A propósito de um texto de Sérgio Lavos sobre a ligação indissociável entre o Estado e a banca, idiotamente intitulado “Forte com os fracos, fraco com os fortes“, reparo que já não é a primeira vez que vários membros do Bloco de Esquerda recorrem frequentemente ao epíteto de “fracos” para classificar os trabalhadores em situações de grande vulnerabilidade social e/ou laboral. Não está em causa a crítica às políticas neoliberais dos governos PS, PSD e CDS que têm atacado os direitos dos trabalhadores. Mas como se poderá fazer a crítica do neoliberalismo a partir de um ponto de vista que substituiu a luta de classes entre o trabalho e o capital pela balança entre os “fracos” e os “fortes”?
Pior do que o slogan da “Justiça na economia” com que o Bloco nos presenteou na última campanha eleitoral para as legislativas – como se a economia capitalista não fosse nefasta se se lhe injectasse uma dose substantiva de moral e de ética – chamar as camadas mais vulneráveis da classe trabalhadora de “fracos” parte de uma concepção absolutamente inqualificável da classe trabalhadora. É uma concepção que perspectiva os trabalhadores numa base moral(izante) e até biologizante e não de classe. Se são “fracos” os trabalhadores, os “fortes” serão, “naturalmente” nesta concepção, os burgueses. Ora, se a relação entre o trabalho e o capital se transmuta e deforma numa relação entre “fracos”, de um lado, e “fortes, do outro, qual o papel da política nisto tudo? Equilibrar um bocadinho as relações entre os “fortes” e os “fracos”? Como se justifica politicamente esta caracterização da sociedade? Porventura quem repete estas palavras muito cordatas de “fraco” e de “forte” já pensou no que politicamente isso significa para os trabalhadores? Quem profere regularmente estas alarvidades tem sequer noção do que isto tem na (des)educação política e ideológica das camadas mais vulneráveis da classe trabalhadora?
Portanto, nesta concepção, a condição assalariada não parte mais de uma condição material de inserção nas relações sociais (de produção) mas da vitória ou da derrota do “fraco” perante o mais “forte”. Honestamente, não se percebe o porquê do uso e abuso de uma terminologia absolutamente execrável e que pertence genealogicamente à direita mais reaccionária. Não estou com isto a dizer que o Bloco é fascista, nem tão pouco mais ou menos, mas não deixa de ser absolutamente desnecessário o recurso a uma terminologia de calibre tão sinuoso.
Para não pensarem que se trata de um caso isolado, documento o que disse acima com algumas pérolas de dirigentes e militantes do BE:
Miguel Portas: a tendência das leis e medidas que têm estado a sair” deste governo “são todas na mesma direcção: colocam em situação mais precária os que são mais fracos (negritos meus)
Daniel Oliveira: o discurso populista deste governo, sempre implacável mplacável com os mais fracos e benevolente com os mais fortes [itálicos do próprio DO].
Catarina Martins: a mudança no regime de arrendamento aprovada pelo Governo “é a lei do mais forte a retirar dinheiro aos mais fracos
Francisco Louçã: «Para Francisco Louçã, PS e PSD “têm muita coragem para bater nos mais fracos”»
p.s. O texto de Sérgio Lavos avança ainda com uma caracterização “magnífica” da formação social portuguesa. Diz ele que «O nosso capitalismo continua a ser sui generis: não existe verdadeira concorrência em muitos sectores, as leis da oferta e da procura não funcionam, e, se por acaso há prejuízos, resultado das decisões dos gestores que estão à frente dos bancos, o Estado chega-se à frente e dá uma esmolinha» (negritos meus).
Então não é que o pobre Sérgio chora para que em Portugal exista um capitalismo mais concorrencial… Reparem, “as leis da oferta e da procura não funcionam”… E que “não existe verdadeira concorrência”… Henrique Raposo, Marcelo Rebelo de Sousa ou Medina Carreira acenariam afirmativamente a tanta presciência pró-capitalista demonstrado por Lavos. Quando certa esquerda se preocupa em suspirar por um capitalismo puro, quando certa esquerda acha que o capitalismo não desemboca na concentração do capital e quando essa mesma esquerda, para corolário, vê o Estado como algo separado do capitalismo e das classes sociais, essa esquerda já não serve para nada.




