9 de Março

O Dia Internacional da Mulher está a perder o sentido, é certo, sobretudo porque se declara muito sem se estar disponível para mudar nada. Aproveita-se a comenda para fazer da mulher biombo de sala.

A classe dominante, sobretudo a do género feminino, tomou conta da efeméride para falar de tudo e poder continuar a assobiar para o lado. Ainda assim, se do natal ao animal tudo tem dia neste mundo, qual o mal que quem assim entenda celebre os direitos que já se conquistaram, lembre os que ainda estão por chegar e brinde àquelas que ao longo dos anos deram sempre o corpo às balas?

Uma mulher pode simultaneamente ser revolucionária e usar véu como ser retrograda e fazer nudismo. A dimensão da liberdade que se conquista para os seios nem sempre é proporcional à emancipação de quem as leva penduradas. O papel que jogam numa dada sociedade não se traduz pelo diâmetro do decote mas pela profundidade das raízes da sua consciência de classe. As latifundiárias têm grilhões diferentes dos que castam as camponesas e as madames nunca saberão como vive a operária.

Ainda há palermas que acham que o machismo se enterra com palavras e o feminismo se decreta com boas intenções. Outros, menos espertos ainda, entendem que a exaltação do corpo, independentemente da formosura com que são desenhadas, reflectem por si só a heterossexualidade de quem as exibe. Para eles, uma lésbica terá sempre buço, curvas fortes e andar de cavaleiro, ao passo que um gay tem que ter trejeitos, voz fininha e olhar de Cinderela.

Os imbecis, coitados, dirão sempre que quem deu o peido foram eles e não elas, perpetuando o patriarcado em nome de uma qualquer corte ao feminismo burguês, do burn the bra ao evangélico.  À emancipação da mulher devia aliar-se a emancipação do homem, sem cair na ratoeira de achar que a única posição não sexista para foder é fazer amor de lado. O pífio que estufa o peito para dizer que superou o machismo deve ser investigado. É na assumpção do vício que se começam a esboçar virtudes, não o contrário. A moral sem bons costumes nunca pariu resultados.

Não há nada mais sexy do que um homem feminista, não é assim Sérgio Lavos?

Ler também: 8 de Março (1, 2, 3, 4 e 5)

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , , , . Bookmark the permalink.

5 respostas a 9 de Março

  1. JgMenos diz:

    Tantas palavras à volta de machismo e feminismo que em final resulta nada de compreensível.
    Se tudo se resume a respeito pela liberdade e consequentemente pela diferença!

  2. von diz:

    Os “dias de…” como o da mulher ou o da criança, são o primeiro passo para o resto de ano sem respeito, tolerância e igualdade. O dia da mulher são todos os dias do ano. Todos!

  3. Rocha diz:

    Discordo dessa ideia que o homem feminista é sexy. Acho que isso é coisa de mulher. Para ser franco não gosto de nenhum ista entre os géneros, a única coisa que para mim poderia ser sexy seria a própria ideia de igualdade, não uniformidade, mas igualdade no respeito e responsabilidade.

    A ideia do patriarcado e do anti-patriarcado, como conceitos em si, são algo que eu rejeito totalmente. Sei que isto pode desagradar a quem procura coisas sexys e excitantes no feminismo. Implícito à ideologia do anti-patriarcado está que um matriarcado seria melhor, ora isto para é uma questão inteiramente falsa. Fora da consciência e análise do que realmente determina o poder, que é a classe, a questão de um poder masculino ou feminino não faz diferença nenhuma. A guerra, exploração, embrutecimento, alienação, poluição e demais flagelos não têm qualquer solução anti-patriarcal, como não teriam uma anti-matriarcal.

