O Partido

No ran-ran mediático do dia-a-dia, quando se fala do PCP fala-se do Partido. Dos comunistas. Da máquina oleada e homogénea. Do bloco duro de opinião unica. Pois bem, eu que sou militante do Partido já lá vão uns bons anos (se contarmos os anos de militância na JCP mais de 21) não me revejo em nada nesse partido caricaturizado pelos media, pelos esquerdistas e reformistas e por outras criaturas que tais.

Quero-vos falar do Partido, do meu Partido. E se por estes dias ando chateado com a posição que o grupo parlamentar do Partido tomou na Assembleia da Républica relativamente à adopção por parte de casais homossexuais, devo-vos dizer que estou chateado também comigo próprio. O Bernardino quando justificou o voto contra (também poderia ter sido uma abstenção, para o caso é indiferente) referiu que na sociedade portuguesa, onde o PCP se inclui, não tinha havido um debate aprofundado sobre esta matéria e disse bem. O que eu saliento desta declaração e mais que outra coisa, é o “onde o PCP se inclui”. Acho de uma importância fulcral, central, decisiva. De facto, o meu Partido não fez esse debate. Sem ter certeza do que digo, acho que, neste momento, é muito dificil ter noção clara do que é o sentimento maioritário do Partido relativamente a esta matéria. E este é um grande problema.

Noutros partidos, este problema não se põe. A falta de democracia interna que regula a diferenciação clara entre dirigentes e dirigidos, estabelece que estes ultimos delegam nos primeiros a capacidade decisória sobre o que é a posição de todos, chegando ao ridiculo e absurdo facto de delegar nos seus eleitos a capacidade de opinar por todos, segundo a sua “consciência pessoal”. Transvestidos em uma espécie de concorrentes a Miss Politicamente Correcto, os partidos da burguesia descartam as suas responsabilidades enquanto colectivo relativamente às chamadas “questões fraturantes” num acto de uma indolência confrangedora, em todo revelador não da sua suposta liberdade, como o apregoam mas sim da domínio das personalidades, dos caprichos e dos humores de uma certa elite instalada.

No Partido, não somos assim, não podemos, não queremos. Um partido revolucionário como é o PCP, um partido com uma profunda democracia interna como tem o PCP não pode, em momento algum, sobrepor a opinião de qualquer grupo de dirigentes à opinião do colectivo. Esta é, sem margem para duvidas, a marca da nossa união, da nossa força, numa profunda e constante (incessante até) troca de opiniões de “cima” para “baixo” e de “baixo” para “cima” que permite que as decisões tomadas sejam as decisões que reflectem a opinião da maioria, respeitando as opiniões minoritárias, sem as transformar em párias internos como é comum ver nos conflitos pessoais entre prima donnas dos velhos e gastos partidos do poder.

Mas um partido revolucionário como é o Partido, apesar das inúmeras tarefas e desafios que tem pela frente, da luta imensa que tem de acompanhar e dirigir e apesar dos esforços abnegados dos seus incansáveis militantes e dirigentes (e aqui merecem o meu destaque os funcionários do Partido que muitas vezes fazem das tripas coração, que do nada dinamizam organização e luta, com uma esperança revolucionária inaudita mas acima de tudo, com muito, muito e muito trabalho) tem de ser capaz pela sua profunda ligação ao povo, pelo seu histórico compromisso com os oprimidos, pela manutenção da sua superioridade moral face aos partidos burgueses (e os nossos eleitos são claro exemplo disso, vivendo não como príncipes num reino decadente, mas vivendo como vive o Povo português*) de dar uma resposta efectiva, clara e determinada a toda e qualquer situação que possa constituir a diminuição de direitos  de parte ou de todo o Povo Português. E essa é que é a questão central e essa é a responsabilidade que eu, enquanto membro do Partido, assumo e pela qual tenho de fazer a minha auto-critica: a de não ter colocado a debate a questão com que iniciei este post no meu organismo de base, a de não ter proposto nenhum debate, nenhuma audição, nenhuma tomada de posição colectiva sobre a adopção de crianças por casais homossexuais. Por vezes, convencidos das nossas certezas esquecemo-nos que é fundamental sempre, mas sempre, debatê-las com os nossos camaradas…

“Prudência construtiva, o caralho”, isto é é falta de debate interno e da responsabilidade individual** que cada militante tem de, se assim o entender e dentro das regras de funcionamento do Partido, promover no seu organismo a discussão necessária para uma tomada de posição séria e convicta, orientada pela expressão clara da opinião do colectivo partidário.

