Marx: uma relíquia?

 

 

 

 

 

 

 

Quando um congresso que pretende estudar Marx e…

1) … só tem um único painel sobre lutas dos trabalhadores (apesar de contar com três meritórios e interessantíssimos autores);

2) … dedica cerca de 30 comunicações a assuntozinhos filosóficos/ontológicos e apenas cinco sobre a actual crise económica no capitalismo;

3) … prefere fechar-se preferencialmente a amigos, conhecidos e entre-paredes e incapaz de se relacionar com o exterior;

três (tristes) conclusões são possíveis de se colocar:

1) o marxismo teórico está, infelizmente, cada vez mais afastado da vida concreta dos trabalhadores (o que não parece afligir muitos dos organizadores deste tipo de eventos celebratórios e encomiásticos). Desde que se cite e/ou coloque o nome de Marx no título das comunicações o certificado de “cientificidade” parece estar assegurado;

2) quem não conhecer, pensa que o marxismo acabou em 1844, com os “Manuscritos Económico-Filosóficos” e obras como o “Manifesto do Partido Comunista”, “O Capital” ou “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte” são, na melhor das hipóteses, atiradas para um painel filosofante… A teoria da crítica da economia política fica reservada a uma ou duas mesas, portanto, como se tratasse de um aspecto periférico do marxismo. E mesas sobre classes sociais ou sobre diferentes produtos ideológicos, nem uma… O que virá a seguir? Da substituição da centralidade da exploração capitalista à busca de uma metafísica ontológica do marxismo é um passo. Crentes que se tornaram párocos, puros que se afirmam de marxistas, para alguns dos promotores e dos oradores que se dane a ciência, desde que a fé frutique junto das almas sensaboronas de alguns dos seus participantes…

3) ao contrário do que hoje se pensa, o marxismo ganhou espaço nas mais variadas ciências sociais porque, por um lado, decorreu do avanço das lutas operárias em vários momentos do século XX e porque, por outro lado, era (e é) a teoria que melhor descreve o modo de funcionamento das sociedades. Nessa sequência, o marxismo ganhou espaço no meio académico (ao contrário do que sucede hoje) também porque os marxistas apresentaram-se como excelentes cientistas sociais, portanto capazes de estudar os processos sociais de modo inovador a partir dos princípios fundamentais do marxismo. E porque também viram esses princípios à luz da sua operacionalidade específica num determinado contexto e porque foram capazes de se afirmar perante as correntes sociológicas, económicas e historiográficas não-marxistas. Ora, quando um congresso se edifica a partir de convite a amigos e conhecidos e não a partir de critérios de cientificidade, de avaliação entre pares e de selecção das propostas, então pode-se garantir que, no final da história, quem fica a ganhar com tudo isto não é certamente o marxismo…

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84 respostas a Marx: uma relíquia?

  1. Rui Ribeiro diz:

    Subscrevo completamente.
    E ler os ‘marxistas’ é muito mais difícil do que ler Marx (que não é nada fácil, pelo menos
    para mim)!!!
    Aliás, ‘Marxismo Teórico’ parece-me, por si só, uma aberração e completamente anti-marxiano.
    Cumprimentos

    • João Valente Aguiar diz:

      Eu não diria que são mais difíceis de ler, até porque a hiper-simplificação tende, para o bem e para o mal, em tornar mais fácil a leitura. Depois falta é saber se meramente se simplificou ou se deturpou e se subverteram certos conceitos…

  2. xatoo diz:

    o ponto chave da querela entre os que se reclamam do marxismo e os que apenas lhe desgastam a teoria em longos exercicios de retórica, é o do modelo de organização de classe como ferramenta de luta, isto é
    muitos dizem que são marxistas e exasperam-se em diagnósticos em torno das condições existentes, mas quando se trata de se assumirem como marxistas-leninistas para as acções transformadoras pela luta concreta já só sobram muito poucos.
    A contradição entre a teoria e a prática está, inclusivamente, entre os oradores convidados, a maioria dos quais neste Congresso eram afectos ao PCP…

    • Raquel Varela diz:

      É notório que não tenha havido call for papers – na Universidade Nova, no IHC, os congresso sobre Marx e marxismo têm um call for papers – e que de deixe de fora umas dezenas de jovens cientistas sociais marxistas do país que têm tido um impacto na academia, como não se via há muito. Subscrevo o teu post inteiramente.
      Na verdade, sejamos justos, foi um congresso sobre a actualidade de Hegel:) e mesmo aí sem nenhuma actualização.

      • João Valente Aguiar diz:

        «foi um congresso sobre a actualidade de Hegel». Sim, em grande parte do congresso. Essa é uma das minhas críticas centrais: querer-se transformar o Marx num… filósofo, quando ele foi muito mais do que isso…

        E o não querer enveredar por um trajecto mais científico ao congresso só dá azo a que a direita académica despreze ainda mais o marxismo e encontre mais motivos para silenciar a produção científica marxista…

        • Rocha diz:

          Na Grécia o desfile e manifestação do 1 de Maio organizada pela Frente Militante de Todos os Trabalhadores (PAME) apoiada pelo Partido Comunista Grego (KKE) concentrou-se em frente à Empresa Siderúrgica grega que está em greve revolucionária há mais de 6 meses, onde celebrou um comício de luta e solidariedade de toda a classe trabalhadora.

          Ora isso é que eu chamo um congresso sobre marxismo – mesmo sem ter a pretensão de o ser.

          O marxismo tem sair da cadeirinha confortável e ir para o meio da rua onde as lutas estão mais ao rubro. Como dizia num documentário grego citando um filosofo do qual não me lembro o nome: a escolha é entre tranquilidade ou liberdade. A luta de classes não permite fugir a este confronto.

          • João Valente Aguiar diz:

            Por isso é que o marxismo tem de ser uma força das massas, uma arma que chegue e seja apropriada pelas massas. Os intelectuais são absolutamente necessários (até pq podem ajudar a fornecer ferramentas teóricas importantes – se estas forem forjadas a partir da análise das situações concretas da luta entre a burguesia e os trabalhadores) mas nunca devem dirigir as lutas.

          • João. diz:

            “Os intelectuais são absolutamente necessários (até pq podem ajudar a fornecer ferramentas teóricas importantes – se estas forem forjadas a partir da análise das situações concretas da luta entre a burguesia e os trabalhadores) mas nunca devem dirigir as lutas.”

            Certo, mas ao que sei em geral a tendência para a organização das lutas comunistas é a de gerar organismos colectivos. Aqui, podemos por exemplo, comsiderar as posições de Lenin para quem estes organismos directores das lutas deveriam incluir intelectuais mas numa proporção menor relativamente a proletários.

            O que importa considerar também, julgo eu, quanto à noção de proletário é que ela presume uma mediação, ou seja, um operário não é imediatamente um proletário mas, na medida em que por proletário entendemos uma agência revolucionária, a mediação que opera o trânsito do quantitativo – um operário entre muitos – para o qualitativo – um operário como agente revolucionário, como proletário – é a da adesão à ideia comunista para a qual o trabalho de Marx é estruturante – embora não necessariamente como um “non plus ultra” ou seja como uma perfeição acabada.

            Até porque tomado como perfeição acabada parece-me que passa a objecto e deixa de ser sujeito (não estou a sugerir que tal seja a posição em que você coloca Marx; este último parágrafo deste meu breve comentário é já uma deriva para além da estrita resposta ao comentário seu de que recortei a passagem citada no incício).

            Cumprimentos.

  3. José Manuel diz:

    Caro José:

    Assino por baixo o que escreveu. Só não percebi a ilustração – nem como camarada de partido nem como cristão.

