Primeiro foram os comunistas

O Rui Tavares fez as contas em que ninguém pensou. O Syriza, a “nova esquerda” do mês – no mês de Abril o mesmo partido era uma “esquerda radical” de “bloquistas” não-abertos, podia ter ido para o governo com a direita anti-troika e com o PASOK da troika num governo de “salvação nacional, provavelmente de apenas um ano, dedicado essencialmente a auditar a dívida grega, renegociá-la, e substituir o memorando da troika”. Na cabeça do Rui o PASOK e os ex-ND’s até há poucos meses no governo, não teriam qualquer reserva em juntar-se a este festival de um ano, para denunciar os crimes e os roubos que infligiram ao povo grego.
Mas de quem é a culpa disto não suceder? Dos comunistas, claro!
Os velhos ortodoxos com os seus miseráveis votos não deixam que a “esquerda” faça a revolução. Diz o Rui que “o KKE atirará de novo o seu país para os braços da troika, de Merkel, e da austeridade mais cruel”. O PASOK e o centro-direita são flores de estufa na defesa dos grandes interesses. Os comunas, afinal, é que bloqueiam tudo.

Tenho mantido com o Rui cordatas divergências. É alguém com quem tenho gosto em discutir. Mas este seu texto, para além de absurdo, não traduz qualquer ideia de esquerda. Revela apenas um preocupante anti-comunismo primário. Pode ter sido produto de uma paixão momentânea. Se assim foi, creio que o Rui será o primeiro a retratar-se.
Qualquer comunista, mesmo não sendo grego (e o KKE não está na minha lista de PC’s de eleição), deve indignar-se e preocupar-se ao lê-lo. Todos os fascismos começaram assim.

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25 respostas a Primeiro foram os comunistas

  1. estrangeiro diz:

    Não percebo do último paragrafo. SFF pode esclarecer.

  2. Leo diz:

    “O Syriza (…) podia ter ido para o governo com a direita anti-troika e com o PASOK da troika”

    Mas foi com as direitas pró-troika que o artista começou por se encontrar: 15 minutos durou o encontro com o líder da ND e pouco mais com o do PASOK.

    O mais revelador é o artista ter aproveitado as 40 horas de fama para pedir audiências à Merkel e Hollande. Levou negas, obviamente.

    Tudo isto não passou de um exercício de show-off…

  3. Bolota diz:

    Tiago,

    Desde que vi as cenas dos empurrões e provocações a Vital Moreira num 1º e Maio serem emputadas aos comunitas e a CGTP por Miguel Portas e Louçã e que afinal foram provocadas por dirigentes do BE, não estou nada espantado com o que diz Rui Tavares que agora não se sabe bem o que é.Pelo menos BE não é, logo será outra coisa qualquer e são estas cosias quais quer que falam grosso e botam faladura.

  4. A.Silva diz:

    Não deixa de ser estranha esta onda de histerismo anticomunista de gente próxima do BE a propósito das eleições Gregas. Ainda não tinham acabado de contar os votos e já andavam a acusar os comunistas de “destruir o sonho”, sabe-se lá do quê.

    Estes ridículos “revolucionários” parecem estar mais interessados em demonstrar aos “mercados” que se encontram prontos para participar no governo desta farsa de democracia em que a Europa se transformou, do que em criar condições para que de uma vez por todas o capitalismo seja enterrado.

    Parece que a sua única estratégia é o oportunismo, têm consciência que na Grécia actual não há condições para o povo tomar o poder, mas não hesitam em atacar os comunistas, acusando-os da responsabilidade de tal realidade, confundindo coerência com sectarismo, pois coerência é coisa que os oportunistas desconhecem.

    Em vez de persistirem num projecto de mobilização do povo contra o capital, optam por dividir a esquerda. É de questionar os seus verdadeiros objectivos, será que como bons sociais-democratas (em que se andam a transformar), o seu objectivo é criar condições para mais um balão de oxigénio ao capitalismo?

    Decididamente o seu comportamento tem sido vergonhoso.

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  6. Caro Tiago,

    Não me espanta que o Rui Tavares queira chamar sectário ao KKE. Se calhar até para chegar ao PCP, como é hábito. Só que o que é certo é que pela sua habitual postura e tendo em conta aquilo que aparentemente parece defender, seria ele próprio o primeiro a inviabilizar quaisquer acordos ou entendimentos à esquerda, até porque a esquerda pode entender-se com a esquerda, mas não pode entender-se com quem não está verdadeiramente em parte nenhuma – a não ser consigo próprio, ou com o seu próprio umbigo.