 

*Artº 54, 4) dos Estatutos do PCP: “No desempenho dos cargos para que foram eleitos, os membros do Partido não devem ser beneficiados nem prejudicados financeiramente por tal facto. ”

**Artº21, 2) dos Estatutos do PCP: ” A responsabilidade colectiva de direcção não elimina, antes pressupõe, a responsabilidade individual e a iniciativa de cada membro.”

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48 respostas a O Partido

  1. JMF diz:

    Nos inícios dos anos 90, a problemática da despenalização das drogas leves também não era colocada/discutida, ouvi nessa altura um camarada dizer ” vejam lá que um grupo de camaradas da JCP queriam aprovar a droga…” (1994)! organismo concelhio de Guimarães.

  2. Jakim diz:

    Já agora uma pergunta: os senhores dizem-se um partido Classista, e falam na Luta de Classes, o que quer que isso seja….

    Se o PCP chegasse ao Poder seria um Partido que iria governar para que Classe ? E aos portugueses que não fossem dessa Classe eleita, faria o quê ?

    • Rafael Fortes diz:

      leia o programa do PCP e não chateie…

      • Jakim diz:

        Muito francamente prefiro mil vezes ler a Gina, mas reparo que a Veia Censória continua aí bem marcada nos genes dos Kamaradas…. e iso já é dois terços do contraditório que não foi nem será capaz de fazer….

        • Rafael Fortes diz:

          então vá mesmo ler a Gina, por favor…

          • Jakim diz:

            Mas não me diga que não sabe quantos é que foram parar aos Gulags na Sibéria…. ou é como aquela sua Kamarada que acha que os Gulags são um mito urbano ? Também não sabe o que aconteceu às familias dos camponeses que, durante a Revolução Bolchevique, lutaram com unhas e dentes contra o Roubo de terras de que foram alvo ?

          • Rafael Fortes diz:

            vá ler a Gina, por favor, e este é o ultimo comentário histerico que lhe aprovo…

        • Carlos Carapeto diz:

          É por ler a Gina que escoiceia este tipo de asnadas.

          Dedique-se a estudar um pouco da história da Revolução Bolchevique, para poupar quem o lê a ter que aturar as suas parvoices.

          Falou com alguém que tivesse vivido o período da coletivização agricola na URSS?

          Eu tive o privilégio de conhecer e falar com que participou nesse processo.

          Pergunto; o que sabe disso para estar para aqui a ca….. sentenças?

      • Zuruspa diz:

        Uf… o homem nem sequer lê as frases da revista Gina, só olha para as fotos, e agora tu queres que ele leia um Programa inteiro? É neve demais para o limpador dele…

  3. Renato Teixeira diz:

    ” ando chateado com a posição que o grupo parlamentar do Partido tomou na Assembleia da Républica relativamente à adopção por parte de casais homossexuais”

    “A falta de democracia interna que regula a diferenciação clara entre dirigentes e dirigidos, estabelece que estes ultimos delegam nos primeiros a capacidade decisória sobre o que é a posição de todos, chegando ao ridiculo e absurdo facto de delegar nos seus eleitos a capacidade de opinar por todos, segundo a sua “consciência pessoal””

    “sobrepor a opinião de qualquer grupo de dirigentes à opinião do colectivo”

    Não foi precisamente isso que aconteceu? Um grupo de dirigentes, no caso, os parlamentares, decidirem consoante a sua consciência pessoal, em nome de todos os outros, uma posição que nem sequer havia sido debatida com profundidade?