    Abraço

  4. xatoo diz:

    é extraordinário que alguém (Raquel Varela) que não tenha sido vista a pôr os butes no Congresso venha agora aqui debitar que as comunicações e os debates tenham sido sobre filosofia. Se fosse mosca, teria ouvido o trabalho de José Barata Moura cujo titulo foi precisamente “O Capital não é Filosofia” – ele há com cada uma…

    • João Valente Aguiar diz:

      Mas, deixe-me provocá-lo meu caro, e diga lá se a abordagem do Barata-Moura não foi ontológica? Aliás, é essa a praia dele e onde ele produziu uma obra importante (apesar de, com o tempo, se ter tornado um pouco mais do mesmo).

      • xatoo diz:

        ontológico não no sentido abstracto, que Marx aliás ultrapassa com a “Critica da Filosofia de Hegel” desenvolvendo uma ontologia histórica sobre factos concretos (a dissertação do professor Barata Moura foi apenas sobre o livro “O Capital)”, onde as interpretações aceitáveis (cientificas) partem do interior dos processos dialécticos de transformação e não já de “acontecimentos” sobrenaturais, como em Hegel (daí a surpresa de um camarada aí acima que não percebeu a associação gráfica que faz entre a foice&martelo e a cruz-de-cristo)
        Se a ideia é dizer que neste Congresso não se aprendeu nada com as comunicações dos tipos da capelinha PCP, então volto à clivagem entre marxistas-in-abstracto e marxistas-leninistas, porque aqui é que está o busilis, isto é na ideologia da classe operária que lhes é ditada pelas circunstâncias concretas nos locais de trabalho feita por quem trabalha – uma luta que nada tem a ver com “papers” debaixo do braço de intelectuais aos pinotes à frente de manifestações.

        • João. diz:

          “então volto à clivagem entre marxistas-in-abstracto e marxistas-leninistas, porque aqui é que está o busilis, isto é na ideologia da classe operária que lhes é ditada pelas circunstâncias concretas nos locais de trabalho feita por quem trabalha – uma luta que nada tem a ver com “papers” debaixo do braço de intelectuais aos pinotes à frente de manifestações.”

          Pois, mas nos anos 30, na Alemanha, a classe operária preferiu o nazismo ao comunismo. Já não tanto a classe intelectual – muitos dos quais, e notáveis, se exilaram ou foram exilados.

          cumprimentos.

          • C. Coutinho diz:

            Esta de a classe operária da Alemanha dos anos 30 ter preferido o nazismo é uma treta. Os nazis “ganharam” as “eleições” com 33% dos votos em Novembro de 1932. O presidente da república de então, grande latifundiário, nomeou Hitler chanceler em Janeiro seguinte. Quem preferiu Hitler desde os anos 20 foi o grande capital alemão, que o financiou, apoiou e levou finalmente ao poder.

    • Raquel Varela diz:

      Xatoo,
      Não há ciência sem confronto de teorias. O sectarismo é um defeito na político mas mata a hipótese de fazer ciência, passa a ser ideologia, diria o velho Marx – falsa consciência.
      Saudações

      • xatoo diz:

        Raquel
        remeto-a para o que fica dito acima
        Mas não deixa de ser curioso que tenha entrado por este post adentro bramando contra a filosofia e me responda anotando a questão “falsa consciência”, precisamente uma expressão filosófica

        • João Valente Aguiar diz:

          Não querendo meter a foice em seara alheia, não posso deixar de lembrar que a expressão da “falsa consciência” tem mto mais a ver com a análise da ideologia dominante (e de como esta opera uma inversão na percepção dos sujeitos relativamente ao que de facto se passa na realidade) do que com a filosofia propriamente dita. Aliás, essa é a aplicação da “falsa consciência” no livro “A Ideologia Alemã”.

  5. Armando Cerqueira diz:

    O programa do Congresso versava mais sobre a escolástica ‘marxista’ do que sobre o materialismo dialéctico, a concepção dialéctica e materialista da História ou sobre a economia política. Ao ler o Programa fique com a impressão de que se trataria de um exercício teleológico, de uma teologia aliada a um sistema filosófico – o contrário da actividade e da intenção de Marx e de Engels.

    Mas apareci pelo Congresso no 2º dia. Exceptuando a comunicação incompleta de João Arsénio Nunes mas de valor (seria interessante debater a influência gramsciana de Melo Antunes, do seu ‘bloco histórico’ e da sua traição ao processo revolucionário e opção pela solução de recuperação burguesa do processo…), o resto pareceu-me de grande superficialidade, de chateza, de curteza de ideias, de falta de análise concreta de situações concretas. Enfim, idealismo.

    Houve momentos um tanto ridículos, como a defesa abstrusa de Estáline e do estalinismo (os gulagues não existiram nem o assassínio e sacrifício de centenas de milhares de pessoas – revolucionárias leais muitas delas -, Katyn, o Pacto Germano-Soviético, etc), ou do desejo de que, apesar do seu falhanço e implosão, a experiência ‘comunista’ reincarne novamente.
    Nenhuma análise, ou menção dela sequer, das razões por que se falhou/falhámos, do que estava errado, do que deveria ter sido feito (Budapeste e Praga foram esquecidas…), nenhuma menção de estudar a situação actual do capitalismo/imperialismo, de denúncia da sociedade burguesa, de esclarecimento das massas populares, nenhuma intenção de debater qual deverá ser o conteúdo da sociedade socialista (ou da sociedade que substituirá a capitalista em que vivemos) e as modalidades da transição/revolução. Nada.

    Desisti de aparecer no 3º dia. Achei que era mais um Congresso para pessoas com os pés para a cova. Prefiro ficar vivo mais uns anos, reflectir, debater, fazer.

    • João Valente Aguiar diz:

      Naturalmente, o João Arsénio Nunes, entre vários outros inclusive desta tasca, são uma (boa) excepção.

    • Edmundo Dantas diz:

      Meu caro Cerqueira, nós, os quase mortos, não demos pela sua falta. A perda não foi, pois, grande coisa…

      Cumprimentos.

      Regressado ao mundo dos vivos, Edmundo, Edmundo Dantas !

      • Armando Cerqueira diz:

        Caro Edmundo Dantas,

        É que eu, realmente, não quero misturar-me com os ‘mortos-vivos’…
        Estão fechados à vida, à realidade concreta. Quando passo em frente ao ‘Vitória’ tenho pena: aquilo parece um jazigo. O presente desmerece o passado grandioso. Se passo em frente ao ‘bunker’ cinzento da Place Colonel Fabien e me arrisco a entrar na sede do PCF fico com o mesmo sentimento de decepção e tristeza: a decadência depressiva do presente oprime o passado radioso e cheio de esperança.

        Eu não tenho nada contra os PCês, que me provocam um sentimento de tristeza pela sua decadência e incapacidade de reagirem e renovarem-se. Não conseguem ganhar nova gente, incutir-lhes confiança e esperança.

        Há-de concordcar que alguma muita coisa está mal: não passam de míseras percentagens nas eleições… O que é que isso significa?

        Não, não vos acompanho. Não vale a pena darem pela minha existência… Prefiro estar alerta, pensar pela minha cabeça, tentar, errar, corrigir, persistir… Enfim, estar vivo.

        Saudações marxianas.

        Armando Cerqueira

  6. a. diz:

    Marx não devia ser flor que se cheirasse, mas os marxistas são um verdadeiro hino à parvoíce. Andam de cá e para lá com a tumba de um pensador que já no seu tempo foi completamente “desnudado” por revolucionários como Bakunine, Reclus, Malatesta e outros mais. E, de facto, anos depois, na União Soviética e seus satélites ver-se-ia o que era o marxismo: a vitória do partido e do Estado sobre a sociedade e os trabalhadores. Badamerda para vocês todos! Enrolem-se em Congressos e outras filhas-putice, que a rua já vos conhece – não há entre vocês um que queira a revolução. Contentam-se, e sempre se contentaram, com as migalhas do sistema. Tal como Marx sempre comeu da mão de Engels vocês nutrem-se do Estado, abocanham-no sofregamente entre ladainhas aos trabalhadores que, há muito, já vos mandaram assobiar para a magalagem caceteira que há sempre no vosso íntimo. E como eu gostos de marxistas em dia de Congresso!!! O Jerónimo também foi ou ficou-se pelo ba-a-ba do catecismo?

