Que fale Neruda.

“Passaram-se alguns anos desde que ingressei no partido… Estou contente… Os comunistas formam uma boa família… Têm a pele curtida e o coração valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivas para eles… Vivam os espiritistas, os monárquicos, os aberrantes, os criminosos de vários graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o cão que ladra e que morde, vivam os astrólogos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camarão, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que não lavam os pés ideológicos há quinhentos anos… Vivam os piolhos das populações miseráveis, viva a força comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva André Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo está bem… Todos são heróicos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem ser publicar-se, menos os comunistas… Todos os políticos devem entrar em São Domingos sem algemas… Todos devem celebrar a morte do sanguinário Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… Há disfarces para todos… Disfarces de idealistas cristãos, disfarces de extrema esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, não deixem entrar os comunistas… Fechem bem a porta… Não se enganem… Não têm nenhum direito… Preocupemo-nos com o subjetivo, com a essência do homem, com a essência da essência… Assim estaremos todos contentes… Temos liberdade… Que grande é a liberdade!… Eles não a respeitam, não a conhecem… A liberdade para se preocupar com a essência… Com a essência da essência…”

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28 Responses to Que fale Neruda.

  1. JgMenos says:

    Tudo muito bem dito!
    E de facto há boa e valorosa gente entre os comunistas.
    Mas aquela ideia de anunciar o homem novo, quando só há homens velhos!
    Assim os cristãos, até que se assentou que o Reino não era deste mundo.
    Mas para os comunistas o Reino é deste mundo, e exclui o homem velho de milénios que nele habita. Não há que estranhar que sejam o inimigo, tolerável e até desejavel se é influência, detestável se é poder.
    É a vida!

    • De says:

      Em meia dúzia de frases, JgMenos espraia-se na procura da essência de.
      Passemos à frase feita de “anunciar o homem novo quando só há homens velhos”. A perversão do dito mostra apenas isso mesmo.Um pequeno entorse da realidade? Homem novo? Mas quando?

      “O projeto teórico-histórico-cultural do marxismo torna-se mais radical e revolucionário. Não se trata de abolir uma economia, uma sociedade, uma
      estrutura política e cultural. Trata-se de abolir as bases mesmas destas formas culturais e gerar um homem novo, uma nova natureza humana. O radicalismo deste projeto ainda não encontrou o desenvolvimento teórico e prático correspondente, apesar das enormes transformações que a modernidade capitalista, a crítica socialista e o anúncio de uma época pós-moderna vêm colocando à humanidade. Se o marxismo é um projeto teórico a ser desenvolvido seria este o seu aspecto mais revolucionário e mais desafiante”
      Theotônio Dos Santos

      Mas a matéria-prima de que partimos é o homem.Dirá Marx que “As pressuposições com as quais iniciamos são os indivíduos reais.”
      Mais incisivo:”"Parte-se do homem real que age.”O que temos é a luta por uma sociedade nova partindo do que que existe.Não do homem velho que displicentemente Menos refere.Não há “só homens velhos” (talvez isso resulte de alguma conversa entre JgMenos e o seu umbigo) mas sim homens que se realizam na relação com os outros.”O indivíduo como ser social.”
      “Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas é o seu ser social que determina a sua consciência.”
      E continuo a citar:”O homem é originariamente um ser económico. As relações económicas e particularmente as forças produtivas a elas subjacentes são a base (ou a “infra-estrutura”) de sua existência. Apenas na medida em que essas relações económicas se modificam, também se desenvolvem os modos da consciência, que representam a “superestrutura ideológica”.

      Em seguida Jg fala em exclusão…
      Mais uma vez vemos JgMenos com o rabo escondido de fora.Os comunistas não excluem qualquer homem velho de milénios que nele habita.Pelo contrário.Citemos
      Lenine:”Não podemos edificar o comunismo senão a partir da sociedade de conhecimentos, organizações e instituições, do acervo de meios e forças humanas que herdamos da velha sociedade”…” Não se pode ser comunista sem haver assimilado o tesouro de conhecimentos acumulados pela humanidade…”Para se chegar a ser comunista, tem que se enriquecer a memória com os conhecimentos de todas as riquezas criadas pela humanidade.”
      Ou ainda esta:”Todas as maravilhas da ciência e as conquistas da cultura pertencem à nação como um todo.”

