Irresponsabilidade histórica

O comentador Augusto chama a atenção aqui para esta notícia do l’Humanité.

A confirmar-se a veracidade da recusa do Comité Central do KKE em reunir, sequer, com o Syriza para discutir a formação do governo, o título do post sintetiza a minha opinião que, de resto, está bem patente aqui e na própria caixa de comentários.

O final do artigo do l’Humanité diz quase tudo:

Le KKE poursuite donc sa stratégie mise en œuvre de cavalier seul alors que la crise et l’austérité appliquée dans le pays conduisent à une dégradation considérable de la vie quotidienne de la population résidant en Grèce. En octobre 2009, le chômage était de 9,8% ; il est désormais de 21,8%. Les salaires minimaux ont été baissés de 22%, et même 32% pour les moins de 25 ans.

[O KKE prossegue, assim, com a sua estratégia solitária, num momento em que a crise e a austeridade em vigor no país conduzem a uma considerável degradação da vida de quem aí reside. Em Outubro de 2009, o desemprego era de 9,8% e agora é de 21,8%. Os salários mínimos foram reduzidos em 22% e até 32%, para quem tenha menos de 25 anos.]

Alguém poderá recomendar aos camaradas do KKE que releiam (admitindo que alguma vez o fizeram) o camarada Vladimir Ilitch Ulianov e o interpretem à luz dos dias que vivemos? Bem sei que um processo eleitoral não corresponde, de todo, a um processo revolucionário. Mas, como muito bem escreveu o comentador MG aqui, «há uma grande diferença entre abandonar a luta no plano institucional (uma tonteria esquerdista) e abandonar as ilusões sobre a luta institucional (uma necessidade revolucionária).»

O importante, neste momento, seria mesmo dar um passo atrás para dar dois à frente. Só assim seria possível manter o povo grego ao lado de quem, no plano institucional, enfrenta e combate a maior ofensiva do Capital a que a nossa geração terá sido sujeita!

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31 Responses to Irresponsabilidade histórica

  1. António Carlos says:

    Como é que enquadra o post anterior, do seu colega de blog Tiago Mota Sariava, neste seu conceito de “ofensiva do Capital” da qual resulta a situação actual? Por Capital entende (para me limitar apenas a este exemplo) “governo socialista a estimular a economia através de investimentos em grandes obras públicas”?

    • Carlos Guedes says:

      É evidente que não é isso que entendo por «Capital». Além disso, não há enquadramento possível quando estão em causa questões tão distintas.

  2. Caro Carlos Guedes,
    1. Espero que não pertença áqueles que não fazem ideia nenhuma sobre o que versa o escrito de Lénine intitulado «Um passo em frente dois passos à retaguarda». Para quem não sabe, é sobre a questão (estatutária) da obrigatoriedade de desenvolver uma actividade partidária como condição para pertencer a um partido comunista. Ou seja, não é sobre tática revolucionária dos comunistas como Mário Soares conseguiu pôr tutti quanti a perorar durante 30 anos…
    2. Sobre as posições do KKE relativamente às alianças convém ler na 1ª pessoa: http://ocastendo.blogs.sapo.pt/tag/kke e também http://resistir.info/grecia/declaracao_kke_06mai12.html

    • Carlos Guedes says:

      Caro António,
      Fique tranquilo que não há confusão nenhuma. E repare que o link aponta para um documento que não esse que refere. Uso, isso sim, a expressão um passo atrás para dar dois à frente porque, para mim, é também essa a ideia que está subjacente à Nova Política Económica, definida em traços gerais, por Lénine nas «Tarefas Imediatas do Poder Soviético», de 1918.
      De qualquer forma, agradeço o comentário e as ligações que sugeriu.

      • João Valente Aguiar says:

        NEP em 1918?????????

        Bom, a teoria do Lénine sobre os cinco modos de produção na Rússia (patriarcal; pequena-propriedade camponesa; capitalismo; capitalismo de Estado; socialismo) aparece nesse escrito se não estou em erro e ele vai retomar essas teses em 1920 para defender a NEP. Mas não fala propriamente em NEP – nem nada que se parecesse – em 1918…

        • Carlos Guedes says:

          E o que é que eu escrevi que motivou esse espanto todo, João? Eu escrevi isto: «Uso, isso sim, a expressão um passo atrás para dar dois à frente porque, para mim, é também essa a ideia que está subjacente à Nova Política Económica, definida em traços gerais, por Lénine nas «Tarefas Imediatas do Poder Soviético», de 1918.

