Os gregos rejeitaram, de forma clara, as políticas da fome e da miséria!

No entanto, o novo governo será formado pela Nova Democracia (ND) e pelo PASOK, partidos do eixo austeritário, aos quais os gregos retiraram ontem cerca de 3,3 milhões de votos e, com eles, a maioria no Parlamento!

A ND e o PASOK, juntos, terão 149 deputados (108 para a ND, 41 para o PASOK) dos 300 que compõem o Parlamento grego. Não fosse a aberrante regra da atribuição de 50 deputados-bónus ao partido mais votado e não chegariam aos 100 deputados! Perderiam 102 deputados em relação às eleições de 2009 em que o PASOK elegeu 160 (110+50) e a ND 91. No conjunto dos dois partidos regista-se a perda de cerca de 3,3 milhões de votos. Apesar disso, e como já referi, serão estes dois partidos a formar governo, mesmo com a evidente rejeição do povo grego às políticas a que ambos pretendem continuar a jurar fidelidade.

Alexis Tsipras, engenheiro civil, 37 anos, líder do Syriza

O Syriza (Coligação de Esquerda) ultrapassou o milhão de votantes e prevê-se que eleja, quando estão apurados 99% dos votos, 52 deputados (em 2009 alcançara 315 mil votos, 4,60%, e 13 deputados e em 2004, 241 mil, e 6 deputados). O KKE subirá em número de deputados (de 21 passa para 26) apesar da subida pouco expressiva em número total de votos (cerca de 14 mil, neste momento). Mantém, no entanto, a tendência de subida iniciada em 2004, ano em que obteve 436 mil votos e elegeu 12 deputados. A Dimokratiki Aristera (Esquerda Democrática, resultante de uma cisão no Synapismos e formada em Junho de 2010) chega aos 380 mil votos, elegendo 19 deputados.

O Anexartitoi Ellines (Gregos Independentes, fundado em Fevereiro deste ano por dissidentes da ND que reclamam a abolição do memorando e recusam o que dizem ser «uma dívida ilícita»), alcançou mais de 660 mil votos, elegendo 33 deputados.

Depois dos 6,5 milhões de votos alcançados por Marine Le Pen em França, que com este resultado conseguiu superar o melhor do seu pai (5,5 milhões na segunda volta de 2002), temos os 436 mil alcançados pelos fascistas da Aurora Dourada na Grécia. Estima-se que elejam 21 deputados. Em 2009 não chegaram aos 20 mil votos* (0,29%). O seu líder… é vê-lo aqui, ontem mesmo. Desde o que diz até aos rapazes que o acompanham, certamente todos eles membros da comissão política do partido, está tudo lá. A demagogia e o populismo do discurso fascista têm, nesta Europa do desemprego, da miséria social, dos ataques permanentes aos direitos e aos salários das classes mais desfavorecidas, um terreno fértil para o seu crescimento. Numa Grécia, com 21,7% de desempregados (segundo dados do Eurostat, referentes a Janeiro deste ano), com cerca de 11 milhões de habitantes, dos quais cerca de 6,5% são imigrantes, o alvo privilegiado de Nikolaos Michaloliakos foram, precisamente, estes últimos.

A abstenção ronda os 35%. Os votos nulos (116 mil) e brancos (36 mil) andam pelos 2,40%.

* Em conversa com um amigo apercebi-me que passei por cima dos resultados do La.O.S., um partido da direita radical embora mais comedido que o Aurora Dourada. Tiveram 386 mil votos em 2009 e a sua participação na coligação governamental de Lucas Papademos terá levado à perda de cerca 200 mil votos. Estes terão ido, em grande medida, direitinhos para os fascistas que agora chegam ao Parlamento grego. Aqui fica a referência.

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2 Respostas a Os gregos rejeitaram, de forma clara, as políticas da fome e da miséria!

  1. Rocha diz:

    Parabéns às esquerdas, parabéns ao SYRIZA que se afirma como esquerda anti-capitalista, faço votos que seja consequente com o seu anti-capitalismo, e parabéns aos comunistas do KKE que desceram de votação nas principais nas principais cidades grega (Atenas, Salónica e Pireus, 3 cidades que conjuntamente têm metade da população grega) e ainda assim subiram expressivamente de votação na Grécia rural dessa forma subindo no conjunto do país.

    A Esquerda Democrática e os Independentes Gregos merecem-me toda a cautela, li as suas declarações pós-eleitorais. A Esquerda Democrática continua prometer a recusa do memorando, os Independentes Gregos não só prometem recusar o memorando como recusam qualquer coligação com ND, PASOK ou tecnocratas como Papademos e além disso recusam qualquer participação em governos da troika e dos banqueiros – é mesmo esta a linguagem que utilizam. No entanto estes dois partidos são reciclagens do PASOK e da Nova Democracia… prometem muito em favor do povo mas carecem de credibilidade… há que ver para crer. E pressioná-los a cumprir o que prometem.

    Volto a repetir o que tenho vindo a dizer: a tarefa da esquerda anti-capitalista é impedir toda e qualquer formação de governo troikista até o colpaso final da Troika.

  2. Nunca me engano,raramente tenho dúvidas-no país do filósofo do leme diz:

    ‘Não fosse a aberrante regra da atribuição de 50 deputados-bónus ao partido mais votado e não chegariam aos 100 deputados! ‘E é uma democracia?É preciso ter lata-é como na Inglaterra em que o ‘winner takes all’.De facto,teem muitas lições de ‘democracia’ a dar aos outros…

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