Golpistas e democratas na URSS

“Qual foi a origem da criação do estado social? E penso que estamos todos de acordo, surgiu como uma necessidade de uma Europa fazer frente a um bloco comunista que era necessário combater. E evidentemente que não era possível faze-lo criando riqueza e não dando protecção social aos trabalhadores.”

Estas palavras são de Manuela Ferreira Leite. É uma mulher que sabe bem de que lado da barricada está. Sabe que o Estado social foi uma concessão das burguesias ocidentais à classe trabalhadora num período em que o prestígio da URSS não tinha fronteiras. Foi precisamente o que admitiu numa entrevista com Judite de Sousa e Medina Carreira na TVI.

Ainda assim, há quem à esquerda não consiga admitir o que a própria burguesia tem dificuldade em esconder. A URSS teve um papel fundamental nos avanços civilizacionais que se deram durante o século XX. Entre as contradições que mais me fascinam em determinados sectores políticos que se dizem de esquerda é a absoluta tolerância com que encaram o sistema eleitoral das democracias burguesas. A passividade com que aceitam os resultados do sufrágio contrasta com a violência com que rejeitam as decisões tomadas por povos que optaram por outro tipo de modelo político. Será assim tão difícil aceitar que a maioria dos que viviam na União Soviética podiam ter discordâncias particulares sobre várias questões políticas, económicas, sociais e culturais mas que, no fundamental, apoiavam o modelo socialista?

Uma longa história de mentiras: os golpistas e os democratas

Em 1991, quando o povo soviético foi chamado a dar a sua opinião sobre a manutenção da URSS, houve um ataque generalizado por parte da imprensa ocidental à credibilidade do sistema eleitoral do país dos sovietes. Essa ofensiva mediática não foi mais do que a exaltação das mentiras fabricadas pelo imperialismo norte-americano e europeu. Nessa campanha, participaram muitos dirigentes políticos que se afirmavam de esquerda.

A participação foi elevada. Oitenta por cento dos cidadãos acorreu às urnas apesar do apelo ao boicote em seis das Repúblicas Soviéticas. Mais de 77 por cento – contra 22,2 por cento – apoiou a manutenção da URSS. Contudo, quando cinco meses depois, em Agosto, um grupo de dirigentes tentou reverter o processo contra-revolucionário em curso e defender o que havia sido democraticamente decidido pelo povo soviético, em Março, rapidamente se lançou um clamor contra os golpistas.

Quando, mais tarde, em 1993, o presidente da Rússia Boris Ieltsin violou a constituição e decidiu dissolver o Congresso dos Deputados do Povo e o Soviete Supremo ninguém questionou o carácter anti-democrático da decisão. A imprensa ocidental, a direita e a esquerda social-democrata navegaram entre o silêncio e o apoio declarado. Mas quando o Congresso dos Deputados do Povo destituiu Boris Ieltsin e nomeou para o seu lugar, como mandava a constituição, o vice-presidente Alexandre Rutskoi, o terror tomou conta das ruas.

Boris Ieltsin que controlava as forças armadas ordenou o bombardeamento do parlamento russo. A Casa Branca ficou destruída e debaixo dos escombros ficaram alguns dos deputados que ali se haviam encerrado para defender a constituição e a democracia. Nas barricadas que se levantaram por toda a capital russa e nos confrontos que se geraram com a polícia e o exército morreram várias centenas de pessoas. E que diferente era o discurso mediático e político sobre os acontecimentos. Em momento algum, Ieltsin foi apelidado de golpista e isto quando, agora sim, se tratava de um golpe de Estado.

Três anos mais tarde, em 1996, no rescaldo dos acontecimentos de 1993 e nas únicas eleições, até hoje, em que houve segunda volta desde o fim da URSS, Boris Ieltsin obteve, pelos dados oficiais, 53,82 por cento dos votos contra 40,31 por cento de Guennadi Ziuganov, secretário-geral do Partido Comunista da Federação Russa. Contudo, membros da equipa de Ieltsin admitiram há poucos meses que manipularam as eleições presidenciais de 1996.

Uma das notícias que nos chega através do El País indica que o próprio presidente da Rússia Medveded admite que se tenham forjado os resultados do sufrágio de 1996. Hoje, quando está mais do que claro quem é que violou a vontade do povo soviético, em 1991, a constituição, em 1993, e as eleições presidenciais, em 1996, há quem à esquerda continue a acompanhar todo o tipo de preconceitos contra os comunistas e o povo soviético. A quem servem, aos golpistas ou aos democratas?

