Nos 103 anos do nascimento de Soeiro Pereira Gomes


Completam-se amanhã 103 anos sobre o nascimento de Soeiro Pereira Gomes. O texto que segue, publicado na obra «Vila Franca de Xira: O Homem e a Lezíria», é a minha pobre homenagem.
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Joaquim Soeiro Pereira Gomes é uma das figuras maiores de Vila Franca de Xira. Mesmo não tendo nascido no concelho, a população, sobretudo a de Alhandra, vê-o como um dos seus.
Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô, Baião, em 14 de Abril de 1909, no seio de uma família de pequenos agricultores. Fez os primeiros estudos na terra-natal e seguiu para Coimbra, onde tirou o curso de Regente Agrícola.
Em 1930 e 1931, trabalhou em Angola ao serviço da Companhia de Catumbela, mas regressou devido às más condições de trabalho e ao clima demasiado rigoroso. Apesar de curta, esta experiência em África deu-lhe uma consciência diferente dos valores do humanismo e da liberdade, devido à opressão colonial que ali sentiu bem de perto.
Instalou-se então em Alhandra e começou a trabalhar como chefe de escritório na fábrica «Cimento Tejo», que pertencia ao Grupo Sommer Champalimaud.
A sua intervenção política iniciou-se nos finais dos anos 30, no momento em que aderiu ao Partido Comunista. Pouco tempo depois, integrava já o Comité Central de Alhandra e participava activamente na acção cultural e política que o Partido desenvolvia em todo o Baixo Ribatejo.
Algumas das iniciativas que protagonizou foram extremamente importantes para o desenvolvimento da freguesia de Alhandra. Organizou cursos de ginástica para os operários da fábrica onde trabalhava, ajudou a criar bibliotecas populares nas sociedades recreativas e impulsionou a construção de uma piscina, a «charca», que servisse toda a população.
Era uma altura em que, em Alhandra, os assalariados da indústria e da agricultura lutavam, em conjunto, por melhores condições de vida.
Ao mesmo tempo, começa a dedicar-se à literatura e ao movimento neo-realista, que então dava os primeiros passos. Escreve para o «Sol Nascente» e para «O Diabo» e recebe em sua casa figuras como Sidónio Muralha, Alexandre Cabral e Alves Redol. Com este último e ainda com Dias Lourenço, promoveu e animou inúmeras excursões de fragata no rio Tejo, os tais «passeios culturais» a que anteriormente aludimos. Mais do que a confraternização, o objectivo era o trabalho político e a conspiração contra o regime.

Entre 1940 e 1942, Soeiro Pereira Gomes participou na reorganização interna do Partido Comunista e ingressou no Comité Central do Ribatejo. No seguimento da acção cívica que desde cedo empreendera, empenhou-se activamente no resgate de muitas famílias afectadas pelo grande ciclone de 1941. Tripulando uma frágil barca no Tejo, com três outros trabalhadores de Alhandra, salvou mais de vinte assalariados que se refugiavam da intempérie numa pequena ilhota em frente à cimenteira, o Mouchão de Alhandra.
Foi nesse mesmo ano que publicou «Esteiros», uma obra editada pela Sirius e ilustrada por Álvaro Cunhal. Dedicou-a aos adultos que nunca foram meninos. Crianças que foram obrigadas a trabalhar quando deviam estar a estudar, crianças tão aventureiras quanto miseráveis. Não escondendo demasiadamente os seus sentimentos, o autor indigna-se pela exploração infantil de que são vítimas essas crianças e transmite a sua ternura por elas.
Soeiro Pereira Gomes conhecia bem a realidade de que falava em «Esteiros». Personagens como as do João Gaitinhas, do Maquineta, do Malesso, do Cocas, do Sagui ou do Gineto eram, afinal, bem reais. Representavam as vítimas das injustiças sociais, da exploração dos fracos pelos fortes, do monopólio crescente da grande fábrica perante as pequenas e médias empresas.

