Testemunho da Escola de Belas Artes: o Ensino e a Banca

«Até nas próprias Belas-Artes surgiu uma cadeira de empreendedorismo, esse maravilhoso produto cola-tudo. Inscrevi-me por curiosidade. Aparentemente não sou grande candidato a empreendedor porque logo na primeira aula tivemos de oferecer os motivos para nos termos inscrito ao professor de calças bege e camisa azul. “As pessoas que se inscrevem por curiosidade, isso não me diz nada, não vão longe.”»

Ler aqui

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 respostas a Testemunho da Escola de Belas Artes: o Ensino e a Banca

  1. aliás diz:

    Óptima leitura. Reconheci o mesmo tipo de sinais e na altura escapei bem à história do cartão…

    Mas bem mais recentemente, por intermédio de um “gabinete de apoio ao empresário” municipal, fui a um mini-curso de “criação de empresas” “oferecido” por uma tal de qualquer coisa “Consulting”, resumindo uma experiência que passou por bastante divertida até. Ao ter levantado questões do enquadramento fiscal de tal empreendimento, criou-se o caos, os restantes participantes (cerca de 20) não largavam o osso por nitida utilidade das questões que cada um pelas suas razões ia levantando e a correspondida ignorância do formador na matéria. E dizia ele que eram questões para depois, para se arriscar, para isto e para aquilo… que não podia ser com aquele espírito (demasiado indagante e assertivo) que se construia uma empresa.

    Mera impreparação do formador? Duvido que apenas isso. De financiamento, marketing e “relações públicas” percebia ele. Como é possível o tópico “plano de negócios” não ter uma unica referência às questões fiscais… não percebo (ou melhor, percebo! percebo! agora percebo!)

    Num posterior encontro que fiz com o “plano de negócios” elaborado na acima descrita experiência foi a altura de me encontrar com alguêm que me iria ajudar a convencer um instituição de micro-crédito na busca de financiamento, um pouco ao descuido e por curiosidade é certo, percebi a manha e pretendo salientar dois pontos:

    – detalhes do micro-crédito ultrapassados, viabilidade de negócio, montante, prazos, periodos de carência, etc… aos quais o representante se mostrou efectivamente desinteressado foi no momento em que falamos de fiadores e “propriedade inicial que eu pudesse fazer patrimonio da empresa” que o nosso amigo começou a esbugalhar os olhos: como detentor que sou do meu equipamento de produção, meios informaticos vários, meios audiovisuais e comunicação…
    Tomou nota de tudo, com a destreza de tarefa várias vezes repetida, na diagonal e verso do formulário que haviamos preenchido.

    – mas foi quando lhe mostrei a intenção de ao formar empresa incluindo-me como empresário não remunerado que tudo descambou. A minha intenção, talvez simultaneamente ingénua, era de aliviar as obrigações financeiras da empresa, pretendia era pôr a empresa “a rolar” sem ter que acrescentar sobre as obrigações fiscais e sociais um salário (mesmo que mínimo) que iria exigir um fluxo de encomendas que no contexto de risco elevado que é o actual, se tornava simplesmente incomportável.
    Disse-me desde logo, e notou-se, com alguma desilusão visto a minha firmeza nesse ponto, que seria pouco provável nessas condições o crédito ser-me aprovado, explicando-me apenas que o objectivo deste tipo de financiamentos é a “criação do próprio emprego” e que tal opção não se enquadrava.

    … e despedi-me do “agiota” percebendo que este tipo de coisas não são feitas para auxiliar quem precisa, pelo contrário, servem é para que os potenciais devedores cometam riscos inconscientes e fiquem definitivamente nas garras dos filhos da puta, a 48 / 96 / 120 meses, provavelmente para o resto da vida.

    Cuidado…

  2. Samuel diz:

    Muito bom! (infelizmente!)

  3. V Cabral diz:

    A “Belas Artes” merece continuar a ser uma Faculdade com crédito em todo o mundo, não a lixem.

  4. JgMenos diz:

    “…como um bom réptil neoliberal, cuja única lógica é a lógica do interesseiro. No meu quinto ano, tinha um coração carregado de desprezo.”
    Ensino obrigatório e quatro anos de ensino superior para interiorizar o que quem gosta de melões aprende em um dia – o dia em que compra o primeiro melão!!!!

  5. Rafael Ortega diz:

    Entre toda a choradeira tenho a dizer que quando o artista refere que

    “Primeiro, como já acontece cá, com «portagens» sobre o Ensino na forma de propinas. Estas [propinas], apesar das promessas em contrário (…), rapidamente se tornam numa das mais importantes fontes de receitas da instituição, conforme a torneira se fecha do lado do Orçamento de Estado. ”

    isso acontece nos sítios onde não se produz nada que interesse o suficiente.

    Conheço razoavelmente as contas de uma faculdade (não digo qual) em que as propinas são pouco mais de 10% do financiamento. Dotação do Orçamento de Estado é cerca de 44%. Tudo o resto a instituição ganha em concursos nacionais e internacionais, pelo trabalho desenvolvido por professores, investigadores e alunos.
    O orçamento da instituição é de cerca de 85 milhões de €, as contas estão em dia, e ainda há saldos transitados de outros anos.

    Melhor gestão, mais interesse em produzir algo necessário (e que possa ser vendido) e menos choradeira é o que é preciso.

  6. Maria Gancha diz:

    Claro que a curiosidade não interessa aos professores das Belas-Artes. Eles não vivem disso. Só a devoção.

Os comentários estão fechados.