Revolução ou Transição?

Eis uma entrevista da Raquel Varela a propósito do livro Revolução ou transição? História e memória da Revolução dos Cravos, acabado de publicar pela Bertrand. Da introdução deste livro colectivo (autores: António Simões do Paço, Carla Luciana Silva, Constantino Piçarra, Dalila Cabrita Mateus, Fernando Rosas, Jorge Fontes, Luciana Soutelo, Luís Leiria, Raquel Varela, Ricardo Noronha e Valério Arcary), extraí um parágrafo a modos de apresentação:

«A revolução portuguesa surpreendeu. Surpreendeu pelo papel dos militares, pela extrema radicalidade dos métodos e objetivos, pela escassa violência com que se desenrolou e com que terminou. Surpreendeu, se quisermos, por ter ido tão longe tão depressa, com a multiplicação de organismos de poder dual a partir de 11 de março de 1975, e por ter recuado igualmente rápido com uma acelerada estabilização do Estado a partir de 1976. Como revolução social, foi uma revolução falhada, a última tentativa no século XX, na Europa Ocidental, de iniciar um processo de expropriação da burguesia. Mas durante 1975 a revolução portuguesa surpreendeu o Mundo. Porque foi uma revolução. E porque a sua dinâmica fez que se transformasse rapidamente de revolução política, com o derrube do Estado Novo e a independência das colónias, em revolução social, levando à transformação de uma crise de regime numa crise de Estado, na Europa Ocidental, na esfera geopolítica da Aliança Atlântica, provocando o início de uma desestabilização da Europa do Sul, à altura reconhecida por todos os governos ocidentais. Temia-se o contágio revolucionário a Espanha e Grécia, duas ditaduras, e a Itália e França, no rescaldo do maio de 1968 e do outono Quente de 1969.»

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12 Responses to Revolução ou Transição?

  1. Armando Cerqueira says:

    já o comprei e comecei a ler – devagar, como é meu hábito.

    Saúdo o aparecimento de obras sobre este período, que aguardei ansiosamente durante anos, e vivi com muita esperança.

    Armando Cerqueira

  2. O núcleo de classe do estado “novo”industrial-financeiro agrário e colonial seria incapaz de operar uma transformação do regime sem pôr em causa o próprio regime, aliás esta contradição viria a ser superada precisamente à custa dele – reaccionário e colonial ver-se ia implodir ao mesmo tempo na sua legitimidade interna e externa desmoronando-se como um baralho de cartas – embora com a intervenção de algumas cartas fora do baralho -”trunfos”que irão ser jogados em momentos decisivos de um processo de transição revolucionário contido nos limites de uma relação de forças nacional e internacional que acabaria por impôr uma saída de “normalidade democrática” resolvido que fosse o problema colonial.

    • JgMenos says:

      ‘…uma saída de “normalidade democrática” resolvido que fosse o problema colonial’.
      Eis o ponto em que as potências estiveram de acordo, e em que os seus agentes bem cumpriram!

  3. Rocha says:

    A Raquel não publica os meus comentários.

    Mas é assim. Quem vive de trabalhos académicos, raramente aceita críticas incómodas.

    • António Paço says:

      Ò Rocha, o post nem é da Raquel, é meu. E como vê eu publico os seus comentários, apesar de achar este um bocado rombo e desrespeitoso. A Raquel, e muitos como ela, que «vivem de trabalhos académicos», trabalham muito, alguns, como ela, muito bem, prestigiam a sua profissão e o País, e ganham bolsas miseráveis, que não são actualizadas há uma dúzia de anos. Publico-lhe o post, mas se calhar mais valia ter estado calado.