    • Rafael Fortes diz:

      Não, Renato.Não acho, de todo que tenha sido isso que tenha acontecido. Caso assim tivesse sido, o sentido de voto teria sido radicalmente distinto, mas continuaria a ser errado…

      • Renato Teixeira diz:

        Em nome de quem falaram então os parlamentares?

        • Rafael Fortes diz:

          Renato, creio que o post é muito claro- pouco interessa a orgânica da tomada de decisão- e a justificação do voto tenho a certeza que é honesta e parece-me ir ao encontro do que defendo aqui. Creio que mais importante é a falha no debate, que eu pessoalmente assumo e que mesmo tomando posições publicas sobre a matéria nunca me lembrei de puxar o assunto em nenhuma reunião…

          • Renato Teixeira diz:

            Então a culpa é tua. Está explicado.

            Acho esse argumento sem qualquer cabimento, sobretudo porque é humanamente impossível aos militantes de qualquer partido terem todos os debates feitos com profundidade. Não é por isso existem direcções?

          • Rafael Fortes diz:

            Renato é muito simples no Partido suscitar a discussão. Basta pedir a palavra e falar. E se é verdade que a direcção podia ter tomado a iniciativa de suscitar o debate (nunca de decidir per si a posição do colectivo sobre esta matéria), também é responsabilidade de cada membro do PCP de colocar as questões que acha pertinentes. E sim, a culpa (também) é minha porque no organismo que me insiro, nos plenários em que participo nunca coloquei a questão e, pior, não me lembro de ter sido levantada a questão: falo-te de duas organizações sectoriais, uma organização concelhia e uma organização regional. A direcção serve para debater com profundidade? Claramente, mas para tal tem ouvir o colectivo e interpretar a sua “alma”, senão é uma direcção burocrática, pequeno-burguesa e muito pouco revolucionária…

          • Renato Teixeira diz:

            A avaliar pela interpretação da alma deste tema, acho que os adjectivos que usas não chegam para qualificar a direcção.

  4. Lúcia Gomes diz:

    Completamente de acordo. Sem me imputar responsabilidades porque sempre discuti estas questões nos organismos onde participo. Lamentavelmente, penso que esta posição na traduz os anos de debate e iniciativa parlamentar e política nesta área. Lamentavelmente. Mas creio que este exemplo deve servir para que a auto crítica seja feita, e a crítica, nos lugares onde sempre tudo se discute. Desde o despedimento pela utilização da gravata com um nó mal dado até questões como esta, de direitos humanos. O facto da posição do Partido não coincidir com a minha posição pessoal, não é raro. Muitas vezes venho a perceber que a reflexão colectiva teve em conta muito mais do que a minha cabeça tinha. Mas nunca deixei de dar opinião. E asseguro que não foi o grupo parlamentar que decidiu (não é um organismo, cada um de nós tem a sua organização). E por achar que esta posição não reflecte todo o património colectivo de discussão e as posições de muitos camaradas, apelo a que a discutam e que a levem ao sítio onde sempre levam as suas preocupações. Ao seu Partido. Ao meu Partido.

    • Rafael Fortes diz:

      Lucia, quando falei da tomada de posição do GP do PCP não me referia à decisão em si, mas à assunção publica da mesma, como não podia deixar de ser, caso não tivesse deixado isto claro.

      • Lúcia Gomes diz:

        Rafael, estava a concordar contigo e a discordar dos que pretenderam afirmar que a decisão foi tomada pelo Grupo Parlamentar.