Três anos depois, em 1944, começa a escrever «Engrenagem», mas não chega a concluir o livro. A realidade que apresenta nesse romance não difere muito da dos «Esteiros». Retrata as relações económicas e humanas numa grande fábrica de ferro e aço de uma vila ribatejana, que podia muito bem ser a fábrica de cimentos de Alhandra. Os diálogos, a acção, as condições de trabalho – tudo se assemelha a um quotidiano que o autor conhecia perfeitamente.
Os «Contos Vermelhos», que foram escritos na clandestinidade, narram a vida dos resistentes comunistas que, como ele próprio, andavam fugidos à PIDE. Cada um deles é um homem comum – com medo de tudo, mas também com esperança num futuro melhor e com força para o procurar.
Em «Refúgio Perdido», um homem perseguido é obrigado a dormir ao relento depois de perder o local onde se refugiava. Em «O Pio dos Mochos», um «bufo» recebe uma segunda oportunidade para regressar à luta política contra o regime. Em «Mais um Herói», tudo gira à volta da capacidade de resistência dos presos perante os horrores da tortura e dos interrogatórios.
A sua intervenção política, por alturas da publicação de «Esteiros» e da redacção de «Engrenagem», era cada vez mais intensa. Numa altura em que decorria a II Guerra Mundial e o mundo tomava conhecimento da barbárie nazi, Soeiro Pereira Gomes abria as janelas da sua casa para que todos pudessem ouvir as novidades da Guerra através da BBC, que estava proibida em todo o país.
Quando participou nas greves de 8 e 9 de Maio de 1944, como membro do Comité Regional da Greve do Baixo Ribatejo, chamou a atenção da PIDE para as suas movimentações políticas. Quando a Polícia Política se preparava para prendê-lo, conseguiu escapar e acabou por entrar na clandestinidade no dia 11 de Maio daquele ano. Na altura, foi uma vizinha que o avisou de que a chegada da PIDE estava eminente. Só teve tempo de fugir, dentro do seu automóvel, a caminho da clandestinidade.
Mesmo fugido, Soeiro Pereira Gomes não abrandou a sua acção política. Assumiu o comando da Direcção-Regional do Alto Ribatejo, contribuindo para o alargamento da base de apoio do Partido, e foi eleito membro do Comité Central.
Em 1946, elaborou um «esboço sobre a maneira como utilizar as praças de jornas ou praças de trabalho no Movimento de Unidade Camponesa para o derrubamento do fascismo». Esse trabalho foi publicado pela primeira vez no jornal «Ribatejo», periódico clandestino por ele impulsionado. O objectivo do seu escrito era criar «Comissões de Praça», que discutissem com os patrões o valor a pagar por cada jorna.
Torna-se membro da Comissão Executiva do MUNAF – Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista, acompanha as actividades do MUD – Movimento de Unidade Democrática, serve de elemento de ligação entre o Partido e o Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista e participa na primeira fase da campanha presidencial de Norton de Matos.
No entanto, nesta altura, já se encontrava gravemente doente e impedido, por razões óbvias, de ser devidamente tratado. Chegou a estar previsto a sua deslocação a Inglaterra, mas os perigos que encerrava uma viagem clandestina com várias escalas levaram o cancelamento da operação. Tinha apenas 40 anos quando morreu, no dia 5 de Dezembro de 1949.
No largo fronteiro à Sociedade Euterpe Alhandrense, a mais antiga colectividade do concelho (1862), encontra-se o monumento de homenagem a Soeiro Pereira Gomes. Foram seus autores os escultores João Duarte e João Afra, após concurso público em 1981.

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11 respostas a Nos 103 anos do nascimento de Soeiro Pereira Gomes

  1. José Manuel Silva diz:

    Grande Soeiro que foste corrido das escolas para lá se sentarem murchas alçadas!…

  2. jm diz:

    estava eminente: a chegada da PIDE estava IMINENTE.

  3. Pingback: Máquina Semiótica

  4. licas diz:

    Corrente *Neo-Realista*?
    Em termos literários, concretos, definidores, não se sabe o que seja.
    Não têm nem homogeneidade estética, apenas um propósito:
    derrubar o regime de então. E MUITO BEM, afirme-se.
    Entrementes infiltraram-se umas anedotas de escritores/panfletistas
    do cerne mais íntimo dos Stalinistas, exemplo J. Soeiro Pereira Gomes . . .
    ( e mais uns tantos . . .).

