Síria: contra o ditador e contra os ‘amigos’ da NATO

A história não é a preto e branco e um dos grandes equívocos da esquerda no século XX é o campismo, ou seja, a teoria de que há dois lados da barricada, o imperialismo e o antiimperialismo, e nós só temos de escolher um deles, nada mais. Putin parece opor-se à hegemonia dos EUA? Estamos do mesmo lado, risca-se a palavra Chechénia do dicionário. O Irão denuncia o esmagamento da Palestina por Israel? Não se diz nada da opressão das mulheres, dos sindicalistas e da oposição democrática a Ahmadinejad. Cuba resiste ao domínio norte-americano? Silêncio total sobre as malfeitorias da ditadura castrista. A ditadura síria procura manter-se no poder esmagando o seu povo, mas é ao mesmo tempo ameaçada de invasão pelos EUA? Só podemos escolher entre estar com Assad ou com Obama.

Matar um povo barricado numa cidade é genocídio, e qualquer insurreição popular democrática contra uma ditadura – independentemente das direcções políticas que estão à frente dessa insurreição – deve contar com o nosso apoio. O ditador sírio deve ser derrotado e pagar pelos crimes bárbaros que está a cometer.

Porém, se a Síria for invadida pelas tropas imperialistas dos EUA, da UE e outros, não faz qualquer sentido alinhar ao lado dos ‘democratas libertadores ocidentais’. Na hierarquia mundial das nações, a Síria é um país dominado, e os supostos ‘democratas’ norte-americanos e europeus são os dominadores. Não há, a não ser muito conjunturalmente, nenhuma ditadura no Mundo que não conte com a complacência ou o apoio directo dos ‘democratas’ imperialistas norte-americanos e europeus.

Se o regime sírio, ainda que tibiamente e apenas para salvar a própria pele, decidir enfrentar a invasão imperialista, o dever de qualquer revolucionário internacionalista continua a ser o de combater os invasores imperialistas – neste caso, e durante essa hipotética conjuntura, militarmente (não politicamente) poderíamos ver-nos a disparar para o mesmo lado que o ditador do país dominado. Enquanto/se isso não acontecer, estamos do lado dos insurrectos contra o ditador. Não é esmagando um povo que se reforça a sua capacidade de resistência ao imperialismo.

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72 Responses to Síria: contra o ditador e contra os ‘amigos’ da NATO

  1. PedroBergano says:

    Precisamente, Raquel: as coisas não são apenas a preto & branco. E se a tal “insurreição popular democrática” (se for como a da líbia…) fizer parte do tal plano de invasão imperialista, ainda estamos do lado deles?

    • CausasPerdidas says:

      Já lhe passou pela cabeça que o apoio do imperialismo a certos sectores da revolta Líbia também condenou as aspirações daqueles que se manifestaram contra a ditadura e que foram violentamente reprimidos?
      Na Síria, qual o papel da Esquerda quando o povo está farto da tirania oligárquica e da tortura, e se manifesta? O que deve dizer um revolucionário diante da revolta popular legítima, “ide para casa que estais a servir o imperialismo”? Apoiamos os verdugos e deixamos os fundamentalistas e os agentes ocidentais dirigirem a luta? Ou, mesmo com meios mais fracos, intervimos nessa luta para que se transforme em luta socialista?
      Se bem nos lembramos, muitos foram os que à Direita e à Esquerda argumentaram com a possibilidade dos sectores fundamentalistas tomarem conta do Egipto durante as revoltas populares contra o “faraó”… Diante da realidade, do outro lado da barricada, os sublevados egípcios devem ter-se preocupado muito com esses exercícios de futurologia política dos ocidentais…
      Hoje, com todas as contradições, próprias das revoluções, muitos egípcios fizeram a aprendizagem da insubordinação e continuam a sua luta. Uma luta que passa pelo confronto político entre revolucionários socialistas, laicos, e os muçulmanos.
      No Egipto, o processo está longe do fim. Tal como na Líbia: ou será que perante a normalização imperialista, a única coisa que a Esquerda tem a oferecer é a nostalgia do regime de Gadafi?
      Mais um pouco, quem denunciar a corrupção de funcionários da OLP e atacar politicamente o “Hamas” é um agente sionista…
      A Esquerda não deve ter “filhos da puta”.

