O silêncio e o barulho. (Coragem e cobardia)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lemos belos livros que falam de liberdade. Guardámos esses livros. Ouvimos vezes sem conta tocantes canções que falam de fraternidade. Cantamo-las. Vimos filmes que falam da coragem. Temos connosco as suas imagens. Eu levei a sério essas palavras, essas imagens, essas verdades. Muitos aceitámos com toda a gravidade essas imagens e essas palavras. Transformámo-las em vida vivida.

Outros limitam-se a citá-las suspirando.

Não pude deixar de notar com mágoa, o absurdo silêncio com que tu, tu, tu, e tu, e tu, e tu  também, tu também, e mesmo tu, artista, intelectual, jornalista, pessoa de cultura, alguns de vós a viver vidas miseráveis, outros bem melhor, o silêncio que mantiveram pesado, nos dias que antecederam a Greve Geral de 22 de Março de 2012. Como se pela tua história, pela história dos teus pais, pelas belas ideias que por vezes propagas, não estivesses obrigado a cumprir esta obrigação: a de ajudar este povo, uma vez mais na sua história, a levantar-se do chão.

Esse silêncio é tão mais cobarde, quanto agora tens a ousadia de mostrar o teu escândalo pela agressão da PSP a dois jornalistas. Todos os dias, gente espezinhada, humilhada, morta em vida e morta com morte. Dessa gente ergue-se um gesto de coragem e luta, um gesto que enfrenta toda a chantagem, todo o medo, toda a fragilidade – a Greve Geral – mas tu só te emocionas com a agressão a dois jornalistas (dois “dos teus” – será isso?). Estiveste em silêncio este tempo todo, aqui e ali agitando um tema distante, colorido ou fotogénico, que te comprometa apenas suavemente. Escandalizas-te com a ignorância deste povo. Indignas-te com as salas vazias. Queres que defendam a (tua) cultura.

Mas não tiveste a coragem de abrir a boca pela Greve Geral. Como trabalhador que és, pelo trabalho explorado e maltratado que é o teu. O da cultura e do conhecimento.

Todos se indignaram com a foto da declaração de subserviência ao regime fascista, com a assinatura de Cavaco Silva. É tão fácil gozar com um palhaço… Muitos viram a cobardia nessa assinatura. Mas outros como eu sabem que a cobardia já lá estava antes e nem precisava de confirmação escrita. A cobardia de não sermos dignos dos livros, das canções e dos filmes que guardámos.

 
Nota: O autor deste artigo foi desde sempre solidário com a Greve Geral de 22 de Março de 2012, trabalhou para ela, integrou os piquetes durante a noite e a manhã, quase sem dormir, e participou na manifestação convocada pela CGTP. O autor deste texto condena veementemente as  ilegalidades cometidas pela PSP sobre elementos dos piquetes de greve, manifestantes e cidadãos, inclusivamente a agressão cobarde aos dois jornalistas e a muitas outras pessoas, no Chiado. O autor destaca também a atitude serena de muitos agentes da PSP, que souberam cumprir a sua difícil missão, respeitando a lei da greve e as normas elementares de civismo.
 
 
 

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5 respostas a O silêncio e o barulho. (Coragem e cobardia)

  1. JM diz:

    Muito obrigado pelo belíssimo texto. Fiz greve. Fui um dos muito poucos na minha empresa (uma delas fez greve mas foi trabalhar – nem sei como isso se faz!). Uma outra colega, a qual muito se indigna com a situação miserável deste desgraçado país, confidenciou-se que aderia se não tivesse medo. Medo de quê? Nao sei, medo…
    Que fazer?
    Resistir, resistir sempre, em honra dos que quando era mesmo duro, sempre o fizeram!

  2. Gustavo Carneiro diz:

    Parabéns, Pedro, pelo post. E obrigado. Muitos não gostarão desse teu post pelo menos tanto quanto eu gostei. É isso mesmo. Apoiar e construir a greve pode não ser popular e não trazer, em alguns sectores, pancadinhas nas costas como traz pertencer a «movimentos sociais» todos muito bonitos, muito novos, muito na moda. Mas une, acumula forças, revela combatentes. Enfim, constrói o futuro. Mais uma vez, um abraço.

  3. Jesus diz:

    Muito bom. Dos poucos autores pelos quais ainda aqui venho.

  4. Mário Oliveira diz:

    Que posso mais dizer! Completamente de acordo e solidário com quem asim pensa.
    Já agora ao autor do texto e ao meu grande amigo Chico, que fez o favor de mo enviar, o meu muito obrigado. MO

  5. Vasco diz:

    Fantástico. Não estranho o silêncio cobarde de certos habitués e autores deste blog. Enfiaram a carapuça…

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