    • Rocha diz:

      Parabéns pelo discurso, nada autoritário. Suponho que no seu mundo perfeito da sociedade anarquista teria reservada uma bela masmorra para todos os marxistas. Suponho que o cárcere seria lindo como um Hotel 5 estrelas ou um “resort”.

      Eu também gosto muito dos anarquistas a lançar as suas loas “contra toda a autoridade” e contra os autoritarismos dos países governados pelos comunistas. Suponho que os anarquistas nunca tiveram se impor pela força, suponho que nunca tiveram de exercer a sua autoridade. Suponho que inventaram uma luta de classes em nunca há violência.

      Nada mais democrático do que ter as armas na mão e dizer: faça-se assim. Nada autoritário, não senhor..

    • Carlos Carapeto diz:

      a. says:

      5 de Maio de 2012 at 22:31

      Marx não devia ser flor que se cheirasse”.

      Tudo depende do sitio onde metesse o nariz.

      Desagrada-lhe Marx por aquilo que leu ou por apenas ter ouvido falar?

      Marx está hoje tão atual como no seu tempo. Senão veja de que forma na presente crise o capitalismo tentou resolver os problemas.

    • Nunca me engano,raramente tenho dúvidas-no país do filósofo do leme diz:

      Vai para o caralho que te foda-isto é filosofia dos últimos dias.Entretanto,testa os teus 2 neurónios com isto,é partucularmente gravoso que a mafia do governo e os aparatchiks do capital não tenho dado por isto :
      http://resistir.info/e_rosa/a_surpresa_deles.html
      ‘Amigo’,bem depressa isto pode descarrilhar e teres q emigrar para a puta que te pariu,seu fascista de merda!
      ?

  7. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Marx tem duas vertentes: a do crítico do capitalismo e a do proponente de alternativas. Acho a crítica notável de clarividência e um elemento de reflexão essencial para quem quiser compreender o que é o capitalismo, mas acho a proposta muito pouco relevante nos nossos dias, e ainda menos quando enxertada de leninismo. A crítica é a base sobre a qual se pode construir um sistema alternativo. A alternativa proposta por Marx e Engels, adulterada ainda por cima por Lenine, já deu o que tinha a dar. Só quem tiver tendências suicidas poderá querer ainda ir por aí. Por isso também sou dos que pensam que Bakunine é um complemento importante à leitura que Marx fez do capitalismo.

    • xatoo diz:

      “adulteradas pelo leninismo”
      que afinal foi a primeira aplicação na prática do marxismo e não pode ser deitada fora como se não tivesse existido. E aqui remete-se a questão para a hegemonia do bloco histórico de Gramsci.
      Lá por Marx ter escrito à luz de candeeiros de querosene e actualmente lermos a teoria à luz eléctrica ou graças a um software de computador, não são as circunstâncias de desenvlvimento tecnológico que alteram a composição orgânica do Capital… o capital fixo, o capital variável, o processo de acumulação de mais valias, o regime de assalariamento, o trabalho como medida das relações sociais, o fetichismo no consumo, o Estado como garante de determinado regime de propriedade, etc.
      Só para dizer que Marx, para quem o queira estudar e interpretar de forma intelectualmente honesta, está mais actual que nunca.

      • João Valente Aguiar diz:

        «Lá por Marx ter escrito à luz de candeeiros de querosene e actualmente lermos a teoria à luz eléctrica ou graças a um software de computador, não são as circunstâncias de desenvlvimento tecnológico que alteram a composição orgânica do Capital… o capital fixo, o capital variável, o processo de acumulação de mais valias, o regime de assalariamento, o trabalho como medida das relações sociais, o fetichismo no consumo, o Estado como garante de determinado regime de propriedade, etc.»
        Pois, meu caro Xatoo, totalmente de acordo. Mas quantos oradores ditos marxistas falaram desses conceitos fundamentais do marxismo? Há quem prefira andar sempre em volta da ontologia, da dialéctica mas se se preocupassem mas é em aplicar o método marxiano à interpretação (e subsequente transformação) da sociedade… Mas há quem queira transformar o velho barbudo num “filósofo”, num hegeliano…

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      Não se trata de deitar fora o leninismo como se ele nunca tivesse existido. O leninismo existiu e é até provável que Lenine não tivesse então muitas alternativas, dado o estado de desenvolvimento da sociedade russa no primeiro quartel do século XX. Mas tentar regressar à alternativa leninista numa época completamente diferente, com populações muito mais desenvolvidas e capazes de assumir as suas responsabilidades, seria como querer construir a nossa democracia de hoje com base na Magna Carta. Nada no pensamento de Marx – e sobretudo na sua visão do capitalismo – obriga a passar pelo leninismo. O leninismo permitiu construir uma sociedade tecnologicamente desenvolvida a partir de uma sociedade quase medieval. Mas foi uma experiência localizada no espaço e no tempo, que não devemos tentar repetir. É história e só nos deve interessar nessa perspectiva histórica.

      • xatoo diz:

        ao cuidado dos “revoltosos apoliticos”da nossa época convocados pelo facebook:
        Lenine existiu de facto, e afirmou algo que faz ainda escola: “Sem ideologia revolucionária, não há movimento revolucionário”

  8. João. diz:

    Não vou falar das comunicações do Congresso porque não as conheço mas vou dizer qualquer coisa sobre o tom geral do seu post:

    Marx não pode ser um fetiche para os comunistas. O trabalho dos comunistas tem várias vertentes, o plano das ideias é uma dessas vertentes. Um comunista que só sabe Marx provavelmente nem Marx sabe. Você fala da cientificidade de Marx mas não nos indica que cientificidade é essa. Você facilmente verificará, se se der ao trabalho, que demonstrar a cientificidade de Marx dá muito trabalho – trabalho intelectual.

    • João. diz:

      “Você fala da cientificidade de Marx mas não nos indica que cientificidade é essa. Você facilmente verificará, se se der ao trabalho, que demonstrar a cientificidade de Marx dá muito trabalho – trabalho intelectual.”

      Mais do que isto. Que eu saiba o marxismo não presume que se refere a um objecto metafísico mas, a meu ver, a um objecto histórico e portanto sujeito a todo o tipo de mutações. Não podemos esquecer que muitos capitalistas leram Marx e Lenin e que, em certa medida, já sabem o que esperar dos comunistas se eles forem dogmáticos. Um capitalista que lê autores capitalistas assim como lê também Marx e autores comunistas tem vantagem sobre o comunista que só lê Marx. O capitalista nesta situação pode chegar prever o que fará o comunista entes de o comunista ainda saber o que vai fazer.

  9. João. diz:

    “o marxismo teórico está, infelizmente, cada vez mais afastado da vida concreta dos trabalhadores (o que não parece afligir muitos dos organizadores deste tipo de eventos celebratórios e encomiásticos). Desde que se cite e/ou coloque o nome de Marx no título das comunicações o certificado de “cientificidade” parece estar assegurado;”

    Num regime como o nosso onde imperam as ideias de liberdade do liberalismo, onde os princípios do pensamento pré-crítico são ainda muito fortes, você julga possível que o comunismo não tenha que laborar sobre estas ideias, não tenha que ter um espaço também para lidar com estas questões?

    Você diz que as comunicações do congresso não tinham qualidade – eu como nao assisti não posso julgar se sim ou não; mas não é só na escolha dos temas que se decide a qualidade mas no tratamento dos temas. A metafísica, por exemplo, a ontologia também, pode ser um tema revolucionário se o tratamento que se lhe der for revolucionário.