Se reparar na imagem que acompanha o texto no Arrastão (e o conteúdo do próprio texto, já agora) será óbvio que com “fracos” não se está a atribuir uma espécie de determinismo biológico ou social mas apenas a constatar o facto de que cidadãos privados não-eleitos como Salgado podem entrar no Conselho de Estado em que se estão a discutir assuntos relevantes para a sua empresa privada como se estivessem a entrar em sua casa.
É inegável que o clientelismo e permuta de cargos em empresas e governos sucessivos os tornou fortes, e essa clara força que se ataca no texto, não um qualquer estatuto inviolável de superioridade que imaginou que estaria patente no texto.
Eu acompanho a crítica às políticas do governo, mas de modo algum acompanho a terminologia dos “fracos” contra os “fortes”. Para quê dizer sempre “fraco” e “forte”? Isso não serve para nada.
Quando certos comentadores, TIRAM CONCLUSÕES , TOTALMENTE FORA DO CONTEXTO, poderia dizer-se com toda a razão.
Que certos comentadores não servem para nada
Olhe que não Augusto. Se reparar e se pesquisar na net repara facilmente no número inusitado de vezes que dirigentes do BE utilizam essa terminologia. Para que serve dizer sempre “fracos” e “fortes”? Se essa terminologia fizesse sentido então teríamos de considerar que a burguesia está onde está porque é “forte”, capaz e está num lugar relativamente imutável.
Sendo «burguesia» sinónimo de classe média no dicionário da Porto Editora, gostaria de saber se é exactamente isso que se pretende significar.
Parece-me que a terminologia adoptada é um pouco indeterminada (tribal?) para ser assunto de debate. Não será isto verdade?
Olhe, não sei que lhe diga. Desde quando é que a burguesia é a classe média?
http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/burguesia
A sério Manuel Ralha. Discutir classes sociais a partir de uma enciclopédia é como fazer uma tese de doutoramento a citar excertos da wikipedia. Só lhe fica bem.
Pois é. Mas o pensamento expressa-se com conceitos. E os conceitos exprimem-se por palavras. E as palavras têm significado conhecido na língua.
Não há volta a dar!
Tu do resto é linguagem individual, subjectiva, que pouco ou nada vale socialmente.
http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=burguesia
É. Podemos escolher o dicionário que convenha mais a cada um…
E essa é a prova provada que a palalavra não é clara e distinta (aliás a história mostra-nos que a sua evolução desde o tempo do «burgo» contribui para isso mesmo)
Daí que a terminogia adequada ao que se pretende me parece ser: «capitalistas» — detentores do capital — e «trabalhadores» ou «assalariados» — labor retribuído por outrem.
Enfim é uma opinião.
Esbarrei nesta questão ao ler o texto:
– Como se poderá, de forma objectiva, distinguir «trabalhadores» de «burgueses»?
http://5dias.net/2011/10/30/as-funcoes-do-capital-e-do-trabalho-em-torno-da-identificacao-economica-das-classes-sociais-23/
Continuamos na mesma: burguesia vs trabalhadores.
(o cartoon terá mais de 30 anos… )
Mas desde quando é que a relação social de antagonismo se alterou?
Não é de terminologia que se fala?
Não me parece que burgueses e trabalhadores tenham tido relações antogónicas. Burguês e capitalista não são a mesma coisa. Tanto quanto entendo é o que articulista pretende dizer. Não será?
Realmente, é uma chatice. O vírus do fraquismo, essa doença senil do esquerdismo, atacou até o Jerónimo Sousa:
http://www.google.pt/search?sourceid=chrome&ie=UTF-8&q=jronimo+sousa+fracos#q=jer%C3%B3nimo+sousa+%22fracos%22&hl=pt-PT&prmd=imvnso&source=lnms&psj=1&ei=QK4tT7vrFMGb0QW53bGuCA&sa=X&oi=mode_link&ct=mode&cd=1&ved=0CBkQ_AUoAA&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_cp.,cf.osb&fp=914c361ea52676b2&biw=1024&bih=513
a quem já deu para criticar o “massacre dos mais fracos”, entre outras fraquezas.