  4. xatoo says:

    um dos aspectos menos focados neste periodo é o do golpe militar de 25 de Abril ter sido tolerado pelas superpotências tendo em vista abrir caminho para a resolução do problema da libertação das Colónias. Por isso foi revolução em vez de transição para “territórios autónomos” como pretendia o Caetano
    Esquece-se que a palavra de ordem mais radical na época foi “nem mais um soldado para as colónias” e que o MRPP foi o único partido que teve militantes presos por essa luta. Todos os demais partidos pretendiam ficar com um cordelinho atado às decisões dos povos “libertados”; um controlo neocolonial que aliás ainda hoje permanece, agora pela via financeira

  5. António Paço says:

    Ao MRPP deve ser reconhecido o mérito de ter mobilizado com a palavra de ordem de «nem mais um só soldado para as colónias». Mas não foi por isso que 432 militantes seus foram presos no final de Maio de 1975 (muito depois dessas mobilizações contra a ida de mais soldados para as colónias) numa acção do COPCON executada pelos Comandos do Jaime Neves e ordenada pelo Conselho da Revolução.
    E também não é verdade essa atoarda de que «todos os demais partidos pretendiam ficar com um cordelinho atado às decisões dos povos “libertados”». Outros partidos da esquerda (ou da chamada «extrema-esquerda») mobilizaram contra a ida de mais soldados para as colónias. E se quer saber, a palavra de ordem de «Nem mais um só soldado para as colónias» nem sequer foi ‘inventada’ pelo MRPP.
    Outra característica do seu comentário é que você se mantém fiel à tradição do estilo de intervenção do MRPP doutros tempos: autoproclamatório e provocatório.

  6. xatoo says:

    muito depois diz vc…
    o MRPP foi fundado em 1970 e desde sempre se manifestou contra a guerra colonial
    por acaso quando escrevi nem foi esse acontecimento que refere que tive em mente. Lembrei-me, entre muitos outros, do comicio de apoio à Casa da Angola no Rossio de 14 para 15 de Agosto quando o ministro sem pasta do GP Alvaro Cunhal mandou reprimir a manifestação causando 1 morto e diversos feridos e encerraram o Luta Popular e até o República. Nessa altura ainda não era certa a hegemonia do partido do Cunhal sobre o MPLA, embora este já tivesse expurgado a corrente maoista do Viriato da Cruz.
    Quanto ao estilo “provocatório” o caralho, esse estilo é fava que tem de ser engolida por quem chama de provocadores aos outros

  7. renegade says:

    Diz o António Paço: “Ao MRPP deve ser reconhecido o mérito de ter mobilizado com a palavra de ordem de «nem mais um só soldado para as colónias».”

    Qual mérito? O mérito de com essa ação ajudar à desorganização das forças armadas para lançar o caos nas colónias? Grande mérito, de facto. Eu diria antes oportunismo.

  8. licas says:

    Lembram-se como o MRPP era designado pelos Stalinistas do PCP?
    Meninos Rabinos Pinta-Paredes . . .

  9. Trabalhador de Portugal says:

    A revolução da fantochada
    Eis militar; em 1973 nas Caldas da Rainha
    Em 1974 em Lisboa e no Ultramar
    Em 1973, admoestado por criticar os amarelos e suas atitudes repressivas perante os seus subordinados. No RI 5 vi muitos militar que não recusaram envergar a farda mas penalisados nos seus direitos – a não promoção. Estes foram os milicianos. Nos amarelos nada disso acontecia – eram uns vaidosos, daí eu ter sido novamente amoestado pelo comandante da unidade onde no 25 de abril prestava serviço militar. Já em terras do ultramar, mal tempo tivera em saborear a paisagem luandense, já a PM me estava a deter porque desrespeitava, segundo eles a uniformização. É que andar com as calças fora dos plainicos era crime. Mas a saga da democratização deste país continua. Em 2006 sou constituido arguido. Porquê? Porque a PSP não cumpriu o seu dever e eu atirei-me através da escrita às incompetentes autoridades deste meu país e nada mais. Constituido arguído pelo crime de ameaças, só que não sei a quem o MM as dirigia – à vizinhança ou à autoridade pública.
    Mas o drama desta dita pseudo-democracia, continua. Em 2010, punido com a pena de 150 dias à multa de 10€ dias. Porquê?! Por ter escrito um nail de indignação.

    • Armando Cerqueira says:

      No meu tempo, no meu meio, chamávamos colónias ao que você teima em chamar ultramar.
      É que, em termos puramente de território nacional, cujos autóctones são nacionais, apenas os arquipélagos dos Açores e da Madeira são legitimamente ‘ultramar’…

      Armando Cerqueira

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