    Que os comunistas têm de estar no terreno e não só nas academias isso é evidente mas se não há comunistas suficientes no terreno julgo que não são apenas os intelectuais que se devem perguntar se estão suficientemente no terreno – embora se devam perguntar – mas também os que estão no terreno perguntar-se porque razão não está mais gente junto com eles?

    E de pouco vale aos que estão no terreno e sentem falta de mais gente gritar aos céus que são todos uns alienados, fechados em pequenos círculos – chega um ponto em que os que estão no terreno se devem perguntar também se a qualidade da sua acção não pode ser uma parte do problema de ter menos gente no terreno.

    • João Valente Aguiar diz:

      Eu nunca disse que as comunicações não têm qualidade… Não há uma linha nesse sentido no meu texto…
      E como é que um congresso pode legitimar o marxismo no campo científico e académico português sem call for papers, sem selecção de comunicações, sem a constituição de um comité científico reputado (podia perfeitamente ter recorrido a alguns nomes que surgem no seu cartaz, etc)…

    • Armando Cerqueira diz:

      João,

      estou um pouco perdido com o seu comentário. O Congresso era sobre Marx ou sobre Comunismo/Comunistas?

      Eu pensei que era sobre Marx e o seu pensamento e método. E uma das deficiências/insuficiêncas que noto no panorama cultural português é a falta de produção marxiana e/ou marxista sobre as mais diversas áreas, nomeadamente sobre a História Contemporânea nacional, que me interessa particularmente. Designadamente sobre as causas da situação actual – o processo contra-revolucionário de 1974-1975-1976…

      Cumprimentos

      Armando Cerqueira

      Cumprimentos

      • João. diz:

        Olá Armando e João Aguiar,

        Parece-me que é preciso deixar experimentar, ou seja, há tempo e espaço para diversas abordagens. Isto não quer dizer que nada seja criticável mas o que me pareceu do post foi o de uma espécie de anátema geral sobre uma inciativa sem ter concretizado através de exemplos de comunicações concretas desse congresso qual o problema com elas. Neste caso, se fosse dado algum tratamento de algumas comunicações, quem sabe eu concordaria com o autor do post, quem sabe até alguns dos congressistas poderiam concordar, mas assim ficou apenas esse tom de um anátema.

        É dito: “2) … dedica cerca de 30 comunicações a assuntozinhos filosóficos/ontológicos e apenas cinco sobre a actual crise económica no capitalismo;”

        Não sei o que é que quer dizer assuntozinhos filosóficos/ontológicos.

        Será que também cabe no desdem para com os “assuntozinhos filosóficos/ontológicos” a recente publicação das comunicações do Congresso “The Idea Of Communism”?

        http://www.amazon.co.uk/The-Idea-Communism-Slavoj-Zizek/dp/1844674592

        Cumprimentos,
        João.

        • João Valente Aguiar diz:

          Já respondi a isso num comentário ao Xatoo.

          • João. diz:

            Olá João,

            A minha posição de príncipio quanto à questão do “lugar” da filosofia/ontologia no pensamento comunista desdobra-se no que direi em dois enunciados:

            O pensamento comunista não tem de aceitar a agenda liberal para o debate filosófico.

            O pensamento comunista não tem de deixar a filosofia para o pensamento liberal.

            Quer dizer, uma coisa é aceitar os termos em que os liberais colocam o debate filosófico outra coisa é deixar toda a esfera filosófica para o pensamento liberal. Se no primeiro caso a aceitação dos termos em que os liberais colocam o debate filosófico pode deixar o pensamento comunista numa posição subalterna e meramente reactiva; no segundo caso, o do abandono do campo filosófico enquanto tal pode significar que os termos em que os liberais colocam o debate filosófico são os únicos que são legítimos. O problema com este abandono é que permite que o que dele decorra em relação às demais ciências seja dominante e, portanto, que acabemos sempre por aceitar na prática a agenda e os termos liberais como ponto de partida.

            Uma das virtudes que a meu ver tem o trabalho filosófico de Badiou é, precisamente, o de ser suficientemente acutilante para gerar a sua própria agenda crítica e não ser uma mera reacção à agenda liberal. Quer dizer, em certa medida é um trabalho criador de história ainda que no momento permaneça essencialmente académica.

            Cumprimentos.

            João.

          • João. diz:

            Direi ainda que a diferença entre o pensamento filosófico liberal e o pensamento filosófico comunista respeita ao estatuto ontológico do objecto, ou seja, no primeiro caso é presumido um objecto que enquanto filosófico é auto-subsistente – é essencialmente um objecto metafísico;

            no segundo caso, no que respeita ao objecto filosófico do pensamento comunista, a sua posição teórica é apenas um momento.

            Aqui julgo que vale a pena trazer Hegel ao barulho, ou seja, enquanto primeiro momento é portanto unilateral no segundo momento este unilateral teórico importa a recepção do seu objecto pela agência económica e política, enfim, em termos de marxismo clássico, pelas classes revolucionárias; sendo que o terceiro momento é o da reposição do objecto filosófico a partir da experiência recolhida de sua diferenciação concreta – nesta dinâmica podemos dizer, julgo, que de um lado o filósofo comunista recebeu o contributo das classes económicas revolucionárias em suas lutas concretas a partir do qual pode reeducar o seu pensamento e de outro, as classes revolucionárias receberam material teórico para testar nas lutas concretas.

            Cumprimentos.

        • Armando Cerqueira diz:

          Olá João.

          Desculpe a demora na resposta.
          i) Eu não desvalorizo a realização do Congresso mas sim o autismo do seu conteúdo. Julgo que são necessários mais congressos, conferências e cursos sobre os vários aspectos da nossa realidade social, cultural, económica, etc. Mas com uma atitude aberta aos problemas, crítica e autocrítica.
          ii) Eu não sou anti-comunista. Respeito muito o PCP, pois continua – à sua maneira – a combater a exploração do homem pelo homem, e de certo modo a opressão. Foi aliás o insuspeito Dr Manuel Monteiro que, há cerca de um mês num posto da TV, denunciou publicamente a nossa ‘democracia’ como um sistema ditatorial de forma democrática, exactamente aquilo que penso desde há um ano… O PCP foi ‘quase’ o único Partido que lutou denodadamente e com imenso sacrifício pelos direitos dos trabalhadores, pela democracia, pelo fim do colonialismo durante a Ditadura. Tenho conhecimento pessoal disso.
          Respeito menos o BE, que me parece igualmente pouco consistente e um bocado folclórico – que me desculpem os meus amigos e conhecidos bloquistas, mas é a minha opinião. Respeito muito pouco o PS, que é um partido que traiu os anseios dos trabalhadores e dos progressistas, vendeu o País aos interesses dos grandes países capitalistas.
          Mas para mim o PCP e as suas actividades são sujeitos da História, e como tal objectos do conhecimento. Acho-o, desde há muitos anos, ‘fora’ da História, ‘cego’ aos acontecimentos e a tudo o que não é a sua actividade e as ideias dos seus dirigentes – uma espécie de autismo.
          iii) Acho necessária a existência de partidos políticos. Mas não acredito na sua prática, que nem é desinteressada nem a favor do ‘povo’. Não acredito neles. Não confio neles. Não participo em nenhum deles. Há 30 anos.

