A verdadeira história de Jos Van der Meer

Se o gordo do Z. não tem tido aquela complicação com a banda gástrica um dia antes do fecho, eu ainda estava a aviar ‘press releases’ de tintas ecológicas e mobiliário de jardim. “Vais tu a casa do Keller Esteves fazer a reportagem”, despachou o chefe. “Leva fotógrafo”. Os veteranos assobiaram. “Eh, miúda! Ir a casa do luso-americano é como ir ao MoMA sem as filas, é tudo de Poul Kjaerholm para cima. Vê lá não confundas o Gerrit Rietveld com o Wim!”.

Eu andava com sonos atrasados depois de semanas a memorizar “Les plus belles chaises design” pela noite dentro, profissão oblige. Claramente, as noites de Fred Anthony Keller Esteves II, “Fred para os amigos”, tinham mais horas que as minhas: na biblioteca de dois andares empilhavam-se 10 mil títulos sobre arte e design do século XX. Esmagada, aterrei num PK22 de bela patine.

“Os seus móveis são incríveis”, elogio, com o fotógrafo a flaxar maniacamente tudo o que tem quatro pernas – três no caso da cadeira Formiga de Arne Jacobsen que serve de suporte a uma  pilha de revistas no canto da sala.

“Ah, mas ainda não viu o meu bem mais precioso”. Leva-me ao corredor que conduz ao quarto. Ao fundo, a porta que Charlotte Perriand desenhou para o hotel Les Arcs, entreaberta, deixa adivinhar uma sucessão de móveis que eu reconheço da Elle Décoration.

Fred aponta para um aparador baixinho com portas de correr garridas. “Sabe de quem é?”.

Folheio mentalmente uma pilha de edições da Architectural Digest. “Parece saído da escola holandesa… Friso Kramer, Cees Braakman… Qualquer coisa produzida pela Pastoe… Tubax?” , arrisco.

“Nope! Mas não está longe, não está longe… Lembra-lhe muitas coisas, o meu aparadorzinho…”.

“Sim, parece-me que já o vi em algum lado”.

“Ah! É essa a beleza do objecto: o arquétipo, a forma pura que a mente reconhece, a proverbial cadeira ideal de Platão – ou neste caso, o aparador”.

“O Platão falou em aparadores?”.

Ri-se. “É um Jos Van der Meer. Raríssimo, só foram feitos três. Um está no Museu Britânico do Design. Outro foi vendido na Christie’s por 50 mil patacas. E eu tive a felicidade de…”.

“Admito a minha ignorância. Nunca ouvi falar de Jos Van der Meer. Belga?”.

“Holandês. Não se mortifique, eu também nunca tinha ouvido falar dele. Não encontra um único livro na minha biblioteca que fale dele. Nem na minha biblioteca nem em biblioteca nenhuma. O homem nunca existiu!”

“E no entanto, qualquer movélzinho dele vale mais que três Eames Lounge chairs juntas”, prossegue, a varrer o espaço com os olhos, como que a assegurar-se de que não há nenhum Eames à vista.

“Eames, Eames… Aquilo é uma praga pior que a Lacoste. Os pólos até eram bem feitos, mas quem é que quer ser apanhado de crocodilo ao peito? A malta acha logo que é da candonga. Os Eames são um enorme crocodilo na sala, e é pena, porque aquelas cadeiras em fibra de vidro são definitivamente ‘cute’. Olhe, foi por aí que o meu Jos começou… Tem tempo para uma história?”. Refastelada num cadeirão “Mushroom” cor de canário a fugir, com o fotógrafo emboscado na cozinha, tenho tempo para tudo.

“O Jos Van der Meer – perdoe-me por não lhe revelar o nome verdadeiro – era um falsário com alma de artista. Um talento: nada dessas cópias toscas de cadeirões Wassily que se vendem no ebay por quaisquer 500 euros, não. Para ele o prazer estava todo na ilusão, no logro… Já não se fazem burlões como o Jos: vendeu mil cadeiras LCW de uma edição limitada de 50. Forradas a pele sintéctica de chita americana, edição Herman Miller de 1947. Apócrifa, claro”.

“Claro”.

“As cadeiras vinham todas de uma ‘sweatshop’ chinesa. O Jos era um perfeccionista, e produzia amorosamente todos os autocolantes com a lista das patentes, que depois envelhecia com lavagens na máquina e colava por baixo dos assentos. Martelava as cadeiras, deixava-as à chuva a ganhar patine… Tinha um gozo especial em mostrar os defeitos do produto. ‘Slight discoloration on the back (see pictures). Minor scratches under the seat. In good vintage condition‘. O gozo não era fazer passar cópias chinesas por cadeiras autênticas, isso toda a gente faz. O gozo era enganar o preto com a história das edições especiais, ‘extremely rare!’. E a margem era de 750 por cento. ‘Easy bucks’. Toda a gente quer uma cópia genuína da ‘real thing’.  O crocodilo na sala, está a ver…”.

“Um-Umm”.

“Mas fartou-se. Vender a torre Eiffel a pacóvios tem graça a primeira vez, mas depois cansa. Virou-se para o design escandinavo. Cansou-se outra vez. E um dia teve a ideia que viria a revolucionar a história das burlas no mobiliário vintage: em vez de falsificar os móveis, falsificou o designer”.

Eu lançava olhares aflitos à luzinha vermelha do gravador, não páres agora!