  2. Vasco says:

    Uma análise esquemática da Raquel Varela. Mais uma. Se o início do seu raciocínio até poderia estar certo, pelo menos em teoria, borra a pintura quando se afirma «do lado dos insurrectos». A questão é que a natureza, ideologia e apoio desses insurrectos não é uma questão menor. Ou se acredita no que dizem os média ocidentais que falam de civis inocentes e desarmados ou então vai-se um pouco mais ao fundo da questão e se verifica quem são estes «rebeldes» (de que a NATO, o BE, o francês NPA e a Raquel Varela tanto gostam). E tudo aponta para que – pelo menos uma considerável parte deles – sejam armados pela Turquia, Arábia Saudita e Qatar (essas democracias, como se sabe) e sejam próximos dos Irmãos Muçulmanos, sob a alçada de quem está, por exemplo, o Observatório Sìrio dos Direitos Humanos, com sede em Londres. Ao que parece, o «Exército Sírio Livre» é apenas e só a testa de ponte do imperialismo, sedento de construir o novo Médio Oriente de que falava Condolezza Rice e Bush.

    Deste lado, minha cara, não estou de certeza.

    • sopas says:

      Quer dizer, as fontes em que se baseia a Raquel estão erradas, ao passo que as fontes em que se baseia o Vasco estão correctas, é isso?
      Ora deixe-se de tretas. Muito do que se passa na Síria é similar ao que aconteceu (e acontece) na Líbia, não há dúvida, mas a caracterização da situação na Líbia, para mal das sentenças esquemáticas de quem vê tudo a preto e branco entre “imperialistas” e “anti-imperialistas” também não é como aqui o Vasco, e os companheiros do Vasco, a pintam. É mais complicada do que isso e não basta apontar o dedo aos revoltosos, como se fossem uma massa uniforme, que não são -ainda hoje se guerreiam diariamente – nem ao actual governo que está longe também de ter uma composição homogénea. Claro que isto é só uma parte da questão: a outra, mais engraçada, é ver os “revolucionários e amigos dos povos” portugueses a abdicarem das questões de fundo imanentes à libertação dos povos dos jugos das ditaduras e, alegres e acríticos como é norma, embarcarem nas conversas que manietam e aniquilam a revolta desses povos a um xadrês geo-estratégico internacional. Olhe que o Putin, mesmo tendo sido do KGB, não é flor que se cheire.

      • Vasco says:

        Só falo contra as certezas absolutas sobre os revoltosos. A Al Qaeda gosta deles, a Nato gosta deles – será por serem «democratas»? Duvido…

      • Vasco says:

        Em Portugal, o PCP que combateu como ninguém a ditadura de Salazar (enquanto outros só falavam e berravam) e sofreu como nenhuma outra força a repressão e a tortura sempre se opôs à possibilidade de invasão estrangeira ao País. Sempre confiou nas próprias forças do povo para se libertar – e acertou!

        • JT says:

          Imagino que por «o próprio povo», o Vasco queira dizer o próprio exército que colocou o fascismo no poder e que estava farto de travar à força uma guerra que não podia ser vencida. O que é a «possibilidade de invasão estrangeira ao País»? O ridículo apoio oferecido por Bento Gonçalves a Salazar para o caso de uma invasão de Portugal por Hitler? E olhe, se os anarco-sindicalistas da antiga CGT-AIT só tivessem «falado e berrado», o Tarrafal não teria ficado cheio deles.

        • sopas says:

          pinte a história como quiser (já agora se estiver para aí virado, diga também o que é que o pcp fez mais do que falar ou berrar que outros não tivessem feito também, mas adiante). sempre a história, ou melhor, a antiguidade, como “razão” justificativa das posições actuais. seita há-de ser sempre seita.

    • JDC says:

      ” A questão é que a natureza, ideologia e apoio desses insurrectos não é uma questão menor”

      O mesmo se poderia dizer do Hamas, por exemplo. No entanto, isso não demove que o Renato Teixeira, por exemplo, os apoie firmemente na sua luta contra o sionismo e imperialismo.

  3. gaf says:

    Alguém arma e orienta os «rebeldes», agora que se fala neles, até porque há bem pouco tempo só se falava dos sírios a matar populações indefesas (o que também é verdade), tal como os rebeldes, como em todos os conflitos armados.

  4. Anónimo says:

    “Na hierarquia mundial das nações, a Síria é um país dominado, e os supostos ‘democratas’ norte-americanos e europeus são os dominadores.”
    E a Russia e a China, cujos embaixadores visitaram recentemente a Síria, onde se enquadram na análise?

  5. António Paço says:

    O que o Vasco e o Pedro Bergano não dizem é de que lado estão (presumo que sentirão um certo incómodo, aliás saudável). Será do Assad? E na Líbia, posso depreender que do Khadafi? E já agora, se tudo nesta irrupção antiditatorial nos países ‘árabes’ parece reduzir-se a uma conspiração bem arquitectada por uns quantos brilhantes cérebros a trabalhar para a NATO, quem sabe se o Ben Ali e o Moubarak, no fundo, lá bem no fundo, não eram ‘objectivamente’ antiimperialistas? Temos de ser consequentes…

    • Vasco says:

      Da soberania síria, estou ao lado da soberania síria, ao contrário do senhor e da Raquel Varela…

      • José says:

        O formalista Vasco está do lado da soberania síria, como estava do lado da soberania líbia, mas não estava do lado da soberania egípcia nem da soberania tunisina… branco e preto

      • Edmundo Dantas says:

        Correcto, Vasco.
        Ao lado da soberania síria, pois claro !