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21 respostas a Golpistas e democratas na URSS

  1. João Pedro Lobato diz:

    Quando Yeltsin dissolveu a Duma, eis o que noticiava a revista Newsweek:

    These days, Yeltsin’s liberal economic team is on a roll. The day after the Russian president dissolved Parliament, the word came down to the market reformers: start writing decrees. […]”With Parliament out of the way, this is a great time for reform,” says one jubilant Western economist working closely with the government. “The economists around here were pretty depressed. Now we’re working day and night.”

    http://www.thedailybeast.com/newsweek/1993/10/17/yeltsin-s-free-market-offensive.html

    É assim que o neo-liberalismo opera. O resto da história já se conhece: uma grave crise económica e um aumento criminoso do número de russos que passaram a viver na pobreza. Tudo perfeitamente normal, segundo os economistas que faziam a apologia de Friedman. No meio desta orgia neo-liberal, os fundos de investimento ocidentais – a que se juntou uma oligarquia em ascensão (os “novos ricos”) –, fizeram lucros milionários com as ditas “reformas”, as quais mais não eram do que privatização total do que era pertença do bem público. Roubar ao que é de todos para dar a alguns… e pelo caminho atira-se uns morteiros ao Parlamento.

    Por cá… a Manuela Ferreira Leite é a mesma Dama de Pau (imitação barata da de “Ferro”) que defendeu a suspensão da democracia por uns tempos. Não é preciso grande esforço para imaginar o que esta gentalha faria se tivesse um exército pessoal sob as suas ordens.

  2. António Baptista diz:

    Completamente na mouche, Bruno. “ah e tal, os comunistas não respeitam a democracia…”. Eu vou passar por cima das proibições dos partidos comunistas, dos golpes contra o Allende, e das coisas mais óbvias. Um caso engraçado é que nos manuais de história vem sempre a referência ao facto de o Lenine ter dado um peso eleitoral muito superior (um ratio de 1/5) aos distritos eleitorais urbanos (onde o Partido Bolchevique teria mais apoio) face aos distritos rurais (dominados pelos burguesia rural e onde a igreja mantinha uma influência ideológica ainda muito forte sobre o proletariado rural e os pequenos camponeses), mas nunca se recordam (ai, essa memória selectiva!) que as manigâncias eleitorais foram uma constante dos regimes liberais-burgueses, desde o seu nascimento…Basta lembrar os casos dos chamados rotten burroughs na Inglaterra (distritos eleitorais desertificados, no contexto do êxodo rural que antecedeu e acompanhou toda a revolução industrial, em que com 1 ou 2 eleitores – já que o voto era censitário – se conseguia um deputado). Também nunca falam no gerry mandering nos Estados Unidos… Em geral os sistemas desproporcionais e o desenhar dos círculos eleitorais obedeceu quase sempre ao objectivo de quebrar a espinha aos comunistas, ou impedi-los de verem o real apoio social que tinham traduzido em termos políticos (e um membro/apoiante do partido socialista como o foi o Duverger di-lo com toda a honestidade e franqueza). Mas vamos para exemplos mais recentes: nas eleições de 1946, o Partido comunista francês obteve quase 5 milhões de votos e ficou com 103 deputados, enquanto outros 3 partidos que se ficaram entre os 2 e 2,5 milhões de votos obtiveram quase o mesmo número de assentos parlamentares (96, 95, 93). O partido do De Gaule, com 4 milhões, teve 123 assentos…como isto não bastasse, achou-se melhor requintar a coisa… Em 58, o PCF com praticamente 3,800 milhões de votos teve direito a 10 (!!) lugares no parlamento, enquanto o gaulista UNR com 3, 600 milhões de voto ficou com 189 assentos parlamentares…(ou seja, 200 000 votos a menos dão direito a quase 19 vezes mais representação parlamentar…) e partidos que tiveram metade dos votos do PCF (como o MRP, partido democrata-cristão) tiveram direito a 57 assentos. Mas há casos mais escandalosos…é só escavar um pouco mais fundo. Keep up the good work!

  3. helder diz:

    Segundo a manela isto só volta ao lugar quando voltarem os comunas… tu queres ver que a sra está para bater a bota e foi buscar a consciência ao baú ? ali, entre as cronicas femininas e bolas de naftalina?

