Parque Escolar, ainda é só fumaça

Finalmente veio a público o primeiro relatório de uma auditoria à Parque Escolar (PE). Curiosamente, a Inspecção-Geral das Finanças (IGF) antecipa o que a auditoria do Tribunal de Contas, iniciada há dois anos, tarda em concluir – há inúmeras ilegalidades nas formas de contratação –, não deixando qualquer espaço para que a decisão daquele órgão de soberania não seja a mais extensa lista de declarações de nulidade contratual da nossa história.
Contudo, o relatório da IGF é extraordinariamente temente ao poder, servindo para que PS e PSD o invoquem para extrair conclusões opostas. Tudo o que pode beliscar um e outro partido é cautelosamente evitado. Ou será que não há consequências financeiras da decisão de suspender as obras com estaleiro aberto? Ou será que não se identificaram estranhas familiaridades e repetições nas contratações realizadas durante o governo de Sócrates?
Mas isto não quer dizer que a IGF não tenha encontrado culpados. A ideia que perpassa o documento é que os arquitectos terão levado a impotente direcção da PE a gastar verbas sumptuosas em luxuosos rituais. Os inspectores não se inibem de se transformar no mais ortodoxo crítico de arquitectura identificando madeiras e pedras naturais “nobres”, surpreendendo-se com a utilização de guardas em aço inox nos exteriores ou denunciando a “qualidade excessiva” de torneiras e misturadoras.
Pena que não se comparem os custos inerentes à desadequada revolução legislativa dos últimos anos, feita à medida de grupos de interesses, com as minudências denunciadas. Cem escolas de torneiras de “qualidade excessiva” não pagam uma escola com inúteis aparelhos de ar condicionado.

Hoje, no i

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , . Bookmark the permalink.

11 respostas a Parque Escolar, ainda é só fumaça

  1. Armando Cerqueira diz:

    Tiago,

    quem tem cu tem medo…

  2. Antónimo diz:

    Não percebo a última frase: «Cem escolas de torneiras de “qualidade excessiva” não pagam uma escola com inúteis aparelhos de ar condicionado.».

    Quer dizer percebo, mas não percebo para o que se quer exactamente chamar a atenção. Aquele “inúteis” pertence a quem?

  3. rg diz:

    Tiago,

    Os gastos em torneiras, azulejos, painéis disto e daquilo, candeeieros, etc tem uma razão de ser: os muitos arquitectos que gostam de ganhar “por dois carrinhos”, são os legítimos honorários que recebem e são as não legítimas comissões que recebem à parte por especificar no projecto as características técnicas que só certos produtos e marcas têm. Sei do que falo e o Tiago sabe que assim é.
    O que faltou aqui foi a PE deixar muito claro no acto de adjudicação que havia um manual de equipamentos e de acessórios e que este seria comum a todas as obras.

    • henrique pereira dos santos diz:

      Suspeito que alguém o informou mal sobre a legislação aplicável (independentemente de haver alguma absurda e excessiva). O uso de ar condicionado não é obrigatório em lado nenhum em que os projectistas queiram fazer projectos contando com princípios gerais de eficiência energética. Mas se os projectistas optam por soluções de projecto em que não se prevê circulação natural de ar, não se podem abrir janelas e coisas que tal …
      henrique pereira dos santos

    • Bolota diz:

      Tiago,

      Neste regabofe, parece que o Zé Aguiar-Branco tambem mamou a bom mamar.

      A seguir são Ministros

      Abraços

  4. ricardosantos diz:

    Pois é depois de tanto alarido e de tanto tempo gasto a caluniar,
    a montanha pariu um rato custa a roer não custa?

  5. Silvério Coutinho diz:

    É o que digo, deviam ter contratado o Souto Moura.
    SC

  6. Continuaremos a discutir o excessivo bom gosto da Parque Escolar até chegarmos à subjectividade do juízo estético kantiano?

    http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.pt/2012/03/contrariedades-resumo-ja-desactualizado.html

  7. Anónimo diz:

    Caro Tiago,

    Sabendo-se à partida que o universo de escolas públicas sujeitas a intervenção seria limitado (pelo menos no curto/médio prazo devido a restrições orçamentais – sim, é verdade, há restrições orçamentais!) quem procede à renovação das escolas devia ter algum “pudor” no nível de qualidade dos materiais e equipamentos escolhidos. Sem esse “pudor”, acentua-se ainda mais o fosso entre as (poucas) escolas intervencionadas (com excelentes materiais e equipamentos) e as outras onde se passa literalmente frio. O alargar deste fosso em nada contribui para o aprofundar de um conceito de escola pública solidária e factor de coesão social. A justificação é que “uma escola pública merece o melhor” (tendo como referência a “escola privada”) mas a consequência é que se criou uma escola pública “de primeira” e outra “de segunda”.

    O mesmo se pode dizer aliás das escolhas das escolas a intervencionar. Dou-lhe um exemplo. Uma das escolas renovadas foi a Infanta D. Maria, em Coimbra, uma escola que com as condições que tinha era geralmente a melhor escola pública nos rankings. Sem querer discutir o mérito dos rankings (não é isso que está em causa no meu comentário), o que é um facto é que as condições anteriores à renovação dessa escola não eram um factor impeditivo da obtenção de bons resultados. Porquê então renová-la quando há certamente outras em que o mesmo valor investido traria um maior potencial de melhoria dos resultados dos alunos? Será porque se trata de uma escola urbana de uma cidade “grande” do litoral frequentada pela filhos da elite conimbricense?

  8. Arquitecto diz:

    Será que ninguém percebe que o problema da derrapagém não é o custo das obras (que tendo em conta a montanha legislação existente e exageradamente exigente, está muito pouco acima do possível), o problema foi os sr.s ministros, secretários de estado e conselheiros negligentes terem decidido que obras de 10M podiam ser, milagrosamente, feitas por 3M. A “derrapagem” começou logo nas 4 “escolas piloto”, factos que foram mais uma vez negligenciados pelos directores e governantes.

    Será que ninguém (nem mesmo os inteligentes peritos destas auditorias) percebe que as “torneiras de qualidade excessiva” têm qualidade excessiva porque têm um uso muito mais intenso (e mais violento) que as torneiras de uma casa? Será que não percebem que as guardas que falam provavelmente são o resultado de obrigações legais. Querem o quê? Escolas novas feitas com os materiais que estão em promoção no AKI, e passados 6 meses quando estiver tudo a cair por falta de qualidade o que vão dizer?

    Parece que o país está cheio de disciplos do famoso e iluminado director da Escola de Carcavelos que decidiu trocar as “luminárias caras” que estavam no projecto por umas de 30€ bem mais em conta. Só gostava de saber se foi ele também que fez os testes luminotécnicos para garantir que os alunos não ficam vezgos, e se ele se responsabiliza pela durabilidade e manutenção da sua escolha.

    Este relatório da auditoria à Parque Escolar da Inspecção-Geral das Finanças opina sem razão, qualificação, conhecimento técnico ou legislativo, sobre as opçoes de projecto que competem e são da responsabilidade dos Arquitectos. Estão a usar os Arquitectos (que foram sempre os mais fracos desta trapalhada) como uma das principais justificações para as “derrapagens” do processo. Estão a difamar publicamente a já fragil reputação dos Arquitectos em Portugal. Passadas duas semanas o que é que a Ordem dos Arquitectos fez? Nada! Continuam entretidos a organizar e a estourar as cotas dos associados em festarolas com os amigos do costume no Lux…

    Para que servem estes tipos afinal?

Os comentários estão fechados.