        Esta Raquel, parece, não é flor que se cheire…

        Edmundo Dantas

      • JT says:

        Agora que falamos de soberanias, eu podia desenterrar uns mortos muito mal-cheirosos, lá para o outro lado da dita «cortina de ferro»… Talvez o Vasco me venha dizer que a soberania não é um valor absoluto, que “há excepções”, ou então talvez mantenha a coerência e me surpreenda indo contra a posição, na época, do seu próprio partido. Enquanto anarquista que sou, as soberanias, de qualquer estado, não me podem ser de grande interesse.

    • A.Silva says:

      Pergunta António Paço de que lado se estaria na Líbia.

      António depois dos milhares de mortos, de um país e uma sociedade destruída, das riquezas do país todas nas mãos das multinacionais, depois da constante prática das mais bárbaras agressões à dignidade humana e à liberdade que acontecem hoje naquele país, ainda faz essa pergunta?

      Quando a Raquel fala de “povo barricado” está a falar mais propriamente de quem? Dos mesmos que na Líbia agora “dominam” um país destroçado.

      O mundo não é a preto e branco, é uma grande verdade, mas quem é que não está a ver todas as outras cores? Não será a Raquel ao alinhar pelo discurso monocórdico (e um pouco acéfalo) da imprensa imperialista dos EUA/EU?

      • sopas says:

        Monocórdico é o seu discurso. A preto e branco é o seu discurso.
        Coloca a situação na Líbia como se ela tivesse sido e fosse entre os “bons” rapazes do Kadafi e os “maus” rapazes revoltosos. Infelizmente não é assim. Há de tudo entre as facções revoltosas, as quais se combatem diariamente. O governo não consegue controlar, nem de perto nem de longe, o que fazem e os métodos de actuação de grande parte delas. Excessos? pois há e muitos, mas qual foi a revolta ou revolução que os não teve? Ou esperava uma coisa à lá 25 de Abril, “cravo na mão, tudo ok, tudo numa boa, proibido voltar atrás”?
        Mas para o Silva isto é tudo muito simples: imperialismo práqui, imperialismo pracolá, umas multinacionais para dar colorido, como se antes não as houvesse, e estão encontrados os “maus”.

        • A.Silva says:

          Este Sopas tem piada, só que pelo aspecto parece ser mais sopa estragada. Então diga-me lá uma coisa, se “Há de tudo entre as facções revoltosas, as quais se combatem diariamente”, o que é que o Imperialismo dos EUA/UE lá foi fazer?

          Deixar o país destroçado, no caos, com barbaros a assumir o poder, para que as suas empresas de rapina, saquem as riq1uezas do povo Libio?

          • José says:

            Pois, que as empresas norte-americanas e europeias – portuguesas, por exemplo! – nem estavam lá quando o Kadahfy governava…

          • sopas says:

            “para que as suas empresas de rapina, saquem as riq1uezas do povo Libio?”, diz o Silva. pois, porque dantes não sacavam…
            é sempre nesse imbróglio que se cai quando se opta entre o imperialismo usa/europa ocidental, e o imperialismo decrépito mas que quer ressurgir dos actuais senhores de moscovo. é nesse imbróglio que se cai quando se quer colocar as revoltas legítimas contra as ditaduras – tomem embora muitas vezes caminhos que não nos pareçam o de maior futuro – reféns de putativas estratégias internacionais. Daí e sem a menor vergonha, aos apoios explícitos aos Kadafi e aos Assad é um passo.

        • JT says:

          O imperialismo andou para trás e para diante a farejar o vento. Via a revolta a crescer, apesar de uma repressão duríssima, figurões do regime líbio a trocarem de lado, cidades a serem tomadas, etc. Consequentemente, começou a criticar tibiamente o Kadhafi, seu bom amigo da véspera. Ora é quando o caldo já estava definitivamente entornado com o Kadhafi e todas as fichas já tinham sido apostadas nos rebeldes que a revolta começa a encolher! E agora? Agora manda-se a aviação para apoiar militarmente os rebeldes.

    • Confesso que não estou particularmente bem informado sobre quem são os “insurrectos” e sobre o programa e práticas dos mesmos. Se fizer questão de explicar, talvez eu chegue à conclusão que eles são os “bons” da fita. Até lá, vejo com preocupação a crescente ingerência dos Estados Unidos e NATO (via Turquia) num país-chave do médio oriente – o tal que os imperialistas tentam controlar.