      Não se exclui o “homem velho de milénios”.Pelo contrário reivindica-se a riqueza do património deste.
      O que se exclui são outras coisas.Menos do agrado de JgMenos

      • JgMenos says:

        Argumentação consistente, gostei!
        Mas há um pressuposto que é toda a diferença entre o real e o imaginário:
        “Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas é o seu ser social que determina a sua consciência.”
        Não tenho à mão o material teórico para abordar este tema, nem haverá tempo; mas o que no argumento há de irrealista e profundamente errado!
        O que há de determinante para além da nossa consciência, e o que a determina para além do ‘social’, é tanto, que só por si aniquila a base da doutrina!

        • De says:

          Sinceramente “bases de doutrina” aniquiladas por frases espalhadas ainda por cima sem “material teórico” (que pelos vistos não anda à mão) é dum ridículo atroz.
          (Quase tanto como pretender uma doutrina assente em bases tão estreitas…como o que citei, por exemplo,para não dar azo a confusões).

          “O que há de determinante para além da nossa consciência” é tanto…mas claro que é tanto…Quem disse o contrário?Pelo contrário, o que eu disse corrobora tal afirmação.

          Mas ainda não percebeu o motivo da convocação ao debate do que acima disse?
          O homem novo não surge da boa vontade nem da consciência individuais.O homem novo não é.Poderá ser
          Ora leia lá outra vez

        • De says:

          Releia-se ainda a frase de Marx acima citada:”“Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas é o seu ser social que determina a sua consciência.”
          Rapidamente se chega à conclusão que daqui nada se pode inferir sobre ser apenas o social o determinante exclusivo da consciência.
          Ao contrário do que se quer fazer crer.
          Reducionismo a esta hora,não

          • JgMenos says:

            Marx nunca ouviu falar de etologia, pelo simples facto de essa ciência ainda não existir no seu tempo.
            Se estiver em idêntica situação recomenda-se uma visita à Wikipédia.
            Se não for o caso, reflicta um pouco!
            O ‘ridículo atroz’ é sempre a arma dos ignorantes.

          • De says:

            Já não tenho muita paciência para quem nem sequer percebe o que se escreve.

            “Ridículo atroz” : referi-me a :”“bases de doutrina” aniquiladas por frases espalhadas ainda por cima sem “material teórico” (que pelos vistos não anda à mão)

            Acrescento depois:”Quase tanto como pretender uma doutrina assente em bases tão estreitas…
            Ou seja, também será ridículo atroz – ainda mais – pretender que as minhas frases constituam a base para qualquer doutrina.
            E tenho o cuidado de esclarecer e continuo a reproduzir ipsis verbis : “como o que citei, por exemplo,para não dar azo a confusões”.
            Ou seja.eu incluído no tal ridículo atroz

            Pecrebeu agora?

            Quanto à etologia e a Marx…nem vale a pena ir por aí.
            Basta (re)ler o escrito.A cada um as saus conclusões

          • JgMenos says:

            Decididamente DE não vai lá …
            Nem entende o que escreve.
            “Trata-se de abolir as bases mesmas destas formas culturais e gerar um homem novo, uma nova natureza humana.” não suscita questões etológicas…Pufff!
            Estamos conversados.

          • De says:

            Lastimo sinceramente mas “a falta de percepção” tem limites.

            A frase ““Trata-se de abolir as bases mesmas destas formas culturais e gerar um homem novo, uma nova natureza humana.” pode suscitar o que quiser.
            A interpretação é livre dentro de alguns limites, mas o seu significado é claro.Pode suscitar até “questões etológicas” .

