Aprende a nadar companheiro, que a maré se vai levantar!

Domingo foi dia de grandes decisões, na França, Grécia, mas também num dos estados da Federação Alemã.

A primeira nota a fazer tem a ver com o contexto envolvente. Desde o inicio da crise os Governos Europeus têm caído uns atrás dos outros. As mais recentes quedas ocorreram na Roménia e muito importante, na Holanda. O último caso é estrategicamente muito relevante, um dos poucos com rating de triplo A e o cão de fila da Merkel no que toca à imposição da austeridade. Mesmo em governos recentemente eleitos, como no caso do reino Unido e da Espanha (como seria fácil prever), o desgaste é já elevadíssimo.

Segunda nota. A derrota de Sarkosy, a derrota de Merkosy, a derrota de Merkel e dos talibãs do mercado que nem um centímetro querem ceder, foi de uma enorme importância.   Duzentos ocupantes em Wall Street têm um maior impacto na correlação de forças que 20 000 numa praça em Lisboa. O Presidente da República Francesa ser um socialista (coisa não vista desde 88 ou 89), por mais “Seguro” que seja tem também um forte impacto nos rumos a seguir na Europa, muito mais que terá o mesmo “Seguro”, por exemplo na Dinamarca (que já há uns meses tem um governo “socialista”)  . Mais que não seja abre espaço de debate e gera espaço de manobra a quem luta por alternativas na Europa (mesmo que não sejam as propostas por Hollande!!!),  é uma importante machada no consenso austeritário imposto desde 2009, não é por acaso que os fariseus espumam. Num momento como este, nem que seja apenas ganhar espaço para respirar é já um passo em frente. Muito bem esteve Melanchón, durante a sua campanha e posteriormente ao apoiar Hollande sem hesitações, ele percebeu bem a importância estratégica de quebrar  Merkosy, ao contrário de outros. Obviamente se é para esperar pelos Hollandes deste mundo parar produzir mudanças substantivas bem podemos ficar sentados, mas com o oxigénio ganho quem tiver unhas à de tocar guitarra…

Terceira nota. Os resultados na Grécia superaram as minhas expectativas, mesmo com o “bónus” de 50 deputados ao partido mais votado, os partidos troikistas não irão conseguir formar governo! Com 149 deputados ND e PASOK não têm os 151 necessários para governar! Estes resultados combinados com os Franceses e o contexto envolvente irão ter um efeito multiplicado pela Europa fora… Para já na Grécia, dificilmente se irá escapar a novas eleições. E sobre isso já aqui lancei um alerta, sendo que a soma das partes não é igual ao todo (como se viu bem no caso de Alegre nas últimas presidenciais…), a esquerda anti-troika teria 147 deputados se fossem somados os seus resultados (mais o respectivo “bónus” por ser a força mais votada)… Nas próximas batalhas ou se assume a luta pelo poder e pelo governo (com todos os riscos que isso irá acarretar, mas não há vitória ,nem política, sem risco) ou o esmagamento do povo grego pelo fascismo será uma hipótese muito forte. A questão do Euro e da permanência na UE sem dúvida é fulcral e é necessário discutir isso, de resto é uma discussão muito bem balizada aqui, a minha posição pessoal não é a da Syriza (aqui está uma análise sobre o euro e a situação grega em que me revejo bastante). Mas nem sequer tentar uma frente, não entrar em negociações e oferecer uma saída ao povo Grego, isso é pura e simplesmente criminoso… Na melhor das hipótese os sectários desaparecerão nas próximas eleições, na pior abrirão as portas do poder aos Nazis. Aliás se uma coisa é certa, é que o nível de confronto físico vai se intensificar, e muito. Neste blog já se tinha alertado para a questão do sectarismo em situações de crise aguda, e se o autor do texto referenciado se queixa de Portugal, o que dizer do que se está a passar na Grécia? No mínimo que tiremos as devidas lições.

Quarta nota. Em Portugal bem pode reinar a Maria Pia e o Intendente Pina Manique, se na França os Jacabinos tomam o poder, ála de fazer as malas pó Brasil… é verdade que neste momento estando o Pina Manique e a Maria Pia no poder em Portugal, os Jacobinos estão longe de estar no poder em França. De qualquer das formas o impacte da quebra do consenso austeritário e a exlplosão dos partidos do regime na Grécia terão consequências em Portugal. O apoio internacional, que é necessário para a prossecução do plano da elite nacional, não desapareceu (longe disso) mas ficou mais frágil. Será interessante ver de que lado estará Portugal no caso de se formar um bloco mais pró-austeridade e outro mais pró-crescimento… De que lado estará Portugal? A pedir mais xibatadas nas suas costas porque ainda não se penitenciou o suficiente, ou a pedir algum alívio? Aqui vai estar uma óptima fenda a explorar.