    • De diz:

      -A ignorância e/ou o preconceito ideológico transforma o “não sei o que seja” da parte de “licas” num mais difuso “não se sabe o que seja”.
      (a cabotinice não gosta de se apresentar sozinha)

      -A “falta de homogeneidade estética” da corrente (!) neo-realista, do romance histórico, dos escritores românticos,pós-românticos, ou outros quaisquer, poderia ser um dos temas apadrinhados por essa verdadeira anedota nacional (mas profundo conhecedor da literatura), o marialva Sousa Lara.
      ( a ignorância geralmente não tem vergonha.É preciso apontar-lhe quantas vezes a petulância bacoca).

      -O “MUITO BEM” assim escrito e gritado faz lembrar outros “muito bem” assim gritados e assim plasmados nas actas da assembleia nacional fascista.
      (Associações de ideias que lembram o diabo?Ou que desmascaram tiques que lembram precisamente o diabo?).

      -Um dos pais do neo-realismo português (citemos a Wikipedia em inglês, talvez mais ao gosto deste “licas” : “It is right to say that, along with Alves Redol, Fernando Namora and Manuel da Fonseca, Gomes is one of the fathers of the movement known as Portuguese Neo-Realism.) é transformado por “licas” em “infiltrado” na referida corrente (!) neo-realista
      (Será apenas ignorância?)

      -Continuando a citar a Wikipeia em inglês : “Joaquim Soeiro Pereira Gomes (14 April 1909 – 5 December 1949) was a Portuguese writer of realist influence and became one of the major names of Portuguese literature of the 20th century. Pereira Gomes is, along with Alves Redol, the biggest name of the Portuguese neo-realist movement”. Tal escritor é convertido na linguagem de “sousa lara licas” numa “anedota de escritor” .
      (Não.Não é só ignorância.É nitidamente mais outra(s) coisa(s).

      -A tomada de posição por parte de Soeiro Pereira Gomes ao lado dos oprimidos e explorados, assumindo-se em toda a sua vida e obra como um lutador num dos lados da barricada, é provavelmente o maior incómodo para “licas”.O motivo do seu odiozinho que se adivinha neste seu “escrito” triste e ressentido (à boa maneira do seu presidente) é fundamentalmente este.Não se trata só de literatura.Trata-se de algo mais.
      (A impotência que se traduz no ranger de dentes perfeitamente audível já se sentiu quantas vezes por parte doutras figurinhas menores e pusilânimes que se agitam pateticamente.Nem merecem o seu nomear.O que ainda as irrita e frusta mais)

      Os cães ladram.A caravana passa.

    • Vasco diz:

      A tua tia, pá! Já leste o Esteiros? E o Engrenagem? Lê primeiro e depois opina.

  5. De diz:

    Um belíssimo texto

    (“pobre” homenagem,Ricardo? Quem utiliza a sua voz para dar a voz a outros é também credor de.
    Obrigado!)

  6. Ricardo Santos Pinto diz:

    Obrigado, De.

  7. licas diz:

    Não sabe que a Wikipedia vai *ditada* de cá de Portugal.
    Só por vir em Inglês De , bacoco (só?) confere-lhe um significado transcendente
    ao labor do tal camarada. Hoje (há mais de 2 décadas) já ninguém o lê.
    No futuro ficará completamente esquecido, muito ao contrário de A. Redol.
    (CHUPA e avia-te grande De).

    • De diz:

      Sorry “licas”
      Labor de tal camarada nada me diz,como nada me dizem os “conhecimentos literários” de um “licas” em busca de pretexto para mostrar a sua raiva doentia.Esta é má conselheira.
      Não é fácil para um pedante ser assim tão claramente exposto em toda a sua ridícula prosápia.E ao pequeno pedante mais não resta do que o pequeno insulto.
      Sorry “licas”.
      A caravana passa. Vossemecê fica a ladrar

  8. licas diz:

    É do De que temos de aferir a sua qualidade de crítico literário
    pois foi dela a avaliação do mérito do tal Soeiro. Quanto a mim
    a certeza da tal falta de a intrusão de *autores fabricados à pressa*
    tenho alguns indícios. Não fui eu primeiro a afirmá-lo.

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