    • Luis Almeida diz:

      Não posso estar mais de acordo, querida camarada Lúcia! Eu, que milito desde 1973 ( tenho 68 e antes estava no MDP/CDE, desde 1969 ) nunca me senti tolhido por suscitar um debate, nem olhado de revés por discordar de algo. Aliás, basta propor uma adenda ao sumário da discussão desse dia! Admito que se tivesse sido proposto poderia ser adiado ( nunca rejeitado ) por haver assuntos relativos às lutas do dia-a-dia mais prementes, a discutir. Mas ” premente” e “importante” não são sinónimos…
      Muita malta que manda “bocas” aqui, não conhece o Partido por dentro. Pensam que somos como os partidos burgueses, em que os “chefes” decidem por todos! E, como tu dizes, os deputados não são um organismo do Partido. Além de que, para usar um metáfora geométrica, a verdade ( ou a apreensão da realidade ) não é uma superfície. É um volume, que tem de ser visto de cada ângulo e onde cada parte ( tal como entre os neurónios e as sinapses ) está ligada com outra e todas elas entre si, num processo complexo. Uma “boca” é ( mesmo que bem intencionada e que não traga “água-no-bico” ) uma simplificação, e sabemos que simplificar algo que é complexo, é mutilá-lo…

  5. Augusto diz:

    Rafael Fortes , com toda a franqueza chame-me sectário, como o seu parceiro de partido, o Tiago, chame-me anti-PCP, o que não sou nem nunca fui, mas não me venha deitar poeira para os olhos, porque isso o descredibiliza a si , a até ao partido que diz defender.

    Dou-lhe 3 exemplos, como reagiu o conjunto de militantes do PCP, quando o Partido fez um minuto de silêncio de pé , pela memória do Cónego Bombista Melo, na Assembleia da Republica?

    Como reagiram os militantes do PCP , quando na mesma A.da R. o partido absteve-se na moção de homenagem ao FASCISTA Fraga Iribarne?

    E até esta semana em Guimarães , na Assembleia Municipal foi votado um moção de saudação pela nomeação do novel cardeal Monteiro de Castro, e mais uma vez o PCP se absteve, este FIGURÂO, defendeu entre outras pérolas altamente reaccionárias, que o lugar da mulher `”é em casa a tomar conta dos filhos” , diga-me os militantes do PCP sobretudo as mulheres de Guimarães apoiantes do PCP como terão reagido?

    3 exemplos, que valem o que valem , mas onde se prova que o PCP, não deve escutar o colectivo partidário, pois estou certo que em qualquer dos casos, se o tivesse feito , a forma como teria votado ou actuado seria o oposto.

    E já agora para terminar com este tema, voltando á vaca fria, o colectivo partidário foi ouvido, e debateu os casamentos entre pessoas do mesmo sexo?

    • Rafael Fortes diz:

      Relativamente às 1ªs questões, creio que não têm nada a ver com o assunto do post. Relativamente à ultima questão, eu pelo menos discuti esse assunto em vários foros do partido, tendo chegado o organismo a que pertencia na altura (Novos Quadros do SINTEL-Porto) a organizar um debate com um psicólogo que, se a memoria nao me falha, estava a escrever uma tese de doutoramento sobre o activismo LGBT e com vários activistas do movimento LGBT.

    • Bolota diz:

      Augosto

      È por estas e por outras que o PCP é GRANDE.

      Se tem votado ao contrario levava na cabeça porque tinha votado ao lindo de uma mão cheia de mal amanhados do PS/PSD/CDS

    • Luis Almeida diz:

      Não acredito que o Augusto não saiba o que são relações estado-a-estado e partido-a-partido. A AR é um órgão de Estado! Nunca convidaríamos o Fraga Iribarne ( esse franquista recauchutado ) para a Festa do “Avante!” nem para um Congresso nosso.

    • José Jardim diz:

      Augusto
      Pode-me explicar porque a marisa matias,miguel portas e rui tavares,deputados do be no PE á altura ,(o rui tavares já deu de frosques do be),votaram favoravelmente a intervenção da nato na Libia,com os resultados castratróficos que se conhecem em termos de perda de vidas humanas inocentes?

      • João diz:

        Fizeram merda da grossa, tal como o PCP fez agora, sendo que a merda do BE foi incomparavelmente maior. Custa reconhecer que o PCP fez merda em vez de estar a apontar o outro menino?

