A POLÍTICA (que deve ser sempre ilegítima) contra a DEMOCRACIA: título e resumo da minha comunicação logo no Marx em Maio

O embuste da democracia: a política ou é ilegítima ou não o é (respostas de Rosseau e Marx)
[título e síntese muito breve – e a modificar, pois não costumo apenas concentrar-me no que escrevi]

De forma assaz bizarra, em 1989 teríamos chegado a uma “unabashed victory of economic and political liberalism”, escrevia o famigerado Fukuyama. Em suma, sem se perceber porquê (a coincidência com o número redondo do final de uma década onde o tema do pós-modernismo andou por todas as mãos) teríamos chegado à vitória total e terminal da democracia liberal. Parece que desde aí se foi tornando proibido não ser democrata. Vejamos então mais de perto esta estrondosa vitória, já quase totalmente esquecida.

Temos os seguintes pares e relações: democracia e mercado livre, democracia e livre iniciativa, democracia e capitalismo (para mencionar o título de um conhecido livro de Milton Friedman, Capitalism and Freedom, com “um milhão de cópias vendidas” apregoava-se em 2002), e, porque não acrescentá-lo? (uma vez que disso diariamente somos testemunhas), democracia e fascismo económico.

Continuemos. E porque não dar agora o passo seguinte e trabalhar a ligação entre fascismo económico e fascismo político? Serão ou não um e o mesmo? E, se sim (como julgo), qual é a instância de mediação entre os dois fascismos senão a democracia?

E porquê a democracia? O percurso até chegarmos a tal conclusão (e poderão surgir outras, quiçá), passará por “respostas” de Rousseau e Marx, ou de Rousseau a Marx, mas o ponto de chegada poderá ser, como proponho, o conceito central de Badiou, o evento/acontecimento. Entretanto, outro ponto de chegada, ou de partida neste caso, pode ainda ser a crítica de Rancière a Badiou alicerçada na oposição que este estabeleceria entre democracia e comunismo. Mas, em Badiou, não há tal oposição. O que há, sim, em Badiou é uma oposição ou dissociação entre democracia e acontecimento. O ponto nodal é o seguinte: O acontecimento, como realidade abruptamente inédita e inacessível ao discernimento não é, nem pode ser, sufragável. E pede-nos uma de duas coisas: ou a ele aderimos ou o rejeitamos, e nisto a adesão ao indiscernível efectua-se na base de nada.

Ora, este “nada” é precisamente a ausência de competição para uma eventual vitória num sufrágio. E esta vitória é, ao contrário do que somos obrigados a crer, a ditadura de uns e a perda de poder de outros. Fala-nos Rousseau como se a sua voz viesse dos dias de hoje – o povo ilude-se livre por eleger um parlamento, mas os parlamentares, depois, escravizam o povo. Logo, o povo não pode ser representado, e a fidelidade subjectiva ao evento assim se encontra com a “vontade geral”. E deste modo se desenha algo também caro a Marx: deve separar-se a emancipação política (formal, burguesa) da emancipação humana. A partir daqui pode sintetizar Marx o seu pensamento, numa conhecida carta de 1852: “(…) a luta das classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado: (…) esta mesma ditadura só constitui a transição para a superação de todas as classes e para uma sociedade sem classes”.

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23 Respostas a A POLÍTICA (que deve ser sempre ilegítima) contra a DEMOCRACIA: título e resumo da minha comunicação logo no Marx em Maio

  1. Nunca me engano,raramente tenho dúvidas-no país do filósofo do leme diz:

    Mas,as empresas ,a base deste sistema económico,são instituições democráticas?Os seus ‘colaboradores’ dão os seus votos,tomam decisão sobre o rumo destas?Logo,o xistema ‘democrático baseia-se em estruturas ditatoriais-donde,não se pode dizer que vivemos numa sociedade democrática.
    À parte:desde o 25 de Abril ‘deixou’ de haver fascistas-restaram os ‘democratas’ e os comunistas!Estranho,não é?

    • Carlos Vidal diz:

      Vamos lá ver:
      “Mas, as empresas, a base deste sistema económico, são instituições democráticas?”

      Não, nem instituições nem democráticas.

