A Renovação Comunista

Não me surpreende a aproximação da Renovação Comunista ao PS, que o Renato aqui regista. Não que veja os seus dirigentes como traidores ou oportunistas, mas porque isso é a consequência lógica das convergências que os seus actores têm defendido há bastantes anos.
Fui convidado por vários camaradas para a convenção (julgo que era assim que se chamava) fundadora da RC, mas não fui por uma questão política. O convite errava ao alvo. Apesar de, desde o início da minha militância até hoje, utilizar uma boa parte do meu tempo de intervenção política interna ao PCP a elaborar críticas que o possam melhorar, sempre estive nas antípodas de uma “esquerda possível”, muleta do PS.
Contudo a Renovação Comunista faz duas coisas que não me parecem politicamente sérias. Em primeiro lugar, é bom que se diga, a RC não existe para além dos seus dirigentes. É preciso deixar claro que quem toma as suas posições políticas é um grupo reduzido de activistas. Ou seja, a sua representação mediática é muito superior à sua representação no tecido social. Em segundo lugar utiliza o termo “comunista” apenas como forma publicitária. Os seus dirigentes sabem que, ainda que passados 10 anos, as suas posições políticas só são relevantes quando identificadas como uma dissidência do PCP. Não creio que nenhum dos seus activistas se sinta comunista ou revolucionário, ou então defendem um comunismo tão modernaço… tão modernaço… que no dicionário das ideologias há outros termos bem melhores para o caracterizar.

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28 Responses to A Renovação Comunista

  1. Joana Lopes says:

    Estás muito meigo, Tiago… Isto o que parece é mais uma leva a preparar uma entrada «histórica» no PS, como outras no passado. Como a «Convergência ALernativa» não deu nada… palco precisa-se!

    • Tiago Mota Saraiva says:

      Joana, construí a minha opinião política a admirar o esforço e a coragem de pessoas como o Carlos Brito. Custa-me ir muito mais além do que isto.

      • Joana Lopes says:

        Percebi / imaginei isso mesmo, Tiago.

      • João Valente Aguiar says:

        As pessoas mudam Tiago. Para o bem ou para o mal, como é manifestamente o caso. E o facto de se ter sido preso e torturado pela pide não dá a ninguém um certificado de imortalidade e pureza política ad eternum. Se depois um gajo muda de ideais – legitimamente, como é óbvio – em que é que o passado dele se deve sobrepor ao presente? Uma coisa é a recordação de um passado de resistente antifascista e que deve ser valorizado. Outra bem diferente é transpor o passado para o presente, como se isso fosse um atestado de superioridade política, mais ainda quando se trata de uma mudança relativamente ao que ele dizia defender no passado.

        E não se trata de uma mudança cosmética ou do facto de ele veicular a ideia de que ainda é comunista. Ele pode achar isso como mto bem entender, isso é com ele, mas quando se defende merdas patéticas que já vêm do século XIX e que só serviram para fazer do socialismo um instrumento ideológico para levar os trabalhadores a melhor engolirem a exploração, vais-me desculpar mas aí ele já está noutra onda. (E se é que nunca esteve, mas isso é outra história e que certamente o futuro tratará de deslindar com maior clareza).

  2. Do Encontro resultou uma Comissão Dinamizadora ( + ou – 200 participantes): essa reunião e mais duas que se seguiram foram palco de intenso debate ideológico e estratégico. A partir de 2003 o projecto ” morreu” – inclinou-se para o PS.

  3. Ricardo says:

    A mim parece-me que o PS os vai usar para ficar com uma fachada mais de esquerda…

    • Armando Cerqueira says:

      Como é que pode ficar com uma ‘fachada de esquerda’ aquilo que não é nem nunca – na realidade dos factos – foi de esquerda?
      E já agora – nisto tenho insistido em diversos comentários -, o que é ‘ser de esquerda’? O que é Esquerda? Há o risco de empregarmos as mesmas palavras com conteúdos diametralmente opostos!!! A social-democracia, isto é, na versão disfarçada lusitana, o socialismo democrático não é de esquerda – é direita moderada, se se quizer Centro, entre Direita e Esquerda. Não pressupõe a mudança estrutural da sociedade, do modo de produção, das relações de produção…
      Se tiverem dúvidas consultem o insuspeito e inefável Mário Soares que, nos idos de Março de 1975, num discurso eleitoral em Ponte de Sôr, proclamava com razão (dessa vez!) que social-democracia é Capitalismo, não é Socialismo (posso fornecer a referência bibliográfica…).

