querido, apatetei a casa

querido, mudei a casa!” é um dos piores programas da televisão portuguesa – num campeonato muito disputado. Tal como tantos outros, é uma cópia de um formato inventado algures mas, neste caso, apimentado com tudo o que de pior tem este tipo de intervenções, em Portugal. Vejamos:

1. Quem habita o espaço é tratado como um atrasado mental. A ideia da surpresa, apaga o papel natural que os habitantes de um espaço devem ter nas decisões fundamentais sobre a sua forma de o viver e apropriar.

2. Os projectistas aparecem centrados na figura de um decorador – por vezes, erradamente, denominado de arquitecto – que aparenta não projectar/pensar. Está ali para decidir as cores e localização dos móveis da marca que patrocina o programa, justificando as suas opções por “ficar bem” e/ou “ser giro”.

3. As figuras que o personificam não se importam de demonstrar publicamente o seu desconhecimento sobre as formas de construção ou dos materiais a aplicar (no programa transmitido hoje a pobre alma que apatetava a casa queria aplicar um mosaico cerâmico da “Viúva Lamego” a que chamava azulejo do Metro com cortes a 45º sem perceber que daí resultariam danos irreparáveis no seu vidrado).

4. Quem apateta as casas também parece desconhecer que, para projectar aquele tipo de intervenções, é preciso uma equipa de projectistas de várias áreas, com diferentes saberes.

5. Também seria demais pensar que cumprem a lei, designadamente, no que toca ao licenciamento (no episódio de hoje colocava-se uma viga pré-esforçada a substituir uma parede estrutural porque parecia melhor ao construtor) ou comunicação prévia das obras realizadas.

6. O distanciamento entre quem aparenta projectar e as marcas que patrocinam o programa é nulo. A ideia é tornar natural aquilo que é uma das maiores fontes de corrupção neste tipo de pequenas intervenções: as comissões que projectistas recebem por “escolher” uma ou outra marca.

Se alguma vez estes senhores entrarem no seu prédio ou estiverem num edifício vizinho, chame a polícia. Eles estão a gozar com a vida de um vizinho seu e o resultado pode prejudicar gravemente a sua saúde.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.