            Mas a frase citada é de Theotónio Dos Santos. Nascido em 1936.Bem dentro da contemporaneidade da etologia.

            Francamente.Ao menos tente ler antes de mandar o primeiro disparate que lhe vem à cabeça,qual ser estudado por Pavlov.
            Não lhe vou responder com o seu pufff seguido de !!! porque acho que começa a raiar o ridículo.
            Mas volte a ler para ver se é desta.
            Certo?

          • JgMenos says:

            O meu respeito pela dialéctica impede-me de prosseguir ‘conversa ‘redonda’.
            Até melhor ocasião.

          • De says:

            Presumo pois que.
            Ainda bem

  2. sopas says:

    Pronto. Agora entraram na fase do coitadinho, atacados por todos, this is an injustice.
    Porra pá, assumam a discussão das coisas sem fazerem o papel de Calimero, assumam as diferenças se elas existirem, as opiniões diferentes se as tiverem. Não estejam sempre com o passado a servir de escudo para o que se passa hoje. Fazem lembrar aqueles patriotas de pacotilha, sempre com o velho recurso às caravelas e aos descobridores de quinhentos para glorificar a pobre história seguinte. Isto é um assunto político e como tal deve ser tratado, não com lamúrias e desculpabilizações mal amanhadas, nem culpem a falta de debate interno, como se ela tivesse existido para outras coisas que foram impostas e nem um piu se ouviu, e não restou outra coisa aos camaradas senão dizer que sim com a cabeça e levantar a bandeira.

    • Бакунин says:

      Deixa lá o homem carpir em paz.

      É muito duro quando se percebe que não se é capaz de engolir uma decisão do PCP.

      Quando se percebe que não há forma de justificar uma decisão cujo fundamento não é ideologico, mas sim puramente tático.

      O PCP é um partido de sobrevivencia, e sabe que não pode aventurar-se muito para fora do seu território. e o seu eleitorado é do seculo passado. até nos costumes.

      O Bruno vive o conflito de aceitar esta decisão do PCP, e abdicar da ideia do seu partido ser proguessista. Ou de fazer o inpensavel, e confrontar abertamente a direcção do partido.

      Mais duro é perceber que no PCP só se têm opinião quando ela é igual á do comité central. se pensamos de forma diferente, sorriem-nos e ignoram-nos.

      Eu sei, já fui do PCP. E já passei por isso.

      Portanto deixem lá o homen carpir em paz, é o inicio da cura.

      • Bruno Carvalho says:

        Teria sido muito mais fácil para si que o PCP fosse um partido de sobrevivência e estivesse naquele declínio eterno a que a comunicação social e os “ex-comunistas” o condenam. É lixado perceber que o PCP não só não decresce como se reforça a nível social e eleitoral. De resto, ainda bem que abandonou o PCP. Parecer-me-ia estranho que alguém dentro do PCP encaixotasse todos os militantes no século passado só porque o partido tinha tomado a decisão – boa ou má, não importa para aqui – sobre uma questão que sendo importante nada diz sobre o carácter revolucionário e de classe de uma organização. Sobre a minha posição, nada saberá. Assim, como não sabe se sou a favor ou contra a greve geral, a favor ou contra o aborto, a favor ou contra que a bandeira comunista seja vermelha. É simples. Respeito a decisão democrática da maioria dos militantes esteja ela ou não a representar a minha opinião. Pluralidade de opiniões e unidade na execução das posições maioritárias é, na minha opinião, o dever de qualquer comunista. Depois, cabe a cada um decidir se está ou não no partido certo quando a maioria das opiniões nunca caminham ao lado das suas. Quando se é minoria e se considera que deve abandonar o barco. Respeito isso (desde e quando não se ande a fazer trabalho fraccionário nos entretantos).