      Again:
      “(…) desde o 25 de Abril ‘deixou’ de haver fascistas-restaram os ‘democratas’ e os comunistas! Estranho,não é?”

      Nada estranho. Restaram os democratas-ético-humanitários, muito respeitadores dos “direitos humanos” (que nada mais são que os direitos a explorar, escravizar e à propriedade). Estes são a regra.
      E, como dizia o outro, sempre foi papel da regra querer destruir a excepção.
      Mas não vai lá.

  2. Vítor Vieira diz:

    É por isso que depois se vêem coisas giras, como Hillary Clinton a falar alegremente contra os governantes árabes que não concedem liberdade de expressão a quem se lhes opõe, enquanto ao mesmo tempo um cidadão que se levantara e lhe virara as costas, sem nada dizer, foi arrastado para fora da sala, algemado, brutalizado até sangrar. Está aqui: http://www.justiceonline.org/commentary/at-clinton-speech-veteran-bloodied-bruised-and-arrested.html, aqui: http://www.democracynow.org/2011/2/18/ex_cia_analyst_ray_mcgovern_beaten, e também aqui: http://www.youtube.com/watch?v=N-Vy8fFnz18.
    Há uns anos o mesmo cidadão também sofrera o mesmo tratamento, depois de ter conseguido fazer umas perguntinhas a Rumsfeld: http://www.youtube.com/watch?v=v1FTmuhynaw
    Há coisas fantásticas, não há? (como dizia o outro…)

    • Carlos Vidal diz:

      Exactamente, nas terras dessa senhora é proibido não se ser democrata.
      E é proibido pôr em causa os “direitos humanos”.

  3. licas diz:

    Pois aqui é está o ponto: A tal Ditadura do Proletariado (mesmo tomando de barato
    que como ditadura seja tolerável em Democracia) tem primeira e inquestionavelmente,
    sere sancionada por Eleição. Ora, quando os adeptos, clamam por métodos revolucionários,
    ESTÃO A ACONSELHAR a muito possível TOMADA DO PODER por grupo minoritário,
    melhor armado e constrangendo a maioria a aceitar o que de facto repudia: um governo
    FASCISTA impondo o seu programa PELA FORÇA . . .

    • Carlos Vidal diz:

      licas, a si é sempre assim:

      ———————————————————————–

  4. licas diz:

    NUNCA se viu na História uma Ditadura desembocar na tal sociedade *sem classes*.
    O exemplo da URSS sob Stálin e seus herdeiros e de Mao na China, etc. ensina-nos,
    que quando um povo é livre de expressar a sua vontade penaliza com toda a força
    (do voto) regimes ditatoriais. Experimentem, mesmo em Cuba, e os teóricos/metafóricos
    verõ mais um exemplo do que afirmei . . . Quem tem medo de Eleições Livres em Cuba?
    Quem tem? Não os democratas. Os anti é que clamam : NEM PENSAR.

  5. Diogo diz:

    E os gregos já perceberam o esquema dos «dois partidos» que não passa de um partido único:

    Com a sociedade grega fraturada por dois anos de medidas de austeridade e recessão, pequenos partidos, alguns deles radicais, dividem a preferência do eleitorado na votação de domingo para o Parlamento.

    Segundo as pesquisas, mesmo unindo forças os dois principais partidos gregos, Nova Democracia e Pasok, devem ter cerca de apenas 38% dos votos. O restante seria distribuído por outros 30 partidos, com pelo menos mais 5 conseguindo representação legislativa.

    • Carlos Vidal diz:

      Domingo, poderia ser um dia interessante para a Europa.
      Mas o fascismo económico em vigor, diz-nos que, claro, nada se vai mover.

  6. JgMenos diz:

    ´…outro ponto de chegada, ou de partida neste caso…’ é que o autor, a partir do conceito de fascismo económico (que não define) adivinha o regresso do fascismo político (versão 1919-1945 ou renovado?) veículado pela democracia formal e burguesa através de obscuros mecanismos; eis senão quando, ‘o acontecimento, como realidade abruptamente inédita e inacessível ao discernimento’ nos trará enfim a ditadura do proletariado e a sua inevitável consequência – a emancipação humana!
    Impressionante!!