  4. maradona diz:

    nunca vi, em nenhum local com credibilidade nas publicações de direita que consumo, qualquer ingenuidade quanto à natureza não democrática das eleições na urss, na cei, na federação russa e assim. até se fizeram ataques terroristas em moscovo e outras cidades com dezenas e dezenas de mortos para condicionar eleições e justificar a terraplanagem de grozny, por deus. nunca vi, em nenhum lado, qualquer negação de que a generalização do estado social (mas não a sua génese) não tenha beneficiado da pressão que o aparente sucesso da URSS produzia nos movimentos sociais do lado de cá do muro de berlin. isto são tudo invenções que dão jeito. até nos estados unidos, valha-me minha nossa senhora, a maior e mais bem sucedida reforma do sistema de ensino deveu-se, unica e exclusivamente, ao pavor que os bips do spunik p’rovocaram nas eleites militares, como se pode ler em qualquer livreco, mesmo daqueles maus, como os do niall fergusson. nas democracias burguesas fazem-se concessões a todos os tipos de formas de organização e até de regimes, porque não nos assiste nenhum tipo de segurança ou certeza quanto à perfeição do nosso sistema, que tanto sangue e sofrimento gastou para ser edificado. já o bruno carvalho acha que os povos da urss pré 1991 escolheram aquilo que nunca escolheram, mas pronto, eu sou um democrata burguês, aceito com lazer e respeito todas as opiniões. estou de acordo com o plenário da transtejo, apesar de me ter fodido a puta da vida hoje.

  5. Justiniano diz:

    Verdadeiramente, o Estado Social de Direito precede a URSS tem contributos do pensamento liberal do sec. XVIII, do Marxismo, do Cristianismo e de ordenações remotas da história!! Tendencialmente, controi-se partindo da ideia, liberal, utilitária da máxima eficiencia económica, da densificação da dignidade da pessoa humana e na ideia marxista de valor desmercantilizado!! O que, talvez, a MFL, com a aparente concordancia aqui do B.Carvalho, quereria dizer é que a consolidação do Estado social de direito no pós guerra, quando emerge como novo evangelho, dá-se por consensual também em concurso com glória sovietica. E admite-se que, fenomenologicamente, a névoa sovietica tenha funcionado como espada de damocles para o mercantilismo liberal!!! Contudo, e verdadeiramente, o Estado social de direito era já a boa nova, o evangelho aceite à condição universal, e premente aspiração de todos os povos!! De outro modo o que creio ter sido pensado tanto pela MFL como por muitos outros liberais surpreendidos pela tormenta das coisas, é que poderia, hoje, a existencia de uma URSS suster o impeto suicidário, avassalador, do mercantilismo liberal avançado!!

  6. Camarro diz:

    O mais engraçado é que, à esquerda, alguns dos grandes defensores do denominado Estado Social esquecem-se que a sua edificação se deveu, fundamentalmente, à pressão que a URSS constituía sobre o Capital. Ou seja, defendem algo que se constituiu com base naquilo que tanto criticam… Paralelamente, o ataque sem precedentes a que assistimos nas duas últimas décadas aos povos e aos trabalhadores, deve ser mera coincidência…

  7. Vasco diz:

    Virando do avesso a confessada verdade da Manela, quando a URSS caiu sucedeu o inverso: começou em força a destruição do tal «Estado Social» erigido um pouco por toda a Europa. Também pela negativa se vê a falta que faz – não só aos seus próprios povos mas ao mundo – um forte Estado Socialista. Boa Bruno, uma vez mais.

  8. CausasPerdidas diz:

    “Is it any wonder that millions lost confidence in the Soviet communists and socialism? Is it any surprise that thousands of communists joined the pillaging of state assets? Is it so startling that there were so few defenders of socialism in 1991? Obviously, there is a lesson here as we go forward”.
    (Sam Webb, secretário geral do Partido Comunista, EUA (CPUSA)
    O texto completo pode ser encontrado na página da “Wikipédia” sobre Sam Webb: em “External Links”, há um link para um PDF que tem o livro completo.