          Saúdo-o com simpatia

          Armando Cerqueira

  10. ms diz:

    Caro JVA,

    Um dos problemas da comunidade científica portuguesa é a crítica constante ao que se faz e não ao que fica por fazer.
    Em vez de censurar o congresso realizado, porque não se propõe a fazer um à sua maneira?
    Se o tivessem convidado para apresentar um paper, a sua opinião seria a mesma ou bastaria a sua presença para que o congresso fosse completamente diferente?
    Bom dia de Mãe,

    • João Valente Aguiar diz:

      não tenho de dar conta disso mas fique sabendo que fui convidado. Convite que recusei por diversos motivos. Portanto, a sua crítica ou resulta de desconhecimento ou de má-fé. E já fiz coisas bem mais interessantes do que andar a incensar santinhos e beatificar aspirantes a sucessores do trono…

  11. licas diz:

    *Científico*, oh m´essa !!!
    Sabem que toda a Ciência tem que ter a sua comprovação
    na prática/experiência : se for apenas uma *teoria*, bem,
    não é ciência.
    E qual foi então o resultado de se aplicar (URSS, China, Vietname, Cuba)
    os preceitos do Marxismo? QUAIS FORAM OS RESULTADOS?
    Quanto muito foi uma proposta de organização do estado que surgiu
    no sec. XIX e que teve aplicação prática no século seguinte com os
    resulatados que se conhecem e estão já na História.
    Ciência? Não abastardem a definição . . .
    Cientistas? Vós???

    • João Valente Aguiar diz:

      Os resultados do capitalismo são fantásticos… E chamar comunista ou socialista à generalidade do que se vieram a tornar os processos que refere é mesmo falta de estudo e de conhecimento…

      • Nuno Rodrigues diz:

        É-o tão falso como o seu próprio preceito sobre o congresso. O seu artigo já tava escrito antes do congresso começar. Não deve ter ido lá ouvir e se ouviu, foi como se não tivesse ouvido. Acho engraçado que se uma coisa destas não metesse militantes do PCP, não lhe chamava nomes. Dizia que era plurar. Aliás, só a cegueira é que pode dizer que só um painel diz respeito “á luta dos trabalhadores”: A luta dos trabalhadores faz-se também do conhecimento e discussão dos preceitos que os movem. E nisso, pouco fechado foi, pelo menos no que á propaganda diz respeito. Tenho pena de não ter ido para não poder fazer uma avaliação crítica mais concreta, mas a sua é no mínimo, pre – digitada. Fechada para si próprio. PS: É de mau gosto duvidar das qualificações cíentificas que lá foi. Duvido que as tenha para prover tais críticas. Se calhar acha é que os SEUS amigos é que são “qualificados” para falar sobre marxismo. (Parece.me haver um contrasenso entre chamar fechado aos outros e arrogar-se em saber quem é que é ou não qualificado. Uma pérola).

        • João Valente Aguiar diz:

          Uau, então vc já sabe o que eu tinha escrito ou não… É de génio. Como é de génio você vir falar do pcp. É, de facto, rísivel esse argumento. Parece o outro gajo em cima que veio com a conversa que eu estava chateado porque eu não teria sido convidado… Veja lá de que partido sou militante e, se for honesto, leia no texto onde eu critiquei o pcp. Eu conheço mais de metade dos oradores que lá foram, sou amigo de outros, conhecido doutros tantos e se as pessoas não se sentem bem com as críticas, então, de facto, é porque eu estou cheio de razão no que toca à visão religiosa como alguns dos oradores abordam o marxismo… Se você falasse mas é do que sabe…
          Alguém para se afirmar qualificado para falar de marxismo tem de orientar a sua visão do mundo pelos princípios fundamentais do marxismo: luta de classes, natureza de classe dos processos sociais e políticos, conhecimento da lei do valor, crítica da economia política, etc. Quem prefere ver no marxismo um idealismo filosofante pode até armar-se aos cágados revolucionários que de marxismo real nada percebe. E para rematar esta sua pérola do “qualificado”, curioso que pegue num argumento que não está no texto. Se quer discutir em condições diga lá porque o congresso não teve um call for papers, uma comissão científica e uma avaliação “cega” (ou seja, em que quem avalia uma proposta não conhece o autor da mesma)… Diga-me lá em que é que o congresso perdia em ter procedimentos de cientificidade mínima? Só se for para descredibilizar iniciativas marxistas perante o resto da sociedade… Ou então não chamavam de congresso mas de encontro ou colóquio…

          • Nuno Rodrigues diz:

            Ao ler o seu comentário, fica patente uma coisa: Não diz coisa nenhuma. Aliás entre um colóquio, um encontro e um congresso, a diferença, na sua cabeça, era a mesma. Tem gente que gosta demasiado de Lenine e chega para mandar pedras. Tem tanto fundamentação como as novelas da TVI.

            Quem tem noção que um ” procedimentos de cientificidade mínima” serve para definir, na efectividade, a diferença entre um congresso e uma conferência não tem suficiente “critérios de cientificidade” para escrever sobre marxismo num blogue. Altamente a ver com a luta de classes.

            Com isto, não fiquei a perceber, numa luta de classes, onde cabe a comissão “cega”. Mas percebo onde está a sua posição na “luta de classes”.

            E para finalizar, tenho uma dedução fortíssima, quase chegada ao espiritismo. Sou o chamado bruxo. (Com escritas destas não seja difícil). Génio é você, que sabe o que são os “critérios de cientificidade”. E quem os cumpre e quem não.

          • João Valente Aguiar diz:

            De facto, vc não leu o meu comentário… E o nível da sua argumentação consegue ser fantástico… Enfim…

          • João Valente Aguiar diz:

            E o marxismo não é voluntarismo… Há quem ache que seja e viva toda uma vida numa peregrinação, mas descanse que não o é… Boas rezas

          • Nuno Rodrigues diz:

            Eu vou.lhe dizer uma coisa. Peregrinação é o que você faz. É chinês, não é comunismo. Fala.se de Capital, é velho. Defende políticas do Estaline é horrivel. E acima de tudo, não convida quem eu gosto, é atrasado.

            Eu li tudo. Como disse, não disse nada e em resposta a isto mais uma vez nada disse. É engraçado que tenho dúvidas nas suas qualificações a nivel geral. Até de leitura. Das de escrita poucas dúvidas me têm sobrado por aqui. E não o digo porque discordo de si. Muitos os que discordam com fundamento. Você rasou o ridiculo, a crítica fácil e acima de tudo…falhada. Ganhou palmadinhas nas costas, mais nada.

          • João Valente Aguiar diz:

            Onde é que eu disse que “O Capital” é velho? Que cegueira homem… Nem lhe vou dar troco.

            Leia os 3 argumentos fundamentais que defendi:
            1) só tem um painel sobre lutas dos trabalhadores;
            2) quase não aborda a teoria do valor em detrimento das tretas idealistas hegelianas;
            3) o congresso construiu-se APENAS a partir de convites. E tendo o apoio de instituições universitárias porque não ter feito um call for papers? Eu nem sequer iria ao congresso (fui convidado e não quis – nem poderia – ir, entre outras questões).

            Ridículo é mandar bitaites do que não se sabe puto do que se está a falar. Do marxismo e do congresso…

          • Nuno Rodrigues diz:

            “quem não conhecer, pensa que o marxismo acabou em 1844, com os “Manuscritos Económico-Filosóficos” e obras como o “Manifesto do Partido Comunista”, “O Capital” ou ”O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”” Porque estou meio farto dos joguinhos que para aqui vão e porque sinceramente anda para aí algo que percebi finalmente não estar a entender, nem que você o quer dar. Você não precisa de afirmar uma coisa para o subentender. Subentendeu falta de qualificações dos intervenientes, subentendeu falta de qualidade das intervenções e subentendeu que obras como o capital eram velhas. E chega.me. Já chamou demasiada gente ignorante para chegar á conclusão da ignorância que tem. Passe bem.

          • João Valente Aguiar diz:

            Igualmente.

