Desempregados, Rise Up!

Desemprego. Onde quer que vamos ouve-se a palavra, cada vez menos escondida, uma vez que a generalização do problema está a fazê-lo sair da escuridão, do silêncio e do armário. Na fila do supermercado, nos bancos de jardim, à porta das escolas, multiplicam-se os desabafos e as conversas sobre o assunto. De dia para dia perde-se a vergonha e procura-se, onde quer que seja, uma saída para o isolamento e uma solução para encontrar um posto de trabalho. São milhares resgatados por uma rotina que consome qualquer moral, entre as desanimadas visitas ao centro de emprego e as resmas de currículos virtuais com que se entope a caixa de correio dos potenciais empregadores e dos amigos, regra geral sem obter qualquer resposta. Sites de emprego ao acordar e ao adormecer, os classificados do Correio da Manhã a fazer as vezes do pequeno almoço, o Ocasião à quinta-feira e o refugio de tudo o que possa significar despesa ou companhia o resto da semana. De tempos a tempos lá se arranca uma entrevista, mas entre as vazias, as cosméticas e as burlas, sobram muito poucas que deixam viva a esperança de nos ver ser concedido um direito do qual somos uma espécie de credores a fundo perdido.

As histórias que se podem ouvir raramente dão conta de desempregados que não sejam trabalhadores funcionais, boa parte deles altamente qualificados, sendo que em muitos casos até apresentam provas dadas em várias áreas profissionais. Perderam o emprego pela fragilidade de uma lei laboral que mal os defende, uma vez que quando encontram o que fazer a troco de salário, é grande a probabilidade de o conseguirem apenas à conta de um recibo verde, tantas vezes falso, que o castiga do ponto de vista fiscal enquanto dura e não dá nenhuma garantia no que diz respeito à sua segurança social assim que terminam os seis ou doze meses de privilégio. Os atropelos avolumam-se e mesmo nos casos em que o despedimento  é ilegal, poucos chegam à barra do tribunal. Ainda assim e aos olhos da maioria, serão sempre a história da formiga e da cigarra, mesmo contada por gente séria, ou a conversa hipócrita que tem que se ouvir na tasca, à hora do remédio.

Os desempregados têm sido parte importante da luta dos trabalhadores na Argentina, no Egipto, na Tunísia, na Palestina, em França ou em Marrocos. Em Portugal, a taxa de 13,6% bate no vermelho a cada balancete e a cada fatia da margem de lucro que os suspeitos do costume recuperam. Aqueles que estão sujeitos a essa condição, a termo certo ou de longa duração, nunca foram tantos, mas também eles são chamados a pagar uma dívida que não contraíram. Na juventude os números disparam para mais do dobro, o que eleva o drama dos que o vivem e torna explosiva a situação social.

Nos protestos, embora os desempregados sejam muitos dos têm enchido as ruas, a verdade é que a sua carteira de reivindicações raramente é colocada em cima da mesa. Órfãos de uma organização de classe que os represente, que não existe, não encontram nenhuma via política para a sua inquietação. O seu desassossego apenas sossega entre coros de tempo bem empregue e a solidariedade, ora condescendente ora fraterna, dos que ainda perguntam como vai correndo a vida.

Podemos ser privados de tudo mas não nos podem tirar o direito de lutar para virar o bico ao prego. Chegou a hora de fazermos por nós aquilo que não se pode pedir a ninguém que faça pelos outros. Os desempregados que estejam capazes de vencer a resignação, terão que encontrar força para serem os interpretes da sua própria agremiação, movimento ou mesmo sindicato, tão histórico como necessário para enfrentar as batalhas que se seguem.

No dia 1 de Março não deixes de participar no Plenário de Desempregados, que pode ser a primeira pedra com vista à resolução de uma lacuna que não suportamos continuar a prescindir. Forçaremos as greves que forem necessárias. Denunciaremos tudo. Porque se desempregados nos querem, organizados nos terão e porque não queremos ser a saída da crise para os coveiros da nossa profissão.

Adere, partilha e participa!

Tema também em cima da mesa no próximo plenário do 15O.

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5 respostas a Desempregados, Rise Up!

  1. É isso mesmo. Há que formar a classe para si. Já é tempo. Como o Renato diz e bem esperemos que seja a primeira pedra da consciência acrescida de que o desemprego não é uma coisa que tenha que ver com a “culpa” de cada pessoa individual. Força com isso. O exército de reserva tem que se erguer em massa!

    • Renato Teixeira diz:

      Seria óptimo alguém para fazer a ponte em iniciativas no Algarve, porventura até lançar um chamado aí. Se o João Martins se entusiasmar poderia mesmo marcar presença no plenário. Considere.

      Cumps.

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