Carta aos jovens sem futuro

Um homem de 77 anos matou–se na Praça Sintagma, diante o parlamento grego. O seu único crime foi trabalhar mais de 33 anos e não ter dinheiro. “Sou reformado. Não posso viver nestas condições. Nego-me a procurar comida no lixo.

Por isso decidi pôr fim à minha vida”, escreveu numa carta que deixou. Dimitris Christoulas, farmacêutico reformado, não sobreviveu aos cortes sucessivos das pensões feitas pelo governo de Atenas sob a batuta da troika. O governo tinha-lhe liquidado qualquer esperança de sobrevivência, acusou nessas linhas.

Como não queria arrastar os filhos para a miséria com o peso das suas dívidas, matou-se. Segundo o diário grego “To Vima”, a carta expressou uma última vontade: “Acho que os jovens sem futuro um dia pegarão em armas e na Praça Sintagma [a mesma em que se matou] ajustarão contas com aqueles que traíram a nação, como fizeram os italianos com Mussolini em 1945.” E lembrou o castigo que os gregos deram ao governo colaboracionista grego que durante a Segunda Guerra Mundial apoiou os ocupantes nazis.

No mesmo dia em que morreu um homem, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, explicou-nos que o modelo social europeu tinha morrido. E que era preciso que as pessoas se habituassem a isso e aceitassem as reformas que lhes tiram salários e pensões. Draghi, que se nega a apoiar povos e países com o dinheiro da instituição europeia que dirige, é o mesmo que concede empréstimos de quase um bilião de euros a juros reduzidos aos bancos privados do velho continente. O que interessa que os homens morram se os bancos continuam a lucrar?

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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