Em França, onde sobreviveu um pequeno campesinato abastado, os mercados e as feiras abundam, cheias de produtos deliciosos. Não troco um jantar caríssimo e mau pelas iguarias que tenho comido nos mercados franceses. No País Basco, onde a relação com a terra é idêntica a muitos lugares da França as festas tradicionais e populares são recheadas de cidra, música tradicional. Na Alemanha, na Baviera, Agosto é um mês de gigantes tendas a vender cerveja local, música tradicional. Em Portugal as festas populares são um horror – uma música sintetizada em computador , altíssima, que afugenta qualquer um, frango do aviário e o mesmo tipo de bolo – o famoso bolo «tradicional de Santa Maria da Feira», que se vende do Minho ao Algarve!
Um interior desertificado, o abandono da soberania alimentar, empurrar proles para as cidades, uma ASAE semi-terrorista, tudo explica este estado de coisas.
Há porém quem resista e descubra um Portugal tradicional que não é nem pimba nem salazarista – é simplesmente agradável. O Entrudanças junta às «tradições do Entrudo a música e a dança, numa festa que é partilhada por todos. O festival volta a reunir artistas de várias áreas, bem como pessoas de diferentes zonas do país e da Europa na vila de Entradas. Evento festivo, conjuga o carácter internacional com a dimensão local, do interior desertificado e preservado de Portugal».
Mais informações aqui:
http://www.pedexumbo.com/eventrudancas.php




Magnifico festival de música e danças da europa em plena planície alentejana, lá estarei para dançar ao som do acordeão da Celina da Piedade.
Completamente de acordo em relação à importância de ver o tradicional para além do pimba e da instrumentalização salazarista.
Agora, quanto a este festival, se for como o Andanças (também organização da Pé de Chumbo), o público é incrível, mas a partilha tem muito que se lhe diga:
http://5dias.net/2010/07/13/o-conceito-andancas/
Muito bem definido! “Nem pimba nem salazarista”.
É preciso fazer crescer (e amar) esse Portugal.
Cara Raquel,
Bem se nota que nunca foste as festas populares de Portugal, alem concerteza do santo antonio de lisboa.
Ha mais vida alem dos lugares comuns, da internet e dos estereotipos etnocentrico-urbanoides do interior de Portugal.
Cumps,
Caro João,
Para fazer uma afirmação dessas era preciso saber às festas populares que eu fui. Sabe, é que sou filha de um alentejano e neta de camponeses do centro norte. Há mais vida para além dos lugares comuns.
Já agora, mande-nos uma lista de festas onde se possa comer comida tradicional e ouvir música de qualidade, que eu publico.
Saudações
vi
Concordo consigo (contigo?) a questao que as nossas festas sao pimbas e salazaristas. Mas dai a a dizer que nos outros paises nao sao vai um grande salto.
Na Baviera a musica que se ouve durante as festas e musica pimba alema, chamada “schlager” ( http://en.wikipedia.org/wiki/Schlager_music) que e exactamente igual a nossa, menos porca, mais catolica, e com os Alpes de fundo. A comida e uma merda (sim existem salsichas boas e mas) , e a cerveja tambem (sim existem cervejas boas e mas).
A descaracterizacao dos povos nao e um acontecimento Portugues, e um acontecimento Global: quanto mais pimbas, mais burros, menos questoes levantam, menos se erguem.
Quando encotrares uma terra sem musica pimba, por favor, publica tambem.
Cumprimentos
É de facto assim.
Algumas das músicas até são as mesmas, em reinterpretações do Marco Paulo.
E nunca ouvi falar em tal iguaria de Santa Maria da Feira.
Estas visões miserabilistas de Portugal, e laudatórias da estranja, nem sempre aderem à realidade.
Como dizia outro, Portugal oscila permanentemente entre a inconsciência alegre e o negro presságio. Estamos agora na 2ª parte.
Qual é o bolo tradicional de santa maria da feira? Eu gosto de alfarroba. Será que leva? Eu sou algarvio e não sei…
Não existe «bolo tradicional de Santa Maria da Feira», é uma fogaça. É um montão de farinha de Trigo tipo 65, margarina e açucar. E uma fábrica que exporta aquilo com o Quim Barreiros.