      • Caro Carlos,
        Em 1918 ainda não tinha havido a invasão da Rússia Soviética por 16 países, nem a guerra civil (estavam no seu início) que durariam até 1921.
        Nem o chamado comunismo de guerra. Nem…
        Daí que me pareça muito forçado, muitissimo forçado mesmo, querer ver no texto que cita a ideia da NEP (mesmo que em traços gerais).

        • Carlos Guedes says:

          É a sua opinião, António. Respeito-a e tentarei (amanhã) explicar-lhe o que me faz ter uma diferente.

  3. Vasco says:

    Com todo o respeito pela história do L’Humanité (heróica) não sei se neste caso é um grande exemplo: vide o seu alinhamento com a histeria anti-síria (e pró sabemos nós quem) e os desvarios do PCF (totalmente autofágicos) que integrou um governo com o PS, que se fundiu em mil e uma plataformas. O conceito de unidade do PCF e do L’Huma parece-me ser aquele que levou o PCF a transformar-se de um grande e influente partido num pequeno e frágil partido, em luta pela sobrevivência… Só para semear a dúvida acerca dos caminhos tidos como certos…

    • Carlos Guedes says:

      Já o seu conceito de unidade é, todo ele, um tratado sobre o que é ser «unitário», hoje em dia, para um comunista português!

  4. RML says:

    Como é que interpreta a NEP à luz dos tempos que vivemos? E que documentos, de facto, de Lénine recomendaria que os camaradas do KKE relessem (se é que alguma vez leram)? E já agora, há alguma razão para aquela frase no último parágrafo surgir em itálico?

    • Carlos Guedes says:

      A parte final do seu comentário creio estar respondida no comentário de resposta ao do António Vilarigues.
      Quanto à interpretação que faço da NEP e a sua «adaptação» aos nossos dias, embora a mim me pareça simples não sei se conseguirei ser claro ao explicá-lo, mas vejamos: a NEP surge com a necessidade de substituir o «comunismo de guerra», face à sua desaquação aos tempos de paz. Com a NEP pretendia-se estimular a economia soviética, ainda que para o conseguir tivesse sido necessário recuperar ou implementar algumas medidas menos comunistas ou, se preferir, mais capitalistas. Era assumida uma cedência para fazer face às dificuldades. Não pode isto ser entendido como dar um passo atrás para dar dois à frente? Eu acho que pode. Tudo isto em traços muito genéricos, como compreenderá. Não queria nem responder-lhe à pressa nem deixá-lo sem resposta, mas a verdade é que agora vou ausentar-me por algum tempo. Poderei voltar a esta questão mais tarde, se não estiver satisfeito com a resposta que lhe deixo.
      Quanto ao itálico… é uma questão de estilo (ou, dependendo da perspectiva) da falta dele. Cada um tem o seu e eu não escapo à regra.

      • RML says:

        Agradeço-lhe a resposta. Efectivamente, a última questão estava relacionada com a questão levantada por António Vilarigues (a última resposta em relação ao itálico não era necessária).
        Se puder, volte à questão, de facto.
        É que há muitas coisas que não me parecem comparáveis, nomeadamente a do poder do Estado. Ficarei então a aguardar.

  5. Vasco says:

    os comunistas portugueses sabem bem o que é a unidade, até porque ajudam a construí-la todos os dias na luta – dos trabalhadores, em torno da CGTP; dos agricultores em redor da CNA, das populações relativamente ao encerramento de centros de saúde, ao aumento dos preços dos transportes, etc, etc, etc…

    Eu, que nem falei do meu conceito de unidade, só pus em causa aquele que o PCF aplicou nos últimos anos e que tanto contribuíram para que perdesse quase toda a sua influência social, política e eleitoral. E também não falei do apoio do BE ao Alegre, mas a sua reacção foi quase tão dura como se o tivesse feito. Não o sabia tão amigo do PCF, Carlos Guedes…

    Quanto ao Lénine, gostava de saber o que pensa do que ele diria hoje. Deve ser criativa a sua concepção…

    • Carlos Guedes says:

      Será bastante criativa mesmo… como deve entender, o julgamento que faço acerca do seu conceito de unidade não se baseia, exclusivamente, naquele seu comentário…

      • Vasco says:

        Vá lá, não seja tímido. Diga lá qual é o meu conceito de unidade… Prometo que não reajo tão violentamente como o Carlos fez há pouco…

        • Carlos Guedes says:

          Digamos que é um conceito muito próximo do dos camaradas do KKE. E distante do meu. Apenas.
          E pare lá com esse processo de vitimização. Acha mesmo que reagi «violentamente»? Não confunda firmeza com violência. Acho que é possível trocarmos opiniões de forma entusiástica sem que isso seja entendido como falta de educação ou, sequer, «violência»! Certo?