            Se bem que essa sobre “O Capital” é uma absoluta tresleitura da sua parte. Vá ao meu livro “Classes, valor e acção social” e, no primeiro capítulo, veja se eu por acaso digo isso do maior livro científico de sempre… Aliás, veja quantas vezes eu falei em teoria do valor (teoria essa criada pelo Marx n’O Capital…). Se calhar o problema da sua (tres)leitura é nem saber o que é nem no que consiste a teoria do valor. Ele há cada tresleitor…

    • João. diz:

      Licas,

      você presume que os comunistas não fizeram trabalho algum sobre a experiência soviética mas não testa essa sua presunção com os muitos estudos que nos últimos 15 anos tem sido feito sobre essa matéria – neste sentido, sem que esse estudo seja feito por si é a sua posição que não é científica, do que decorre, a meu ver, que o seu posicionamento recai sobre o quotidiano da luta de classe anticomunista no plano da opinião pública.

      Se você se der ao trabalho de ler o Programa do PCP verificará que este já inclui a recepção da experiência soviética e em jogo com ela a reconstrução das teses políticas e propostas económicas para Portugal e os tempos actuais em que vivemos.

      Eu não sou militante do PCP – vivo fora do país já há vários anos – de modo que embora não fale a partir de dentro do Partido parece-me claro que este trabalho foi feito.

  12. António Paço diz:

    Concordo com as críticas do João Valente Aguiar e espero bem que a sua voz seja ouvida no sector intelectual do PCP (e não só). Não fui ao congresso (apesar de haver comunicações a que gostaria de ter assistido, mesmo já conhecendo o conteúdo de algumas) precisamente por a grande maioria das comunicações ser mais no estilo «hegelianismo de esquerda» que marxismo, num estilo que já vem desde o longínquo Congresso Hegel organizado pela dupla Chitas/Barata Moura. Apesar de tudo, é bom que o congresso tenha existido. Até é bom que haja alguma competição entre universidades e sectores de intelectuais na área da esquerda pela realização de iniciativas. E melhor será se começarmos a ouvir-nos mais uns aos outros.

    • João Valente Aguiar diz:

      pois, mas quando há uma linha hegeliana e idealista que procura fazer do marxismo uma corrente periférica, não sei como dialogar. Claro que é o desejável, mas não foi com isso em mente que se foi constituindo o congresso da sucessão… infelizmente parece ter sido pouco mais do que isso

      • João. diz:

        Parece-me que a questão hegeliana tem razão de ser, ou seja, o retorno a Hegel é, a meu ver, o retorno ao sujeito dialéctico e a razão deste retorno deve-se ao simples facto de Marx não ter podido receber a experiência soviética – então, a meu ver, a virtude deste repassar por Hegel, enquanto repassar pelo sujeito dialéctico e especulativo, diz respeito ao novo objecto revolucionário que surgiu com 1989-1991: a “amalgama” do pensamento de Marx com a experiência da URSS; neste objecto Marx é um momento dele e a experiência soviética outro momento de modo que, a meu ver, cabe ao sujeito dialéctico e especulativo pôr este objecto em movimento, diferenciar os seus momentos, e verificar como, a cada passo, a Ideia Comunista retorna sobre si nestas diferenciações.

        Poder-se-á perguntar: mas é isto apenas com que os comunistas se devem ocupar? A meu ver, não é, mas, a meu ver ainda, os comunistas ‘também’ se devem ocupar com este labor.

        A questão aqui é a do jogo entre o ‘só’ e o ‘também’.

        Cumprimentos.

        • João Valente Aguiar diz:

          Atenção, eu gozo com os hegelianos, não com o Hegel que é um autor indispensável. Como dentro dos hegelianos existem excelentes livros. Há um livro do Barata-Moura mto mto bom sobre o Hegel. E a Ideia Comunista existirá sempre, enquanto existirem classes, não o contrário…

          cumps

          • João. diz:

            João,

            “E a Ideia Comunista existirá sempre, enquanto existirem classes, não o contrário…”

            É aqui que por exemplo se pode aplicar uma torsão hegeliana, ou seja, em certo sentido a sua posição se explicitada resulta a meu ver num impasse. Será mesmo que a Ideia Comunista é uma explicitação da luta de classes ou será que é a luta de classes que é uma explicitação da Ideia Comunista? Poderemos mesmo resolver este impasse a partir da “luta” entre estes opostos ou a luta entre estes opostos é a verdade da matéria em questão, ou seja, que há uma indecisão quanto à prioridade ser a da luta de classes sobre a ideia ou ser a da ideia sobre a luta de classes.

            De que modo se pode sair deste impasse?

            Enfim, não é claro. No entanto podemos “hegelianizar” e sugerir que a prioridade da luta de classes é retrospectivamente inserida pela emergência (o irromper) da Ideia; ou seja, a ideia conceptualiza a luta de classes como o seu pano de fundo e neste movimento opera sobre o que aparecia como um tecido alietório de relações económicas o seu recolhimento como relações entre classes e seus antagonismos – neste sentido a ideia é criadora de história.

            Mas há ainda mais movimento, ou seja, a partir desta retrospecção da ideia sobre o conceito de pano de fundo – a luta de classes – a ideia gerou uma oposição interna entre o pano de fundo colocado retrospectivamente pela ideia como sua origem e este pano de fundo uma vez colocado em seu elemento específico – no caso, por exemplo, o momento histórico concreto, quer dizer, as formas históricas que este pano de fundo apresenta a cada momento que for recortado.

            Este recorte, no entanto, não é a partir de uma neutralidade, quer dizer, está sempre em relação com a perspectiva mediante a qual se conceptualiza o momento como operando estas ou aquelas condições e qualidades; quer dizer, a interpretação da luta de classes em qualquer momento histórico é ao mesmo tempo uma agência de história.

            Mas aqui surge um outro problema que foi primeiro hegeliano e depois marxista; ou seja, será que isto nos deixa no “mau infinito” de Hegel, quer dizer num desenrolar sem fim – sem Telos, sem conceito – de movimentos dentro de movimentos, de abstracções sobre abstracções? (O que para Marx era ficar no domínio da interpretação sem nunca passar à transformação). Ou ainda o que poderíamos colocar como uma busca do ponto exacto em que a teoria revelasse que o momento era o momento maduro por excelência para a revolução e que portanto bastaria passar à observação do seu despoletar?

            Neste caso valem as advertências contra o “só”, ou seja, se só intelectualizarmos este processo julgo que recaímos sobre a noção do mau infinito (ou infinito espúrio) de Hegel. Ou seja, em certa medida é preciso romper em algum momento com a análise teórica infinita e rompê-la com um acto revolucionário, quer dizer, recolher toda a história do pensamento comunista num programa de acção revolucionária, num “telos” em acção, em actualidade não apenas no elemento teórico mas no terreno concreto que no incício a ideia colocou como seu pano de fundo – a da luta de classes – a economia, a política em sua actualidade.

            A mediação que transforma o operário em proletário, o quantitativo em qualitativo, julgo, vale também aqui; num momento de suposto colapso do capitalismo o que temos imediatamente são fenómenos quantitativos – mais pobreza, mais criminalidade, mais insegurança, etc – aparentemente desordenados que passam a fenómenos qualitativos quando passam a momentos de uma acção transformadora dos acontecimentos, quando são, enfim, “incorporados” por uma acção revolucionária que os convoque e mobilize como agências de sua actualização ou concretização.

            Cumprimentos.

  13. m. diz:

    João Valente Aguiar,
    mais do que esses comentários insistentes sobre o idealismo e a falta de cientificidade dos intervenientes, gostava de ouvir a sua opinião sobre as seguintes intervenções: Manuel Gusmão, Rui Namorado Rosa, Barata-Moura, Miguel Urbano Rodrigues, Luís Carapinha, Jean Salem, Angeles Maestro, Américo Nunes, Sérgio Ribeiro, Luís Gomes, Pedro Carvalho, Avelãs Nunes, Gaustaud.