    Não há qualquer definição positiva ou negativa do exercício do poder em linhas de género. Ser governado por homens burgueses ou mulheres burguesas é exactamente a mesma coisa. E por isso eu rejeito qualquer desvio de atenções da luta de classes para a luta “anti-patriarcal”. Anti-patriarcal, não é a mesma coisa que a luta pela igualdade entre géneros (que na prática é mais uma expressão da luta de classes e de solidariedade entre trabalhadores e trabalhadoras), porque a luta contra a desigualdade não põe o problema como sendo o género A ou o género B (como se algum género fosse intrinsecamente mau), mas sim na própria desigualdade.

    Posso parecer repetitivo mas não posso deixar de insistir em dizer: o grande problema de que sofrem as mulheres, não é opressão de género, é opressão de classe.

    Sei corro o risco de ser chamado conservador, antiquado ou coisas piores à conta destas minhas opiniões. Mas gosto demasiado de mulheres para as colocar num pedestal. Porque gosto delas trato-as como iguais, no respeito pela diferença. E este igual não é veneração, igual é respeito e respeito está no respeitar e no ser respeitado.

  4. Dora diz:

    Em primeiro lugar queria dar os meus parabéns ao 5dias por uma vez mais não ter deixado passar em branco um dia tão importante como o dia internacional da mulher. 18 foram os post a nós dedicados. Como mulher não podia deixar de me sentir lisonjeada.
    Os temas foram suficientemente abrangentes, desde a origem do movimento feminista, passando pela crise e crispação dentro do próprio movimento, à inclusão da mulher como fundamental para a luta por uma sociedade melhor.
    Homenagem seja feita a Paulo Jorge Vieira cujos posts foram todos eles sem excepção dedicados à condição feminina e à sua luta enquanto tal.
    Discordo em absoluto da redução da importância do papel da mulher quando e apenas se encontre ao serviço da luta por uma sociedade melhor. Uma mulher antes de ser lutadora é mulher, e essa condição por si só é objecto de descriminações várias, e é contra essas discriminações que os movimentos feministas tanto lutam e lutaram.
    Os comentários esses também foram reveladores. E todos feitos por homens.
    Ficámos a saber que se deve fazer uma distinção entre feminismo proletário e o pequeno-burguês, (o da Tatcher e da Sarah Palin…); que existe uma classe de miseráveis a abater (as feministas das letras e das academias…); que a mulher apenas existe enquanto trabalhadora; que ser mulher implica gostar de musica chata, e que pelos vistos isso é romântico; que o dia da mulher é todos os dias e que estas até são lúcidas.
    Pois eu como mulher digo que a Sarah Palin é apenas uma abécula com olhos, que nas academias deve haver liberdade de pensamento (se poderão existir aquelas que perdem tempo em discutir quem são as verdadeiras feministas, outras dedicam-se em monitorizar a condição da mulher dos nossos dias e a alertar para os seus perigos), que existe mais mulher para além da mulher enquanto trabalhadora (da mesma forma que existe mais homem que o homem trabalhador), que musica chata não dá tesão, que se o dia da mulher fosse todos os dias não haviam despedimentos de mulheres grávidas só pelo facto de os direitos associados aos da maternidade serem prejudiciais à produtividade, e que as mulheres são tão lúcidas que sabem que o seu papel não é o papel da fêmea do macho, mas sim de um ser humano que apenas nasceu com órgãos reprodutivos diferentes e que esse facto não tem que determinar a submissão de uns a outros, mas sim de igualdade.
    Sou o que sou, vivo como vivo, penso o que penso e faço as escolhas que faço graças ao movimento feminista. Não nos podemos esquecer disso. Não nos podemos esquecer que se não fossem os movimentos feministas as mulheres ainda hoje não teriam o direito de voto, não podiam sair do país sem a autorização do marido, estudar, trabalhar, ser independente financeiramente do marido, ter uma vida sexual plena, enfim, ter o poder de decidir o rumo e a forma como quer viver a sua vida.
    E termino dizendo que tenho pena que tenha sido a única mulher a deixar o seu testemunho e que uma vez mais se constate que até aqui os homens “dominam”.

Os comentários estão fechados.