Crise do Capitalismo e a resposta da Esquerda

Dois dos mais velhos media sobre temas económicos (fundados no século XIX), The Economist e o Financial Times, têm vindo a publicar artigos debatendo a Crise do Capitalismo. No seu editorial, o FT defende o papel do Estado como (mero) regulador do mercado. O TE reconhece o sucesso com que economias em que o Estado tem um peso grande (caso da China – 80% do valor na bolsa é de companhias estatais; Rússia – 62%; Brasil – 38%) têm sido capazes de recuperar da crise financeira, mas tem reservas quanto à capacidade de inovação destes sistemas, guardando para o mercado livre a propriedade de economia criativa.

Embora o FT tenha dado espaço à opinião de representantes do movimento Occupy London, o espectro ideológico posto à consideração é limitado ao canto liberalismo-social democracia. Segundo Francis Fukuyama, conhecido pela sua prematura proclamação do fim da História, num artigo no Foreign Affairs (libertei o texto aqui) acusa a Esquerda de “anémica” e de “falhar no reino das ideias”, afirmando que a “ausência de uma contra-narrativa progressista plausível é doentio” e que é urgente um “debate intelectual sério”.

Em parte, a descrição do terreno intelectual como paupérrimo deve-se ao facto de opinar que o Marxismo “morreu há muitos anos, e que os poucos velhos crentes que ainda existem estão prontos para os lares de idosos”. A esquerda académica substituiu-o pelo pós-modernismo e multi-culturalismo, e não há ideologia rival plausível à hegemonia da democracia liberal. Como candidatos considera apenas a teocracia islâmica, que é um beco sem saída, e a China, cujo modelo é de “governo autoritário com economia de mercado parcial [mista]” é “culturalmente específica” e poderá não ser sustentável.

Reconhecendo as tremendas desigualdades criadas pelo actual sistema hegemónico, Fukuyama espanta-se que os movimentos populistas têm sido sobretudo de direita (como o Tea Party). A ausência de um equivalente à esquerda, segundo o mesmo, deve-se ao facto ninguém à esquerda ter sido capaz de “articular, primeiro, uma análise coerente do que sucede em sociedades avançadas à medida que mudam economicamente e, segundo, uma agenda realista que tenha qualquer esperança de proteger uma sociedade de classe média”. Acusa, então, o modelo da social-democracia de exausto, e articula os elementos do uma futura ideologia. Politicamente democrata, protegendo a classe média, mas não podendo limitar-se ao Estado Social, fazendo uso das novas tecnologias no sector dos serviços (?), garantindo uma redistribuição de riqueza e pondo fim ao domínio dos  interesses [privados, monopolistas] na politica. Economicamente “não pode basear-se numa denúncia do capitalismo como tal, como se o velho socialismo ainda fosse uma alternativa viável”, mas um capitalismo em que os mercados não seriam um fim em si mesmos, mas “valorizando o comércio global e o investimento na medida em que contribuem para o florescimento da classe média”.

Até aqui limitei-me a espelhar a linha de pensamento de Fukuyama, e oferecê-la à consideração e crítica dos leitores interessados. Haveriam muitos pontos por onde pegar para fazer uma crítica à sua análise, começando por recusar a sua descaracterização do Marxismo, seu lugar na História e na actual arena intelectual. Fukuyama claramente não entende o conceito de classe social marxista, que confunde com estrato económico, o que desde logo desvaloriza a sua identificação da “classe média” como agente económico. Não entende a análise de propriedade, ao confundir a propriedade privada da “classe média” com a propriedade dos meios de produção.

Ao remeter a análise marxista para o caixote do lixo ideológico, fica impedido de a reconhecer como um corpo teórico que soube dar o devido valor ao capitalismo, enquanto fase económica capaz de gerar riqueza, soube analisar os seus mecanismos e prever exactamente o processo de globalização e suas contradições; o processo de crescimento do sector dos serviços (no mundo desenvolvimento) e a transferência do sector produtivo, na economia global, para países em desenvolvimento; o potencial de, em diferentes fases da correlação de forças sociais, haver menores ou maiores desigualdades económicas.

O capitalismo tem já vários séculos de história, mas apesar do aprofundamento de alguns processos (como a mobilidade de mercadorias, incluindo a força de trabalho, e crédito) e o engrandecimento de alguns ciclos (como o crescente peso do sector financeiro), no fundamental não alterou a sua fisiologia. É natural que Fukuyama se sinta frustrado na busca de novas formas dentro das fronteiras do capitalismo, pois recusa-se a pensar fora desse enquadramento.