É verdade que em Olhão comi os de marzipan, justamente no mercado. Já agora, essas frutinhas de marzipan vendem-se aos quilos por toda a Europa – no centro de Viena há barraquinhas especializadas no bolo típico de frutas de marzipan. Há muitas coisas deliciosas no país, mas nas feiras tradicionais é muito difícil encontrá-las!
Ai Raquel Raquel… com toda a simpatia lhe digo que a alfarroba não é massapão de amendoa com açúcar. As alfarrobas subtituem o cacau que é um fruto dos trópicos e não pode ser cultivado aqui. Valem tanto dinheiro hoje que até as guardam com tiros de espingarda. Infelizmente só temos aqui uma fábrica que as processa. Felizmente vai mudar para umas instalações novinhas em folha e multiplicar por 4 a sua produção.
E muxama? Você gosta de muxama?
Oh Luís, Luís…Então eu não sei o que é alfarroba? Faço bolachinhas de alfarroba cá em casa e ainda me lembro, há 25 anos atrás, do chocolate de papel amarelo que se vendia à porta dos comboios da CP – chocolate de alfarroba, de que eu não gostava e não gosto. Muxama não faço ideia…mas estou à espera que nos conte.
Cara Raquel,
Antes de mais peço desculpa por trata-la por tu, passarei a um tratamento menos fraterno, igualitario e talvez menos libertario. Sigamos entao na 3ª pessoa do singular.
Dizia eu que por esse Portugal fora existem muitas festas populares onde ha mais do que musica pimba e farturas.
Experimente por exemplo entre Junho e Setembro passar pelo Minho e verá o muito que se toca e dança ao som de concertinas e castanholas.
Quanto a comida de qualidade, o conceito de qualidade é obviamente subjectivo.. mas desde já comida vegetariana ou macro-biotica nao espere encontrar.
Saudaçoes,
Certo, uma vez que eu não sou vegetariana. E o Minho está no top do país em matéria de culinária.
Quase noo top, abaixo de Trás-os-Montes
RC,
Este post era sobre as feiras – sobre os restaurantes a conversa é outra. Já aqui o escrevi – o problema é que deixou-se de comer e estar bem em feiras, lugares agradáveis noutros países. Até porque em muitos dos países que citei os centros comerciais não podem abrir ao fim de semana.
Agora vamos ao que interessa
. Minho, Trás-os-Montes, Douro, bom a relação qualidade/preço é muito melhor do que em Lisboa. Um dos últimos que estive foi em Tua – Calça Curta – rancho, javali, peixes do rio de escabeche, vinho, sobremesa, 10 euros. Tem para a troca? Eu tomo nota, tenho um caderninho com tascas do país, meu, que vou fazendo, sempre que posso faço um fim de semana «cá dentro» e no top a gastronomia. Sou filha de um tipo que anda 100 km para ir à serra do Algarve comer perdiz e outros tantos para ir não sei onde comer Lampreia.
Temo que o FMI, os IVA e as ASAEs nos façam viver como os holandeses, onde trabalho parte do ano, e cujo almoço se resume a uma triste e horrível sandes, que eles, calvinistas produtivos, acham muito boa!
Abraço
Raquel
No Minho come-se MUITO, é verdade. Mas peca por näo ter os tempero do Sul, a começar pelos coentros, que a minha família introduziu aos primos lá de cima, e que eles pedem sempre para trazer, mas adiante. Claro que comparativamente aos outros países está quilómetros acima.
Mas esta resposta é mais ao comentário abaixo que acima. Na Holanda näo existe a tradiçäo culinária portuguesa. Aliás, só talvez na Itália ou Eapanha se possa comparar.
E na Itália também têm ASAEs e IVAs e FMIs. Só que lá as tradiçöes säo acarinhadas, já descobriram que trazem valor acrescentado, é só ver que cada regiäo italiana tem mais produtos DOP que todo o Portugal. Como se fosse, de resto, difícil aos sucessivos Governos escrever uma folha A4 com os ingredientes e modo de fabrico de produtos tradicionais portugueses (situaçäo denunciada no Parlamento Europeu por uma corajosa portuguesa, a própósito dos Ovos Moles de Aveiro).