  9. Armando Cerqueira diz:

    Bruno Carvalho,
    essas pessoas, essa gente, ou como diz “quem à esquerda não consiga admitir o que a própria burguesia tem dificuldade de esconder” não são de esquerda mas direita, a direita envergonhada disfarçada de esquerda,sãos os sociais-democratas ou socialistas “democráticos”, identificados com a média e a pequena burguesia capitalista, cuja ambição – declarada ou escondida – devir capitalistas, empresários, gentes de teres consideráveis ou grandes…

    Só que a Esquerda – comunistas, bloquistas e outros – desistiram de os denunciar e de esclarecer as “massas ignaras”…

    E, assim, não se vai a parte nenhuma. Segundo os livros dos historiadores consagrados, é necessário criar as condições subjectivas necessárias para a mudança social, que será pacífica ou não, consoante as condições históricas de então. A mudança social não poderá ser codificada por leis, preceitos, constituições, etc., como querem PS, PPD e CDS…
    O salazarismo-marcellismo caiu como? Por alguma moção da Assembleia “Nacional”? Por um artigo de opinião do ‘Diário da Manhã’?, por um simples desejo dos democratas de 27 de Abril de 1974 como Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite, Freitas do Amaral, P. Passos Coelho, Miguel Relvas e quejandos?…

    Saudações

    Armando Cerqueira

  10. Dentro de um texto com vários factos verdadeiros, e habitualmente ignorados no discurso mainstream, como sejam o carácter anti-democrático da golpada de Yeltsin, Bruno Carvalo utiliza um argumento falacioso, que sinceramente pouco me surpreende. Menciona, com toda a propriedade, o referendo na URSS (curiosamente o momento mais democrático nesse país desde pelo menos a morte de Lenin, que, lembre-se, proibiu os partidos políticos, e que nunca teria sido possível sem o processo a que se chamou de perestroika), e encadeia-o com o golpe de estado falhado de 1991, que acabou por conduzir à queda de Gorbachov. Ora, a falácia está em considerar a defesa do resultado desse sufrágio como intenção primeira dos golpistas; isto quando o seu alvo, Gorbachov, em momento nenhum defendeu a dissolução da URSS ou a adopção de uma democracia de tipo ocidental. Concordando que este foi de facto ultrapassado por vários acontecimentos, e algo ingénuo nas opções que tomou, pergunto-lhe se não acha que é precisamente o golpe que tanto venera que proporcionou as condições para o contra-golpe de Ieltsin.

    • Carlos Carapeto diz:

      “André Carapinha

      Concordando que este foi de facto ultrapassado por vários acontecimentos, e algo ingénuo nas opções que tomou, pergunto-lhe se não acha que é precisamente o golpe que tanto venera que proporcionou as condições para o contra-golpe de Ieltsin.”

      Está completamente enganado sobre o assunto. Por isso não tem que colocar perguntas aos outros, deve sim questionar-se a si próprio.

      Gorbachov planeou desde o primeiro momento o golpe que levou à destruição do país, ele próprio já o confessou mais que uma vez. O objetivo foi sempre desmantelar o sistema peça a peça. E hoje já existem dados suficientes que comprovam isso.

      Por isso mesmo Gorbachov aliou-se à ala mais corrupta, espúria e oportunista que se infiltrou nas cúpulas do partido , afastou seletivamente todos os membros válidos como foi o caso de Igor Ligachove e Nina Andreeva, movendo-lhe uma feroz campanha de calunias. Em contrapartida chamou para junto de si e promoveu os elementos mais reacionários, corruptos e oportunistas.

      Foi ele que foi buscar Yeltsin, e escolheu para conselheiro pessoal Alexander Yakovlev.

      No entanto para enganar o povo, começou por evocar a herança de Lenine, o país tinha que regressar aos fundamentos da Revolução de Outubro, e por aí fora.

      Como por exemplo este excerto de um discurso em 1986.

      ” Estamos a procurar no socialismo e não fora dele as respostas às perguntas que surgem, se não fosse a colectivização não poderiamos hoje sequer pensar em produzir cereais num volume superior a 200 milhões de toneladas,para não falar já das 250 milhõesde toneladas previstas para o futuro próximo, já ultrapassamos a produção do Mercado Comum Europeu apesar da nossa populaçãom ser menor. Por isso achamos estranho as propostas de alguns para alterar-mos o nosso sistema social . As pessoas que fazem estas propostas não se apercebem de que isso é completamante impossivel, mesmo que alguém queira empurrar a União Soviética para o capitalismo”.

      Ou esta; ” o que precisamos não é de socialismo puro, doutrinário, mas de socialismo real, Leninista”.

      Aqui também é sintomático o embuste discursivo; “os soviétes da Rússia são um fenómeno único na história da humanidade. São fruto da participação direta e criativa do povo trabalhador”.

