Eu estive lá e vi tudo

Eu estive lá e vi tudo. Vi quem atirou a primeira pedra, quem insultou, quem arremessou, quem usou a força. Foi o Governo quando cortou os salários, salvou os bancos, foram as empresas quando fecharam para não perder lucros, foi o ministro quando mandou uma geração inteira de gente, que quer e tem direito e um emprego, emigrar. E é preciso dizê-lo vezes sem conta – tudo isto só aconteceu não porque alguém alguma vez esteve convencido da necessidade de ser despedido ou de lhe cortarem o salário mas porque existem polícias e tribunais, numa palavra, o monopólio da violência estatal.

Ontem assisti a jovens arremessarem ovos podres aos bancos e a polícia a ter o desplante de proteger os bancos, os bancos! Queriam o quê, a outra face? Quem espera que a polícia não seja insultada, não seja provocada, espera que, além de pobres e sem futuro, os jovens abdiquem da decência, da dignidade. A geração mais velha, que não esteve nessa manifestação, alguma vez ensinou os filhos a levar porrada, dar a outra face e ir fazer queixinhas à professora?

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2 Responses to Eu estive lá e vi tudo

  1. Pedro Passos Trocados diz:

    Já agora, uma lembrança:

    A bófia matou a Catarina Eufémia e o filho que esta trazia no ventre. A bófia é a bófia…

  2. Anónimo diz:

    “… além de pobres e sem futuro os jovens … A geração mais velha, que não esteve nessa manifestação …”

    Cara Raquel Varela,

    nunca vi em nenhum blog de esquerda o assumir de forma tão clara esta dicotomia:
    – por um lado, os “mais velhos” que, de boa fé e à custa de endividamento a pagar pelas próximas gerações, criaram empregos estáveis, direitos adquiridos, reformas, …, e que deles usufruiram enquanto puderam. É essa mesma geração que luta agora por manter esses direitos (veja uma foto dos dirigentes da CGTP), mas também por convencer “os jovens” de que estão a lutar por direitos de que só não usufruem porque o capital, a troika, o governo não quer. Por outro lado, a “geração mais velha” tem medo das manifestações da “geração mais nova” porque sabem que é por aí que os seus direitos poderão ser ameaçados (e não, verdadeiramente pela troika, pelo governo, …).
    – do outro lado, “os jovens”, que continuam a acreditar que podem aceder aos mesmos direitos da geração “mais velha” sem perceber que isso é impossível (o mundo efectivamente mudou e esses direitos não são sustentáveis) e que, paradoxalmente, ao defender esses direitos contribui para não ter direitos nenhuns.

    Daí resulta que os que podem mantêm “todos os direitos” à custa dos que não podem e que não têm direitos nenhuns (a não ser pagar as dívidas contraídas para manter os direitos dos outros).

    O problema é que a esquerda continua a querer estruturar a sua análise ao longo da dicotomia trabalhadores/patrões (capitalistas) e não tenta sequer outro tipo de análise.

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