    • Carlos Vidal diz:

      Desde Altamira, não pararam de irromper “acontecimentos”.
      O fascismo económico está definido na resposta acima, a Diogo.

      • Carlos Vidal diz:

        (E, é claro, fascismo económico é ter de pagar uma dívida não contraída. E mais: é ter de pagar juros por uma dívida não contraída. Que é o que andamos a fazer por estes tempos. E daí não ter saída – como é que a democracia põe Gaspar na cadeia? Se alguém me respondesse, até seria capaz de retirar o termo, o tal “fascismo económico”.)

  7. De diz:

    Vivo e bem vivo!!!
    (para desespero dos gaspares de ocasião, fukuyamas de outrora)

    • Carlos Vidal diz:

      Marx e Rousseau, não esquecer (é a minha modesta opinião).

      O Fukuyama já se mudou de armas e bagagens para o sr. Obama.
      Está sempre no sítio “certo”. No do “último homem”.
      (Foda-se. – peço desculpa.)

  8. Zebedeu Flautista diz:

    Aspectos práticos:

    Num pais em que a tralha politica ( e isto inclui por exemplo autarcas do PCP) nem uma porcaria de uma rotunda consegue fazer dentro do prazo e do orçamento vai se colectivizar tudo e ficar um grande comité de sábios a arrotar planos quinquenais?
    O resultado vai ser ultrapassar a Albânia pela esquerda a todo o gás revolucionário.

    • Carlos Vidal diz:

      Nada é para repetir. Nada se fará igual. Logo, a ultrapassagem da Albânia é imprescindível.
      E sê-lo-á pela esquerda. (Pela direita é o que lá vigora.)
      Quanto a rotundas (estética, urbanística, rodoviariamente falando – um horror!), estou certo que os autarcas comunistas não batem nenhum record, até porque conheço alguns fazedores (escultores), conheço poucos, felizmente.
      Mas até conheço. E as câmaras comunistas não costumam ir por aí.

  9. João. diz:

    “O que há, sim, em Badiou é uma oposição ou dissociação entre democracia e acontecimento.”

    Sim, mas não é claro nesta afirmação nem na sua intervenção o que é que na democracia não é Eventual*; a meu ver a diferença entre democracia e evento logo à partida é que a primeira pertence à ordem do ser e, portanto, é gestão de assuntos correntes e a segunda à ordem do espírito (eu tenho ideia que Badiou é mais hegeliano* do que possa parecer), ou seja, à ordem de irrupção de uma Ideia que importa com ela uma nova figura de verdade e, consequentemente, um novo sujeito [político].

    A sua referência ao Nada é a meu ver muito pertinente porque para Badiou, julgo, o Evento não decorre da situação, ou seja, da ordem do ser – a situação é para o Evento um ponto de onde emerge (ou seja, aqui, ali ou acolá), ou seja, o local do Evento, mas não é seu interlocutor previligiado de modo que, a meu ver, o Evento, efectivamente, enquanto irrupção de uma nova Ideia, torna esta ideia geradora de si mesma, quer dizer, de sua própria necessidade.

    Badiou, no entanto, é muito mais complexo do que isto; eu já li alguns livros dele mas estou ainda em estudo de sua obra e julgo precisar de pelo menos de mais dois ou três anos para ter uma perspectiva mais ampla de um lado e aprofundada do outro . Estas considerações sobre Badiou são, portanto, muito gerais mas em todo o caso, assim espero, de algum valor heurístico.

    * A razão porque eu faço essa referência a Hegel a propósito de Badiou é que se, na Fenomenologia do Espírito desligarmos a coerência especulativa que Hegel introduz nas transições entre figuras de verdade o que nos resta é uma espécie de catálogo de Eventos – é que para Hegel a coerência de uma transição de uma figura para a outra não é explícita para essas figuras. Um exemplo claro, a meu ver, é a da transição da Consciência Infeliz para a Razão através do mediador, ou seja, a relação da consciência com o imutável através do mediador – quer dizer, o padre – torna-se na próxima figura na relação entre o uno e o múltiplo mediada pelo meio termo que, no caso, é a razão como certeza de ser toda a realidade – enfim, o idealismo. Ora sem a análise especulativa de Hegel o que resta são dois eventos, digamos assim, aparentemente desconexos – a religião cristã de um lado e o idealismo de outro. A análise especulativa de Hegel, como se sabe, parte da perspectiva de formas, ou figuras de verdade, que já foram realizadas e que é “em cima” desta realização que o labor especulativo encontra a linha de coerência que une o que imediatamente parece uma mera colecção de figuras de verdade que aconteceram ao longo do tempo até Hegel; mas isto diz-nos também que, portanto, as figuras de verdade enquanto realizações históricas são para elas como que surgindo por si mesmas e não pelas razões especulativas que Hegel descobre. Isto, a meu ver, é compatível com o carácter irruptivo do Evento.