  6. José Manuel diz:

    Aquela da “prudência construtiva o caralho”retirada do contexto total da intervenção do camarada Bernardino revela algum basismo um tanto prafrentex/simplex e um vernáculo para ter baixinho à mesa com amigos,e não num blog de quem se afirma ser militante do PCP.A leitura reflectida do Partido com Paredes de Vidro ajuda-me bastante a entender melhor o significado da critica,autocritica,disciplina revolucionária e centralismo democrático.Mas,caindo na real,vamos tratar da Greve Geral de 22 de Março,para ajudar a “destroikar”este país e contribuir para a alternativa patriótica e de esquerda que tão necessária é para os trabalhadores e o povo.

  7. De diz:

    Um post clarificador.
    E corajoso!

  8. Luis Almeida diz:

    Excelente post Rafael! Na forma ( a utilização de artigos dos Estatutos do Partido foi óptima!… ) e no conteúdo.

  9. Outro diz:

    Também aprecio esta frontalidade.
    (e para os que a leram declaro sem efeito a minha “uma ova fecundada” em reacção)

  10. Mário diz:

    O Partido no qual milito, O Partido Comunista Português; do qual faço parte, votou correctamente.

  11. ricardosantos diz:

    então e quanto à fiscalização do orçamento tambem uma decisão correta?

  12. patrícia diz:

    Esta posição do PCP radica num conservadorismo que está instalado na cabeça dos seus dirigentes há décadas. Só isso explica que nessa mesma noite, na sexta-feira passada, o grupo parlamentar do PCP na Ass. Municipal de Guimarães tenha votado a favor do louvor ao cardeal que dias antes tinha dito que o lugar das mulheres é em casa a cuidar dos filhos. Houve discussão a fundo no Partido sobre o papel da mulher na sociedade? E se houve, como se justifica o voto vergonhoso destes camaradas?

    • Rafael Fortes diz:

      Não faço parte da concelhia de Guimaraes por isso nao lhe sei responder. Perguntar se houve discussão a fundo sobre o papel da mulher na sociedade é como perguntar se o papa é católico…

  13. Tiago diz:

    O “amigo” Renato Teixeira é capaz de em dois posts seguidos dizer isto:
    Às 22:28 do dia 26 de Fevereiro ” Não foi precisamente isso que aconteceu? Um grupo de dirigentes, no caso, os parlamentares, decidirem consoante a sua consciência pessoal, em nome de todos os outros, uma posição que nem sequer havia sido debatida com profundidade?” deixando implicíta a ideia de que os camaradas que tem a tarefa de deputado não ouvirem os outros e decidirem pela sua cabeça. E até dou de barato a tirada de uma ignorância a toda a linha de chamar aos parlamentares… “dirigentes”. Desconhecimento profundo do que é e do que deve ser um partido revolucionário aproveitando as janelas de um regime burguês conquistadas pela luta.

    Uma hora depois às 23:33 “Acho esse argumento sem qualquer cabimento, sobretudo porque é humanamente impossível aos militantes de qualquer partido terem todos os debates feitos com profundidade. Não é por isso existem direcções?”

    Dizendo agora que sendo impossível ouvir e debater tudo (conhece muito pouco da lógica de funcionamento de um partido revolucionário) … já deve ser a direcção a decidir, colocando a ideia de todo reaccionária, que os militantes de base estão à partida impossibilitados de discutir todos os temas, e que a direcção central deve então decidir por eles. Não sabe porque existem congressos para definir linhas gerais de acção, e que se não houve uma decisão/debate sobre um determinado tema, deve ouvir os colectivos. Centralismo democrático.

    Eu sou militante do PCP e este tema é substancialmente diferente do casamento homossexual em que o que está em causa são duas pessoas adultas, livres de amar, enquanto que na adopção entre em cena uma terceira pessoa, criança ainda por cima.

    Eu sou a favor, mas não reconhecia legitimidade à direcção para avançar com uma resposta sem debater internamente. Por isso, concordo plenamente com a “não decisão”
    tomada.