        • maradona says:

          Muito bem o Bruno Carvalho, aqui neste comentário-resposta (não há aqui ironia, caralho, não tenho aliás jeito para essa merda!). Sou anticomunista, mas não totalmente maluco: o mecanismo (?) do centralismo democrático é um ensinamento de valor, e um valor importante. Exige homens mais íntegros?; pode facilmente transformar-se numa justificação para as piores intenções e os objectivos mas asquerosos? Sim, mas tudo é preferível à palhaçada dos “deputados independentes”. Cem por cento com o Bruno Carvalho nesta coisícula! Após este interregno, espero voltar ao meu combate sofá e preguiçoso contra os ideais comunistas.

          • Vasco says:

            O centralismo democrático põe todo um colectivo a contribuir para a decisão e todo esse mesmo colectivo a aplicá-la. Há mais liberdade neste processo do que no puro e simples decidir como votar uma proposta que não se conhece, da qual nunca se ouviu falar e para a qual não se contribuiu…

        • Luis Almeida says:

          Os ex-comunistas são como os ex-fumadores que se tornam mais anti-tabagistas militantes do que os que nunca fumaram!
          Quando é que era você mesmo: quando entrou ou quando saiu?

      • Vasco says:

        Excelente texto, Bruno, novamente. A citação do Neruda é notável. Quanto ao voto e à decisão do PCP, não a lamento – não neste momento. Só lamento que haja forças tão irresponsáveis que sejam capazes de «jogar» com um tema destes, com a sensibilidade que tem não só para os potenciais interessados na adopção como na sociedade no seu todo, para fins tácticos, para encobrir divisões internas e a sua clara falta de unhas para tocar a guitarra da luta contra a exploração e a injustiça no terreno. Forçar esta votação neste momento, sem antes iniciar o necessário debate público sobre uma questão que sendo «moral» não o é apenas, pois envolve crianças, demonstra uma grande falta de carácter. Discuta-se primeiro, vote-se depois – e não o contrário!

      • Luigi Fare Niente says:

        Eh pá!abraços ao eurico de melo,aos irmãos cavaco,ao cavaco (itself!)ao dias loureiro,ao oliveira costa,ao paulo portas,aos submarinos,ao teixeira pinto,jardim gonçalves,ao valente de oliveira,à sln e á puta que vos pariu!

      • Luigi Fare Niente says:

        Bakhunin: idi na hui!

    • De says:

      Qual “lamúrias nem meias lamúrias”
      Isto é um assunto político.
      E de que forma.
      Por isso mesmo é que Bruno posta o post que posta.
      Ou ainda não percebeu?

      • Zuruspa says:

        Claro que näo percebem.
        Ou pior, säo hipócritas e fingem que näo percebem.

      • sopas says:

        ó De,
        o Bruno posta o que posta porque foi a forma que entendeu de fazer uma fuga prá frente, citando um texto já aqui citado talvez dezenas de vezes. Sempre que é necessário fugir com o rabo à seringa lá vem o toca a reunir com apelos ao sacrifício ao sangue e à glória. A defesa do quadrado e o apelo heróico à unidade dos puros. É a bandeirinha na lapela dos ministros do Coelho, é o que é.

    • Vasco says:

      Coitadinhos, nós? Nunca. Coitadinho do Berloque, que não mexe nem uma palhinha na luta social e voltou às origens das causas fraturantes… É mais fácil ser «dessa» esquerda. Mais cómodo. Mais consensual… Mais inútil, também…

  3. Luis Almeida says:

    Para JgMenos,
    A etologia é o estudo do comportamento animal ( não sabia e não vi na Wikipédia; aprendi hoje mesmo com uma amiga veterinária… ). Mas, como é que pode você JgMenos, vir seriamente, com essa se sabe que a etologia se aplica a todos os animais menos a um : o “homo sapiens sapiens” , animal de tipo tão especial e tão complexo que o seu estudo abrange vários ramos da ciência
    ( e da filosofia… )?
    Discutir, sim, mas sem fazer o elogio da ignorância…

  4. Luis Almeida says:

    O Neruda vem sempre a propósito, Bruno…

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