    Mas quero sobretudo salientar que é preciso algum cuidado com os chamados ‘partidos homólogos’. Não é o teu caso, bem sei, mas percebe-se que por vezes há uma identificação com designações e bandeiras mais do que fruto de uma análise menos imagética e mais substancial, como seria exigível. Creio sinceramente que há um certo radicalismo de posições no KKE que mais facilmente veríamos no Bloco ou no MRPP do que no PCP. A título de exemplo, estou convicto de que o PCP jamais se atreveria a abandonar o euro e a UE sem negociação e, sobretudo, sem referendar a decisão ao povo. É preciso entender o que está em causa e o KKE não parece disposto sequer a medir as reais implicações da sua posição na economia do país e na vida do povo e dos trabalhadores que o próprio partido defende. Não me parece que o marxismo-leninismo preveja a martirização da classe trabalhadora como estágio ou como pressuposto para alcance do comunismo. Já quanto a eventuais entendimentos à esquerda, a resposta do PCP seria, em primeiro lugar, a de procurar saber em “torno de que projecto” e de que “medidas concretas” tal se concretizaria, sem excluir a necessidade de um aprofundamento do debate a nível interno (algo a que eu próprio já apelei). E é preciso que se diga também que o PCP, não obstante as naturais divergências que são conhecidas, não tem dúvidas de que o Bloco seja de facto uma força de esquerda. Já o KKE, por seu turno, neste aspecto diferencia-se do seu ‘homólogo’ de uma forma bastante clara: a primeira resposta a entendimentos é um rotundo ‘não’, e quanto à coligação Syriza, não hesita não só em colocá-la à direita, como em classificá-la inclusivamente como bengala da social-democracia.

    • Leo diz:

      “Já o KKE, por seu turno (…) a primeira resposta a entendimentos é um rotundo ‘não’”

      O “não” foi a participar em encontros com qualquer dos líderes partidários mandatados para formar governo – da ND, Syriza e PASOK – e não apenas com o do Syriza. E explicou muito bem porquê.

    • Kirk diz:

      Estou de acordo
      realmente há uma tendencia tremenda por parte dos camaradas do PC de se vitimizarem quando alguem discorda ou diz mesmo mal deles. É doentio. Os camaradas do PC não sao os unicos comunistas em Portugal, com certeza, nem os do KKE são os unicos na Grécia (porque se são…)
      Uma coisa que devia preocupar mais o Tiago que o texto do Tavares , e dada a sua admiração pelo KKE, é como é possivel que no meio do descalabro da economia grega e das durissimas condiçoes de vida do povo grego o KKE nao subiu a sua votação. Porra, isso é que interessa saber e nao estar a desviar a conversa para o texto do Tavares, cujo aliás, faz uma referencia ao sectarismo do KKE, no meio de outros assuntos.
      K

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      Ivo, absolutamente de acordo.
      Acrescento uma outra coisa que me irrita especialmente no KKE: as ingerências públicas em matérias do foro interno de outros PC’s.
      Grande abraço.

    • Rocha diz:

      O KKE rompeu com o tabu dos partidos comunistas de não criticar publicamente o chamado “eurocomunismo” – que é a mesma coisa que social-democracia reciclada – e fez muito bem. Prefiro as críticas abertas do KKE quando dá a sua opinião sobre outros partidos comunistas ao silêncio de ferro que serve de cobertura muitas vezes a uma paz podre e despolitizada (com sorrisos amarelos) entre partidos irmãos.

      Se há sem dúvida uma luta de classes ao nível europeu também deve haver um debate entre comunistas ao nível europeu – onde, quando e como os comunistas quiserem e não condicionado pelo que a UE quiser.

      O KKE é o partido comunista mais vanguardista da Europa em termos ideológicos e o que mais se bateu pela unidade entre partidos comunistas e operários sendo o seu organizador durante muitos anos – aliás o único que realmente se esforçou nesse sentido depois do fim da Internacional Comunista.

      Creio que independentemente de alguma diferença de linguagem e de táctica que eu tenha com o KKE ele merece todo o meu respeito e solidariedade.

  7. um gajo qualquer diz:

    Ivo:

    Plas propostas conhecidas do syriza, a sua caraterização como “begala da social-democracia”, é um dado objectivo, uma realidade factual. Podemos depois discutir se o KKE se deveria sentar às mesas de negociações ou não… mas vamos ter a coragem de chamar os bois plos nomes, está bem?

