Fundos de Coesão ou de Exportação?

«Cada euro que a Alemanha paga para os fundos de coesão gera 1,25 euros em receitas de exportações para a Polónia, República Checa, Eslováquia e Hungria, apurou um estudo feito pelo Ministério polaco do Desenvolvimento Regional, em cooperação com os outros três Estados»

Fonte Lusa

A Alemanha não é um país fascista nem Merkel a encarnação (versão gordinha e cinzenta, roupita vintage RDA 1950) de Hitler. Fascismo e democracia burguesa são coisas muito distintas e é perigoso enfiá-las no mesmo saco, embora um (fascismo) seja filho do outro (democracia burguesa), são corpos distintos.

Há ditaduras brutais que não são fascistas (são bonapartistas) porque o fascismo é a guerra civil, é aquele momento raro na história em que o Estado sequer é suficiente para reprimir os trabalhadores (e foi suficiente por exemplo nas ditaduras militares latino-americanas) e a burguesia vê-se na necessidade de armar a pequena burguesia (milícias), quando não tem outra saída de evitar a sua expropriação pela revolução social.

Esta nota é necessária porque muitos hoje vêem no imperialismo alemão, que estes números dos fundos de coesão mostram sem margem para dúvidas, uma ditadura e não, como de facto creio que  é, uma rotina das democracias imperialistas. Que aliás não é feito sem a mesma rotina das democracias semi-periféricas, caso do nosso país.

Quando o Grupo Mello abandonou a indústria pesada – e esse abandono era exigido na cláusula de adesão à CEE – foi-lhe oferecido em troca a internacionalização do seu capital e a entrada nas finanças mundiais, ainda que com uma quota à sua altura de país semi-periférico. Não há uma burguesia imperialista que «engana» a burguesia nacional. Há um pacto na construção da UE, do euro e destas medidas de austeridade – é o acordo da transferência de recursos do capital para o trabalho, que está a ser feito ao nível europeu e para contentamento de Merkel e dos nossos burgueses, que nunca foram progressistas. Foram simplesmente burgueses.

Esta conversa teórica serve para alguma coisa? Todo o esquema de alianças políticas é feito com base nesta complexa teoria do Estado e do regime. Se Merkel é fascista e oprime a nossa burguesia o que vamos fazer para salvar o país do estrangeiro? Se o fascismo é uma reaçção feudal ele exige unidade com a democracia burguesa (política da III Internacional aplicada na guerra civil espanhola e por todos os PCs fiéis à linha dimitroviana), se é uma forma necessária da burguesia salvar a propriedade privada ele exige uma frente única de todas as organizações com base social ou programas operários/trabalhadores (linha anarquista e trotskista na mesma guerra). Mas e se não houver – como é manifestamente o caso –  fascismo nenhum?

 

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

4 respostas a Fundos de Coesão ou de Exportação?

  1. Luis Almeida diz:

    Claro que não há fascismo nenhum, Raquel! Com esta ressalva: por enquanto…
    Concordo com quem diz que a forma mais consequente de se ser anti-fascista, é ser, também, anti-capitalista.
    Muito pedagógico o seu post.

  2. Zuruspa diz:

    Fascismo económico näo deixa de ser fascismo. É até mais insidioso, porque se mascara de “paladino das liberdades” através de acçöes de marketing, e o pessoal nem percebe o fascismo onde vive.

  3. JT diz:

    Finalmente o jornalismo português descobriu o euro-keynesianismo… Já era tempo. Cá na terrinha, por cada Euro que entrava sob a forma de fundos de coesão, saiam 0.70 sob a forma de importações aos países do centro. Bom negócio para a industria alemã, campeã das exportações do mundo. A título de curiosidade, não existe salário mínimo na Alemanha e há pessoas nesse país a trabalharem a troco de 60 cêntimos há hora (os chamados “microjobs”) e a metade oriental desse país é uma coisa arrebentada onde já existiu um estado comunista e que hoje em dia só é boa para o dumping social. “Desenvolver o mercado interno?” Certo…

Os comentários estão fechados.