«Contra todos os exploradores e falsos amigos do povo…»

A decisão é minha e vincula apenas, para além da minha pessoa, quem comigo partilha os dias desta vida.

Depois do que ontem aconteceu não mais voltarei a entrar numa loja da cadeia de supermercados do senhor Alexandre Soares dos Santos.

A minha decisão não afectará o senhor Soares dos Santos. Continuará a enriquecer à bruta.

Uma comentadora destaca a «inocência» do meu post de anteontem. Fez-me sorrir o comentário da Margarete. E sorri porque está coberta de razão. É esta minha «inocência» que me faz não deixar de acreditar neste «nobre povo» que é muito mais pobre que nobre… por muitas bofetadas que ele insista em dar-me! Ano após ano. Dia após dia.

Não sou capaz de lançar uma crítica veemente a quem ontem fez compras nos tais supermercados. Não sou porque sei o que custa chegar ao fim do salário e ter tanto mês pela frente. Sei o que custa não poder dar a uma criança aquilo que os seus olhos nos pedem com insistência. Sei o que custa tudo isto e muito mais. E não porque tenha passado por tudo isso, mas porque não fecho olhos e desde muito puto que observo e registo o que à minha volta vai acontecendo.

Ontem de manhã estive no Almada Forum a distribuir um folheto que apelava a que não se fizessem compras no Jumbo no Dia do Trabalhador. Entre muitas das pessoas que abordei houve duas mulheres que disseram sim ao que lhes pedia. Iam as duas juntas e eu senti que aquela nossa acção (do Bloco de Esquerda de Almada) tinha valido a pena.

Aproveito para recordar o comunicado que, há precisamente um ano, o senhor Soares dos Santos emitiu (os destaques são meus):

«Num momento de especial gravidade da situação sócio-económica do país, o Pingo Doce tomou a decisão de, rompendo com uma tradição histórica de encerramentodas lojas no Dia do Trabalhador, abrir as suas portas neste 1º de Maio.
Na realidade o dia 1 de Maio, a par do dia de Natal (os únicos feriados do ano em que o pingo doce tem, ao longo dos anos, vindo a encerrar as suas lojas), é diferente sobretudo pela carga simbólica que transporta e que a Companhia sempre respeitou, respeita e respeitará. Consideramos no entanto, que nas circunstâncias que vivemos no nosso país há necessidade e valores que têm de falar mais alto.
Trabalhar no dia 1 de Maio de 2011 representará, para os colaboradores que entendam apresentar-se ao serviço, uma remuneração de mais 200%, que acrescem à remuneração de um dia normal de trabalho, e a concessão extraordinária de um dia de folga pelo dia trabalhado.
Esta é a nossa forma de reconhecer e premiar todos os nossos colaboradores que por necessidade, vontade, solidariedade e espírito de serviço e de compromisso com o cliente, com o pingo doce e com Portugal entendam responder, com o seu trabalho, com o seu espírito de sacrifício e com o seu sentido de responsabilidade, à dura crise económica e social que o país atravessa.
Respeitamos, naturalmente, todos os colaboradores que decidam exercer, livremente, o seu direito à greve, sobre os quais não recairá nenhuma outra penalização que não a contabilização de uma falta justificada.
Respeitamos, mas não concordamos. Da mesma forma que respeitamos, mas não concordamos com o sindicato dos trabalhadores do comércio, escritórios e serviços de Portugal (CESP) na convocação de uma greve num contexto em que a dureza da situação exige de todos mais trabalho e maior contribuição, e em que há mais de 600 mil pessoas desempregadas em Portugal.
Abrimos as nossas lojas acreditando que estaremos em condições de garantir os níveis de serviço a que habituámos os nossos clientes. Sabemos contudo que poderão existir falhas, pelas quais queremos pedir, desde já as nossas desculpas e para as quais contamos com a sua compreensão.
O Pingo Doce é uma companhia de referência em Portugal, que emprega nas suas lojas cerca de 22 mil pessoas entre as quais há muitos milhares que precisam muito de trabalhar e para as quais qualquer reforço extra do se orçamento familiar, nas actuais circunstâncias, assume especial relevância.
É nossa firme convicção que no Portugal de hoje o direito à greve não se deve sobrepor ao direito ao trabalho e que a adversidade só será superada com o espírito de sacrifício e sentido de responsabilidade.
A Direcção Executiva do Pingo Doce»

Digo que não sou capaz de dirigir uma crítica veemente a quem ontem fez compras nos supermercados do senhor Soares dos Santos. Mas sou capaz de dizer que o que essas cidadãs e cidadãos fizeram ontem foi o reflexo de um povo adormecido, desinteressado, despolitizado e desarmado. Um povo a quem raptaram a consciência e que parece não estar interessado em resgatá-la! Não sendo culpados ou culpáveis… não são, igualmente, inocentes!

