“O Artista”, de Michel Hazanavicius

O Artista, filme do francês Michel Hazanavicius, causou grande surpresa quando foi nomeado este ano para 10 óscares. Numa altura em que o 3D e os efeitos especiais têm grande preponderância, o espanto deriva deste ser um filme mudo, com uma estética nada convencional nos tempos que correm. Contudo, quando se vê o filme, percebe-se o porquê do encanto da academia com esta obra. E não, isso não acontece por haver aqui alguns truques de sentimentalismo barato. Essa receita fica por conta de Os Descendentes ou As Serviçais, obras tão fraquinhas quanto feitas à medida do óscar. O Artista é um filme simples, mas é essencialmente uma comovente e original homenagem ao cinema. Será provavelmente esse o seu maior trunfo na cerimónia de 26 de Fevereiro (caso ganhe, não deixa de ser irónico que a primeira obra francesa a receber o óscar de melhor filme… seja mudo)

A obra retrata sucintamente a história de uma estrela do cinema mudo, George Valentin, e da decadência do actor com a explosão do sonoro. Incapaz de se adaptar à nova realidade e vítima de fortes problemas existenciais, vai encontrar a ajuda que necessita em Peppy Miller, uma vedeta lançada precisamente pelo próprio. É assim que o mudo não é apenas um artifício, mas tem uma justificação lógica no contexto da história.

O som só aparece num sonho de Valentin (um dos melhores momentos) e na cena final. De resto, apenas se ouve a banda-sonora de Ludovic Bource, feita à medida do período histórico retratado no filme e da evolução da narrativa. Sendo mudo, é exigida uma maior expressividade facial aos actores, para compensar a ausência de diálogos. Esse é outros dos trunfos do filme. Não só porque as interpretações são marcantes, com destaque óbvio para Jean Dujardin (George Valentin), premiado em Cannes, mas também porque consegue recuperar bem o espírito do passado, sem necessitar daqueles excessos naives e quase auto-caricaturais. Ao mesmo tempo que, de forma subliminar, mostra o contraste entre a crueza da realidade, a gratidão e o amor, com alguns lugares-comuns a terem uma justificação de época.

Em contraponto com exercícios de estilo freaks, psicóticos e completamente descontextualizados, O Artista destaca-se precisamente pela originalidade e pela premência da ideia que concretiza. Uma bela reflexão sobre a memória e a evolução do cinema.

8/10

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4 Responses to “O Artista”, de Michel Hazanavicius

  1. Andre says:

    (caso ganhe, não deixa de ser irónico que a primeira obra francesa a receber o óscar de melhor filme… seja mudo)

    Pois, porque se tivesse sido filmado em frances teria de concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Lingua Nao Inglesa.

  2. americo says:

    Ver este texto, deste filme neste blog é o cúmulo da ironia… Enfim, http://ipsilon.publico.pt/cinema/filme.aspx?id=295576 – leia a critica do lmo

    • João Torgal says:

      Li-a, pois.

      Mas porque hei-de dar mais valor a uma crítica de quem pouco gosta de cinema? Quem dá 1 ou 2 estrelas a tudo, excepto a “exercícios de estilo freaks, psicóticos e completamente descontextualizados” – ex: “Attenbergh” – e pouco mais, não pode ser só exigente.

      Devolvo o desafio: leia a crítica do Jorge Mourinha

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