      • Vasco says:

        A Turquia, que é o segundo maior exército da NATO, que massacra os curdos e ocupa parte de Chipre. Certamente os bons da fita para o sopas…

        • JT says:

          Já nos esquecemos todos de que a Síria era um dos países para onde a NATO andava a fazer outsourcing da tortura, com as suas «rendições extraordinárias»?

    • Vasco says:

      Que maniqueísta, António Paço. Tão a preto e branco. Estar contra a ingerência estrangeira, a guerra e o cilindrar das soberanias é um pouco mais complexo que estar «do lado» do Kadafi ou do Assad. Anti-imperialismo diz-lhe alguma coisa?

  6. Luigi Fare Niente says:
  7. Caxineiro says:

    tudo isso é muito lindo, Faz-me lembrar os que falam contra a greve porque os maiores prejudicados vão ser os trabalhadores como nós, blá bla´bla´bla´…
    A prioridade deve ser a luta anti-imperialista
    O passado recente não nos ensina nada?

  8. João Torgal says:

    Não poderia estar mais de acordo, Raquel. Finalmente um pouco de sensatez.

    É por causa dessa lógica a “preto e branco” que, infelizmente, a esquerda perde muita credibilidade e apoio.

    • A.Silva says:

      A esquerda perde credibilidade é quando vota o apoio ao bombardeamento do povo Libio, quando se alia às estratégias do imperialismo, sob a capa de uma falsa neutralidade e equidistância.

      Fazem lembrar o comportamento hipócrita da social-democracia na guerra civil de espanha. Sob a capa da neutralidade e da equidistância, isolaram a esquerda e os democratas espanhois e abriram o caminho ao fascismo e ao nazismo.

    • José says:

      Nem mais!

    • Vasco says:

      Preto e branco é quem apoia os «revoltosos» apenas por o serem, não querendo saber quem são, o que defendem, quem os apoia. A própria oposição síria não é a preto e branco – há gente que discorda do regime, que está na oposição, e que se demarca do ELS e do CNS por não quererem entregar o país à NATO. Na verdade, nada é a preto e branco. Só interessa mesmo saber quem está a ver as coisas a preto e branco…

      • Raquel Varela says:

        O que aqui não dizem e que é óbvio é que vocês acham um governo de um país capitalista – a Síria – onde impera o reino da propriedade privada e da extracção de mais valia um governo progressista. E por isso tudo é tolerável e quem está contra ele só pode ser agente dos EUA. Onde é que eu já ouvi essa conversa…

        • Vasco says:

          Os países que defendem o derrube do governo sírio são as mais reaccionárias monarquias do Golfo – e as mais capitalistas também. A oposição capital/trabalho é a maior e a principal contradição do capitalismo, mas não é a única. A disputa de mercados, as contradições inter-capitalistas, etc, etc, também contam, Raquel. Por essa lógica, apoiemos o derrube de praticamente TODOS os países do mundo, pois são capitalistas. Nem que para isso sejam substituídos por aqueles que REALMENTE mandam, que REALMENTE dominam e que extraem não só a mais-valia criada pelos trabalhadores do seu país, como a que é gerada pelos restantes povos do mundo – os EUA. É isso que defende?

  9. Niet says:

    Bom e corajoso post. Só que a super-realidade política mundial- feita de dominação e manipulação rigorosas e demenciais…- não se compadece com ” estados de alma “. Os USA e os seus aliados precisam do petróleo e gaz iraniano; os russos querem construir um cartel da ” chantagem ” a n-dimensões intercontinentais…; no intermezzo, sem dúvida, surge o impasse político sírio que pode levar a ” guerra santa ” Wahabbita/salafita( comandada pela Árábia Saudita), em vagas sucessivas, a aniquilar os governos de Ahmednejadh, de Bachar-al-Assad, os seus cúmplices internos e regionais, e instaurar a famigerada Pax Americana. Salut! Niet

  10. Victor Cabral says:

    O Mundo não é só preto/branco… em Portugal enquanto houver PS/PSD/CDS , é tudo Côr de rosa ! É muito bom a Gente ter a côr de burro quando foge, porque se isto fôr prá esquerda a Gente tem uma côr, se fôr prá direita, escolhemos outra. Eu por exemplo, sou do Belenenses ! … Topas ?!!!