1- eu não sou porta-voz do Jerónimo.
2- mesmo assim, o secretário-geral do PCP refere muitíssimo mais vezes os trabalhadores do que os fracos. O mesmo se passa à generalidade dos escritos do PCP. O PCP não abandonou a noção de luta de classes entre o trabalho e o capital e não a substituiu pelos “fracos” versus “fortes”.
3- estamos a discutir a recorrência e transversalidade da noção dos “fracos” e dos “fortes” à generalidade dos dirigentes do BE.
É recorrente e transversal a todos os partidos de esquerda, João. Porque faz parte da linguagem clássica da esquerda, embora por vezes se possa confundir com a pregação de outros evangelhos, esses sim, que assumem a fraqueza da forma como a criticas. Muito fraquinho é o discurso repetitivo do proletariado e da classe operária, tão esgotado em Portugal há 30 anos e que por isso mesmo abençoadamente já pouco se usa entre nós.
Os clichés são o pior inimigo do discurso político, que quando se enche deles muito simplesmente não chega ao destinatário.
Nota: nem eu estou a defender o BE, apenas não me parece que esta critica faça o mínimo sentido.
Pois, por certa esquerda querer parecer moderna é que já nem boa parte da classe trabalhadora se reconhece como classe e como classe trabalhadora, portanto, explorada…
1 – Um desempregado não pertence à classe trabalhadora.
2 – Um precário não pertence da mesma maneira à classe trabalhadora que um funcionário público com emprego para a vida. Nesse sentido, é de saudar o BE e o movimento dos precários, por oposição à CGTP que não soube dar-se bem por esses meandros.
3 – De acordo, o BE abandonou o vocabulário da luta de classes, mas conseguiu à partida votos na esquerda, onde o PCP não os iria buscar (eu, por exemplo… e hoje, com orgulho, encontro-me mais próximo do PCP que do BE)
Este post é mesmo um escrito do Sr Aguiar para o Cinco Dias?
Ou será a transcrição, de uma daquelas pérolas jornalisticas, com que o jornal Avante nos costuma brindar.
Se se derem ao trabalho de transcrever as intervenções do sr Jeronimo de Sousa na Assembleia da Republica , tantas são as vezes que ele fala , nos que menos podem e menos têm, por contraponto aos poderosos, que se pode perguntar:
Os que menos podem não será sinónimo dos mais fracos?
Os mais poderoso não será sinonimo dos mais fortes?
Pela boca morre o peixe.
Os que menos têm são “fracos”? Porque raio? E desde quando? Agora há que passar da relação social fundamental da contemporaneidade para uma relação entre os mais aptos e os menos aptos?
João
Vá ao google e escreva: “Jerónimo de Sousa os mais fracos”. Aguardo aqui o seu post sobre “o PCP não serve para nada. Quando se quer atacar um partido, ou apenas fazer notar a sua discordância mais vale fazê-lo directamente e não estar utilizar esses subterfúgios. Já agora, o PCP absteve-se no voto de pesar do ministro franquista? Ainda não ouvi o esclarecimento nesta casa.
Já respondi a isso noutro comentário.
E eu não estou a atacar um partido. Quem se ataca a si mesmo é o BE que substitui recorrentemente a luta entre trabalhadores e patrões pelos “fracos” vs “fortes”.
Tenha tento caro Aguiar, em nenhum momento o Bloco de Esquerda diz que os trabalhadores são FRACOS, e sim o elo mais fraco.
Ou tem dúvida que numa fábrica, o trabalhador é o elo mais fraco perante o patrão?
Unidos os trabalhadores podem sempre fazer frente ao patrão, mas mesmo assim nem sempre ganham, por exemplo na Opel da Azambuja, e como não sou hipócrita, digo-lhe que não é por acaso que escolhi este exemplo.
Ou no caso da Cerâmica Valadares, onde apesar da combatividade de uma parte dos trabalhadores, para receberem os salários em atraso , é possivel que o resultado , acabe por ser um despedimento colectivo.