    (não tenho conhecimento da sua frequência no congresso, mas como os nomes que aponto cobrem quase todo o programa, parece-me que uma crítica tão aprofundada ao mesmo deve ter pelo menos conhecimento de metade dos nomes a que me refiro)

    • João Valente Aguiar diz:

      Quer dizer, se eu critico o congresso é mau e ai jesus. Se classifico alguma coisa, pior ainda. Mas classificar pessoas individualmente já seria correcto… Ele há cada um… E se reparar eu critiquei os moldes do congresso em três teses fundamentais e que volto a resumir e repetir:

      1) só tem um painel sobre lutas dos trabalhadores;
      2) quase não aborda a teoria do valor em detrimento das tretas idealistas hegelianas;
      3) o congresso construiu-se APENAS a partir de convites. E tendo o apoio de instituições universitárias porque não ter feito um call for papers? Aliás, isto só abonaria em favor dos organizadores. Eu estou absolutamente desinteressado nesta crítica. Quem se “prejudica” nisto é quem dá a cara pelo congresso que podia ter adoptado outra postura sem medo de entrismos… E, repito, não tem nada a ver comigo nem estou a falar de mim.

  14. m. diz:

    Por favor João,
    não se confunda! estou apenas a pedir a sua opinião sobre estas intervenções realizadas no congresso, para que possa depreender em que concretiza as suas considerações, ou se a crítica que fez se materializa apenas numa falta de aceitação da diversidade de qualidade científica, área científica e abrangência temática das intervenções no seu todo.

    não lhe pedi para classificar nenhum dos indivíduos, mas sim que falasse sobre as suas intervenções. ou perfere não concretizar a sua crítica e falar sobre idealismo generalizado?

    repito:
    Manuel Gusmão, Rui Namorado Rosa, Barata-Moura, Miguel Urbano Rodrigues, Luís Carapinha, Jean Salem, Angeles Maestro, Américo Nunes, Sérgio Ribeiro, Luís Gomes, Pedro Carvalho, Avelãs Nunes, Gaustaud.

    se os viu está habilitado para falar

    • João Valente Aguiar diz:

      eu não me estou a confundir. Vc é que está a querer que eu fale de um assunto que não mencionei. Se for inteligente verá as mesas respectivas que eu achei positivas e as mais idealistas… Não é preciso mto para se perceber isso… E pela área de abordagem… Acho até indecente vir com essa conversa dos nomes quando o que eu critiquei foi o congresso, a sua aposta na sucessão idealista e na tentativa de transformar o marxismo numa coisa “filosófica” e metafísica…

      Espantoso é que certos enviados não abordem o que eu mencionei mas o que eles querem que eu aborde…

    • João Valente Aguiar diz:

      Já agora, não preciso de enviados nem de pombos-correio para falar com alguns dos nomes que mencionou, até porque sou amigo de alguns deles e conheço bem outros. Que figurinha, minha nossa…

      • m. diz:

        Em resumo um mau post, com uma infeliz imagem, alguém que não participou, ou provavelmente, não participa em coisa alguma …. e não responde às questões que lhe são colocadas, será que apenas faz carreira na internet ….
        Na minha opinião, face à dimensão do Congresso, um post sem condições para ser mantido neste Blog.
        Estive no Congresso, gostei, aprendi muito, mas também costumo estar nas lutas gerais dos trabalhadores, como trabalhador que sou, marxista, leninista e, obviamente, comunista!!!
        Na sessão de sábado de manhã “Sérgio Ribeiro” falava da sua experiência e, como só aprendeu a “conduzir” (como economista) quando tomou partido. Parece-me que ainda te falta alguns anos de condução meu caro amigo !…. a lição de humildade, aprende-se com os “caminhos” da vida e da Luta.

        • João Valente Aguiar diz:

          Tadito do provocador. Sentiu-se chateado porque eu não estou a toda a hora na net. Tadinho… Ainda por cima cheio de azedume e de puro ressentimento fascizante a ver se colava uma putativa retirada do post. Que coisa mais linda vinda do pombo-correio provocador…
          Para quem se diz marxista, é tocante e mto doce a maneira como você pessoaliza o debate político que, no meu modo de ver, nada tem de pessoal…

          • ed diz:

            Tenho pena de não ter lido a tua resposta antes do meu segundo post, aqui fica o meu último comentário:
            Há homens que lutam um dia, e são bons;
            Há outros que lutam um ano, e são melhores;
            Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
            Porém há os que lutam toda a vida
            Estes são os imprescindíveis

            Deixo-te Brecht para reflexão!!
            Não conto responder-te a mais nada, já percebi que não tens nível!

          • João Valente Aguiar diz:

            Primeiro, apelar ao identitário e ao emotivo dá uma de fascizóide. Não te fica bem. Segundo, os galões não servem para nada. Terceiro, essa tua tirada do “não tens nível” parece vinda directamente de um infantário… Como se deturpa (ou se tenta deturpar) todo um post e em nada se respondeu ao mesmo… Mas há quem prefira encher as meninges com tresleituras e irracionalismos…

  15. Pingback: A democracia, um engodo para os tolos? (Jean Salem) « Leitura Capital

  16. m. diz:

    João,
    não abordei o que tu não mencionaste – nunca fugi do tópico que lançaste: um congresso que fez com que o marxismo perdesse (pelas tuas palavras). voltares a referir “os nomes” ou “os indivíduos” como o meu pedido de explicação ou é falta de atenção ou é falta de carácter, visto que apenas te pedi que te referisses, objectivamente, a estes nomes, pois eles representam significativamente 1/3 do congresso, quase todas as mesas e ao mesmo tempo são, ao que me parece: 1) os exemplos mais significativos da cientificidade do congresso 2) da actualidade da análise marxista representada no congresso 3) da ligação do marxismo teórico à vida dos trabalhadores 3) de uma análise marxista-leninista e materialista-dialéctica. Posto isto, julgo profundamente injusta a tua crítica, apesar de concordar contigo com a falta de qualidade científica de algumas intervenções, algumas delas até pertencentes ao 5 Dias. Acho por isto profundamente indecente vires lançar estas endeixas num espaço público, demonizando de forma holística um congresso como idealista e metafísico, sem te dignares a entrar nos conteúdos representados nem debateres ideias internas às suas comunicações (não me chega “30 assuntozinhos filosófico-ontológicos”), e borras-te em público em dizer o que pensas sobre estas, quando não borras a, em público, demonizá-lo. Por isso, e sendo que eu não tenho que me justificar porque não demonizei nada em público, volto a pedir uma opinião que é mais que justificada (ou seja que justifiques o teu comentário sobre o congresso fazer perder o marxismo) face às intervenções que nele fizeram, a título de exemplo:

    Manuel Gusmão, Rui Namorado Rosa, Barata-Moura, Miguel Urbano Rodrigues, Luís Carapinha, Jean Salem, Angeles Maestro, Américo Nunes, Sérgio Ribeiro, Luís Gomes, Pedro Carvalho, Avelãs Nunes, Gaustaud.

    caso não queiras referir-te a eles pelo seu nome refere-me ao que disseram pelo conteúdo das suas intervenções. se não o fizeres sou obrigado a considerar que a tua crítica é pouco cientifica e mal intencionada, pois não te recusas a responder pelas considerações que teceste.

  17. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Eu sou obviamente menos culto do que alguns dos intervenientes nesta discussão. Por isso devia estar calado. Mas não posso deixar de chamar a atenção para o facto de que Marx queria, julgo eu, alcançar essencialmente três coisas:

    1. Explicar como funcionam as sociedades e porquê.
    2. Lançar as bases para uma organização objectiva – científica – da sociedade.
    3. Explicar o fenómeno capitalista.