“A pedido dele, uma jornalista que andava a cobrir-lhe a cama Eileen Gray noite sim, noite não publicou um perfil delirante no Washington Post. ‘O designer misantropo’. Jos Van der Meer era revelado ao mundo como o terceiro segredo de Fátima contado aos pastorinhos do design, pobre génio enterrado sem fama nem glória. No entretanto, já o Jos-vivo tinha criado entradas na Wikipédia em todas as línguas, com erros de palmatória em árabe e mandarim, é certo – culpa da agência de tradução –, e uma foto cheia de grão sacaneada de um obituário polaco dos anos 30. Twitou tweets laudatórios, falsificou páginas de fãs no FB, e lançou-se aos blogues do design como sete ‘bots’ a um osso. Pouco tempo depois, em França, um alfarrabista vendia a um coleccionador de Mid Century Modern o ‘Vers une architecture’ com uma dedicatória do Le Corbusier. ‘Ao meu amigo Jos Van der Meer, artista acima dos artistas, farol do homem moderno’. A falsificação de assinaturas era uma especialidade do Jos-vivo, que desde pequenino rubricava as justificações para a escola no cursivo elaborado do pai, e um amigo em Paris fez de pato, vendendo por cinco euros aquela primeira edição autografada pelo mestre. Três semanas depois, o Jos-vivo pôs à venda num leilão suíço uma ‘credenza’ (os franceses chamam-lhe ‘enfilade’, parece) assinada pelo Jos-morto. Vendeu-se por 15 mil euros, pagos por um testa-de-ferro do Jos-vivo com o que lhe sobrou das Eames falsas e um empréstimo que pediu ao pai a fundo perdido. Um investimento em causa própria. Aficionados do modernismo teciam loas ao humanismo revolucionário das criações do holandês. O blogue Apartment Therapy – conhece, claro – dedicou-lhe um post: ‘Como obter o look Jos Van der Meer sem hipotecar a casa segunda vez’, com propostas de móveis parecidos com os do Jos à venda nas lojas Target. Fotos da nova casa da Lady Gaga na Marie Claire Maison identificavam ‘uma mesa recuperada de um matadouro, rodeada das cadeiras Jos Van der Meer, modelo J07’. A glória chegou quando a Ikea lançou as estantes e cómodas Cöndra, uma cópia descarada do trabalho do artista apócrifo. O Jos-vivo ria-se a bom rir. Pôs à venda no e-bay dois cadeirões do Jos-morto, exemplares únicos carpinteirados pelo próprio em materiais reciclados, à maneira de Rietveld, entregas em todo o mundo. Bateu recordes de preço. O nome passou a fazer parte das ‘metatags’ de qualquer venda de tarecos online:  ‘Eames, Verner Panton, Mies Van der Rohe, Jos Van der Meer’ passaram a ser as buscas com mais ‘hits’ no google. Museus do Design de todo o mundo disputavam as peças que o Jos-vivo ia falsificando a conta-gotas com a ajuda de um marceneiro insuspeito e madeira de cofragem comprada por tuta e meia numa serralharia abandonada dos anos 40. Agora, Jos só precisava de vender um banquinho de quando em vez para aguentar a vida estróina que levava”.

“Morreu?”

“No ano passado”, confirma Fred, contrito. “Mas antes deixou-me o aparadorzinho que V. viu na entrada, com o respectivo certificado de autenticidade”. Sorri.

“E como é que descobriu que o Jos-vivo, quer dizer, o Jos-entretanto-morto… Enfim, que a história que me contou…”

“Ah, segredos do métier. Posso dizer-lhe que o aparadorzinho comprou o meu silêncio até agora. E olhe que foi um silêncio caro”. Ri-se.

“Mas se o Jos nunca existiu, o seu aparador não vale rigorosamente nada”, atiro.

“Aí é que V. se engana, minha cara: outros têm a cópia do original ‘made by Vitra’ e o caracinhas mais velho. Eu tenho a cópia genuína, the real thing!”.

Escrevi o meu “exposé” na Architectural Trends com má consciência. Fred era um tipo simpático, mas eu era estagiária, tinha contas a pagar, e o escândalo prometia imortalizar o meu nome a tinta indelével num contrato de duração indeterminada. E depois, ele nunca disse ‘off-the-record’.

Três dias depois, liga-me Fred a agradecer: fotos belíssimas, texto escorreito, “V. vai longe, minha cara”. E mais: um coleccionador privado quer desembaraçá-lo do aparadorzinho verdadeiro do falso designer holandês contra uma maquia de seis algarismos. “Van der Meer vive! Mas eu não vendo! A não ser pelo preço certo!”, ri-se.

Naquele momento senti-me tão usada como uma cadeira Thonet num bistrot da Rive Gauche.

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9 respostas a A verdadeira história de Jos Van der Meer

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  2. m diz:

    a história é de fábula e a forma como foi contada fabulosa.. concordo com o Fred , há-de ir longe , Morgada. ty , fez-me rir à brava.

  3. espero não ter que esperar sentada (numa cadeira Thonet) pelo próximo post

  4. Morgada de V. diz:

    São muito amáveis (e sobretudo pacientes, para chegarem ao fim deste lençol).

  5. Eu compro! Aliás, já comprei (a partir de agora sou tua cliente) – que história fantástica e tão bem escrita.

  6. Luís Almeida diz:

    Obrigado pela frescura do estilo que me pôs tão bem disposto ( embora ofegante ), querida Morgada!
    Mas, o conteúdo, se apreendido, também tem que se lhe diga…

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