  11. xatoo says:

    há um pequeno problema com os “revoltosos” na Síria: é que não há revoltosos nenhuns, foram introduzidos, armados e informatizados com gadgets (à semelhança da Líbia) fornecidos pelas potências ocidentais. Sendo o Baas um regime socializante (aquilo a que aqui chama de ditadura) não há nem um só Sírio consciente que abdique da soberania nacional. O lider do principal partido da Oposição já veio a público dizer isso mesmo (não tenho agora aqui o link à mão, mas anda por aí, salvo erro no Voltaire.Org)

    • JT says:

      Receio que o seu discurso esteja tão fora do prazo quanto o próprio nacionalismo árabe que o bahatismo e regimes aparentados representam. Foram derrubados no Iraque, no Egipto, na Líbia, e, aparentemente, a breve trecho, também na Síria. As monarquias da região estão satisfeitas, claro, porque perderam um inimigo. A questão é que não é de todo improvável que a revolta também vá bater à porta delas (veja-se o que aconteceu no Bahrein, por exemplo, e a forma como os sauditas e os Emiratos correram logo a ajudar os seus congéneres a sufocar a rebelião). Quanto ao fundamentalismo islâmico, que por sinal tem vindo a crescer do cadáver do nacionalismo árabe desde pelo menos a guerra dos seis dias, parece ser efectivamente o grande vencedor. Ou seja, reacção pequeno-burguesa em toda a linha. Ou a classe trabalhadora egípcia tem força para estancar este movimento, ou ele vai dominar o médio-oriente inteiro…

  12. JT says:

    Importa dizer, em primeiro lugar e antes de tudo o resto, que nenhuma das partes em contenda, sejam o regime de Assad-filho, seja o dos ditos rebeldes, representam os interesses do proletariado. A questão do imperialismo interessa-me muito pouco. Não a considero uma questão para o proletariado, mas para certas franjas de uma burguesia periférica, prejudicadas nos seus interesses por outras franjas da mesma burguesia, que detêm o poder politico e dependem, de uma forma ou de outra, das relações comerciais que mantêm com as burguesias dos países centrais, às quais vendem matérias-primas, ou importam produtos manufacturados.

    Todos estes acontecimentos recentes no mundo árabe são o reflexo da crise profunda em que o capitalismo mundial embarcou desde há alguns anos atrás. Ver em tudo isto nada além das conspirações dos serviços de espionagem das grandes potências, ainda que os mesmos não deixem de estar activos e jogar evidentemente os seus interesses, é caricatural. Nada mudou desde Lenine: os “elos mais fracos da cadeia” continuam a quebrar-se – mas em que sentido? Os velhos regimes começam a cair, mas são substituídos pelo quê? E esse quê será estável? constitui solução para algo, ou devemos esperar novas crises politicas?

    Importa tecer algumas considerações sobre a relação entre certas franjas da pequena-burguesia e o imperialismo. Não raro, esta posiciona-se contra o regime no poder, que menospreza, evidentemente, os seus interesses, e vai buscar ao imperialismo uma fonte de apoio na sua luta contra o regime, ou seja: estabelece-se uma aliança entre determinadas franjas da pequena-burguesia e o imperialismo na luta contra um regime que a pequena-burguesia considera como hostil. O objectivo é o estabelecimento de uma democracia de tipo ocidental em que a pequena-burguesia tenha alguma capacidade de pressão politica sobre o Estado e o obrigue a levar em consideração os seus interesses. Assim foi em todos aqueles países sacudidos pelas chamadas “revoluções coloridas”, na Europa de Leste. Assim é, por exemplo, no Irão, onde existe uma pequena-burguesia, não apenas pró-imperialista, mas até pró-sionista. Mas quando o regime em questão tem o apoio do imperialismo e mantém boas relações com este, essa pequena-burguesia torna-se anti-imperialista e considera-se inclusive “atraiçoada” pelo imperialismo, que não mantém as suas promessas “democráticas”, ou seja, de arbitragem pequeno-burguesa sobre o poder burguês. É o caso, evidentemente, da América Latina.

    Como é evidente, de um ponto-de-vista proletário e revolucionário, a instabilização do poder de Estado é sempre preferível a um poder burguês estável. O proletariado pode aproveitar em seu proveito um vácuo de poder. Esse vácuo pode ser mesmo o impulso que falta para ele se activar politicamente, quando mais não seja pela debilidade imediata do Estado burguês e dos seus meios de repressão, e forçar a burguesia, ainda que não a derrube, a uma posição mais recuada, conseguindo pelo caminho ganhos assinaláveis. Foi o que se fez por estas bandas em 197-1975. É o que parecer estar a fazer no Egipto, ainda que de uma forma bem mais limitada. O pior seria mesmo uma transição controlada, solução que a burguesia – e até o imperialismo – preferem em todas as ocasiões à “anarquia”, por o poder nunca lhe fugir das mãos.

    • Vasco says:

      O imperialismo interessa ao proletariado, pois determina as suas condições de vida e de luta. Alguém que se interessa pelo proletariado e não quer saber da luta contra o imperialismo é algo que simplesmente não compreendo…

      • JT says:

        A luta real desenrola-se dentro das fronteiras nacionais. A luta contra o imperialismo transforma-se simplesmente na luta contra as facções da burguesia nacional aliadas ao imperialismo: ou seja, a chamada burguesia «compradora» e o latifúndio. Se estas facções da burguesia puderem ser derrotadas, o imperialismo fica desarmado. A partir da Guerra do Vietname, a capacidade de agressão do imperialismo diminuiu ainda mais. Compare, por exemplo, o esforço de guerra e o número de baixas causadas durante a guerra do Vietname e a do Iraque. O imperialismo não pode fazer nada que exija algo mais do que um exército de voluntários, por sinal cada vez mais difíceis de recrutar, e cause um numero muito elevado de baixas. Seria necessária a fascização do estado americano para se ir além disso.

