O país precisa da sua juventude

«Se estamos desempregados, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras, dignificar o nome de Portugal e levar know-how daquilo que Portugal sabe fazer bem». Esta foi a recomendação do secretário de Estado da Juventude Miguel Mestre perante uma audiência de membros da comunidade portuguesa em São Paulo (Brasil) e jovens luso-brasileiros. Numa mesma feita, um representante do Governo português admite que as condições de emprego actualmente em Portugal são desfavoráveis e propõe como solução estrutural a emigração. A sua tentativa de pintar positivamente a «fuga de cérebros» de Portugal para o estrangeiro foi inevitavelmente lida pelos jovens (e não só) em Portugal – onde a taxa de desemprego até aos 25 anos estava, em Setembro, nos 27,1% – como um sinal de que as perspectivas de emprego num futuro próximo no seu país são lúgubres.

Não fossemos nós tomar estas declarações como um deslize por parte do secretário de Estado, quando, em Dezembro, o primeiro-ministro Passos Coelho reforçou a ideia admitindo «que há muitos professores em Portugal que não têm, nesta altura, ocupação. E o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos» e recomendando aos professores portugueses olharem «para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa». Isto algumas semanas após a publicação do Relatório do Desenvolvimento Humano de 2011 das Nações Unidas indicando que Portugal tem das populações da Europa com menor grau de escolarização. (2)

Se um amigo nos recomenda emigrar como forma de realizarmos a carreira profissional que almejamos, para a qual nos formámos, trata-se de uma solução individual. Quando o Governo português a sugere en masse assume a exportação da força de trabalho como componente da sua política de combate ao desemprego nacional. Para cúmulo, aos olhos de Miguel Mestre, é até uma estratégia nacional de projecção das capacidades dos portugueses e da marca «Portugal». A tentativa de dar uma interpretação positiva à emigração é uma ofensa a todos aqueles que, desejando trabalhar em Portugal, se vêem economicamente forçados a abandonar o país. É indicação da ausência de um programa de desenvolvimento que estimule a criação de emprego em Portugal. É o reconhecimento de que as políticas de austeridade, as privatizações, os cortes orçamentais no Sector Público, o contexto económico conducente ao encerramento de empresas irão promover o crescimento do desemprego. É uma demissão ultrajante de um governo perante os seus cidadãos. Mestre ainda tem o descaramento de descrever este cenário cinzento como «zona de conforto». Como sublinhou Jerónimo de Sousa, num almoço-convívio na Parede: «Como é que estão preocupados com o emprego se todas as medidas que tomam vão no sentido de mais desemprego? É inaceitável. A juventude tem direito a ficar no seu país, a construir aqui o seu futuro, as suas vidas e a sua própria autonomia».

(ver resto do texto em «O Militante»)

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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