          • Vasco says:

            Firmeza? Já passou pelos partidos quase todos à “esquerda” e fala em firmeza? Bom, adiante…

            Referi a «violência» porque não o ataquei a si nem ao seu partido, mas si a um partido com o qual o BE não tem relações, que eu saiba, mas sim o PCP – e atacou de imediato o meu conceito e do meu partido… Não o sabia tão amigo do PCF, sinceramente…

            E fi-lo apenas para demonstrar como a unidade pela unidade serve de pouco – e quando serve não é para o bem. Quanto ao meu conceito de unidade (não conheço, tal como o Carlos não conhece, a fundo a situação grega), mas parece-me ser profunda e ampla: na base, com os trabalhadores e as populações – não o pode negar, é ver os movimentos de protesto existentes no país e quem mobiliza quase todos eles…; no topo, em torno de propostas concretas. O PCP adiantou – e foi o primeiro a fazê-lo – a necessidade de um governo patriótico e de esquerda composto por todas as forças sociais e políticas, e por democratas e patriotas, em torno de aspectos que me abstenho de enumerar, pois são públicos.

  6. xatoo says:

    creio que o antagonismo entre a seita ortodoxa com ares de comunista e a seita social democrata com ares de esquerda radica da interpretação que fazem quanto ao pagamento da divida pública causada por entidades privadas
    Uns querem renegociar o pagamento de acordo com os seus parâmetros (ir pagando sem afectar o “socialismo de Estado”), os outros querem renegociar o pagamento segundo outros parâmetros (ir pagando sem afectar o capitalismo)
    Falta aqui uma qualquer outra via que é a única que interessa ao povo: o repúdio imediato do pagamento e acabar com o Estado burguês como garante do endividamento perante os especuladores dos fundos financeiros internacionais. E isso realmente só será possivel perante uma situação revolucionária…

    • Vasco says:

      Estou a ver que pela grécia não há um partido tão forte e implantado entre as massas como o MRPP em Portugal. Perdem os gregos, coitados, que não têm o seu próprio Garcia Pereira – o revolucionário que só se vê na TV…

  7. Grevista says:

    Carlos Guedes, penso que erra o seu golpe. O L’Humanité é capaz de não o escrever, mas uma entrevista recente que li do responsável do departamento internacional do KKE diz o que é lógico sobre o tema: faremos a unidade na acção sempre que esta for, na nossa perspectiva, vantajosas para a Grécia e para os seus trabalhadores. No fundo é assim que a unidade se faz: de baixo oara cima. O problema é que os Syrizas deste mundo raramente andam lá em baixo, e por isso é complicado iniciar a tal unidade.

    Aproveito para lamentar o tom jocoso e irónico dirigido aos “camaradas do KKE”, que certamente não apenas leram Lenine como o compreenderam muitíssimo bem.

    • Carlos Guedes says:

      Termina a lamentar o «tom jocoso e irónico» que diz que eu dirijo aos camaradas do KKE, mas começa por me acusar de estar a errar um «golpe»… adiante, não empreguei nem ironia nem jocosidade no que escrevi. Por muito estranho que lhe pareça.
      O que eu gostava é que me explicasse o que é preferível: manter a austeridade que tem vigorado na Grécia com os resultados que todos conhecemos ou formar um governo baseado nos pontos que a Syriza colocou hoje à discussão? A saber:

      1) Imediato cancelamento de todas as medidas pendentes de empobrecimento, como cortes nas pensões e salários;
      2) Cancelamento de todas as medidas pendentes que vão contra os direitos fundamentais dos trabalhadores, como a abolição dos contractos colectivos de trabalho;
      3) Abolição imediata da lei garantindo imunidade aos deputados e reforma da lei eleitoral (principalmente a questão dos 50 deputados bónus para o partido vencedor);
      4) Investigação aos bancos gregos e imediata publicação da auditoria feita ao sector bancário pela BlackRock;
      5) Uma comissão de auditoria internacional para investigar as causas do défice público da Grécia, com uma moratória em todo o serviço de dívida até serem publicados os resultados da auditoria.

      • rg says:

        A Syriza está a exigir ou a dizer que vai por em prática estas medidas? Exigir pode exigir o que lhe apetecer; por em prática é que acho um bocado mais dificil no quadro político-constitucional grego. Não tenho dúvidas que o KKE sabe que a Syriza não vai a lado nenhum ou seja, até iria, mas não tardava muito e estaria a negociar concessões à Trika para obter financiamento externo, fundamental para pagar ordenados (não apenas dívidas).