    • Vasco says:

      E acha que no caso de destabilização do «poder burguês» sírio quem tomará o poder é o proletariado? Revolucionários livrescos, digo eu…

  13. João Pedro says:

    Cara Raquel:

    Numa guerra a primeira vítima é a verdade.

    E a Raquel é uma vítima.

  14. Miguel Lopes says:

    O problema da análise da Raquel não é, digamos, de formação. É de informação.
    Os factos que a Raquel toma como verdadeiros, são falsos. Logo, a análise vem errada.
    Os factos são:

    1) Na Síria existe uma guerra com duas barricadas. De um lado a Frente Nacional Progressista (com o Ba’ath e Assad à cabeça). Do outro temos a Irmandade Muçulmana, grupos salafistas apoiados por países da NATO, Israel e monarquias do golfo.

    2) Já há uma nova Constituição que elimina as restrições que existiam para que o parlamento e a chefia do Estado fossem verdadeiramente representativos. Haverão legislativas em Maio e eleições presidenciais em 2014.

    3) As milícias que combatem o Estado estão-se a marimbar para as reformas democráticas.

    Tudo isto posso provar a pedido.

    Qual é a posição correcta? Repetindo o que já aqui escrevi, é aquela que tomaram os partidos comunistas: 1) cerrar fileiras com o regime sírio e apoiar o seu Presidente Bashar al-Assad; 2) defender o aprofundamento das reformas como moeda de troca; 3) combater a Irmandade Muçulmana e o imperialismo sem dó nem piedade!

    Replicando directamente algumas partes do texto da Raquel:

    “Matar um povo barricado numa cidade é genocídio, e qualquer insurreição popular democrática contra uma ditadura – independentemente das direcções políticas que estão à frente dessa insurreição – deve contar com o nosso apoio. O ditador sírio deve ser derrotado e pagar pelos crimes bárbaros que está a cometer.”

    Errado. Matar a Irmandade Muçulmana é o dever de qualquer comunista, de qualquer revolucionário, de qualquer árabe consciente e anti-imperialista. E nunca deveremos pedir desculpa por eliminar o inimigo. Desculpa Raquel, mas acho que te estás a enganar no lado da barricada.

    Quem é que não sabe o que é a Irmandade Muçulmana?

    A Irmandade Muçulmana é um dos principais pilares da contra-revolução no mundo árabe. É o grupo que exporta as correntes wahabitas, dominadas pelos clérigos sauditas. É o grupo que foi financiado pela CIA para combater os comunistas no Egipto nos anos 70, para dividir a OLP, para retirar poder às FPLP e fundar o Hamas. É o grupo que assina um pacto com Eisenhower (http://www.danielpipes.org/pics/new/large/1176.jpg). É o grupo que procura boicotar as greves no Egipto, que faz um pacto com a junta militar para estancar a revolução. São pontas-de-lança do imperialismo e têm que ser eliminados.

    Quanto à questão de princípio, vamos pôr a hipótese: e se houvesse uma revolução popular, democrática e progressista, e ao mesmo tempo planos imperialistas para a invasão da Síria? Que fazer? Bem, teríamos que estabelecer uma hierarquia de prioridades. E se a desestabilização interna ajudasse a concretizar uma ocupação militar? Adiávamos?
    Fazem-se alianças porque é mais fácil derrotar um inimigo de cada vez, e porque há prioridades. Daí que normalmente hajam dois lados em confronto. É a isso que se chama campismo? Eu chamo-lhe táctica. É que nessa situação eu optaria por derrotar primeiro o imperialismo, e depois o governo burguês.

    O mesmo é válido para a Rússia e para o Irão. Combater o Putin e o Ahmadinejad internamente. Mas se tanto a Rússia como o Irão forem atacados pelo Império, fazem-se alianças com Putin e Ahmadinejad para o derrotar.

    • Pedro Bergano says:

      Subscrevo!

    • JT says:

      O que diz sobre a irmandade muçulmana é verdade, mas é redutor. Não há só marionetas e marionetistas no mundo. Basta olhar para Ben Laden, ele próprio uma criatura da CIA, se bem que não ligado à irmandade por recusar os seus métodos, considerados «reformistas». Não é verdade que ele acabou enfeixando dois aviões nos arranha-céus de Nova Iorque? E os talibãns e restantes mujahedins, armados para darem dores de cabeça à URSS? O que veio depois? Mandaram poucos soldados do «Grande Satã» para casa dentro de sacos de plástico, não é verdade? E Saddam Hussein? Não o empanturraram de armas e dinheiro para fazer a guerra ao Irão? O imperialismo, por ser fraco e não forte, agarra-se ao que tem à mão. Não raro, a coisa explode-lhe na cara.