Juntando muitas produçöes artesanais/pseudo-industriais conseguem volumes que as permitam até exportar. Na Finlândia e Alemanha vendem-se paios e salames italianos semi-caseiros… no Lidl!
No fundo no fundo o problema está em que os portugueses fazem questäo de ignorar o que têm de bom, porque “típico” é visto como “atrasado”.
que
Esse mundo que a Raquel Varela descreve na Alemanha, França e Espanha não existe cá porque nós somos pobres, e eles são ricos; que caminhos é que eles percorreram para serem ricos e nós pobres, isso já não me parece adequado estar aqui a mandar bitaites.
Mas apetece-me dizer o seguinte: tradição gastronómica portuguesa possui matéria prima suficiente para produzir mercados como os descritos. O problema é que, por exemplo, os nossos enchidos, são produtos propriamente de luxo, ou seja, para se atingir um mínimo de volume e qualidade é necessário uma síntese entre tradição, conhecimento e tecnologia que só pode ser conseguida quando as “proles” que “desertificaram o interior” (uma expressão ignorante, repetida aos milhões na imprensa dominada pelo grande capital e pejada de mentiras, excepto quando corroboram a ideologia das pessoas do 5 Dias, claro) para ir aprender nas universidades das metrópoles voltarem às terras. Esse processo está em curso (não sei se em volume suficiente, de facto): eu, e para aí metade das pessoas que andaram comigo na universidade e enveredaram pela agricultura, fazem parte desse movimento.
A minha avó paterna tentava não passar fome no mercado de Olhão a vender batata-doce assada. Essa batata-doce (que em Lisboa não existe batata-doce em lado quase nenhum, existe uma merda que parece abóbora, que insulta a batata-doce decente; e não me venham com a bata-doce de aljezur) vinha de uma horta abandonada, e era regada ao acaso, apanhada ao acaso. A sua mítica qualidade e sabor (e ainda hoje existem ao lado do mercado de olhão duas velhotas que vendem bata-doce assada tal qual a minha avó) tinham um custo: a miséria.
E aqui é preciso perceber uma coisa: para que a apreciadora de coisas boas senhora professora doutora Raquel Varela possa disfrutar das maravilhas portuguesas correspondentes às que a sua vida de desafogo cosmopolita lhe permite apreciar no estrangeiro, é necessário, primeiro, que o campo passe pela cidade. A desertificação do interior é um acto inevitável para que a ele se possa voltar.
Em todo o caso, só queria que a Raquel Varela pudesse, um dia, quando tivesse tempo, explicar o que entende por “soberania alimentar”. Por exemplo: portugal não produz trigo suficiente para o pão que consome: vamos adoptar uma politica que incentive a produção de trigo, é isso?
cordialmente
maradina
PS: agora sabem, por conincidencia, o que é que eu vou fazer? vou transferir um conjunto de numeros que descrevem o estado de esqueletização dos solos de uma herdade do alentejo que o senhor doutor salazar e depois a reforma agrária e da auto suficiencia alimentar insistiram que deveria continuar a produzir “pão”. Pão para o povo, claro.
Que horror o povo pimba e de mau gosto – quando é que o gentrificam? Já Manuel Alegre se queixava que um arraial pimba na Foz do Arelho não o deixava pescar robalos em paz e ssosego, ah a relação pura e litúrgica com a natureza!
Desta vez tenho que concordar com tudo o que diz, Raquel. Mas, Entradas não fica em Castro Verde, município comunista ( 3, incluindo o Presidente, num Executivo de 5 ) ?
Essa dica do ‘afugenta qualquer um’ está fora de ordem…
As festas ‘populares’ em geral têm e sempre tiveram grande aderência ‘popular’ (pelo menos todas as que frequentei tinham, de norte a sul).
Não sei se esta abordagem do ‘bom gosto’ ajuda a estabelecer conectividade com os sectores ‘populares’ na mobilização ‘popular’ que é obviamente importante na luta contra o capitalismo explorador, ‘elitista’…
É possível fazer uma crítica construtiva de determinado ambiente sem se cair no snobismo, tão característico das classes exploradoras que, também usam como armas na sua constante tentativa de perpetuar a ignorância nas classes exploradas, a omissão e o bloqueio da imensa diversidade cultural (gastronomia, musica, etc.).
Considere revisão.