A sua crítica de que a Esquerda não tem sido capaz de galvanizar largos sectores das sociedades ocidentais em torno de um ideário, de uma agenda, merece, porém, alguma consideração. (Fukuyama não discute os diversos processos na América Latina, desde Cuba, à Venezuela e Brasil.) Haveria que considerar o uso da comunicação social pelo poder económico, homogeneizando e empobrecendo o discurso político; o uso do Estado e seus instrumentos contra forças políticas e sociais lutando por alternativas.

Cabe perguntar: o ideal da justiça social já não move os sectores explorados e oprimidos? Não me parece que esse seja o caso, se até o Fukuyama parece movido por ele. São mesmo precisos novos ideais? O lema, nunca concretizado, da Revolução Francesa (“Liberté, égalité, fraternité“) não só me parece ainda válido, como ainda me parece motivador. Não me parece que o que faça falta seja a identificação de novos ideais ou a contratação de um empresa de marketing para relançar os velhos ideais (“Igualdade, agora com bifidus activos“). Claro que a Esquerda não perderá nada em usar as novas tecnologias, em fazer uso da criatividade, mas em última instância nada substituiu a comprovada táctica de estar junto das pessoas, conhecer as suas situações e dificuldades, e com elas encontrar formas de as ultrapassar.

Fukuyama parece-me demasiado mesmerizado com o que descreve como a hegemonia da democracia liberal. Não pode haver uma agenda de esquerda plausível e universal. Por alguma razão Marx não deixou um mapa das estradas para o Socialismo. O seu materialismo dialéctico ditava que qualquer processo histórico de superação do Capitalismo iria depender das condições sociais e económicas, subjectivas e objectivas, do país. Existe um arsenal de experiências e soluções que podem ser usadas, e no decorrer do processo de transformação social e político os agentes sociais podem fazer uso desse manancial de forma diversificada e ajustando-o às condições concretas. O Socialismo é um gerúndio.

Existe talvez um factor que limita a mobilização em torno dos “velhos ideais” com o espírito não só de resistir, mas de transformar e construir: a confiança de que é possível. Os explorados e oprimidos, as vítimas da desigualdade, os 99%, naturalmente clamam pelos velhos ideais, lutam por eles, sentem que é necessário mudar, mas esse impulso esbarra perante a experiência de manutenção do status quo, de que as forças contra as quais lutam são mais fortes; que se alcançam pequenas vitórias, que se logra por vezes travar medidas ainda mais brutais, mas que a mudança profunda está fora do seu alcance, é para a geração seguinte.

O facto da mudança ser necessária e possível, de sermos agentes não só de resistência mas de transformação, porém, só se conquista e generaliza lutando. Das pequenas às grandes lutas. Ajuda haver exemplos de referência, casos de sucesso. A URSS constituiu um farol de esperança para milhões de pessoas; e o seu colapso foi motivo de desânimo. Cuba é um referencial para muitos dos que constroem novos modelos de sociedade na América Latina. O 25 de Abril ainda constitui um referencial para muitos Portugueses. E em Portugal temos propostas de agenda de transformação. As análises e contribuições para a campanha «Portugal a Produzir», enquanto propostas concretas, realizáveis, plausíveis, abertas a melhoramento, mereciam maior consideração e discussão mais generalizada. Propostas que nos servem de base como força impulsionadora, primeiro no nosso imaginário e depois no concreto.

 

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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11 respostas a Crise do Capitalismo e a resposta da Esquerda

  1. Rocha diz:

    Para idiotizar, um idiota é suficiente. Fukuyama é uma nulidade intelectual. Um escriba de slogans estupidificantes.

    O Fim da História aconteceu mesmo, foi o fim da história de um idiota útil chamado Fukuyama. O seu tempo já passou há muito. Hoje já não há pachorra para ouvir imbecilidades sobre o “triunfo de capitalismo”, o tal que vemos hoje ruir de podre e de nauseabundo.

    O caixote do lixo da história é o lugar natural para certas personagens medíocres, para não dizer reles. Acho que não vale a pena mexer neste lixo. Já o Finantial Times e o Economist prefiro usá-los como papel higiénico.

