Fusão: do estado sólido ao líquido

Nos anos 90 fui, por quatro anos, membro do Senado da Universidade Técnica de Lisboa, onde o todo-poderoso Instituto Superior Técnico impunha a sua agenda. Os seus dirigentes defendiam que um sinal de pugresso – termo da época para uma certa visão de futuro – era transformarem-se em mais uma universidade. Para tal, o IST ia movimentando os seus poderes e, não fosse a inteligência do seu corpo discente e docente rejeitando esse pugresso, chegaríamos aos dias de hoje com uma Universidade Técnico.
A anunciada fusão entre a Clássica e a Técnica não me motiva grandes considerações teóricas.
Ao invés, o objectivo invocado – resumido na ideia de constar no top 100 mundial –, revela a pobreza de um ensino superior acantonado no processo de Bolonha.
Secundarizada a produção de conhecimento e o ensino, as universidades são forçadas a determinar o seu caminho por critérios contabilísticos, reunidos pela terminologia neoliberal em torno da expressão “competitividade”. Esta “competitividade”, sabemo-lo de antemão, é sinónimo de propinas mais altas, despedimentos, menos investigação e produção de conhecimento e antónimo de qualidade. A anunciada fusão surge no mesmo mês em que o IST anunciou a suspensão de centenas de projectos de investigação e em que noutras faculdades foram agilizados processos de despedimentos.
Sendo o sistema académico de relações laborais particularmente rico em dependências e vassalagens, não será muito difícil prever que se acelerará o processo de depuração em curso, que exclui os que ensinam a partir da sua experiência profissional e dos que estejam demasiado distraídos na produção de conhecimento e investigação.

Hoje, no i

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7 Responses to Fusão: do estado sólido ao líquido

  1. De diz:

    3 pontos cuja convocação considero exemplares:
    – “a pobreza de um ensino superior acantonado no processo de Bolonha.”
    – ” as universidades são forçadas a determinar o seu caminho por critérios contabilísticos, reunidos pela terminologia neoliberal em torno da expressão “competitividade”.
    – “A anunciada fusão surge no mesmo mês em que o IST anunciou a suspensão de centenas de projectos de investigação e em que noutras faculdades foram agilizados processos de despedimentos”

    Da passagem do sólido ao líquido, para em seguida se evaporar…?

  2. Luis Almeida diz:

    Esclarecedor, Tiago: Sobretudo para mim que não passei do secundário, mas que tento estar a par de “todas”. Assim, a modos que um “especialista” em “generalidades”…

  3. silva diz:

    Aonde está a justiça no caso do Casino Estoril, este caso do despedimento coletivo é pior que o freeport e de muitos sucateiros.

  4. antónimo diz:

    O Técnico, faculdade, produz boa parte da investigação e da ciência de ponta que se faz em Portugal. De ponta em qualquer parte do mundo. Basta olhar para o CV de centenas de doutorados e à capacidade para produzirem também ciência fundamental. Capta projectos como mais ninguém em Portugal e isso não se deve apenas a um qualquer envolvimento apadrinhante.

    As escolas dos top 100 universitários – independentemente do que se pense dos rankings – estão no topo mundial da investigação.

    O preocupante no relatado, é que até uma escola como o Técnico, com a capacidade de movimentação, que tem, seja forçada a interrupções e cortes. Custa pois tive por lá responsabilidades académicas como estudante e sempre fui contra a secessão.

    Infelizmente, o texto cai na habitual hostilidade das outras escolas da UTL em vez de descascar o processo de união das duas universidades.

    • Tiago Mota Saraiva diz:

      antónimo, não está a comentar este texto.

      Repare na frase:
      “o IST ia movimentando os seus poderes e, não fosse a inteligência do seu corpo discente e docente rejeitando esse pugresso, chegaríamos aos dias de hoje com uma Universidade Técnico”

      Sei distinguir aquela parte do IST de caciques que decidem quem nomear para ministro de qualquer governo, das centenas de investigadores e extraordinários docentes e alunos da instituição.

  5. ovotas diz:

    top 100 mundial é arrojado. muito à frente. pensar GRANDE.

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