      Armando Cerqueira

  4. pois é, pois é … tantos ideais e tantos desdobramentos só convêm ao poder. Aqui a esquerda peca. O objectivismo já não se agarra às paredes do crânio dos seres deste tempo, e esta renovação só pega por imbecilidade embora uma outra renovação fosse talvez necessária na estrutura ideológica comunista. Mas lá está, são demasiado demagógicos e pouco humildes para se aceitarem uns aos outros e por isso não se organizam. Quanto ao PS nunca foi um partido de esquerda, e se o foi, apenas lhe serviu a ideia quando mais lhe convinha, como ao filho que regressa a casa dos pais sempre que não tem trabalho. E quando volta a sair torna-se um monstro bastardo de ideias tresmalhadas. Existe algo, para além das manifestações a festa do avante e alguns comícios, que o partido comunista consiga actualmente organizar?
    Conseguirá alguma vez este comunismo luso actuar?
    A discussões que aqui propõem parecem novelas intelectualóides que jogam com a história, com o manual político e as barbaridades da actualidade. Vivem com medo de agir, é? Com o complexo 75?…

    • V Cabral says:

      Complexo 75 ?! Gonçalvismo ?! Esperança ?! Vida boa ?!
      São expressões sinónimas ?!
      Agora que tá tudo na merda, uma coisa dá para perceber … somos um Povo Masoquista anti-comunista .

  5. Rocha says:

    Comunismo modernaço – leia-se com classes, com exploração capitalista, uma treta. Agora a sério, chamar-lhes social-democratas é já bastante simpático (porque eles estão mais à direita).

    Eu que sempre lhes chamei oportunistas e traidores gostei deste post. Não vale a pena perder tempo com pessoas que não são sérias. Esta gente foi bater à porta do PS, como se esperava (digo eu), para receber as suas 500 moedas em troca de serem meros figurantes. É a miséria da política.

    • V Cabral says:

      Sou “Comunista Independente” pois não tenho filiação. Algumas vezes penso trocar o voto, mas PS/PSD/CDS é DIREITA, resta o BE … gosto de os ouvir !
      Mas se o PCP, continuar a evitar “nomes feios” para se manter politicamente correcto, não crescerá muito mais. È preciso chamar os bois pelos seus nomes …

      • Rocha says:

        De acordo, de acordo, de acordo. Conheço comunistas “independentes” (sem cartão) dizemos cá no norte. Gente honesta e gente de luta. PS/PSD/CDS são DIREITA, esta foi a principal ideia que defendi em 10 anos de militância no PCP. Resta o BE… antes isso que coisas piores – mas sublinho que o BE também não chama os bois pelos nomes e tem uma relação muita promíscua com o PS (apoio a Costa, apoio a Alegre, voto a favor de financiamento do anterior pacote troikista na Grécia). Mas diria que boa gente passou pelo BE, a maior parte saiu, segundo me parece.

        Mas recordo este post proza sobre a agremiação de seu nome “Renovação Comunista” (que nem renova, nem se mostra comunista). Os dirigentes da RC (porque bases não existem) sempre foram os principais amigos do PS em Portugal e arredores. E quando saíram do PCP perguntava-mo-lhes: “quanto tempo para serem engolidos pelo PS (o amigo preferencial como diziam por psicologia invertida)”?

  6. Augusto says:

    Sobre aquilo que foi a R.C. , ou o que pretenderia ser, faltam-me elementos para ter uma opinião sustentada.

    Certamente o José Manuel Faria antigo militante do PCP , assim como o Tiago Saraiva que lá continua, terão opiniões mais abalizadas.

    Sobre o resto:

    Aquilo que eu li sobre a reunião da R. C. com o PS , aliás como já terá tido outras, tem tão só o objectivo de criar pontes entre o PS e a restante esquerda, será isso que realmente pretendem, ou pelo contrario dar um ar de esquerda ao PS?

    Quanto a constatação de que a R.C. são os seus dirigentes, nada de muito diferente do que a chamada Intervenção Democratica, ou o chamado partido Os Verdes, dois satelites do PCP, e que só existem, porque o PCP entende que essas siglas lhe são uteis na chamada CDU.

