Quanto valerá o terreno da Alfredo da Costa?

Nunca ouvi, das minhas amigas que passaram pela Maternidade Alfredo da Costa, queixas acerca do atendimento que tiveram ou dos cuidados que lhes foram prestados.

Pelo contrário, as referências que me chegam falam de uma elevada competência e qualidade, que se destacarão dos serviços congéneres, em hospitais públicos ou privados.

Não me espanta muito. Quer pelo seu grau de especialização e continuidade institucional, quer – pela negativa – pelo longo período de encerramento da maternidade do Dona Estefânia (um outro hospital de grande qualidade), ou pelas traumáticas experiências que vivi ou acompanhei no São Francisco Xavier e no Amadora-Sintra.

O que me espanta, por isso, é o abrupto anúncio do iminente encerramento da Maternidade Alfredo da Costa, e da dispersão dos seus profissionais pelo D. Estefânia (cujo fim também já foi falado) e pelo S. Francisco Xavier. Como se fosse uma urgência desmantelar uma instituição pública que funciona melhor do que as outras, ou como se o fraccionamento e dispersão de equipes que funcionam como um todo (num quadro institucional que lhes dá coerência e uma cultura profissional própria) pudesse provocar, com a maior das facilidades, exportação da mesma excelência pra outros lugares pré-existentes.

Sem falar, claro está, da ameaça de um sorridente presidente da ARS que, num país com conhecido deficit de médicos e enfermeiros, fala com naturalidade de despedimentos desses profissionais.

Mas choca-me particularmente a referência ao São Francisco Xavier. Entre outras coisas, por esta impressionante experiência relatada pela Marta, numa maternidade sem anestesista de serviço e onde a única médica só apareceu quando já não era precisa.

Isto, depois de o chefe de serviço lá do sítio, que lhe acompanhou a gravidez, a aconselhar veementemente a fazer antes o parto num hospital privado onde tinha um segundo emprego – ou, é talvez de supor, aquele que considerava como primeiro…

É caso para dizer, como a Marta, no Hospital São Francisco Xavier, não!

Entretanto, e porque dificilmente consigo partir do princípio de que as pessoas com responsabilidades públicas são estúpidas ou ignorantes de questões básicas do seu metier, esta pressa de encerramento da velha mas competente maternidade faz com que uma pergunta não me saia da cabeça:

Ali, em pleno centro da zona nobre de Lisboa, com um parque à frente (que, com um bocadinho de jeito, até lhe pode vir a ser anexado), quanto vale o terreno da Maternidade Alfredo da Costa?

E quanto vale, para quem manda, a saúde das portuguesas e dos seus filhos?

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12 respostas a Quanto valerá o terreno da Alfredo da Costa?

  1. Miguel Aires diz:

    Isto é um convite à troca de histórias de horror? É que conheço histórias de terror da MAC e histórias óptimas do S. Francisco Xavier. Paulo Granjo, isto é uma forma absolutamente obtusa de colocar o problema, que é um problema justo. Isto é pensar e argumentar com os pés.

    • paulogranjo diz:

      De facto, o problema principal não está nas histórias.

      Está, por exemplo, no facto de o desmembramento e/ou “transplantação” de equipas de excelência, criadas e funcionando em instituições globalmente de excelência e com culturas profissionais especializadas e sedimentadas que a estimulam, enquadram e promovem, não obterem resultados semelhantes nem “enxertarem” essa excelência em instituições generalistas em que tais culturas não existem.

      Questão que (de tão estudada e provada) tem obrigação de saber qualquer pessoa que gira recursos em larga escala, mesmo se o seu ethos e experiência profissional venham da implementação e gestão de seguros de saúde de hospitais privados, em competição com os hospitais públicos e sustentados no medo do público em relação à qualidade de serviço que estes últimos prestem. O que é capaz de ser, também, uma questão assim para o relevante…

  2. Bolota diz:

    http://www.youtube.com/watch?v=yxC5urzHq9s&feature=player_embedded#!

    Granjo,

    Para alem disto, que moral tem esta gente em fechar o que quer que seja??? Repare que se dizem nomes e tudo.
    Ou vamos para cima deles com tudo o que tivermos á mão ou estamos FODIDOS, se não tivermos já…

    Abraços

  3. Luis Rainha diz:

    Para ser justo, tenho de deixar escrito que os meus filhos mais velhos nasceram no S,,. Francisco X. e só tenho coisas boas a relatar sobre os dois eventos.

    • paulogranjo diz:

      Fico contente por si.
      É isso que é de esperar e de exigir de uma unidade de prestação de cuidados de saúde.

      Infelizmente, não me parece de todo que as situações com que me confrontei resultassem de “um dia mau”, mas antes de disfuncionalidades estruturais.
      Infelizmente também, algumas outras histórias que me foram sendo enviadas, bem mais recentes, indicam que não se tratou de algum problema apenas localizado lá por alturas do virar de século…

      Mas mais importante me parece, repito, o conjunto de questões que sublinhei quando repondi a Miguel Aires.

      Entretanto, aceite os meus desejos de saúde e felicidade para os seus dois brotos.

  4. V Cabral diz:

    Aconpahando a m/Mãe, fui dezenas de vezes ao S. F. Xavier … últimamente piorou …
    … será que a maternidade funciona bem ?!

  5. José M. Sousa diz:

    Aqui diz que a maternidade da D. Estefânia está encerrada? Pareceu-me ter ouvido o contrário nas notícias. Podia esclarecer?