    Quanto ao desastre que seria sair do €uro… Fuck! O desastre é no aqui e no agora e, em grande medida, por causa do €uro!!! Toda a lenga-lenga televisionada sobre a inevitabilidade de continuar no €uro tem feito o seu caminho, infelizmente

    • Kirk diz:

      meu caro, conhece alguém que tenha algumas certezas acerca do que é que acontece se ficarmos no Euro? E conhece alguém que tenha algumas certezas do que acontece se sairmos do Euro? Eu não conheço ninguém mas gostava de conhecer e qualquer um que fosse inteligente também gostaria. Diga-me uma coisa, se há quatro anos lhe dissessem que hoje estaríamos onde estamos você acreditava? Ah, bem me parecia.
      A Economia não é nenhum ciencia, ou melhor, a Economia é uma ciencia que serve para explicar o que já aconteceu, nunca aquilo que pode acontecer. Assim, defender a permanencia no Euro “tout court”, a permanencia no Euro com alteraçoes á politica fiscal, economica e financeira, ou a saida do Euro simplesmente, tem por trás posiçoes ideologicas. Defende-se a permanencia no Euro ou a saida porque temos determinada oorientação ideologica e nunca o contrario.
      K

  8. Joao Passos Dias Aguiar Mota diz:

    Caros,

    Meu humilde contributo para a discussão. Caso Grecia abandone o acordo Troikiano, abandonara tambem o Euro. Deixara alem do mais de ter qualquer credito internacional dada a consequente erosão total de credibilidade de cumprimento de compromissos. A possibilidade de voltar a emitir moeda propria pouco valera porque sera de imediato traduzida em inflação.

    De modos que o dilema é este: entre o mau (troika) e o péssimo (abandono do euro), penso que os Gregos no fundo sabem que é melhor o mau, daí que o palco das novas esquerdas radicais seguirá sendo nas ruas e nunca na possibilidade/capacidade de governar.

    Cumps,
    Joao da Mota

  9. Vasco diz:

    O anticomunismo é a grande ideologia do capitalismo desde a Revolução de Outubro. Veja-se o consenso anticomunista Alemanha, França, Inglaterra, EUA nos anos 30 ou a partir de 1947, com a guerra fria. Hoje, é mais elaborado e vem também de muita gente de «esquerda» mais preocupada em isolar os comunistas – acusando-os depois a eles de sectários – do que em construir algo de novo e de diferente. Por cá também há disso: tentativas de isolamento dos comunistas nos movimentos unitários (com o problema que são eles, os comunistas, que mobilizam o grosso da coluna), as alianças sindicais anticomunistas, a criação de estruturas paralelas àquelas onde os comunistas têm influência – mesmo à custa da tão propalada “unidade”, da qual se apresentam como campeões , etc, etc, etc. Daí não ser de admirar a histeria anti-KKE e anti-PCP tanto lá como cá. É uma marca divisória, não tanto entre “esquerda” e “direita”. É mais uma marca de classe e a tentativa de cumprir o velho sonho de colocar a classe operária e os trabalhadores a reboque da pequena burguesia radicalizada.

    PS: quanto ao KKE, tenho-o como um partido firme e caldeado nas duras lutas de classe, um partido ímpar na conturbada história grega. Independentemente das divergências que com ele possa ter, vai sempre para os comunistas gregos a minha solidariedade.

  10. Vasco diz:

    Quanto ao Rui Tavares, parece-me mais um daqueles «intelectuais» que iça a vela ao sabor do vento… Sem espinha, sem princípios, sem compromisso com nada nem com ninguém.

    • la Drang diz:

      Um comunista consciente dos valores por que luta , não perde tempo em identificar vultos na penumbra tipo Rui Tavares.

      Deve ter sim a ousadia de lhes lembrar as traições que cometem em nome daquilo que precisamente dizem defender.

      Ou Rui Tavares já não se lembrará de que lado se colocou quando da agressão à Líbia? Também o que disse sobre a Síria?

      Portanto com que autoridade moral vem hoje fazer criticas às decisões tomadas por o KKE? Tem todo o direito em fazer as que entender, mas não pode ser em nome da esquerda. Essa mascara já não a pode usar mais.

      A história tem demonstrado que o capitalismo tenta eliminar os seus inimigos de classe de diferentes formas em diferentes países, para isso face à sua angustiante falta de valores pactua com quem estiver sempre disposto a trair a sua própria classe. E o seu ressentimento orienta-se todo para um inimigo. Os comunistas; claro.

      Por isso mesmo Rui Tavares pode travestir o seu discuro da forma que muito bem entender, com este tipo de retorica o único bom serviço que está a prestar é ao capitalismo, inimigo do povo Grego.