  7. Vasco says:

    Há quem seja «ex» toda a vida, mesmo que a sua passagem pelo PCP tenha sido fugaz. O caso de Prado Coelho é o mais famoso, mas não único. A Renovação vive do seu anti-PCP e esvaziou-se quando lhe foi exigido fazer algo mais do que marrar com o PCP e tentar descaracterizá-lo. Sobre o Carlos Brito, ninguém apaga os seus longos anos de intervenção dedicada e abnegada ao PCP (como muitos outros, que por cá andam e dos quais ninguém fala, precisamente por cá andarem), mas fez as suas opções. Outros fizeram opções semelhantes antes dele. E é verdade o que dizes sobre as bases – a RC não as tem, porque esta «cisão» foi uma vez mais uma cisão de cúpula. Os militantes do PCP sabem muito bem que Partido querem e participam dentro da sua estrutura para o melhorar e para o reforçar.

  8. Rui Campos says:

    São mais uns que acreditam na viragem à esquerda do PS, um pouco como certos grupos dentro do Bloco de Esquerda.
    Acho incrível que procurem fazer uma convergência à esquerda indo falar com um partido que nunca na sua triste história foi de esquerda.

  9. Armando Cerqueira says:

    Excelente ‘post’, Tiago.
    Para a maioria dos dissidentes a dificuldade maior tem consistido em continuar, verdadeiramente, dissidentes. Acabam por ligar-se ‘àquilo’ de que diziam discordar – a social-democracia, ou seja a Direita moderada…, isto é o Capitalismo!!!
    Talvez não haja muitos daqueles que se mantenham intransigentemente ‘dissidentes’, quero dizer verdadeiramente independentes e críticos…
    Más há quem persista…
    Um abraço, Tiago!

    Armando Cerqueira

  10. anon says:

    Traidores do povo e mais nada.

  11. manu says:

    Eu não disse? São umas prima donas rezingonas. LOL

  12. manu says:

    Para o distinto Armando Cerqueira a intransigência é a condição da possibilidade da autenticidade e de uma postura genuinamente crítica. Sim, diz ele, só nós, os intransigentes, é que podemos dizer que somos críticos. Não nos vendemos, proclama Armando. Os outros, quase todos, acomodaram-se, comprometeram a sua dignidade, a sua integridade. Nem sequer ocorre ao Armando que os “persistentes” persistiram porque são dogmáticos até à medula e completamente indiferentes a tudo o que se passou nas últimas décadas….

    A única postura defensável para os que preservam o espírito crítico não é a intransigência idiota mas a confusão. Ter a honestidade de reconhecer que o esquerdismo falhou, que o capitalismo ameaça falhar e que ninguém sabe ao certo o que fazer, da esquerda à direita.
    Não tentam inventar novas formas de organização social, não exploram novas possibilidades. Agarram-se a fórmulas falhadas, com muita intransigência-.Em suma, de forma indesculpável, transformaram-se em conservadores puritanos (as mesmas fórmulas de sempre, barbudo Lda.)

    Os únicos que sabem o que fazer e que provavelmente conseguiriam fazer o que pretendem (recorrendo aos velhos autoritarismos, totalitarismos etc) são os FDPuta da extrema direita. Esta é que é a verdade. Assustador.

  13. orlando says:

    Excelente pots, tudo o que eu sempre disse deles. Não tenho consideração por esse tipo de gente que se diz ex de qualquer coisa, se são ex, já não o são, mudem de nome.

  14. Luis Almeida says:

    Tiago, Vou repetir aqui, por “copy & paste” ) o que disse no post do Renato, acrescentando apenas as aspas:
    “Para usar uma metáfora colorida: passaram de vermelhos a “rosas”.
    E, distinguindo opiniões de factos, a verdade, verdadinha, é que para muitos ( faço a justiça de dizer que não para todos ), para muitos, dizia, o seu grau de dissidência está em proporção directa com o aumento da sua conta bancária. Ou, vice-versa…”
    E acrescento: o passado revolucionário de alguém não é um “investimento” que renda “juros” eternamente. Não basta “ter sido”, é preciso “continuar a ser” ( o Bertold Brecht diz isto muito melhor do que eu, mas não recordo as palavras exactas…).
    Aliás, e para concluir, quem “foi” real e verdadeiramente, mais uma razão para não “deixar de ser”. Um partido como o PCP melhora-se ( se é isso que se pretende…) a partir de dentro, não, saindo e criticando a partir de fora, como estranho.
    Não somos todos uma cambada de carneiros acéfalos. O supremo acto de liberdade individual é aderir ( ou não ). Não se pede é despejar o bébé com a água do banho. Quem entra deve, conscientemente, aceitar os Estatutos ( onde colectivamente definimos o rumo ) e os Estatutos ( cujos direitos e deveres a todos obriga, desde o Secretário-Geral à camarada que está a aviar bicas no bar do Vitória ).
    Eu, por mim, falo: o Partido dá-me muito mais a mim que eu a ele. Era eu que, modestamente e à escala da minha pessoa, queria “transformar o Mundo”. O Partido só me ajuda, pois, a cumprir a minha agenda pessoal…