    • paulogranjo diz:

      Tanto quanto sei e me lembro, o HDE tem a funcionar um serviço de ginecologia e obstetrícia que tem bloco operatório e unidade de internamento, para além de consultas pré-natais e uma unidade especial de neonatologia. Também tanto quanto sei, a antiga Maternidade Magalhães Coutinho (junto à porta lateral) foi fechada e o edifício alberga hoje outros serviços.
      Quererá isto dizer que vários serviços especializados materno-infantis são
      assegurados, com destaque para casos de alto risco ou cuidados intensivos, mas que a maternidade, enquanto tal, foi encerrada. Daí, julgo, a ambiguidade acerca de se fechou (e o quê) ou não.

      Mas, conforme referi, estou a falar das últimas informações de que me lembro.
      Se a questão é importante para si, deverá confirmar o que aqui deixei escrito.

  6. João Messias diz:

    Alguém tem ideia da origem do terreno (propriedade) ou será mais uma embrulhada como a do IPO ou do Aeroporto ou do Júlio de Matos, casos em que os terrenos foram dados ou expropriados para aquele fim específico e no caso de abandonados pela função, terem de retornar aos legítimos herdeiros?

    • paulogranjo diz:

      Segundo o que se tem sabido, o edifício foi doado para exclusivos efeitos de “prestação de cuidados materno-infantis”.
      Pelos quadros jurídicos e hábitos da altura, é de pressupor que os terrenos pertencessem ao doador e fizessem parte do “pacote”.
      Sendo esse o quadro, os terrenos deveriam reverter para os herdeiros caso a função que foi objecto e condição da doação cessasse. Mas pode sempre fazer-se uma lei nova até lá…

  7. Rui Novato diz:

    O recente debate na Assembleia da Republica sobre a Maternidade Afredo da Costa não passou despercebido aos cidadãos não residentes em Lisboa. Em pleno seculo 21, depois do fim do império português, é lamentável que ainda se verifiquem estes tiques centralistas e imperalistas.

    Foi uma vergonha e uma falta de respeito esta atitude de diversos deputados, porque foram debater para a AR um assunto de interesse menor como se tratasse dum assunto de interesse nacional, apenas porque eles, os paizinhos, tios, avozinhos, etc lá nasceram, ou porque o médico x ou y são amiguinhos deste ou daquele deputado. É esta a imagem que os não-lisboetas tem de todo este assunto.

    Até os menos bairristas como eu tem de concordar com os bairristas quando estão perante factos. Por todo o país se assiste a um desleixo por parte de quem nos governa na capital, seja por falta de dinheiro, seja por falta de decisões politicas ou executivas. A oposição em vez de tratar dos assuntos da Nação dedica-se a perder tempo na AR e na comunicação social a falar da MAC. Portugal não é Lisboa, basta desta cruzada bacoca. Falem do encerramento do estaleiro naval, da falta de administração nas empresas de transportes colectivos por todo o país, dos portos de mar, das ferrovias, da energia, dos atrasos das obras na autoestrada porto-bragança, da falta de crédito para as PMEs, do desemprego, etc.

    Durante as últimas decadas assistiu-se por todo o país a diversas alterações nas maternidades, sendo os serviços transferidos para outras unidades maiores. Os lisboetas e os portuenses nunca se importaram minimamente com isso, porque em Lisboa e Porto nada se passava, mantendo-se o status quo.

    O ano passado chegou a vez dos portuenses com o fim do Hospital Pediátrico Maria Pia, o mais antigo do país, com 130 anos, com muito mais impacto que a MAC pois servia todo o norte de Portugal. A revolta inicial dos portuenses e da CM Porto deu lugar à resignação com a integração com o centro materno-infantil do norte.

    Agora é a vez de Lisboa e da MAC.
    Agora é a vez do resto do país se borrifar para os lisboetas.
    Mas não se preocupem. Está provado estatisticamente que a mudança será para melhor. Para muitos portugueses é indiferente o que fazem ao edificio da MAC porque já nos lixaram também os edificios das nossas velhas maternidades.

    • paulogranjo diz:

      A vaga de encerramentos de serviços de saúde é vergonhosa e uma afronta aos direitos elementares de todos os cidadãos, tal como o é a vaga de gente a nascer “ao Km X da estrada Y”.

      Compreendo a sua reacção bairrista, mas há duas coisas em que talvez valesse a pena pensarmos:

      – Em que medida outros encerramentos não passaram mais despercebidos por a reacção dos utentes e pessoal de saúde ter sido atrasada, titubeante, ou aceitando as inevitabilidades do respeitinho por quem manda?

      – A Maternidade Alfredo da Costa não é apenas um problema de Lisboa. Exactamente porque, embora não tendo sido a mais antiga, desenvolveu durante décadas uma especialização integrada e completa materno-infantil, tem uma integração única de serviços, para além de valências também elas únicas e inexistentes noutros lados. Em ambas as vertentes, são características e serviços de que beneficiam, sempre que necessário, casos complexos transferidos de outras zonas do país. Em ambas, também, trata-se de coisas que não são exportáveis em fatias, que levam muito tempo a reproduzir com um mínimo de condições e que não são de esperar noutros sítios no presente quadro financeiro.

  8. Pedro Bettencourt diz:

    A propósito deste post lembrei-me de um artigo que li aqui:
    http://alucidezquetarda.wordpress.com/

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