Apela o Bloco de Esquerda ao aceitamento das medidas do Governo?
Apela o Bloco de Esquerda aos trabalhadores para não lutarem pelos seus direitos?
Alguma vez o Bloco de Esquerda deixou de denunciar os atropelos aos direitos dos trabalhadores?
Quanto ao resto caro senhor, o tal Darwinismo social, com que do alto da sua cátedra nos atira , para provar a sua larga sapiência.
Fico-me pelo Darwin dos macacos, que por acaso até são bastante fortes….
«Apela o Bloco de Esquerda ao aceitamento das medidas do Governo?
Apela o Bloco de Esquerda aos trabalhadores para não lutarem pelos seus direitos?
Alguma vez o Bloco de Esquerda deixou de denunciar os atropelos aos direitos dos trabalhadores?»
concordo consigo em tudo isto. Se lesse bem o que escrevi já teria reparado na seguinte frase do post: «Não está em causa a crítica às políticas neoliberais dos governos PS, PSD e CDS que têm atacado os direitos dos trabalhadores.»
Mas como vc pode considerar que existe uma luta consequente dos trabalhadores se reduz a conflitualidade de classe a luta entre fracos e fortes? Como é que vc educa a classe trabalhadora tomando-os (e levando-os a tomarem-se) como fracos?
Mesmo a noção que vc utiliza dos trabalhadores como “elo mais fraco” parte do pressuposto que as relaçoes de trabalho se estabeleceriam numa base de complementaridade entre trabalhadores e patrões a que apenas interessaria elevar um pouco a força dos fracos e enfraquecer um pouco os fortes. Ora, o que caracteriza a relação de trabalho no capitalismo é o antagonismo de funções entre o trabalho e o capital.
Caro João Valente Aguiar, Essa do “fortes” e “fracos” não é terminologia marxista, claro está, mas é mais facilmente perceptível pelos destinatários ( que, em regra não é forçoso que tenham cultura política) de sloganes e discursos do que entenderem que os mais “fortes” são os trabalhadores por causa da superioridade numérica e porque são o porvir, por não terem nada a perder se não as grilhetas do salariato. E, principalmente porque quando lutam, de forma organizada, se torna mais evidente que são “fortes”. A burguesia
( termo que o Manuel Ralha não entende por não ter lido Marx…) é a mais “fraca” quer pela inferioridade numérica, quer porque o sistema que a engendrou está condenado a sucumbir.
Mas essa não é a terminologia entendida pelo português comum. Ao fim e ao cabo, o destinatário da nossa acção de esclarecimento no sentido de, pela indignação e pela tomada de consciência, ser “!puxado” para a luta.
Sou militante do PCP e nada me move, pois, na defesa do Bloco, senão o uso da verdade.
Eu,que agora tenho 68 anos, até já andei à porrada com alguns proto-bloquistas, pertencentes às forças que lhe estão na génese, como PCP-ML (UDP) e trotskistas, nos idos de 1975/76/77
( agora estão mais “civilizados”, querem lixar-nos por modos mais “soft”)…
Mas, quando o próprio Marx diz: ” A ideologia dominante é a da classe dominante.” não está a usar o termo “dominante” como sinónimo de “fortes” e, ipso facto, que os “fracos”
só se tornarão os “fortes” quando forem eles a classe dominante?
Talvez a comparação seja inadequada mas, a Dilma Rousseff, na ONU, afirmou a propósito do novo Brasil que” fala forte com os EUA e fininho com a Bolívia”.
É uma frase que toda a gente entende e que dá logo a ideia da anterior submissão.
“fortes” ( = exploradores, os que mais podem ) e “fracos” ( = explorados, os que menos têm) tem esse mérito: o do entendimento imediato de que lado é que o governo se posiciona ( e contra quem)…
Pois, o comentarista atira-se a adivinhar (peredendo a objectividade, portanto) no que à minha pessoa diz respeito.
De facto Marx conotou o termo «burguesia» como sendo sinónimo de classe dominante. Contudo, devemos ter em conta que:
– O léxico de Marx não fez lei (O dic. PE disso faz prova, bem como a história da palavra ao longo dos tempos);
– O classe que Marx opõe à burguesia é o «proletariado».