  15. Luis Almeida says:

    Tiago, Vou repetir aqui, por “copy & paste” ) o que disse no post do Renato, acrescentando apenas as aspas:
    “Para usar uma metáfora colorida: passaram de vermelhos a “rosas”.
    E, distinguindo opiniões de factos, a verdade, verdadinha, é que para muitos ( faço a justiça de dizer que não para todos ), para muitos, dizia, o seu grau de dissidência está em proporção directa com o aumento da sua conta bancária. Ou, vice-versa…”

    E acrescento: o passado revolucionário de alguém não é um “investimento” que renda “juros” eternamente. Não basta “ter sido”, é preciso “continuar a ser” ( o Bertold Brecht diz isto muito melhor do que eu, mas não recordo as palavras exactas…).
    Aliás, quem “foi” real e verdadeiramente, mais uma razão para não “deixar de ser”. Um partido como o PCP melhora-se ( se é isso que se pretende…) a partir de dentro, não, saindo e criticando a partir de fora, como estranho.
    Não somos todos uma cambada de carneiros acéfalos. O supremo acto de liberdade individual é aderir ( ou não ! ). Não se pede é despejar o bebé com a água do banho. Quem entra deve, conscientemente, aceitar o Programa ( onde colectivamente definimos o nosso rumo e o que queremos para o país ) e os Estatutos ( cujos direitos e deveres a todos obriga, desde o Secretário-Geral à camarada que está a aviar bicas no bar do Vitória ). E contribuir para os melhorar no Congresso seguinte.
    Eu, por mim, falo: o Partido dá-me muito mais a mim que eu a ele. Era eu que, modestamente e à escala da minha pessoa, queria “transformar o Mundo”. O Partido só me ajuda, pois, a cumprir a minha agenda pessoal…

    • Armando Cerqueira says:

      Deixe que lhe faça uma pergunta não-provocatória, mas simplesmente crítica (noutros tempos seria autocrítica…): acredita, piamente, que “Um partido como o PCP melhora-se ( se é isso que se pretende…) a partir de dentro”? É que, desgraçadamente, não vi isso, desde 1974-1975!!!

      Não mudou para melhor, piorou, até, de qualidade com Carlos Carvaalhas e sobretudo com Jerónimo de Sousa. Intelectualmente, tacticamente e estrategicamente o PCP é um ‘desastre’, não presta, é superficial e rasteiro. Digo-o com pena. E não se julgue que os outros partidos são melhores…

      O que levanta a questão da qualidade da Esquerda Portuguesa… que é má, muito má, pouquíssimo inteligente. Somos uma gente pouco culta politica e ideologicamente; incompetente. Veja-se o percurso da Esquerda desde antes do 25 de Novembro de 1975… São só derrotas… Ou futebolisticamente: vitórias morais…

      Por isso eu ponho a questão colocada num comentário anterior: o que é a Esquerda, o que é ser de esquerda no Portugal do século XXI? Alguém neste ‘blog’ terá a coragem de alinhavar um pensmento racional ssobre o assunto?

      Cumprimentos

      Armando Cerqueira

      • JR says:

        POR ISSO SOMOS PCP HONESTOS E TRABALHADORES, NÃO TEMOS OS MIDIA NEM A IGREJA DO NOSSO LADO MAS TAMBÉM NÃO SOMOS MENTIROSOS E ALDRABÕES COMO OS OUTROS SE UM DIA GANHARMOS SERÁ MÉRITO PRÓPRIO.

  16. miguel tiago says:

    Caro Tiago, acertaste em cheio na caracterização. “comunista” aqui é um epíteto vazio de qualquer significado político a não ser o de aludir à condição de ex-comunistas, que é o que verdadeiramente justifica a atenção e importância que ainda hoje se dá a um grupo de gente sem qualquer relevância social ou político.

  17. teresa oliveira says:

    Ola Armando Cerqueira,
    Há anos que não sei nada de ti,vejo que continuas a ser um livre pensador e fui te reencontrar nesta página sobre a “renovação” e logo me pus a ler, e há coisas…, assim também se questionam os comunistas sobre o seu presente e o mundo actual e o futuro.Há que valorizar o factor psicologico que é tão importante para um dia pudermos compreender melhor o ser humano e aonde se poderá chegar no ponto de vista político e social…mas aonde e o que é que queremos? . Aguardarei tua resposta . Um abraço da Teresa oliveira

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