“Florbela”, de Vicente Alves do Ó

Dedicado a Florbela Espanca, o filme de Alves do Ó passa-se numa altura de bloqueio criativo da escritora. Assim sendo, não é o ponto óbvio para se compreender e acompanhar a obra da poetisa ou, pelo menos, não é uma biopic previsível e convencional. Também não é um daquelas ensaios do cinema português recheados de uma suposta teatralidade poética entediante, nem tão pouco tem traços de  novela sentimentalona barata, como se poderia suspeitar

Em vez disso, Florbela é um retrato interessante de uma mulher completamente descontextualizada do seu tempo, num Portugal cinzento e conservador (a trama decorre nos primórdios do Estado Novo), e, claro, interiormente perdida, numa profunda crise existencial, com abortos e casamentos falhados pelo meio. Para além do mais, a relação promíscua entre Florbela e o irmão Apeles é explorada com requinte e conta com cenas particularmente inspiradas, caso das que compõem a noite do leilão.

A chave está também nas interpretações, com destaque para mais um bom papel de Ivo Canelas (Apeles) e para Dalila Carmo, numa recriação magnífica de Florbela Espanca, com a instabilidade da personagem a ser apresentada com uma intensidade extraordinária. Enquanto, do ponto de vista formal, Alves do Ó apresenta uma montagem com um toque de descontrução q.b. (a cena do relógio é um bom exemplo) e tem uma banda-sonora com um sentido dramático apropriado.

Não é brilhante, tem momentos menores (a revelação da tragédia amorosa de Apeles é algo escusada) e, por vezes, é excessivamente melodramático. Mas não deixa de ser uma boa surpresa do cinema português neste início de ano

6/10

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One Response to “Florbela”, de Vicente Alves do Ó

  1. Gentleman says:

    Parece que os portugueses já começam a aprender a fazer trailers. É um bom indício. Talvez me faça reconsiderar e voltar a ir ver um filme português. Isto depois do trauma provocado pelos 90 minutos de penosa tortura a assistir ao incrivelmente péssimo «Amor de Perdição» de há uns anos.

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