    • Carlos Vidal diz:

      Vamos por partes: eu próprio creio ter dito que sim, trata-se disso mesmo, de uma oposição ONTOLÓGICA (não gosto muito das capitais, mas agora é melhor) à democracia. Ou seja, da inconsistência do ser (que é parte do universo cognoscível, através da matemática, como a democracia, que se manifesta no sufrágio e no censo) irrompe um nada que é supranumerário e indiscernível – logo, isto quer dizer que se abre uma sequência não dependente de uma lógica do resultado. Logo, a dialéctica aqui fica um pouco “à porta”. Vejamos um tópico anti-hegeliano em Badiou: a lógica do resultado (de uma revolução, por exemplo, estética ou política) é falsa porque afirma que aquilo que resulta de uma sequência é verdadeiro. O que nos falta e a Hegel também, de certo modo, é que uma sequência inaugurada pelo evento indiscernível tem de ser pensada desde essa indiscernibilidade e não em função de um resultado (que, para Hegel é a história como um progresso da liberdade). Como não há resultado em Badiou (nem necessidade, nem justificação, nem particularidade, por isso ele defende a tese que foi raiz da decapitação de Lavoisier, ou seja, a república “não NECESSITA” de cientistas – o problema aqui é a necessidade a comandar o evento, e isso é, a longo prazo, um travão ao processo revolucionário!!), como não há resultado, o sujeito tem de agir por si SEM OBJECTO, portanto, a dialéctica sujeito/objecto em Badiou é distinta de Hegel onde essa dialéctica, julgo, ainda admite uma continuidade sujeito/objecto (que não há em Badiou). No francês, o sujeito move-se, como disse, na base de nada. Eu até aproximaria Badiou, estranhamente, de Warburg, e da sua ideia do historiador/intelectual sismógrafo. O sujeito, move-se e treme, por isso, na base de nada. Warburg apontava os exemplos de Nietzsche e de Burckhardt, que eram sismógrafos sensíveis que tremiam até às fundações quando transmitiam as “ondas”. Ora, em Badiou, o sujeito, perante a revolução (AINDA) indiscernível deve dizer “algo se move, eu não sei o que se move, mas a isso eu serei fiel”, e di-lo sem nenhuma indicação, portanto, fora da historicidade (que, por acaso ou não era um “pecado” que Hegel apontava às artes). E esta, a historicidade, em Hegel, confinava a arte – a arte seria sempre história como tudo o que vem do humano. Em Badiou, a inestética diz-nos que a arte tem em si uma linguagem, a sua fala, ela não “deve ser emprestada” à filosofia para ser explicada. O mesmo para a política – por isso também Badiou nega a “filosofia política”.

  10. licas diz:

    Carlos Vidal says:
    4 de Maio de 2012 at 23:20
    ————————————————————–
    ________________________

    E dizem-se ESTES cultores/inventores do materialismo dialético. . .
    sem diálogo não avançaremos, camarada.
    (A não ser que se sinta plenamente realizado exibindo-se perante os semelhantes,
    . . . sabe-se lá.)

  11. licas diz:

    Carlos Vidal says:
    5 de Maio de 2012 at 0:43
    Nada é para repetir. Nada se fará igual. Logo, a ultrapassagem da Albânia é imprescindível.
    ________________________

    Não será, além da Albânia, também da Polónia, da Roménia, a RDA, da Estónia,
    da Letónia, da Lituânia, da URSS
    etc. . . (só na Europa . . .) , pergunto?

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