    Mas tudo serve para atacar o PCP. Aliás tudo serve por parte de uma pseudo-esquerda, para chamar de conservador o Partido. Eu no último 1 de Maio até vi uns tipos com um pano a defender a legalização da prostituição. Ou seja, pseudo-esquerda a ir ainda mais longe que a extrema direita, até o comércio do corpo deve ser legalizado e alvo de exploração.

    Não se combate o sistema capitalista que condena mulheres a recorrer à prostituição… mas segue-se o caminho de legalizar, tomando como ponto de partida que existem mulheres/homens que querem ser prostitutos (as), ou seja, deixando uma abjecta consideração sobre o que é excepção e o que é regra, nas mulheres (principalmente mulheres) na não defesa da sua dignidade.

    Aliás nem compreendo porque é que quem defende a legalização da prostituição, não defende a legalização do trabalho infantil. Os argumentos que utilizam encaixariam precisamente neste tema. “Melhores condições de trabalho, desconto para a segurança social… porque existe e não podemos esconder”. Mediocre.

    Logo eu já acredito em tudo por parte desta malta que ao ritmo das tiradas de “esquerda” lá vão dando o seu inegável contributo para que o capital continue a sua saga.

    Depois citam tomadas de decisão de colectivos locais (não conheço os casos) para tomar a parte pelo todo, sem sequer referirem os argumentos para o sentido de voto que alegadamente se teve. Mediocre, desonestidade gritante, o habitual.

    Tudo serve para criticar, mas trabalhar está quieto. Faz-me lembrar numa manif da cgtp em que um tipo da ruptura (tal como as rubras e outros, os verdadeiros revolucionários, “fora dos reaccionarismos que vem do PCP”) que me veio “dar” o seu jornal e eu lhe disse: olha que estou cá… já estou mobilizado, porque é que não andaste como eu e muitos outros a levantar o rabinho cedo da cama para ir às empresas, fábricas e por aí a distribuir documentos a mobilizar os trabalhadores? Ela disse-me que tinha ido, que tinham feito isso, eu ri-me… ela não disse mais nada.

    Espero ao menos que tenha percebido que isto de falar de ser revolucionário é muito bonito, mas bom bom é trabalhar e dar no duro, e isto pelos anos que levo de andar de um lado para o outro a ajudar o PCP a mobilizar os trabalhadores, raramente vi alguem fora do PCP, Verdes ou activistas sindicais próximos do PCP/CDU a dar o corpo ao manifesto.

    De resto conheço os Choras deste país, os rupturas, os rubras e tudo o que fazem antes de criticar o capital, é criticar o PCP. A sua prioridade diz bem ao que vem.

    Leio barbaridades neste blog, de gente que à primeira oportunidade ( se não houver, inventa-se) criticam o PCP. Porquê? Que comichão dá o PCP a esta gente? Porque razão não trabalham? Porque razão esperam pelas concentrações em que o PCP e a CGTP mobilizam para ir vender jornais, seja do bloco, Rubra ou o Ruptura?

    A mobilização passa por ir onde estão os trabalhadores, ficar pelos posts na net é muito bonito, provavelmente dormem de cabeça descansada, mas é pouco, muito pouco, para quem tanto critica, quem pelo menos apesar de todos os erros inerentes à sua condição de seres humanos, dão o corpo ao manifesto, à chuva, ao frio, (onde a comunicação social não está para aparecer numa foto um panozinho dos mrpp, rubras e rupturas e blocos) e passa um mau bocado, muitas vezes para apenas conseguir falar com 2,3 trabalhadores.

    Nem sequer percebem que nas grandes manifestação o PCP nunca vai “identificado” porque o que interessa é unidade. Coisa que esses movimentos nunca tem a humildade de fazer, preferindo sempre levar propaganda sua, de forma a serem vistos, ou seja, aproveitar-se do trabalho dos outros, para ganhar visibilidade, que não conseguem construir através do seu próprio trabalho. O PCP até nos autocolantes que distribui raras vezes os indentifica, coisa que por exemplo outros teimam em fazer, para dar a ideia que são muitos e estão realmente interessados em dar força às manifestações.