Assim sendo, se quisermos adoptar, coerentemete, a terminologia de Marx deveremos dizer, sim, «burguesia» e «proletariado». No caso de pretendermos ter uma linguagem mais actual deveremos escolher uma outra coerência, de forma a sermos e parecermos consistentes…
Olhe caro Aguiar falar em classe trabalhadora É UMA FALÁCIA, não existe.
Para o marxismo, o que existia, ( existe) , era, ( é), a CLASSE OPERÁRIA .
Não percebo, ( ou talvez perceba), mas desde há certo tempo , que em certas areas da esquerda, a terminologia de classe operária , passou a ser substituida, por essa amiba, que crismaram de classe trabalhadora, que ninguem sabe o que é , onde começa e onde acaba, e onde se integra na visão marxista da sociedade.
Mas certamente isto são desabafos de velho pacóvio, que nada entende desses tais darwinismos sociais .
Mas de uma coisa estou certo, um empregado bancario, um professor, um médico, um estudioso do tal DARWINISMO SOCIAL, pode ser um trabalhador, até bastante combativo, até militante de partido de esquerda sectário quanto baste, MAS OPERÁRIO É QUE NÃO É, e nem faz parte da Classe Operária.
“o secretário-geral do PCP refere muitíssimo mais vezes os trabalhadores do que os fracos”.
é portanto uma questão de quantidade. filho da puta de argumento. Que não seja por isso:
http://publication.prod.wcm.impresa.pt:8080/sicnot/especiais/portugal2011/2011/05/29/jeronimo-diz-que-eleicoes-nao-vao-ser-genuinas-porque-partidos-nao-falam-verdade?service=print
http://dianafm.com/index.php?option=com_content&view=article&id=16725:legislativas-stes-nfoi-corajoso-porque-bateu-nos-mais-fracos-diz-jero&Itemid=35
http://www.radioportalegre.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=105&Itemid=1
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Internacional/Interior.aspx?content_id=2170699
…e o jerónimo tem razão em cada palavra que diz.
não me lembrava era de ler uma posta tão reaccionária há muito tempo.
Reaccionário é quem suspira pelo capitalismo concorrencial como eu indico no p.s. do post.
E eu não disse que era apenas algo de quantitativo, até porque o PCP, e mto bem, foca sempre a classe.
que disparate, jva.
vc quer discutir e tira ilações políticas com base em sound-bites. sound-bites e expressões populares por todos intelig íveis, terreno no qual, e muito bem, jerónimo de sousa é imbatível.
ps. quando dzi que o secr. geral do Pcp “refere MUITO MAIS vezes os trabalhadores do que os fracos” não é um apreciação quantitativa pq?
é quantitativa sim.
já agora fez alguma busca sobre as vezes que os visados no seu post usaram a palavra “trabalhadores” em vez de “mais fracos”? ou é “estudo” a olhómetro e diz-lhe o coração que jerónimo diz mais vezes?
Ouça lá, independentemente da questão quantitativa – que não é irrelevante – para quê utilizar a terminologia dos fracos e dos fortes? Em que é que isso educa a classe trabalhadora para a luta? Acha que são sound-bytes ou têm uma concepção não-classista a si subjacente?
É urgente correr com o governo neo-fascista de Pedro Passos Coelho do poder. Estas medidas já forma aplicadas no Chile e os efeitos forma precisamente estes. Ou corremos com este fascista de merda ou este destrói o País. Teremos tomates para isso?
João Martins
Economicamente fracos e fortes. Que eu saiba, os trabalhadores em situações de grande vulnerabilidade social e/ou laboral säo economicamente fracos, ou entäo o desemprego näo seria um problema.
E qu tal discutissem o essencial, e näo o acessório?
Pareceria evidente, não é? Mas não…
Que fracos seja mais “mole” que trabalhadores ou classe será talvez indiscutível. Mas será uma discussão importante?