      Depois conforme foi afastando os elementos do partido que lhe eram adversos ia alterando o discurso, até que chegou o momento que tirou a mascara.

      Quanto aos participantes do golpe de Agosto de 1991 à que ter em atenção que eram todos homens do seu circulo e da sua confiança, todos escolhidos por ele.

      Sobre Yetsin e o bombardeamento ao edificio do congresso, foi outra manobra dialtória preparada por ele próprio para afastar os seus aliados inconvenientes. Riskov vice presidente e Khasbulatov presidente do parlamento foram seus parceiros nas eleições.

      Há também outro dado muito curioso que atesta perfeitamente que as intenções de Gorbachov foram muito bem calculadas e premiditadas.

      A escassez de alimentos dos finais dos anos 80( reinado Gorbachoviano) foi sentida apenas na parte Europeia da URSS, comprova quais eram as intenções e os fins previstos.

      As coisas não estavam bem, é dever de todo o comunista aceitar essa realidade, para que no futuro não se repitam os mesmos erros e desvios. No entanto haviam alternativas à selvejaria capitalista.

      O que este “senhor” fez foi um acto de traição destruindo o país, contribuindo que milhões de cidadãos regressassem a antes de 1917.

  11. V. fala-me de uma História que desconheço. Conheço a fundo o assunto, e deixe-me dizer-lhe que é a sua narrativa dos acontecimentos que não passa de um encadeamento falacioso, que ignora convenientemente determinados factos, empola outros e extrapola em absoluto outros ainda; um tipo de “argumentação” a que infelizmente me venho habituando a ler e ouvir em apoiantes do PCP, já que parte de uma narrativa oficial e tudo faz para a justificar: a tese antecede os factos. Sintomático disto é o facto de utilizar para defender a sua tese um conjunto de afirmações de Gorbachov que dizem exactamente o contrário. Mas lá está, quando se parte de uma “verdade universal” é assim: os factos encaixam na tese, nem que seja de modo rebuscabo ou mesmo forçado. O que quer que Gorbachov tenha dito ou feito, a complexidade do seu percurso, para si será sempre uma prova da sua tese conspirativista. Seja isto ou o seu contrário. Ora, com este tipo de dogmas para-religiosos nem vale a pena discutir: é inútil.

    • Caxineiro diz:

      Senhor Carapinha
      Sou operário, a minha formação escolar é básica e venho aqui de vez em quando (como outros como eu)com a vontade de tentar perceber melhor as contradições do mundo em que vivemos. Por isso gostaria que o senhor não fugisse do tema e respondesse a esta simples pergunta
      O homem não fez estes discursos?
      ——
      Como por exemplo este excerto de um discurso em 1986.
      ” Estamos a procurar no socialismo e não fora dele as respostas às perguntas que surgem, se não fosse a colectivização não poderiamos hoje sequer pensar em produzir cereais num volume superior a 200 milhões de toneladas,para não falar já das 250 milhõesde toneladas previstas para o futuro próximo, já ultrapassamos a produção do Mercado Comum Europeu apesar da nossa populaçãom ser menor. Por isso achamos estranho as propostas de alguns para alterar-mos o nosso sistema social . As pessoas que fazem estas propostas não se apercebem de que isso é completamante impossivel, mesmo que alguém queira empurrar a União Soviética para o capitalismo”.

      Ou esta; ” o que precisamos não é de socialismo puro, doutrinário, mas de socialismo real, Leninista”.
      ———
      Este discurso parece-me bastante claro sobre as ideias de Garbachov, independentemente da data em que tenha sido dito É tão límpido como a água límpida
      Gostaria que me esclarecesse onde está a falácia para eu aprender umas coisas
      Obrigado

      • Esse discurso defende precisamente o contrário da tese proposta pelo autor do post, e defendida pelo Carlos Carapeto (a de que a intenção do Gorbachov foi sempre a de acabar com a URSS). Essa é a falácia, utilizá-lo para tentar provar o oposto do que o próprio discurso diz.

        • Aliás, para ser honesto, não é bem a tese do autor do post, embora esteja subjacente ao mesmo, mas sim a tese do Carlos Carapeto.