  11. Kirk diz:

    Já conhecem o resultado dauma ultima sondagem realizada na Grécia, sobre orientação do voto dos gregos se houvesse agora eleiçoes? Já viram o lugar do KKE? Ah, pois é, mas isso acontece porque os gregos são estupidos, caso contrario votariam KKE.
    Depois da pequena amostra que é a maioria dos comentarios sobre as eleiçoes gregas aqui deixada, dá perfeitamente para perceber que os comentadores que aqui que se dizem comunistas ou simpatizantes do comunismo não passam de pequeno burgueses com medo que alguém que pense de maneira diferente lhes tire o chupa-chupa. O que me parece é que os camaradas estão mais preocupados com a estrategia politica do KKE (e por extensão, do PCP) que com o povo grego.
    Syriza: 27.7% (16.78% nas últimas eleições)
    Nova Democracia: 20.3% (18.8%)
    PASOK: 12.6% (13.1%)
    Gregos Independentes: 10.2% (10.6%)
    KKE: 7% (8.48%)
    Aurora Dourada: 5.7% (6.97%)
    Esquerda Democrática: 4.9% (6.1%)
    Repito: são vocês em Portugal e o Nova Democracia na Grécia. Só camaradas dogmáticos e sectários nao conseguem aceitar que o Syriza é uma formação politica da esquerda e como tal a sua votação deveria ser festejada como uma vitória. Pode ser uma pequena e passgeira vitória. Mas digo-vos, é melhor uma pequena vitória que vitória nenhuma!
    Aguentem que é serviço, camaradas!
    K

    • Leo diz:

      “Pode ser uma pequena e passageira vitória.”

      Ah! Por isso o Syriza foge de pedir novas eleições como o diabo da cruz…

      Até à data apenas o KKE pediu novas eleições, parece que todos os outros partidos nem querem ouvir falar disso.

      • Zuruspa diz:

        Pois foge. Ui que foge. Aliás, pelas sondagens vê-se bem que ficaria muito prejudicado, pois até conseguiria fazer um governo de Esquerda.

        Há gente que nem com o elefante a pisá-los o conseguem ver…

  12. Talvez fosse sensato perceber que o KKE (e parte do Syrisa, verdade se diga) tem coisas na sua história que são muito pouco de esquerda:

    In 1988, KKE and Greek Left (Greek EAP; the former KKE Interior), along with other left-wing parties and organisations, formed the Coalition of the Left and Progress (Synaspismos). In the June 1989 elections Synaspismos gained 13.1 per cent of votes and joined a coalition with New Democracy to form a short-lived government amidst a political spectrum shaken by accusations of economic scandals against the previous administration of Andreas Papandreou’s Panhellenic Socialist Movement. In November of the same year Synaspismos participated in the “Universal Government” with New Democracy and Panhellenic Socialist Movement which appointed Xenophon Zolotas as Prime Minister for 3 months.
    (wikipedia, artigo KKE)

    E é sempre bom lembrar que actualmente o KKE tem como partido irmão no estado vizinho o Partido Comunista dos Povos de Espanha, organização que consegue regularmente obter 0,1% de votos nas eleições.

    • Rocha diz:

      Cá vem o João mostrar-nos a sua mestria na arte de deturpar.

      O SYRIZA surgiu a partir do Synapismos que era a coligação eleitoral em que o KKE participava e da qual rompeu por causa desses mesmos governos. O Synapismos e depois o SYRIZA acolheram todos os dirigentes que decidiram a entrada nesses governos. Além disso na altura em que o Synapismos se formou como partido tentou destruir o KKE tentando dissolve-o dentro do Syanapismos. Quase metade do comité central do KKE foi expulso por alinhar nessa golpada.

      A razão do radicalismo do KKE hoje é exactamente devido a essa origem do SYRIZA – que sendo dirigida pelo Synapismos é constituída por vários dirigentes arquitectos do “governo universal”.

      • Onde é que eu deturpei, se escrevi “o KKE (e parte do Syrisa, verdade se diga)”? O Syrisa entretanto engloba mais correntes. O KKE quanto muito engloba menos.
        Quanto ao esquerdismo do KKE é capaz de ter outro pai, a divisão do KKE durante a ditadura entre o partido do interior e do exterior. Não tenho a certeza absoluta, mas metia as mãos no fogo em como anda por ali muito maoísmo, tem todo o estilo disso (nomeadamente a presunção de “vanguarda” e linha justa dos PC’s europeus).

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