importante será identificar os pontos em que o Hollande, por exemplo, ou o Obama, ou a Dilma divergem dos ‘outros’, ou seja, de deixar de se reger somente com a dicotomia entre ‘esquerda’ e ‘direita’ e de começar a verdadeiramente exigir mudanças estruturais nos sistemas políticos. E a verdade é que o Obama prometeu muito, e trouxe pouco. Guantanamo ainda está aberta, as guerras no Médio Oriente continuaram, aliás, foram iniciadas mais umas (Sobretudo Líbia, Yemen, Síria, todas elas com infiltração da CIA muito forte nos movimentos de ‘liberação’, sendo a guerra no Paquistão e Afeganistão aprofundadas), e em termos sociais, nada se ganhou com a America do Obama. Já o Hollande, é o cobarde de entre os cobardes, é maçom (membro da mais notória plataforma dos ricos e poderosos), e já veio a dizer que afinal as contas do Estado Francês estão piores do que tinha pensado. Ora, já está a abrir caminho para não cumprir as promessas de quebrar com a austeridade. É, como o Obama, mais um fantoche que nada irá mudar, excepto a capacidade acrescida que terá para adormecer uma parte da ala ‘esquerda’, que por afiliação partidária ou ideológica será menos capaz de aceitar a verdade- que somente reformas profundas poderão inverter a tendência de perda de direitos civis e empobrecimento, e essas reformas não serão os nomes referidos a trazer de certeza.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      João Jordão, eu não tenho grandes esperanças em Hollande (tal como não tive com Obama). O que me interessa é que a sua eleição representa um sinal que o eleitorado quer virar à esquerda. Se Hollande o fará? Não me parece.

  7. Rafael Ortega diz:

    É bom que a extrema-esquerda ganhe as eleições na Grécia e faça tudo o que anda a dizer que se deveria fazer.
    Mande a troika à fava e não pague nada. Contrate mais funcionários públicos, distribua subsídios, aumente salários mínimos e pensões.

    Se funcionar os meus parabéns. Se der barraca pode ser que se calem durante uns tempos.

    • De diz:

      Rafael Ortega:
      Não sabe quantos andaram a considerar como falido o capitalismo durante os mais de 200 anos que decorreram até à sua triunfal vitória.
      Rafael Ortega:
      Não tome por definitivos modelos, projectos ou vivências alternativos ao dito capitalismo.Nem o seu enterro definitivo com as suas derrotas ou os seus recuos
      Tudo está em aberto.O fim da História só mesmo na cabeça de.

  8. Pingback: Grécia, Eleições em Junho! Civilização ou Barbárie. | cinco dias

Os comentários estão fechados.