          • Caxineiro diz:

            Obrigado
            Das intenções reais do Gorbachov só ele saberá a verdade, Do que fica para a história são esses discursos e o que se passou depois. O resto é retórica
            Lembro ter visto na TV várias entrevistas onde o homem defende pontos de vista que nem de longe se aproximam às ideias defendidas nesses discursos. Por muito que as circunstancias tenham mudado o homem é o mesmo
            Em certos pontos faz-me lembrar a Zita Seabra
            Não admira que seja o heroi favorito da Florbela Queiroz

  12. Carlos Carapeto diz:

    “André Carapinha says:

    V. fala-me de uma História que desconheço. Conheço a fundo o assunto, e deixe-me dizer-lhe que é a sua narrativa dos acontecimentos que não passa de um encadeamento falacioso,”.

    Afinal em que ficamos? Primeiro diz que desconhece a História, para a seguir afirmar que conhece a fundo assunto.

    Sabemos que como em qualquer atividade, também existem palhaços de vários niveis, por o seu comentário é daqueles que não merece mais que uma escarreta na cara.

    Se deduz que sou apoiante do PCP , assiste-me da forma qualifica-lo de um ultra reacionário admirador da direita retrograda, os elogios que faz a essa figura sinistra que é Mikhail Sergueivich Gorbachov não diferem em nada da opinião manifestada por qualquer sicário da direita.

    Consegue clarificar o que diz ser a verdade universal? Por muito que se esganice tentado impor os seus pontos de vista sobre o assunto, não deixa de ser a sua verdade e daqueles que partilham a mesma ideologia.

    Em história costuma dizer-se que “os factos são coisas teimosas”.

    Por isso se ignora o que disse Gorbachov na altura (1985) e depois a pirueta que deu a seguir já é problema seu, nesse sentido não lhe assiste qualquer autoridade de desmentir quem acompanhou os acontecimentos de muito perto a partir dessa altura. E eu isso não permito a ignorantes da sua craveira.

    Os discursos de Gorbachov andam por aí publicados, o que disse nesse tempo e o que tem dito depois . De quem tem andado acompanhado a partir daí também é do conhecimento geral. São factos mais que suficientes para por a nú que a traição que cometeu contra ao seu povo e ao seu país foi premiditada, feita com a colaboração das potencias capitalistas desde a primeira hora.

    Perante isto ainda tem o descaramento de me chamar falacioso?

    Talvez julgue que sou um fantasista do seu nivel? Enganasse porque sei do que falo.

    Em 1988 (em plena efervescência da perestroika) fui trabalhar para a URSS por conta de uma firma Italiana (foram centenas de Portugueses), trabalhei na refinaria de Kstovo, no Volga cerca de 50 km a sul de Gorki (hoje Nijni Novgord). E a partir dessa altura nunca mais deixei de estar ligado a esse país. Vou lá regularmente assim como vêm pessoas de lá todos os anos passar férias a minha casa.
    E quase todos os dias falamos para a Rússia.

    Por isso estou muito bem informado do que se passa por lá.

    Sei perfeitamente o que era antes e no que aquela sociedade e aquele país se transformaram.

    Portanto não venha com tretas tentando meter o nariz em assuntos que ignora por completo.
    O que vc acaba de revelar que é um anti-comunista verrinoso, e o que mais ´lhe interessa são as condições em que as pessoas vivem.

    A miséria Terceiro Mundista que mergulharam as populações que faziam parte da URSS já não o incomoda? Isso diz tudo.

    • O nivel do seu comentário desqualifica-o, e sinceramente ponderei se vale a pena responder ou não a tais “argumentos”. Apenas lhe peço, para que não caia na circularidade falaciosa (sim, falaciosa) da sua “petição de princípio” (sim, é o nome de uma conhecida falácia) para que publique então aqui os tais discursos do Gorbachov, que “andam por aí publicados” que demonstrem o que v. diz e não o que eu digo. Porque tentar provar uma determinada tese recorrendo a afirmações que defendem exactamente o contrário, não passa disso mesmo: uma falácia e das mais grosseiras.
      Já agora: a História que eu desconheço não é a História; é o conjunto das suas fantasias, que curiosamente coincidem (como poderia não ser?) com aquilo a que propriamente se chama a “narrativa oficial” do PCP.
      E finalizando, leia com atenção o que eu escrevi. Em nenhum momento defendo que a Rússia actual esteja melhor que a URSS, ou que as populações não tenham mergulhado, em grande parte, numa pobreza abjecta, em especial quando se sabe a imensa riqueza que o país possui e o modo como é apropriada por uma meia-dúzia de pavões novos-ricos da pior espécie que existe.

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