Tabela salarial dos supermercados do senhor Soares dos Santos

Não sei a que horas terão saído das lojas os trabalhadores e trabalhadoras que fazem a reposição dos produtos nas prateleiras. Não sei em que condições terão chegado a casa os trabalhadores e trabalhadoras que trabalham nas caixas. Não sei a que horas entraram hoje ao serviço aqueles e aquelas que fazem a limpeza das lojas. Sei que é prática corrente naquela empresa que todas e todos façam de tudo. E sei que nenhuns 200%, acrescidos de uma folga, serão capazes de pagar uma consciência humilhada e maltratada. Sei também que é mentira que por ali se respeitem os direitos das trabalhadoras e trabalhadores.

Sei, também, que o que o senhor Soares dos Santos ontem fez foi uma autêntica declaração de guerra. Uma vingança cobarde e mesquinha que se serve da miséria de um povo.

Dos muitos textos que hoje li sobre este assunto, ao longo do dia de hoje, destaco este, este, este, este, este, este, este, este e este, pois todos eles estiveram presentes na formação desta minha opinião.

Concluo, reforçando o que já aqui foi escrito pelo António Paço: a Esquerda tem a responsabilidade de «construir a alternativa à barbárie em que nos vão afundando.» É preciso que não falhemos e que saibamos unir-nos contra todos os Soares dos Santos do mundo!

 

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged . Bookmark the permalink.

18 respostas a «Contra todos os exploradores e falsos amigos do povo…»

  1. Parabéns pelo seu comentário que, de uma forma simples, justa e humana espelha na perfeição um sentimento que se apoderou de quem ainda tem uma réstia de dignidade, bom senso e “inocência”. Não sou bloquista e não me revejo necessariamente em algumas posições
    mas revi-me na sua análise, séria e ponderada. Também para mim o PD está proscrito.

  2. licas diz:

    Pois eu declaro que, amanhã, às 9 horas, quando o Pingo Doce reabrir,
    vou lá adquirir um lata de S. Bock que é a minha marca predileta e
    que fica muito mais barata do que o comércio dito tradicional me fornece.
    Pronto, tenho este hábito, que é diário.
    Atenção: é da minha inteira responsabilidade esta decisão e não estou
    querendo que mais alguém a siga (não sou BE, nem por sombras. . .)

    • Carlos Guedes diz:

      Esse seu hábito matutino diz-nos muito sobre si… espero que consiga ultrapassar isso! Com sinceridade!

    • Zuruspa diz:

      Mais um caso de alcoolismo… será da crise?
      Fique sabendo que no Lidl as mesmas latas de SuperBoa säo mais baratas que no PD.

  3. licas diz:

    . . . Pois se o fosse estaria aqui a gritar a plenos pulmões:
    Fora com os exploradores do comércio tradicional que teimam
    marcar os seus produtos com lucros extorsionários . . .
    Vivam as grandes superfícies que, com a sua pequena margem de lucro
    ajuda-nos a todos nós a viver um pouco melhor.

  4. licas diz:

    Eu sei que a *coerência* do BE leva-a a singulares atitudes como sejam
    ____ dar de *mamar* ao pequeno comércio com margens de lucro de pelo menos 25%,
    diabolizar as grandes superfícies que, para bem de todos nós, consumidores, do baixo.
    tira 5-10% no máximo.
    São coisas que nós, o povo, não atingimos (deve ser não sermos *alfas* . . .) e não
    termos o costume de assistir a Conferências sobre o Marxismo . . .

    • Carlos Guedes diz:

      A coerência do BE não é para aqui chamada… mas tranquilize-se pois se isso o incomoda o que aqui escreveu não corresponde minimamente à realidade. Estou certo de que depois de se informar melhor será capaz de o admitir!

  5. licas diz:

    Carlos Guedes says:
    2 de Maio de 2012 at 18:12
    Esse seu hábito matutino diz-nos muito sobre si… espero que consiga ultrapassar isso! Com sinceridade!
    _____________

    Também com toda a sinceridade: a dedução que vou consumir a *beer*
    logo que a compro diz *tudo* sobre coisas da ordem da *estreiteza*
    como vê a humanidade em geral. Digo-lhe uma coisa que o espantará:
    só as 3 da tarde (coisa menos coisa) é que a consumo : quando o calor
    aperta e a sede desperta . . . Não ferva em tão pouca água; faz mal à saúde,
    sinceramente.