    • Epitácio Lemos diz:

      Isso que dizes é bem ilustrativo.

      No momento actual o Capitalismo mostra não só a sua podridão (incapacidade para manter (a ainda menos expandir) o nível de desenvolvimento das forças produtivas), mas também a sua face agressiva (respostas armadas a todos quantos tentam fugir à ofensiva da globalização capitalista).

      Neste momento, os defensores do capitalismo (muitos provavelmente de boa fé) continuam a insistir no narcótico das liberdades burguesas como atestado de superioridade de qualquer sociedade. Essa insistência por vezes assume contornos de xenofobia e racismo, mas não é essa a questão central. A questão é que essas pessoas ignoram epicamente a incapacidade que o individualismo (e do conceito individualista da liberdade, isto é da “liberdade” de negócio) de dar à grande maioria da humanidade uma vida digna. Está à vista de todos, mas eles não vêem.

      Epi.

  2. Rinka diz:

    Alguém que afirma que: “A URSS constituiu um farol de esperança para milhões de pessoas; e o seu colapso foi motivo de desânimo. Cuba é um referencial para muitos dos que constroem novos modelos de sociedade na América Latina.”
    E depois vem falar em Democracia, tem piada.
    E onde é que a URSS foi um farol de esperança? Nos Gulags? Na Invasão da Checoslováquia em 1989? No controlo da imprensa, com exemplos tão bonitos como o Pravda? No Multi partidarismo vigente? Ou se calhar, nas prisões políticas?

    • Caro Rinka, independentemente da opinião que se tenha sobre a URSS e Cuba, que não pretendo agora discutir, parece-me inegável que a URSS constituiu e Cuba constitui efectivamente um ponto de referência e fonte de esperança para muitos. Numa analogia in extremis, admito que o Catolicismo tem muito seguidores, que vêm na sua religião uma fonte de conforto, embora seja ateu e da opinião que a Igreja Católica é uma estrutura de criação humana em torno de crenças que não partilho. (Só uma pequena correcção, o exército soviético entrou na Checoslováquia em 1968, não 1989. OU talvez queira referir-se à entrada do exército soviético em 1945 quando libertou o território dos nazis.)

    • A.Silva diz:

      Um pouco do conhecimento da história dos últimos anos permitia-lhe perceber o importante papel que a URSS teve no fim do colonialismo e na libertação dos povos. Este facto é só um pequeno exemplo do muito que os povos e a liberdade devem à URSS e aos comunistas.
      É claro que para tipos como você provávelmente esta verdade é a culpada dos males do mundo. Na verdade a direita nunca gostou da liberdade, nem das pessoas nem dos povos, como a realidade da União Europeia hoje está a mostrar.

    • Epitácio Lemos diz:

      O livro “Socialismo Traído” tem um parágrafo (na Introdução) que sumariza as conquistas progressistas da revolução de Outubro. Passo a transcrever:

      “””
      Um breve resumo das realizações da União Soviética realça o que se perdeu. A União Soviética não só eliminou as classes exploradoras da velha ordem, como também pôs fim à inflação, desemprego, discriminação racial e nacional, pobreza extrema, desigualdades flagrantes de riqueza, rendimento, educação e oportunidades. Em cinquenta anos, o país passou de uma produção industrial que correspondia a apenas 12% da produção dos Estados Unidos para uma produção industrial de 80% e uma produção agrícola que equivalia a 85% da dos EUA. Embora o consumo soviético per capita permanecesse mais baixo que nos EUA, nenhuma sociedade tinha até então elevado nível de vida e o consumo para toda a população tão rapidamente e num período de tempo tão reduzido. O emprego era garantido. A educação gratuita era acessível a todos, dos infantários às escolas secundárias (gerais, técnicas, profissionais), universidades e escolas pós laborais. Além de isenção de propinas, os estudantes pós-liceais recebiam subsídios. Havia um serviço de saúde gratuito para todos, com cerca de duas vezes mais médicos por pessoa do que nos Estados Unidos. Os trabalhadores que sofriam acidentes ou doenças tinham emprego assegurado e baixa médica paga. Em meados da década de 1970, os trabalhadores gozavam em média de 21,2 dias úteis de férias (um mês de férias), e os sanatórios, casas de repouso e campos de férias infantis eram comparticipados. Os sindicatos tinham o poder de vetar despedimentos e revogar administradores. O Estado regulava preços e subsidiava os custos de alimentação básica e a habitação. As rendas constituíam 2% a 3% do orçamento familiar, a água e os serviços públicos apenas 4% a 5%. Não havia discriminação da habitação em função do rendimento. Embora alguns bairros fossem reservados para altos funcionários, em qualquer outro lugar os gestores de fábrica, enfermeiras, professores e porteiros viviam lado a lado.