E por último, dia 31 de Maio há referendo à Austeridade na Irlanda, sim na Irlanda aquela que é o “modelo a seguir”, nessa Irlanda o povo irá, ou não, rectificar o tratado/pacto fiscal que o Hollande quer renegociar e que já causou a queda do governo Holandês…

 


“Death to ev’ry foe and traitor! Forward! strike the marchin’ tune,
And hurrah, my boys, for freedom! ‘Tis the risin’ of the moon”.
‘Tis the risin’ of the moon, ‘Tis the risin’ of the moon,
And hurrah my boys for freedom! ‘Tis the risin’ of the moon.


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13 respostas a Aprende a nadar companheiro, que a maré se vai levantar!

  1. Carlos Guedes diz:

    «Os partidos troikistas não irão conseguir formar governo»??? Achas que não?

  2. Rocha diz:

    Os 50 deputados de bónus têm de ser abolidos. Não se pode aceitar tamanho roubo dos eleitores gregos. A derrota da coligação troikista foi tangencial, eles precisam de pagar por esta tentativa de golpe de estado, além de inúmeros outros crimes.

    Agora é preciso estar atento ao comportamento dos Independentes Gregos, suposta direita anti-troika, e da Esquerda Democrática, reciclagem do PASOK mais cisão de direita do SYRIZA. Estes dois partidos são os mais vacilantes.

    Os neo-nazis vão apenas dar uma tribuna a uma organização criminosa de rua – e é na rua que eles devem ser uma preocupação. Na realidade têm uma posição anti-troika e beneficiaram da participação de LAOS (direita religiosa tipo salazarenta) nas negociações do memorando com a Troika. Mas devia haver leis para pôr os racistas na cadeia.

    A tarefa da esquerda revolucionária têm o caminho aberto e boas perspectivas: e não é formar um governo de esquerda, mas sim bloquear todas as tentativas de formar um governo troikista até o coplapso final da troika.

    O SYRIZA tem de usar os seus neurónios e entender que a sua posição esquizofréncia tem que ser corrigida – ouçam o que a burguesia e seus porta-vozes dizem neste aspecto e mandem os pro caralho – não é possível barrar e derrotar o “memorando da barbaridade” como disse o SYRIZA e manter-se no Euro ao mesmo tempo. Não perceberam o que diz a burguesia grega e a europeia em uníssono (através da sua UE, BCE, CE): a escolha é aceitar as imposições da troika ou sair do euro.

    Querem renegociar? Mas que renegociação é possível? Um corte menor nos salários que não deixa de ser um corte nos salários? Qualquer taxação da banca e do patronao nunca serão aceites. Não é óbvio que a Troika e a crise do Euro e a falsa dívida (que realmente é dos Bancos) é apenas um pretexto para roubar a riqueza dos povos para o capital financeiro europeu? Se houver uma séria tentativa de bloquear a extorsão da Troika e do Capital Financeiro, obviamente a União Europeia (que é a raison d’etre da Troika) expulsará a Grécia alegando incumprimento do pagamento da falsa dívida?

    É que a falsa dívida é precisamente a extorsão dos povos pela Troika – leia-se UE, FMI e BCE – e Capital Financeiro europeu. Só saíndo do euro pode haver uma negociação minimamente séria que não seja uma fantochada que pões mais uma vez a Grécia de joelhos ou calças baixadas.

  3. Bruno Carvalho diz:

    “Na melhor das hipótese os sectários desaparecerão nas próximas eleições, na pior abrirão as portas do poder aos Nazis.”

    Todo um hino ao anti-comunismo. A culpa dos nazis subirem ao poder na Alemanha é, claro está, dos comunistas. Não é do terrorismo oligarca e das cedências internas e externas da social-democracia. O que escreveste dá asco.

    • JgMenos diz:

      O facto de a social-democracia não seguir os comunistas é o grande mal deste mundo.
      Não fora isso e os comunistas não tinham a menor dificuladade em acabar com os esquerdistas que lutam pelo comunismo!

    • Edmundo Dantas diz:

      Mais uma vez, Bruno, acertaste na mouche !.

      Eles não sabem o que é isso de se ser coerente, consequente, consistente.

      As massas populares gregas podem contar com isso no KKE que anda na luta por um mundo melhor desde 1918. Ouviram bem: desde 1918 !
      Mais respeitinho, portanto.
      O Rocha também merece a minha concordância.

      Edmundo Dantas

    • franciscofurtado diz:

      O teu sectarismo é deveras impressionante. O que é que eu escrevi? Disse que a ascenção dos NAzis se deve exclusivamente à posição sectária do PC Alemão que se aliou aos Nazis para combater os sociais democratas (ou sociais fascistas????), na esperança de “primeiro Hitler depois nós”? Não disse isso, agora, que em grande medida as suas posições ultra esquerdistas e sectárias tiveram um enorme peso tiveram. E quanto muito esta é uma posição anti-estalinista, não anti-comunista, pensava que conseguias distinguir as duas… Aliás essa política suicidária ultra sectária e esquerdista, foi revista na sequência dos eventos na Alemanha, o Estaline e a III Internacional aperceberam-se do seu trágico erro e mudaram de política quase 180 graus. Tanto em Espanha como em França (entre outros exemplos) adoptaram a política de Frente Popular anti-fascista (que não sendo perfeita era bem mais ajustada à realidade que os anteriores delírios ultra sectários). Bruno sei que não és parvo, nem ignorante, portanto tenta subir o nível da discussão e baseia-te em factos e na história e não mandes insultos rasteiros.