    • Carlos Guedes diz:

      A dedução baseia-se na ânsia demonstrada em correr para o PD assim que abra. Seja como for, beba quando e onde quiser. Beba e faça bom proveito!

  6. Paulo68 diz:

    Carlos Guedes,
    Parabéns pelas imagens sobre o “Pingo Dôce”.
    Aquela que diz “Zero de Dignidade” vou fotocopiá-la várias vezes e será afixada nos cacifos da Pingo Dôce no Fonte Nova (ou painel) e Laranjeiras.
    Quanto à forma de pôr as fotocópias, pode ser com adesivo ou blue tack.
    Aconselho todos a fazê-lo. Caso não seja nos hipermercados do Pingo Dôce, porque não fazê-lo nos autocarros ou noutro local público.
    Seria interessante ampliar a imagem do “Zero de Dignidade” e colocar como cartaz ou “outdoor” nos mesmos hipermercados.

  7. Almiro diz:

    Dignidade?
    Pois os trabalhadores do PD pelos vistos também não a têm: em vez de recusarem o bónus e arriscarem o emprego, sujeitam-se. Princípios…

    • Rocha diz:

      E o Almiro ainda é mais reaccionário que o Sérgio Lavos, se o outro diz que os consumidores que foram ao supermercado em dia de promoção/dumping são culpados de ser pobres, o Almiro acrescenta que os trabalhadores do PD com medo de perder o emprego são indignos.

      Olhe já há uns anos atrás num protesto de desempregados encontrei um homem acompanhado pela família (mulher e filhos, todos desempregados) que me disse que se não encontrasse emprego rapidamente ia começar a roubar para sustentar a família e não tinha vergonha nenhuma de o dizer.

      Se o Almiro não sabe o que é isso, se não sabe o que é lutar pela mais primária sobrevivência não venha aqui dizer a primeira porcaria que lhe vem à cabeça contra trabalhadores que lutam pela mais básica sobrevivência.

      Talvez um dia o Almiro seja assaltado por alguém que nem no PD arranjou emprego, talvez seja eu um dia assaltado por quem perdeu o emprego no PD ao reivindicar ou protestar contra os patrões.

      É verdade que o capitalismo nos lança, a nós trabalhadores, a nós “sobreviventes”, uns contra os outros. A luta por trabalho digno é já suficientemente difícil e não precisa que ajudemos os capitalistas ainda mais a “dividir para reinar”.

      É possível aliás ajudar os trabalhadores precários, os consumidores esfaimados e atingir os interesses do patronato duma só vez, sem ser mais do que um cidadão preocupado com estas coisas, era montar um piquete bem combativo e forçar simultaneamente uma super greve e uma super promoção.

  8. margarete diz:

    não destaquei “inocência”, pelo contrário, chamei-a para a conversa com alguma parcimónia. “parece” faz toda a diferença. e foi relativamente ao post, pois não me caberia apelidar o autor de “inocente”. queria apenas clarificar, mas isso agora não interessa nada 😉

    não gosto de tomar decisões extremistas, não posso garantir que não volte a um PD, anteontem decidi evitá-lo, mas também sei que outros atropelos estarão presentes noutras grandes cadeias quaisquer a que resolva ir em alternativa

    gostei do seu post

    • Carlos Guedes diz:

      Obrigado. E eu dos seus comentários!
      Não achei que tivesse tido a intenção de me apelidar de «inocente». E ao concordar com a sua «leitura» da coisa, no dia seguinte a tudo ter acontecido… senti mesmo que um gajo que, em mais de 20 anos de intervenção activa no esforço colectivo dos que se dedicam a tentar transformar o mundo, se ainda não desisti é porque ainda acho que vale a pena. É uma «inocência» que, no fundo, me permite continuar a acreditar que, um dia, seremos capazes de esquecer o que nos divide (e que apenas nos enfraquece) e juntar esforços para acabar de vez com as políticas desastrosas que nos trouxeram ao estado em que estamos hoje. É acreditar que «isto inté qu’há-de mudar um dia»!

  9. licas diz:

    O C. Guedes quer acabar, nem que seja à força, com o capitalismo, PRONTO!
    Depois de 20 anos ainda não teve um momento para refletir que ele, como o
    comunismo acabaram, vindo transformar-se na Social Democracia.
    Mas isso é lá cm ele (e com uma percentagem mínima de *manos*)
    E não tenho *nadíssima* com isso: que lhe dê gozo e lhe faça bom proveito . . .

Os comentários estão fechados.