No patamar actual, já é uma grande vitória que os “empregados por conta de outrém”/”classes distituídas da posse e controle dos meios de produção” ganhem consciência que o dinheiro e direitos que lhes estão a ser roubados seguem direitinho para o “outrém” ou para os “capitalistas” e «não para os rendimentos mínimos dos ciganos» como era vox populi há um ano ou dois…
Não são palavras que vão transformar automaticamente um povo ainda meio-acordado do sonho do crédito fácil em feroz actor da luta de classes…
A propósito dos conceitos:
A ideologia dominante, desde os anos 70 até à actual fase da crise do capitalismo, passou a chamar «economia de mercado» ao capitalismo (como se não houvesse mercado milénios antes do capitalismo…).
Chamou globalização ao imperialismo.
Transformou há muito classes sociais em camadas.
Para os marxistas-leninistas as classes sociais definem-se em função da sua posição em relação aos meios de produção. Que as wiki, e as info, e os manuais, digam de outra forma é normal. Faz parte da luta de classes e da luta ideológica.
“Eu acho que é verdadeiramente aí que está o cerne da questão: sem definição correcta dos conceitos como se pode fazer a revolução. Quem não tiver o mesmo conceito que eu de “classe”, “burguesia”, etc. não pode fazera revolução comigo. Primeiro vou fazer a guerra aos que querendo básicamente o que eu quero, não são exactamente como eu. Depois, se sobreviver, farei a revolução e combaterei o inimigo comum, fraco porque não fez as suas purgas e manteve as suas contradições internas. Com a força dos meus conceitos, ainda que só, triunfarei…” Pobre futuro o da esquerda se continuamos assim. Quero lá saber se dizem “povo”, “proletariado” ou “fracos”. Todos sabemos o que quer dizer e o resto são lérias.
Jo!
Tanta pele deixastes no teclado, pra nada…
Com tanto assunto para desgastares as tuas impressões digitais, e fazes uma destas…
Não faças a malta perder tempo, intelecto (que já é reduzido no meu caso) e até capacidade visual (porque olhar para monitor desgasta a visão).
Algumas pessoas divulgam deduções de estranhas análises sobre a civilização. Talvez sejam bem intencionadas, mas demonstram andar em círculos esquivando – voluntariamente ou não – o cerne da questão. Egoísmo, socialismo, altruísmo, capitalismo? Para contribuir, recordemos um fator pouco mencionado e muito determinante, provavelmente até mais que os demais. Como não existe civilização sem cultura, tema espinhoso, começemos com uma analogia:
Abramos falando dos doutos galináceos. Nas lojas de animais estão à venda pintinhos que podem ser levados para casa. Soltos no quintal, fazem evidente que têm coeficiente intelectual muito baixo e, mesmo assim, se nenhum dos muitos predadores evitar, crescerão. Se os pintos forem criados com a mãe aprenderão mais rápido a bem conseguir-se a comida, já que essa galinha revelaria onde encontrar o alimento. Assim os pintos aprenderiam as manhas e rapidamente perceberiam que existe um padrão de lugares preferidos pelas minhocas e passariam a dar preferência a buscar nestes lugares. Eles podem percebê-los sozinhos, é claro, mas é papel da mãe adiantar estes aprendizados.
Veja que se o pinto é criado em um pátio onde há cães, gatos e humanos, ele se acostumará com todos estes e não fugirá mais que por sair do caminho dos bichos maiores. Nós, por exemplo. Ele demonstrará uma cultura de quintal. Mas um frango do mato, selvagem, caçado por todos os elementos dali, que desenvolveu o hábito de estar atento e fugir, sempre estressado é diferente: quando trazido para aquele mesmo quintal habitado por frangos tranquilos, mesmo sendo o novo ambiente benigno, fugirá. E rápido. Ele manifestaria uma cultura derivada das relações diretas com a natureza. Notem que mesmo um animal de pouca inteligência tem cultura. Digo cultura a todo conhecimento armazenado, principalmente aquele transmitido entre as gerações.