    Ou seja, podem criticar o que quiser, mas ao menos façam algo que se veja, e não fiquem surpreendidos se as vossas acções só tenham mobilização que se veja, se a comunicação social (que tanto criticam- e com razão) vos fizer a papinha toda.

    Ou seja, a legitimidade para criticar tudo o que mexe no PCP ( se ser tornar tão óbvio que a crítica à democracia burguesa é um pretexto para atacar quem quer superar o sistema capitalista) ganha-se, se trabalharem, coisa que não fazem ou para ser mais justo, fazem muito muito pouco.

    Isto partindo do pressupostos que todos os que fazem parte dos dirigentes desses movimentos estão realmente interessados em mudar alguma coisa neste país, coisa que por muitas coisas que leio por aqui, duvido e muito.

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  15. Justiniano diz:

    Caro R. Fortes, o tema é bastante interessante!! Falo, claro está, da questão da adopção plena por casais homossexuais e não do seu eventual conforto ou desconforto com o partido, percepções várias, elevado e reduzido entendimento (questão que entendo menor e desinteressante, mas à qual oferece Vmcê aqui mais abundantes razões, questão que lá saberá Vcmcê porquê)!!
    Aprecio, sempre, a sábia prudencia, especialmente quando parece ser desnecessária ou, e por, dissolvida num consenso emocional mudo ou em serena indiferença!!
    Ora, do ponto de vista do discurso legitimador da proposta do BE (discurso substantivo apresentado na AR) só, e apenas, digo eu, um tolo não votaria, liminar e redondamente, não!! E mais diria, não! Não compreendo este discurso centrado, ou descentrado, na substancia do direito à igualdade, à realização pessoal, à estética, ao autocomprazimento, ao disparate e tudo o mais e o menos!! Uma despropositada tontice, ou servirá a adopção para tutelar outros direitos que não o direito, daqueles, em chamar pais aos outros e deles exigirem direitos assim considerados e cumprirem outras tantas obrigações também assim assinaladas!!? (note-se que do outro lado, há argumentos ainda mais indigentes que este…)
    Percorrendo outros argumentos, menos densos, mas simultaneamente, mais preclaros e pragmáticos cuja validade pode ser discutida e em relação aos quais serei sensível. E dentre esses muitos, o mais sólido parece-me ser o argumento da tutela – aquele que perpassa o tomar conta, paternalmente, e que assenta numa escala deficitária entre os indivíduos, menores de idade, largados à sua sorte ou acolhidos em “Instituições” e aqueles que, por genuíno interesse, pretendem filiar. E também eu entendo que aquelas, crianças, “institucionalizadas” ao cuidado de todos nós, estarão bem melhor se ao cuidado daqueles que se entendem como família, prezando a mesma ideia de decencia e indecencia a que nos obrigamos, sendo absolutamente indiferente se homossexuais ou heterossexuais!!
    Mas como também creio existir verdade nas formas estou em crer que este assunto tem sido discutido sob formas erradas ou tomando figuras jurídicas desadequadas aos interesses jurídicos em questão!!

    • Rafael Fortes diz:

      pois, ó meu caro Justiniano, eu por acaso até entendo que esta é uma questão de direitos individuais, visto que se considerarmos a questão como ela existe neste momento, a lei define que existe um conjunto de cidadãos como inaptos à educação de uma criança meramente pela sua orientação sexual…e a lógica é uma lógica de ostracização….

      • Justiniano diz:

        Caro R. Fortes, pois Vcmcê, errando, está a colocar a questão de forma correcta – centrando-se na educação de uma criança e não na filiação – errando, no sentido em que pretende equivaler a educação, criação, sustento e conforto com a filiação (repare que é Vcmcê que quer atribuir uma determinada forma, por desnecessária equivalencia, àquela relação) (Eu confesso que me inclino a estudar outras formas jurídicas para o essencial da relação como, verdadeiramente, o coloca)
        Mas, como o que, o caro R. Fortes, entende, entende-o por acaso, não é grave!!