        • Carlos Guedes says:

          Está, apenas, a colocá-las à discussão! É interessante essa sua teoria sobre o KKE. Não se envolvem para não se «queimarem». E não se envolve para que tudo corra mal, incluindo, veja só, cedências à Troika!

          • rg says:

            Não é se envolverem para não se «queimarem» é terem consciência que só há coerência se o discurso corresponder a uma acção. Não percebo a que a Syriza coloca as questões, a campanha eleitoral já terminou, está à espera que a direita e os socialistas governem como a coligação acha que deve ser? Denuncia o acordo, como espera obter financiamento externo para a despesas do estado? Esta é também para o MSP: o empobrecimento temporário de um povo é um meio de assegurar a sua sobrevivência, ir para Bruxelas berrar leva a Grécia aonde? Se ao menos anunciasse que iria declarar guerra à Alemanha …

  8. miguel serras pereira says:

    Carlos,
    as condições do Syriza são simples e claras, e não propriamente troikistas. Definem uma plataforma mínima e afirmam a disposição a uma cooperação imediata com aqueles que as subscreverem: até agora só a Esquerda Democrática o fez. Resta saber se o Syriza aceitará formar um governo minoritário no caso altamente improvável de a ND e o PASOK, abstendo-se, estarem dispostos a viabilizá-lo (o rumor circulou, mas, dadas as condições postas pelo Syriza – entre outras a abolição imediata do bónus de 50 lugares oferecido ao partido mais votado… – não é verosímil que se concretize).
    Não tendo condições para formar governo, é provável que a plataforma apresentada pelo Syriza lhe sirva de programa e compromisso em vista das próximas eleições – tendo a vantagem de permitir coligações tanto pré- como pós-eleitorais na base de medidas concretas e orientações precisas.
    Dito isto, convém ter presente que, a serem adoptadas pelo próximo governo grego, as medidas propostas serão uma questão política europeia – e não só grega – da maior importância: a Grécia terá de ser “expulsa do euro” ou a União Europeia terá de rever as suas políticas, a sua liderança, a sua para-constituição. E esta alternativa será posta forçosamente como uma questão política central em todos os países-membro da UE. A esta luz, a posição do KKE, ao recusar a plataforma do Syriza, não só limita o campo dos possíveis na Grécia como se opõe à exportação da luta contra a troika e as forças que a armam para as outras regiões da UE. Para o dizermos em termos caridosos, subordina a vertente social da luta à defesa da “independência nacional”, ainda que esta implique o agravamento das condições de precariedade e miséria das camadas populares do país. Recusando-se a transformar a resistência grega à troika em combate europeu contra as forças que a impõem à Grécia e se propõem agir do mesmo modo no conjunto da UE, o KKE acaba por levar água ao moinho e munições às armas dos principais dos que querem fechar o povo grego num cerco que visa reduzi-lo à impotência e à submissão.

    msp

    • rg says:

      As coisas que se aprendem lendo o MSP. Este homem é um achado!

    • A.Silva says:

      Ora parabéns caro Carlos pelo apoio entusiástico e sempre profundo do ….. MSP!

      Como já te tinha dito no comentário há tempos censurado, ele não perde uma opurtunidade quando se trata de atacar os comunistas.

      Mas prontos, cada um tem os apoios que merece… ou procura.

      • Carlos Guedes says:

        E vocês insistem… o apoio do Miguel Serras Pereira será sempre recebido com a mesma atenção que receberei as suas discordâncias. E então?

  9. Nuno Cardoso da Silva says:

    É lamentável, mas infelizmente previsível, que o KKE se recuse a formar um governo de frente popular. Um certo tipo de comunistas só aceita soluções em que sejam eles a mandar, de forma absoluta. Como são gregos não conhecem o provérbio português que diz que “o óptimo é inimigo do bom”. E o que é mais lamentável é que, para preservar a sua pureza de modelo IURD, são capazes de permitir que os partidos burgueses pró-troika recuperem o poder. Como se diz em bom português arcaico, nem f…. nem saem de cima… Oxalá, numas próximas eleições, os seus habituais eleitores mudem de campo e os remetam para a lixeira onde pertencem… Para que fique claro, não sou anti-comunista, sou só anti-estupidez…

  10. Vasco says:

    O campo dos possíveis… Eh pá, não tenho pedalada para debater estes conceitos estratosféricos…

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