Qual é a relação disso com os humanos? Foi descoberto que evoluímos de um ancestral comum com os chimpanzés. Derivados dele vieram os Australopithecus, vários deles e, depois de muito adaptarem-se através de mutações sem direção pré estabelecida, surgiram os primeiros Homo e depois nós, os orgulhosos Homo sapiens. Comecei com as galinhas para finalmente supor que se elas transmitem cultura entre as gerações, provavelmente – senão obrigatoriamente – todos estes primatas anteriores também transmitiram algo de geração para geração, sem importar as mutações intermediárias acontecidas. O primeiro Homo já tinha alguma cultura vinda por herança dos hominídeos anteriores, adquirida a seu tempo nas relações internas entre eles, bem como dentre eles com o ambiente.
Mas vamos adiante, porque não? Quando os humanos começaram, quase sempre se relacionaram com ambientes hostis. Percebendo que as agressões eram muitas, talvez mortais e que os pequenos grupos familiares eram bastante mais frágeis que os grupos maiores, admitiram socializar-se. Para que isso fosse possível, abdicaram de varias das suas liberdades em pró de recíprocas conveniências.
Mas que os agredia? Claro que o primeiro fator foi a própria natureza. Muitos deviam ser os predadores que caçavam nossos avós. Mas também outros humanos eram problemas. Todos os animais de hábitos como os dos homens, os oportunistas, se aproveitam de qualquer descuido. Não é característica somente dos homens: os porcos chegam a comer às ninhadas uns dos outros. É de imaginar que para os nossos ancestrais, primitivos, o que estivesse dando mole por aí seria para tomar. Importava muito mais a relação de forças com o objeto desejado (favorável ou não), que alguma ética que estipulasse certos e errados. Não havia o certo e o errado: o que havia era o possível e o impossível. Então, para viabilizarem aos grupos maiores, contiveram-se as mãos e começaram a respeitar o que fosse alheio. É daí que vêm as leis, que são as normas para as relações humanas com aqueles fatores que as afetem.
Deste modo, começamos a entender quais eram os objetivos dos primeiros formadores de civilização: constituir grupos maiores, para cada vez mais ser imunes aos agentes de agressão. Estes grupos buscavam domesticar o ambiente para torná-lo cada vez mais amistoso. Já na atualidade, reparem que o objetivo que demandava perda de liberdades – viabilizar a ferramenta chamada de civilização – foi alcançado: domesticamos o planeta e impusemos o nosso ponto de vista sobre a natureza. A razão para a aceitação do nosso primeiro contrato social foi esta domesticação. Mas não é certo que quando uma empresa é contratada para alguma função, cumprido o seu objetivo se finda o contrato?
Querem mais? Ter cultura equivale a dizer ter valores. Se for derivada de um ambiente agressivo, a cultura daí surgida será de valores impositivos. Agressão é imposição e condiciona os agredidos no hábito de impor! Ser capaz de impor não atesta inteligência. Uma cultura oriunda da agressividade, quando se relacione com outra desacostumada a tantas agressões, provavelmente prevalecerá. Terá mais tecnologias, conhecerá mais formas de solucionar problemas existentes ou imaginários. Será capaz de antecipar eventos mais eficazmente e será necessariamente mais ardilosa. Principalmente ardilosa. Ser mais capaz para a dominação, evidentemente, não confere nenhuma certeza de correção nos procedimentos, note-se.
As culturas se acomodam e se pacificam quando, depois de desiludir-se com a agressividade, mas constatando viver em ambiente capaz de prover suas necessidades, percebem ser negócio de melhor economia administrar a inteligência, condicionando seu uso para a paz. Então, se geram ambientes tranquilos que, preservados de agressões, costumam dar origem à tranquilidade tolerante de culturas com valores pacifistas. Pois a paz é tolerante e condiciona à tolerância! Ser capaz de tolerar não atesta estupidez. Será, provavelmente, uma cultura que: gastará menos recursos em sua manutenção e não trará tantos problemas ambientais; que promoverá menos guerras de conquista ou imposição de cultura e que, por isso mesmo; tenderá a ser menos invasiva de direitos e de espaços públicos ou privados, quer dos que a componham, quer não. Ser menos propenso a dominar, evidentemente, não confere nenhum atestado de boa conduta no proceder, note-se.