    Neste contexto talvez fosse útil os marxistas prestarem alguma atenção à etologia e à sociobiologia. Constatariam que a fonte dos nossos comportamentos está muito a montante do que Marx supunha. A luta de classes, por exemplo, é apenas a manifestação de um fenómeno muito mais primário, instintivo e de base genética. Compreende-se que Marx tenha feito as opções que fez, porque não estava consciente dos fenómenos genéticos, da ligação da evolução ao serviço da sobrevivência num ambiente altamente competitivo, e das suas influências no nosso comportamento individual e social. Mas nós já não temos essa desculpa…

  18. ed diz:

    O meu último post saiu acidentalmente como m. fica aqui rectificada a publicação como Eduardo Dores, militante comunista, família a quem a luta anti-fascista não assustou e, que terá sempre aqui mais um braço.
    Quanto ao João, lanço um um desafio, sendo um estudante da Faculdade de Letra do Porto, que tenha a coragem de se juntar ao Grupo de Estudos Marxistas e que lance uma inicicitava similar na “Invicta”

  19. ed diz:

    O meu último post saiu acidentalmente como m. fica aqui rectificada a publicação como, militante comunista, família a quem a luta anti-fascista não assustou e, que terá sempre aqui mais um braço.
    Quanto ao João, lanço um um desafio, sendo um estudante da Faculdade de Letra do Porto, que considere juntar-se ao Grupo de Estudos Marxistas e que lance uma inicicitava similar na “Invicta”, é fundamental trazer as questões do marxismo para o meio académico.

  20. xatoo diz:

    é pá, ó Nuno
    realmente mais valia teres ficado calado… essa bisca do “lançar bases” é de cabo de esquadra…
    Marx estudou cientificamente as relações capitalistas de produção – e toda a filosofia inerente à sua obra é no sentido de as transformar em beneficio da sociedade i.e. o socialismo e comunismo, a tendendo aos três principios fundamentais da Economia Politica, a saber:
    – segundo as necessidades do Homem enquanto elemento da sociedade
    – consoante uma gestão racional dos recursos disponiveis
    – atendendo ao uso feito da mercadoria “força de trabalho” à qual uma larga percentagem é surripiada
    Em que é que a genética pode contribuir para esta problemática? modificando geneticamente banqueiros privados? então não é mais barato e eficaz nacionalizar-lhes e socializar-lhes o património adquirido ilicitamente?

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      Lançar as bases, sim, pois foi tudo o que ele fez, e já não foi pouco. Mas confesso que tenho dificuldade em discutir marxismo na versão IURD… Por mais que te esforces as ciências sociais não são ciências exactas, pelo que a ideia de que se se carregar no botão “A” o resultado é “X”, pura e simplesmente não cola.

      Quanto à genética é ela que condiciona o comportamento humano, tendo como objectivos a sobrevivência do indivíduo e da espécie, no que o ter e o poder são elementos essenciais. Que se manifestam também, é claro, na esfera do económico. Ora os aspectos exploratórios desse mecanismo só seriam elimináveis quando o ter e o poder deixassem de ser elementos na luta pela sobrevivência. Até lá a genética só pode ser controlada pela ética, e quando isso falha, terá de ser a comunidade a controlar os excessos. Por isso a luta de classes é um facto, mas terá de ser entendida de uma forma muito mais alargada, mais sociobiológica. Mas esta discussão cabe mal aqui.

  21. António Paço diz:

    Ao mesmo tempo que não responde a nenhuma das questões levantadas pelo João Valente Aguiar neste post, alguém que assina discretamente como m. quis forçá-lo, de dedo em riste, a um comentário sobre algumas figuras nacionais e estrangeiras presentes no congresso. Compreendo que o João se sinta pouco à vontade para fazê-lo. Eu, que não tenho nenhuma ligação orgânica ao PCP, não tenho nenhum problema em fazê-lo. Algumas destas figuras, como o português Miguel Urbano Rodrigues, o francês Georges Gastaud ou a espanhola Angeles Maestro têm como denominador comum fazerem algumas críticas ‘pela esquerda’ aos partidos comunistas dos seus países, de que são ou foram membros (nomeadamente questionando a sua política de alianças com a social-democracia), mas também outros aspectos que me são menos simpáticos, como um grande sectarismo e usarem o chavismo como bengala. Gastaud é professor de filosofia e secretário nacional de uma cisão do PCF, o Pôle de renaissance communiste en France (PRCF). Angeles Maestro é uma ex-militante do PCE, com quem rompeu. Integrou a Corriente Roja até há pouco tempo com um sector trotskista (PRT), irmão do MAS português (ex-FER). Rompeu com este em 2011 para formar a Red Roja, que os seus antigos parceiros qualificam como um sector «castro-chavista». Virá daqui o incómodo do João?

    • João Valente Aguiar diz:

      Não me sinto nada incomodado. Até porque: 1) conheço alguns deles; 2) o post não versa posições políticas (que a generalidade dos autores citados veiculou) mas a tendência de “filosofização” do marxismo por parte de alguns dos aspirantes a sucessores na cadeira do trono ontológico

  22. m. diz:

    há qualquer falta de compreensão aqui,
    como afirmei anteriomente concordo com algumas das posições tomadas contra erros do congresso, mas não posso concordar com a versão demolidora que aqui foi colocada. nunca imprimi, ou tentei imprimir, arrogância nos meus comentários e não acho sensato, de nenhuma maneira, o jeito de escárnio e superioridade que o João demonstrou ao longo desta conversa. a minha intervenção nesta postagem prende-se singularmente a isto: não concordo com a versão do congresso defendida por joão aguiar e por isso pedi-lhe exclusivamente opiniões sobre muitas intervenções que achei de maior interesse no congresso, e que me levam a fazer um balanço positivo e transformador do mesmo. tenho pena que a resposta seja só que existem uns tantos estudantes de ontologia no programa, e por isso o programa torna-se idealista e afastado da vida dos trabalhadores. porque se outros exemplos fossem dados, entre os que pedi opinião, parece-me a ideia de um congresso de hermetismos académicos que o joão associou a este, poderia ser trocada por uma mais justa. de resto, se já vinham escaldados de outras andanças, escusam de mandar para cima de um anónimo essas coisas do “provocador” e do “dedo apontado”, porque apenas perguntei a opinião sobre as intervenções em questão, que me parecem cruciais para uma abordagem do congresso. não são de salutar estes paternalismos sobre quem conhece melhor as pessoas em questão, se são amigos ou não, não me importa. quero saber a sua opinião, joão! e já que publica uma postagem como estas…que não tenho intenção nenhuma que deixe de existir, responda-me ao que acha: foram estas intervenções deambulações hermenêuticas e conceptualizações desligadas da realidade concreta contemporânea e de questões históricas importantes? ou o seu comentário cinge-se a uma face deste congresso, nomeadamente ao seu desacordo com a necessidade do pensamento ontológico que foi relevado em alguns momentos do congresso?
    ao fim ao cabo isto é um blog de opinião, se se recusar a dar a sua opinião recusou-se, nada a acrescentar.

  23. m. diz:

    António Paço,
    diga-me uma coisa: já que não foi ao congresso, as intervenções que comenta de Miguel Urbano, Angeles Maestro e Gastaud estão entre aquelas que já conhecia o conteúdo? ou comenta só o seu background para deixar entender que não deviam ter ido?

  24. Justiniano diz:

    Caro JVA, muito interessante este seu desabafo!!
    Mas será, mesmo, necessário demonstrar que o indivíduo humano pode viver com 100gr de alimento por dia, trabalhar até cair pró lado, descalço, roto e nú!! Sem pestanejar matar um seu irmão!! Embrutecido, de corpo e alma, matar e deixar-se morrer! Porque heverá, então, esse indivíduo humano de se louvar na dignidade da pessoa humana e, por direito próprio, consumir alimentos, gozar de descanço, conforto e reconhecer no seu irmão um semelhante digno de respeito e tudo o mais e menos!!!??? E que raio de ciencia lhe ofereceu essa premência de dever ser!!?? De onde lhe adveio essa ideia da imortalidade da própria ideia desse justo!!??
    Cordialmente, Justiniano

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