      • Miguel Lopes says:

        “Não é verdade que ele acabou enfeixando dois aviões nos arranha-céus de Nova Iorque?”

        Não.

        “E os talibãns e restantes mujahedins, armados para darem dores de cabeça à URSS? O que veio depois? Mandaram poucos soldados do «Grande Satã» para casa dentro de sacos de plástico, não é verdade?”

        É sim senhora. Eles estão a colher o que semearam. Mas no caso afegão, a minha posição seria a mesma: defender a República.

        “E Saddam Hussein? Não o empanturraram de armas e dinheiro para fazer a guerra ao Irão? O imperialismo, por ser fraco e não forte, agarra-se ao que tem à mão. Não raro, a coisa explode-lhe na cara.”

        Estamos de acordo.
        Sobre essa matéria, passo a palavra a Hillary Clinton: http://youtu.be/z5oMyZwz10Q

      • Miguel Lopes says:

        Para complementar o meu comentário, acrescento apenas esta ideia: eu não nego que a Irmandade Muçulmana tenha um projecto que não é exactamente igual ao do Império, embora precise momentaneamente dele para derrotar as Repúblicas seculares e os movimentos nacionalistas árabes, socialistas ou comunistas. Mas é justamente esse projecto, e concomitantemente o do imperialismo, que eu quero derrotar.
        Portanto aqui não há dúvida nenhuma. Os inimigos estão demarcados num campo que não é o meu, devemos combatê-los e derrotá-los.

        • JT says:

          “Não é verdade que ele acabou enfeixando dois aviões nos arranha-céus de Nova Iorque?”

          Não.

          Não entremos por aí… :)

          Desde a derrota contra Israel na guerra dos Seis Dias que o próprio nacionalismo árabe corteja o islamismo e cede diante da sua influência. O Egipto é o caso paradigmático: deixaram-nos crescer para servirem de contraponto aos comunistas. Resultado? Um deles mata o presidente Sadat em 1981. Tanto Saddam Hussein como Kadhafi acabaram, de igual modo, por cederem, em maior ou menor grau, à demagogia religiosa, sobretudo este último. Usavam-na para granjear um apoio que viam como periclitante e como parte da «arabidade» buscada.

          Dizer que a Irmandade Muçulmana tem um projecto que não é exactamente igual ao do Império não é uma boa descrição da coisa. Os seus valores e interesses são diametralmente opostos. O Islão radical pode usar – e já usou – os serviços do imperialismo no seu próprio interesse, mas vê-lo sempre, em última análise, como um alvo a abater. E ver o imperialismo reduzir a cascalho uma nação muçulmana, mesmo que nas mãos de uma república de «ateus e apóstatas» não é coisa que agrade aos islamitas. Tal como a(s) guerra(s) do golfo, um ataque do imperialismo à Síria só lhe vai render mais fatwas e mais terrorismo, não hajam dúvidas disso.

          Combater o Ocidente e a sua influência sobre as sociedades árabes é justamente uma das molas por detrás do crescimento do islamismo, que também é nacionalista e pan-árabe. Só não é laico, muito menos socialista. E o imperialismo sabe com o que pode contar, claro: uma das razões para a guerra do Iraque foi justamente encontrar outra base de apoio no médio oriente que não a Arábia Saudita. É que os sauditas são os principais financiadores do Islão radical armado! A Al Quaida veio de lá! E o mesmo vale para os paquistaneses, que continuam a armar e proteger como podem os talibãns. Os EUA sabem perfeitamente os belos «aliados» que ali têm, e não estão numa posição nada famosa no médio oriente, nem sabem muito bem ao que se hão-de agarrar (ou o que vai sair, ao fim e ao cabo, desta «primavera árabe»). A própria queda de Saddam só veio favorecer o Irão (e os pró-iranianos já estão no poder no Iraque), que talvez tenha, consequentemente, de levar com umas bombas em cima, mas mesmo a eficácia dessa acção é duvidosa – por isso ainda não foi tentada.

