O que nunca foi cómico, assumiu contornos de tragédia e começa a descambar numa farsa

A Syrisa (Coligação de Esquerda) vai ser convidada a formar governo na Grécia. Os dois partidos da austeridade (o ND e o PASOK) não chegaram a um entendimento e o que ontem parecia impossível («Já é certo a maioria absoluta ND-PASOK.») é hoje uma realidade. Pela parte que me toca e em jeito de declaração de interesses, não quis ser oportunista quando escrevi isto. Não sei o que poderia ganhar com tal intenção e não levei a mal que o Bruno tivesse levado a mal!

A verdade é que, ao retirar 3,3 milhões de votos aos partidos do centro, o povo grego deu um sinal bem claro do que pretende. Uma viragem política e o fim das políticas económicas austeritárias que mais não têm feito do que prolongar a agonia de um país e de um povo.

Se Alexis Tsipras não conseguir formar governo passará para o PASOK essa responsabilidade. E, chegados aqui, o mais certo é não haver mesmo governo e novas eleições legislativas serão marcadas para daqui a um mês.

É, sem dúvida alguma, um momento terrível para a Esquerda grega. Terrível porque a situação social é alarmante e as soluções não serão, nunca, do agrado de todos. Mas, no meio de tudo isto, há mais de 2 milhões de eleitores dos vários partidos da Esquerda grega que importa não desiludir! Acima de tudo, não defraudar!

Os três partidos de Esquerda (Syriza, KKE e Dimokratiki Aristera) elegeram 97 deputados. É curto. Demasiado curto para um parlamento que precisa de 151 para obter uma maioria. Nem com os 41 do PASOK é possível lá chegar. Se é certo que o Anexartitoi Ellines assumiu ao longo da campanha posições claras relativamente à recusa do memorando e, mesmo, em relação à dívida, também é certo que, provavelmente, terão tudo o resto a afastá-los dos partidos da Esquerda.

Mais do que terrível… o momento é decisivo! Arriscando-me a encetar uma deriva para o campo das teorias de conspiração, não consigo deixar de pensar que o não entendimento entre os partidos da Troika visa, efectivamente, forçar novas eleições. E, a ser assim, dificilmente o povo grego deixará de resgatar alguns dos votos que entregou à(s) Esquerda(s) para os devolver ao centro. Os suficientes para alterar a configuração saída das eleições de ontem.

Talvez seja isto ou talvez esteja a deixar-me levar por um certo romantismo que é típico da malta de Esquerda. Acreditar que, juntos, seremos capazes de ultrapassar as dificuldades e que, desta forma, conseguiremos demonstrar que outro caminho é possível!

Uma coisa é certa, do que acontecer nos próximos dias na Grécia depende muito do futuro imediato da nossa luta. Por muito que me saltem já em cima todos os que defendem que a luta no plano institucional é para abandonar! Se é certo que pouco ou nada de revolucionário sairá, algum dia, de um qualquer processo eleitoral, até pode ser que tenhamos mesmo que ir por aí. Mas ainda não chegámos lá…

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