Note também que os valores surgidos das relações entre as civilizações e entre elas e o ambiente não são necessariamente manifestos. Em verdade, quase sempre não o são. São sutilezas básicas e condicionantes das interpretações, estas sim evidentes. O que quer dizer que pessoas nascidas e condicionadas por ambientes provenientes de culturas anteriores, formadas entre restrições e rusgas – todas – terão a tendência de manter suas expectativas desfavoráveis, tanto nas relações com o ambiente (original ou colonizado), como com os seus semelhantes. Ao contrario, basta ir aos lugares onde as pessoas estejam acomodadas, para verificar através de uma breve consulta histórica, que foi o passado dali que condicionou à paz.
Existem formas de proceder marcantemente dominadoras, que provocam muitos desconfortos. As culturas presentes têm metodologias bem eficientes em alcançar objetivos, mas têm este pernicioso vício de origem: nasceram e continuam condicionadas por valores oriundos de ambientes adversos. As suas ações são próprias para ambientes conflitivos; pressupõe que os cenários de suas ações são ambientes conflitivos; ignoram a possibilidade de conclusão do processo de domesticação do ambiente e; preservam as condições conflitivas onde sejam praticadas. Estas culturas têm também determinado o recrudescimento dos problemas ambientais que padecemos.
Um agravante: mesmo havendo grande empatia, o pensamento de um não poderá ser o pensamento de muitos. Onde poucos definem o pensamento válido, a carência de diversidade aumentará a fragilidade, por carência de versatilidade. É uma derivação do princípio de entropia.
Juntamos tudo isso num resumo? Uma cultura anterior à humanidade, gerada pela sua subordinação à ambientes de alto potencial destrutivo, adentrou a civilização; a humanidade – usando de sua cultura anterior – associou-se em contrato de indivíduos que comprometeram suas liberdades buscando o controle daquele ambiente adverso, através da metodologia civilizatória; o processo foi confiado à administração de pessoas ou grupos; transformado o ambiente, nasce a já civilizada cultura posterior e se finda o contrato. Fim.
Fim?
Os administradores da civilização pactuada para intermediar entre a selvageria e a domesticação ambiental, habituaram-se aos privilégios conquistados por imposição deles. Domesticaram ao ambiente sim, mas equivalendo todos os fatores que não participassem dos grupos dominantes – humanos e não humanos; anteriores ou não – perpetuaram-se no desfrute exclusivo das vantagens que constavam no contrato original. Como não permitem a fase pós-civilizatória, onde as já bem-educadas liberdades individuais retornariam aos legítimos donos – nós – nosso será o ônus de demiti-los.
A civilização não é objetivo final, mas estado intermediário predecessor de sabe-se lá qual organização pós-civilizatória, onde indivíduos entendidos como tal viveriam – ou não – em sociedade por decisão própria, no máximo das conveniências e potencialidades humanas.
As pessoas pagam por coisas que queiram possuir; não pagam para manter-se endividadas. Os direitos que possuímos são créditos pessoais contra débitos da organização social e, quando são naturais, são de aquisição gratuita; os deveres sempre serão deficitários às pessoas em pró da sociedade e carecem de acordo. Compram-se mais direitos; dificilmente mais deveres. O que as pessoas pagam, elas creditam à coletividade; nunca aos representantes dela. É equivocado pensar que nossos antepassados optassem por entregar sua liberdade em paga de algo que eles soubessem inalcançável. É equivocado pensar que aos nossos antepassados não doesse confiar a administração de suas liberdades a outros. É equivocado pensar que nossos antepassados não quisessem retornar ao usufruto de sua liberdade. É equivocado pensar que, caso a entrega da liberdade não desse retorno, um Homo sapiens normal não fosse rebelar-se e pretender retornar a situação prévia de liberdade selvagem. É equivocado pensar que não herdamos todas estas características de nossos antepassados.
Tendemos naturalmente à liberdade. Em ambiente agressivo, a liberdade será agressora. O ambiente domesticado condiciona ao exercício de uma liberdade pacífica. Há informação e tecnologia para viver sem caciques. Dominamos todos os fatores, mas ainda somos dominados pelos genes. Não seria já o tempo de estendermos nossa dominação sobre eles e controlar seus efeitos psico-sociais? ‘Tás com medo?