    • José says:

      http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=26&did=53311

      Extremamente progressista o tratamento dado pelos seus amigos do Baath aos civis sírios…

  15. Vítor Vieira says:

    Como demonstram as notícias(?) do Público e da Visão, os grandes media limitam-se cada vez mais a ser meros portadores da propaganda de ambos os lados – ou, neste caso, a de um deles: no caso do “hospital militar de Homs”, acho curioso que os “pacientes” estejam com ligaduras limpas e NADA no video prove realmente alguma coisa. E até estavam uns chicotes convenientemente ali colocados…
    Para ver o original, nada como ir ao Youtube e procurar por “Medical staff torture patients in Homs, Syria”; ou, sobre o famoso “repórter Danny”, procurar por “Truth About Danny Abdul-Dayem”; e para piéce de resistance, nada como a cobertura da CNN na primeira guerra do Golfo: procurar “CNN Fake Newscast Best Quality”. Ou simplesmente googlar “syria fake news”. Não há preto e branco, mas muito cinzento.

  16. Y says:

    Que confusão epistemológica. :) lol

    Raquel,

    decide-te.
    esta tua posição é insuportavelmente cómoda e até cobarde.

    os EUA não apoiam os salafistas.
    a irmandade muçulmana está a ser apoiada pela arabia saudita, como sempre.

    num dos mais populares cânticos da oposição Síria, suplica-se a ajuda do ocidente para acabar com o hediondo regime de Assad (eu acredito que o que virá a seguir será pior, muito pior…mas)

    eu gostaria que a violência parasse. é tão simples quanto isto. só há 1 forma de o fazer: pela força, dado que os alauitasi xiitas jamais desistirão do poder. a maioria sunita, completamente alienada pelos eventos recentes, jamais desistirá também. o prolongamento ad eternum do conficto apenas favorecerá os salafistas e outros radicais. interessa-nos acabar com o conflicto por esta razão também.

    esta malta tá louca: NÃO existem proletecos na Síria.

  17. Y says:

    risperdal para o Xatoo.

    há um pequeno problema com os “revoltosos” na Síria: é que não há revoltosos nenhuns, foram introduzidos, armados e informatizados com gadgets (à semelhança da Líbia) fornecidos pelas potências ocidentais. Sendo o Baas um regime socializante (aquilo a que aqui chama de ditadura) não há nem um só Sírio consciente que abdique da soberania nacional. O lider do principal partido da Oposição já veio a público dizer isso mesmo (não tenho agora aqui o link à mão, mas anda por aí, salvo erro no Voltaire.Org)

    NÃO HÁ REVOLTOSOS NA SÍRIA E A COREIA DO NORTE É UM REGIME DEMOCRÁTICO.

  18. Y says:

    NIET

    a transcendentalização recorrente do a priori constitutivo e material não lhe permite abusar da no nossa pachorra.

    • Niet says:

      Com amizade e pedagogia, ultrapassando essas questões de erudição de alfarrábio hegeloidiano-teológico, envio esta mensagem para o sr. Y.: ” A alienação situa-se na diferença entre condicionar e determinar. (…) A liberdade de criação não consiste em nos colocarmos numa situação de liberdade abstracta total em relação aos meios e às formas(liberdade imaginária e fantasmática): consiste em dominar os meios efectivamente disponiveis( e a criar eventualmente outros) para a levar a realizar o projecto, para conceber a expressão adequada de um conteúdo- conteúdo que é realizado como ” verdade absoluta “, Castoriadis, Histoire et Création). Salut! Niet

  19. Y says:

    uma pergunta para a Raquel

    QUEM é que, na tua opinião, poderia-deveria libertar-ajudar os coitados dos Sírios???

    OS Russos? Nah. Já disseram que não.

    OS Chinocas?? Também disseram que não.

    Uma força das NU ??????? Nah, a russia e a china jumbariam a cena no Concelho das NU?

    Diz lá, então: QUEM??????

    A tua verdadeira posição é a seguinte: estou-me a borrifar para os Sírios!! Se para salvar os Sírios da máquina repressiva de Assad terei que apoiar os imperialistas Americanos…então que se fodam os Sírios. O meu anti americanismo é mais importante do que o meu humanismo.

    Ganda porra da atitude!! Para q saibas, os yanka tb não querem meter o bedelho ali. ninguém quer, tal como tu. Meanwhile, os gajos são mortos aos milhares!!

    Achas, sinceramente, que são os yanks/brits/frogs que estão a ditar as regras do jogo na Líbia???? achas mesmo!!! porra man, tá tudo a alucinar ou quê???????!!!!

    • Carlos Carapeto says:

      O grande problema da Raquel é conviver muito mal com a verdade. Ainda há pouco coloquei aqui um comentário a questioná-la sobre as razões porque não fez uma única menção às forças progressistas e patrioticas Sírias.

      A resposta foi a censura.

      Não é assim que une a esquerda Raquel !

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  21. António Paço says:

    Ò corajoso rapaz (?) que assinas com um Y (e que chamas a norte-americanos, ingleses e franceses yanks/brits/frogs e a chineses, chinocas): isto não é para ti, moço. Vai mas é para casa fazer os TPC! E depois podes ir discutir se foi penálti ou não, que está mais ao teu nível.

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