        • rafael diz:

          Claro, Justiniano. Eu só sou um tolinho a mandar patacoadas. O meu Nivel de reflexão sobre esta matéria foi escrever 3 palavras soltas e depois tentar metê-las na mesma frase…

  16. Mário diz:

    Os direitos do menor?

  17. miguel cunha diz:

    O PCP é um partido com uma base de militantes muito diferente do BE. A composição social do PCP ajuda a perceber as razões que levaram o GP a votar contra. A forma como um operário vê estas questões e a forma como intelectual o faz são muito diferentes. Daí a posição aparente do BE como um partido mais “moderno”, em contraponto com o PCP que não terá a mesma abertura. Parece-me evidente que o GP do PCP (pelo menos a sua maioria) será a favor da medida proposta. Se a FER (ou o BE) fosse uma organização de massas com um enormíssimo número de militantes de origem operária e popular, veríamos de as suas posições seriam assim tão lineares. Aliás, parece-me que esta questão nem sequer é consensual dentro do coletivo Rubra.

  18. Rocha diz:

    O PCP votou contra a adopção por casais de pessoas do mesmo sexo e votou muito bem.

    E que abram os olhos aqueles que insinuam que as bases votariam de forma diferente do grupo parlamentar. As bases do que eu conheço delas são em geral bem mais categóricas contra “adopção por casais de pessoas do mesmo sexo”. As bases não ficariam de estudar o assunto mas antes lhe responderiam com um categórico voto contra.

    O PCP das bases, é o PCP operário, de camaradas mais velhos e experientes e esses são os primeiros a dizer não a estas iniciativas da intelectualidade pequeno-burguesa.

    Como alguns assinalam muito bem, os únicos direitos humanos aqui em questão são os das crianças. Aquilo que o capitalismo roubou às crianças não se pode resolver com comércios e liberalizações de crianças como mercadorias.

    A miséria, a pobreza, a fome não podem esperar por soluções hipócritas. Combate à desigualdade que coloca crianças “à venda”, esse sim é urgente. Não aceito desvios para a raiz do problema.

    Poder aos pobres! Que se foda a pequeno-burguesia!

    • Rafael Fortes diz:

      Pois, olha que eu não sei se as “bases” votariam contra. Esse debate não foi feito no Partido e acho que é importante que se faça. Pode ser que tenhas uma surpresa…

      • Rocha diz:

        A estratégia de dividir para reinar está aqui a resultar muito bem pelos vistos. E o Bloco de Esquerda está a jogar com isto de forma nada inocente, numa altura em está cada vez mais fracturado à custa das posições absolutamente reformistas e capituladoras perante o Euro, a Dívida e a União Europeia.

        Os pobres não podem sequer pensar em adoptar, pois eles são os “adoptados”. Sou contra mercadorias humanas, sou contra mercadorias em geral. Basta de usar os pobres como moeda de troca!

        Há milhões neste país à beira de um precipício de miséria e suicídio, mas ainda há quem suponha que existe esta ‘falsa ideia de igualdade’ que se veste com as cortinas de fumo da Sociedade Com Classes!

        Discriminação? Mas há maior discriminação ou condenação do que ser de uma classe dominada e espezinhada??

        Seria prioritário implementar a adopção forçada de elementos das famílias de banqueiros e grandes grupos económicos. Quero adoptar as heranças dos pulhas que me condicionam o futuro e trituram o presente!

        Além do exército de desempregados, podem alguns esfregar as mãos com um exército de orfãos… Não aceito! Não aceito trocar pobreza por famílias de acolhimento!

        Civilização, sim civilização… é uma forca, uma gilhotina e um pelotão de fuzilamento para toda a classe dominante que agora está a impor-nos a “austeridade”!

        Guerra ao capital, guerra à banca, guerra à Troika, à NATO, ao FMI, à União Europeia, ao BCE e guerra ao Euro! Sem conseções e sem moedas de troca.

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