A moção de renegociação da dívida foi aprovada sem discussão ou votação na Alameda no 1º de Maio. Confesso que nunca tinha participado de uma votação assim – o dirigente da CGTP, mal acabou de ler a moção, olhou para a Alameda, cheia, e disse «não vejo braços contra pelo que considera-se aprovado por unanimidade». Como eu estava no meio de umas 30 pessoas que são pela anulação e repúdio da dívida e estive há uma semana na biblioteca dos Anjos cheia, cheia, de pessoas contra o pagamento, entre elas uma dezena de economistas, não pudemos fazer outra coisa se não rirmos-nos. Um riso unânime, vá lá…por esmagadora maioria.
Reunião aberta do CADPP
Hoje
03/05/2012 – 19:00 to 21:00
LOCAL: Ler Devagar LX Factory, Alcântara.
O CADPP convoca uma reunião aberta com a seguinte proposta de ordem de trabalhos:
Futuras participações e ligações do CADPP em iniciativas internacionais (nomeadamente na Universidade de Verão da Attac-France)
Panfleto «As Mentiras da Dívida» – correcções e reedições
Projecto: filme sobre a dívida





Esteve numa sala cheia cheia? Mais cheia que a Alameda certamente. E alguns eram economistas? Eh pá que argumento mais tecnocrático, é que também conheço uns quantos economistas…
A renegociação da dívida que foi proposta – e há muito que o foi – assenta na rejeição do pagamento da componente ilegítima da dívida, não ao serviço dos credores mas do crescimento económico, da criação de emprego, na reconstrução e defesa do aparelho produtivo nacional, do controlo público dos sectores estratégicos da economia. E há muito que está a ser debatida nos locais de trabalho.
Esperemos que nos locais de trabalho, como diz, os trabalhadores tenham acesso aos dois tipos de argumento – pela renegociação e pela suspensão – e que tenham tempo para os discutir e tempo para os aprovar. Já agora qual é a componente legítima da dívida?
Componente legítima da dívida? Que tal a dívida que o Estado assume a quem investiu em certificados de aforro? Ou isso não é dívida pública?
Mas há muitas outras questões. O Estado deve milhões a inúmeras empresas. É fundamental saber dessas dívidas o que é legítimo ou não, ou seja, o que foi negociata e o que foi investimento ou despesa necessária de um Estado, por exemplo, medicamentos (e mesmo assim há que analisar a fundo… as negociatas).
Para isso servem as auditorias.
Mas fica bem dizer por alto “não pagamos”. É idiota, mas não se espera outra coisa, de quem só está cá para dividir e chamar de reaccionário a tudo aquilo que verdadeiramente mexe e que causa medo ao capital.
O inacreditável é alguém que pede a suspensão imediata da dívida (como se a dívida fosse um todo a pagar a uma única entidade) e depois pede uma auditoria. Auditoria para quê, se vocês assumem à partida que toda a dívida é ilegítima? Para confirmar a vossa tese ou para perder tempo?
Se confundes o pagamento à troika dos juros mais o dinheiro que nos “emprestaram” (com muitas aspas claro) com a questão da dívida pública então as sessões em que participas não sei para que servem. A troika “apenas” acrescentou dívida à dívida.
Mas a dos economistas foi brilhante. De facto se estavam lá economistas está tudo resolvido. Curioso é saber que o capital utiliza o mesmo argumento com as generalizações do tipo “economistas dizem que não há alternativa”.
Nada de estranhar, o vosso objectivo é o mesmo do deles.
Enquanto a iniciativa política estiver do lado destes governos e destes banqueiros, nem você, Tiago B., nem eu, nem o povo em geral definem coisa nenhuma sobre o que pagamos, a quem pagamos, se ficamos no euro ou fora do euro… São eles que decidem. Eu defendo que se mobilize contra o pagamento da dívida (e depois logo se vêem os pormenores). As palavras de ordem servem para mobilizar. E parece-me que «renegociar» a dívida (o que implica pagá-la) não é lá (não tem sido) muito mobilizador. Se dissermos que não pagamos uma dívida que não é nossa (o essencial da dívida) e conseguirmos mobilizar as pessoas contra as políticas que estão a ser seguidas em nome desse pagamento, ou seja, se retomarmos a iniciativa política, depois logo poderá esclarecer que isso não significa não pagar os certificados dos pequenos aforradores, etc. Pense nisto: você não está sentado a uma mesa com o Vítor Gaspar a discutir que parte da dívida se paga. A melhor hipótese (penso eu de que…) que tem de reverter esta ofensiva feita em nome do pagamento da dívida é conseguir mobilizar as pessoas contra as políticas feitas em nome do seu pagamento.
Existe uma diferença entre quem mobiliza para transformar e quem mobiliza para dividir. Eu não digo palavras de ordem não pagamos com a sustentação de ” Eu defendo que se mobilize contra o pagamento da dívida (e depois logo se vêem os pormenores)”.
Para chegar ao poder é preciso ser sério. Não cair em contradições. Isso só é possível aos partidos do capital, porque tem uma máquina de lavagem de cérebros.
Logo mantenho, esta palavra de ordem, não serve, porque é incorrecta e desfasada da realidade. Serve apenas para quem quer captar pessoas pouco informadas e desviá-las do caminho certo, a luta organizada.
E já agora… não me dê lições do género : “Pense nisto: você não está sentado a uma mesa com o Vítor Gaspar a discutir que parte da dívida se paga”. Não faço parte dos Rubras, das Rupturas, e por aí fora, que não tem nenhuma influência junto dos trabalhadores e podem dizer o que lhes apetece, e daqui a 15 anos estão todos contentes a votar no PS, PSD.
Sou da esquerda consequente, revolucionária, logo, comunista. é preciso dizer mais?
Ou estás com alguns neste blog que na análise à votação na Grécia, falam de blocos de esquerda gregos e por aí fora e nem referem a votação do KKE?
Raquel permite-me assinalar que no teu texto eram dispensáveis as referências (de pensamento burguês-institucional) à taxa de ocupação e à qualidade profissional de parte dos presentes na sala, de facto… puxar os galões dos economistas é esquisito, como argumento. Estranho, muito estranho!
Por outro lado… a negociação (de qualquer “coisa”) baseia-se no princípio da correlação de forças. O pensamento gaulista: – «não há amizade nas relações internacionais, apenas interesses», revela a posição do tabuleiro e não a jogada de cada jogador. O princípio da renegociação da dívida em fatias finas (ilegítima e etc) é aceitar que o jogo da criação das dívidas soberanas é justo (porque legalista). É aceitar que apenas devemos mudar as regras mas não o sistema. (Capitulismo?) É aceitar que o tamanho do candeeiro da sala é importante para a sua avaliação monetária mas que o facto de não dar luz não deve contar para essa avaliação. (Analogia inspirada na EDP)
A aprovação de moções (em situações similares) são tão importantes como a cor do papel higiénico, ambas são irrelevantes.
Compro ouro, cubro todas as ofertas!
O tipo de argumentação que aqui traz o Tiago B. é sem dúvida substantivo e merecedor de aprofundada reflexão. Quanta sapiência. É capaz de clarificar qual o objectivo oculto de quem defende a suspensão do pagamento da dívida?