      O Governo incluía o crescimento cultural e intelectual como parte do esforço para melhorar o nível de vida. Os subsídios do Estado mantinham mínimo o preço dos livros, periódicos, eventos culturais. Como resultado disso, os trabalhadores tinham frequentemente a sua própria biblioteca e a família média assinava quatro publicações periódicas. Segundo a UNESCO os cidadãos soviéticos liam mais livros e viam mais filmes do que qualquer outro povo no mundo. Todos os anos o número de visitantes dos museus correspondia a quase metade da população, e a frequência de teatros, concertos e outros espectáculos ultrapassava o total da população. O governo fez um esforço concentrado para elevar a literacia e o nível de vida das regiões mais remotas e encorajar a expressão cultural da mais de uma centena de grupos nacionais que constituíam a União Soviética. Na Quiguízia, por exemplo, apenas uma em cada quinhentas pessoas sabia ler e escrever em 1917, mas cinquenta anos depois, praticamente toda a população sabia ler e escrever.
      “””

      Epi.

  3. Luis Almeida diz:

    Excelente, André Levy! Eu próprio tenho vindo a enfermar de uma poderosa contradição interna: a da profunda convicção de que nenhuma transformação é possível sem a activa e empenhada vontade, organizada, das massas e a aparente apatia por parte dessas mesmas massas que me circunda.
    Mas, esse é um problema meu, que tento ultrapassar juntando-me às pequenas e grandes lutas em que participo ( desde 1969, ufa!Tenho 68 anos… ).
    Estou um pouco pessimista por o povo não entender aquilo que para mim é tão clarinho e evidente mas, imponho-me actuar como se fosse optimista…

  4. Luigi Fare Niente diz:

    De facto caro Rocha o Fuki qq coisa está no mesmo panteão daquele que ‘nunca se engana e,raramente tem dúvidas’-o da Estultícia!

    Rinka,você é um wise guy da estatura dum miguel de vasconcelos.Como o Lévy bem repara, você é um barra em estórias da carochinha…Está a falar de Guantanamo e,da totalidade da presstituta nas mãos dos mais retrógrados capitalistas rançosos-olha,ele a falar da falta de pluralismo na ex-URSS.
    Multi-partidarismo?ahahah é o partido do A e o partido a’.Até parece um milagre as ovelhas terem a mesma opinião dos carniceiros.Get lost!

    Parabéns,caro André e subescrevo quase tudo o que escreve,tirando aqueles paragrafos a esplanar o ‘pensamento’ do Fucky.De papel higiénico, os escritos do vendilhão do templo.

  5. Pedro Penilo diz:

    Que bom ter-te connosco a pensar e escrever desta maneira, André!

  6. De diz:

    Um excelente e sério trabalho.

  7. Justiniano diz:

    Caro André Levy, muito interessante!!
    Interessantes apontamentos, os seus, em relação aos apontamentos meramente recognitivos do Fukuyama. Nada de extraordinário ali escreveu aquele. E o mais extraordinário é que muito se admira, aquele, de nada de extraordinário haver para, ou ser possível, escrever sobre este momento histórico!! E muito se admira, como eu me admiro e me surpreendo, com esta surpreendente letargia asténica!! Não que não fosse expectável, de algum modo, plausível até, mas por, verdadeiramente, sintetizar uma espécie de sucumbência!! Há-de, o caro André Levy, notar que não é apenas o F. Fukuyama que se entende inelutavelmente emaranhado pelo Liberalismo democrático, também à esquerda, grande parte da “esquerda”, há um genuíno receio de pensar para além dos limites do Estado de Direito Liberal e Democrático. Evidentemente com as excepções conhecidas, se quiser, e ,mesmo estas, também, hoje, demasiado presas aos limites do consenso do Estado Liberal e Social de Direito!! Como poderia dizer, também, o Fukuyama, foi o conforto triunfante do Estado Liberal e Social de Direito que o transportou para a dimensão de quase estado natural da contemporaneidade pós moderna!!

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