Palavras

É possível fazer uma revolução sem pronunciar a palavra? É possível viver sem pensar em palavras? A revolução é como a paixão, parte da não aceitação daquilo que existe e do desejo de conseguir aquilo que é dado como impossível. São rupturas que criam as suas próprias condições de possibilidade. Dão vida aos seus próprio antecedentes passados. Como escrevia Rimbaud, quando pensava no inferno e se propunha transformar o mundo e mudar a vida, “l’amour est à reiventer, on le sait”.

Vivemos uma época divertida em que nos apresentam, como conquistas civilizacionais, o café sem cafeína, o amor sem riscos e a política sem revolução. Uma campanha de um site de encontros francês proclamava com orgulho: “é possível ter paixão sem cair apaixonado”. E acrescentava, “Pode perfeitamente estar apaixonado sem sofrer”. Para resolver este embate, o site de encontros propunha uma espécie de “coaching do amor”, para menorizar este choque traumático que é um encontro com o outro.

Nesta cruzada pela segurança das almas juntam-se os liberais, não há nada mais parecido com a doutrina do mercado capitalista que esta ideia das relações afectivas e sexuais como uma questão de gozo ligada a expectativas de consumo.

Na política como na vida deve-se lutar para reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto. Badiou defende que há no amor, como na revolução, uma capacidade de produzir verdade e uma semente da universalidade que transcende num momento a nossa própria mortalidade. Seja isso o que for, passa pela capacidade de se somar ao outro. Aquilo que começa por um encontro do acaso, torna-se um momento de ruptura, como escrevia Mallarmé: “l’hasard est enfin fixé…”.

As palavras são o momento dessa ruptura.

Publicado originariamente no 5 noites

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 respostas a Palavras

  1. António Carlos diz:

    “Na política como na vida deve-se lutar para reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto.”
    Afinal não está longe do pensamento (neo)liberal.
    Ou como diria o outro, “sair da zona de conforto”, “acabar com a ideia do emprego para a vida”, “não esperar que seja o Estado a criar empregos”, “arriscar e criar o nosso próprio emprego”.

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Um bocadinho ao lado do artigo, não acha? mas obrigado pela opinião.

      • António Carlos diz:

        Efectivamente, o tema ao qual aplica a máxima “reinventar o risco e a aventura contra a segurança e o conforto” é a política. No entanto, afirma-se claramente defensor desse princípio na “vida”. Não me parece portanto abusivo da minha parte pressupor que na aplicação desse princípio à “vida” (em abstrato) não pode deixar de lado a economia/emprego (em concreto). Para clarificar: como concilia a sua defesa do “risco e da aventura contra a segurança e o conforto” com a reivindicação do direito à segurança no emprego?

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Eu não digo que as pessoas devem viver na lei da selva. sou pela defesa dos direitos conquistados. Quando sair do trabalho respondo-lhe com mais vagar. obrigado.

  2. Ana Paula Fitas diz:

    :)) … porque as palavras trazem luz ao (aparente) caos com que tentam “pintar” o desejo e a capacidade da “ruptura”… sim, é urgente a palavra… e o mesmo é dizer, como dizia o poeta: “é urgente um barco no mar” :))

  3. pedro pinto diz:

    Tão soissante huitard (o que não é propriamente um elogio)…

  4. pedro pinto diz:

    Dos trotsquistas que viraram a casaquinha é que não… 😉
    Do milhão e tal de operários em greve sim!

    • Nuno Ramos de Almeida diz:

      Não sou trotskista. não viro casaquinhas, coisa que parece que o meu amigo deve ser especialista. Mas se tiver algum cuidado, verificará que não pode acusar o único citado, Badiou, disso. O problema é que quando a gente não lê os textos com os olhos tende a vê-los com as palas. Não é um preconceito ideológico é mesmo má leitura, para ser simpático.

  5. JgMenos diz:

    Estou de acordo consigo que viver a vida com alma e risco não é prescindir de direitos.
    Mas não pode haver o direito de descuidar a vida, vivendo-a sem risco, quando isso afecta a vida de outros.
    O emprego para a vida só pode ser um direito, se por toda a vida se cumprem os deveres que garantem esse direito!
    Grande mal é só falar-se em direitos e quase nada em deveres; e, se bem entendi, o dever de viver resolutamente a vida é dever primeiro.

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