“A Invenção de Hugo”, de Martin Scorsese

A Invenção de Hugo inclui dois aspectos relevantes e novos na carreira de Scorsese: a opção pelo 3D e a realização de um filme num imaginário infanto-juvenil. Se da primeira pouco tenho a dizer, até porque tenho muitas reticências sobre as reais vantagens desse formato (pode ser insensibilidade a certos aspectos técnicos, mas esses pormenores passam-me um pouco ao lado), a segunda não deixa de ser uma opção curiosa, mostrando que, passados tantos anos, o cineasta continua a surpreender.

Hugo é um miúdo criativo e peculiar que vive na estação de Paris após a morte do pai (intepretado por Jude Law – coisa estranha esta de, após O Aviador, o actor voltar a ter um papel tão residual num filme de Scorsese). Essa tragédia é parte fundamental da trama, mas, curiosamente, de uma forma improvável. Isto porque, ao contrário do que sucede como muitos filmes americanos, a perda é explorada de forma progressiva e não recorrendo a emoções fortes logo num primeiro impacto. Assim, como forma de superar a saudade e a solidão, Hugo vai dedicar as suas principais forças ao arranjo de um boneco autómato, uma das últimas missões do pai antes da morte. É esta acção e um conjunto de aventuras infantis que o levam até George Méliès, o destacado realizador do início do século XX, em conflito existencial com o passado, principalmente no contexto da destruição psicológica da primeira grande guerra.

Esta é bem capaz de não ser uma das grandes obras de Scorsese. Aliás, bastaria o último e notável Shutter Island, de outro campeonato e escandalosamente ignorado nos óscares do ano passado, para o mostrar. Ainda para mais porque o filme  se perde um pouco naquelas peripécias próprias do universo das crianças ou… daquele imaginário fantástico de um Tim Burton (bem sei que, o que para mim é um defeito, é uma virtude para muito boa gente). Mas as interpretações são inspiradas, com destaque para um habitualmente grandioso Ben Kingsley (o Hugo teve tantas nomeações e ganhou cinco prémios da academia, como faltou este?), e esta é uma bonita e sentida homenagem aos primórdios do cinema, no mesmo ano que O Artista e com algumas semelhanças, ao nível do imaginário, com o prodigioso Cinema Paraíso.

7/10

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

Uma Resposta a “A Invenção de Hugo”, de Martin Scorsese

  1. Segundo o próprio Scorcese, numa entrevista na Daily Show, a escolha do imaginário juvenil foi em parte motivado pelo desejo do realizador ter um filme que a filha pequena pudesse ver: de «Mean Streets» a «Shutter Island» não muito filme para crianças.
    http://www.thedailyshow.com/watch/thu-november-17-2011/martin-scorsese

    O “segredo” levar à re-descoberta de Georges Melies, será também uma homenagem do cinéfilo, que além de grande conhecedor da história do cinema tem sido activo há 3 décadas na preservação de arquivos cinematográficos, tendo começado, com outros cineastas, a Film Foundation, dedicada à restauração de filmes.

Os comentários estão fechados