      • Rocha diz:

        Há aqui uma tremenda presunção e falta de humildade da tua parte Francisco, quando diabolizas o KKE porque não aceita para já uma coligação com o SYRIZA.

        A forma como tu falas tem uma tal presunção que:
        1 – Insinuas que o povo daria uma tal confiança a uma aliança SYRIZA, KKE, Esquerda Democrática que isso iria equivaler a uma maioria parlamentar e à possibilidade de formar um governo – em condições de governar entenda-se. O povo grego não está na tua mão nem na minha, nem de ninguém, quanto muito podemos encontrá-lo na rua nas lutas sindicais, sociais e de massas e nessa batalha muito mais importante que a eleitoral forjar laços de amizade, camaradagem e… alianças entre as classes exploradas que levaram ao derrube insurreccional contra o actual regime capitalista.

        2 – Mostras uma quase total indiferença pelo facto de haver grandes diferenças programáticas entre os 3 partidos e de nada se ter feito para chegar a um acordo programático sobre a questão crucial que está aqui em jogo para derrotar a Troika: rejeitar o Euro (BCE) e a União Europeia (dois pilares impossíveis de salvar dos banqueiros e do capital). Não é honesto dizer que o KKE rejeita logo à partida a proposta de alianaça, a verdade é que o KKE rejeita esta proposta de aliança que não é feita na base de nenhum acordo programático ou tentativa de acordo.

        3 – A questão do Euro e da União Europeia não é nem nunca poderia ser para o KKE uma questão menor. O SYRIZA ao insistir na quimera que é salvar o capitalismo – sim porque é isso que estamos a falar quando falamos em salvar o Euro e a União Europeia – está a levar o grande movimento popular enraivecido contra a Troika para um beco sem saída. Epá! Isto faz lembrar a a primeira República em Portugal que pretendia dar democracia aos portugueses e manter o império ultramarino! Nós, nós os do sul, os periféricos, portugueses, gregos, irlandeses e outros nem sequer somos da metrópole deste império UE (Alemanha, França, benelux e nórdicos) mas as nossas gentes ainda insistem no masoquismo de querer salvar o império. Não é possível salvá-lo e ainda bem que não é! Salvá-lo equivale a salvar o capitalismo, tentar linpar as suas feridas e fazer suturas sobre os seus golpes.
        Fodasse meu! Deixa o raio do capitalismo morrer! Como é possível dar uma lição de humildade aos bancos se não deixarmos os fdputa ficararem à arder com a puta da dídiva cancelada e por pagar e esses proxenetas do BCE a arder com a retirada de um país do seu balanço e tb não lhes pagar um cêntimo.
        Esta merda tem de ir abaixo, os chulos que nos estão a roubar tem de sofrer, têm de pagar, têm de ficar à míngua e quando não tiverem como roubar mais porque não se lhes envia nem mais um cêntimo, aí sim, aí vai ser vê-los a negociar cheios de falinhas mansas!
        Foi isso que aconteceu na Argentina porra!

        • Zuruspa diz:

          Näo me lembro de na Argentina o capitalismo ter sido deixado morrer. A soluçäo para o problema da Argentina é a mesma que preconiza o Syriza: näo pagar a dívida. E isso chega por agora para o objectivo de salvar os povos da Europa dos grilhöes neoliberais. Näo há que matar o capitalismo, ele ocupar-se-à de se autodestruir, o que há fazê-lo é tê-lo com rédea curta, especialmente para näo danificar nada quando começar a escoicinhar nos seus últimos extertores!

          E para terminar, o termo correcto é “foda-se”. Foda-se que já era hora de aprenderem a escrever!!!

  4. Rui Faustino diz:

    Bom dia, Francisco!

    Não sei se chegaste a ler as posições do KKE sobre o tema da “aliança”
    mas fica aqui o link: http://inter.kke.gr/News/news2012/2012-05-07-ekloges

    No abstracto seria muito lindo que o SYRIZA e o KKE se pudesse unir. Mas unir em torno de que programa, métodos, objectivos? Lá como cá, essa é que é – e sempre foi! – a questão.

    De resto (e porque não padecemos do chamado “cretinismo parlamentar”), o que é sobretudo importante, é que a esquerda grega se entenda na rua e na luta social.

    Infelizmente, ontem mesmo já havia tugas a malhar no KKE acusando este de destruir o “sonho lindo” dum governo de esquerda… Há gente que emprenha tanto plos ouvidos que, para acusar os malandros dos estalinistas gregos de sectarismo, nem sequer se deram ao trabalho de verificar os resultados eleitorais concretos.

    Abraço forte deste lado do mar

  5. licas diz:

    Há sempre alguém, que tenta *reinventar * a história passada
    à sua maneira. Que lhes façam bom proveito . . .
    Mas o povo não esquece e conta aos filhos (e aos netos) o que
    foi o século XX (felizmente) . .

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