Um auto à fé do indivíduo

Vídeo que mostra um acto revelador das perigosas técnicas de desobediência, diria mesmo de êxtase insurreccional, que a Barca Pequena e Leve organiza para si própria, e que tem tirado o sono não só ao Passos Coelho como aos demais representantes do Estado e das diferentes instituições da Nação.

Está visto que a Barca Pequena e Leve é um dos Quatro Cavaleiros Cruzados da Barca do Inferno e eu, claro, o Enforcado. Move-o a raiva à indignação organizada, tem políticas contra a política e a força da sua razão arrasa qualquer ideologia. Encontra forças na fé do indivíduo, entidade tão abstracta como divina, tem a mentira como arma e é dotado de uma dose indelével de cobardia. Uma verdadeira ode ao partido inteiro. Vejamos:

Cruzado, esquecendo que a barca é leve e pequena, reitera as acusações aos infiéis: “Os diferentes momentos relativos à manif de dia 21 de Janeiro de que falei foram presenciados ou estão explícitos nos vários vídeos a circular na net sobre os confrontos com os fascistas. Qualquer pessoa que tenha estado na manifestação viu tanto a fuga para a frente como os constantes apelos à inacção; dizes que houve uma demarcação… o que é isso?”

O Enforcado, paciente, replica: Mas não vês que esta é das poucas vezes em toda a gente se entendeu à esquerda? Que o serviço de ordem funcionou na perfeição e que todos estiveram de acordo com ele, inclusive tu nobre cruzado? Que em canto nenhum da rede, e ao contrário de outras ocasiões, se soltaram os vigilantes do costume a apontar o dedo à submissão? Não vedes que todos repudiaram o oportunismo e que em nenhum momento os fascistas se conseguiram juntar ao protesto? Ouviste as palavras de ordem? Reparaste nas diferentes variantes de demarcação?

Cruzado, indignado sem querer ficar indignado: “A sério, o que é uma demarcação? De todas as “demarcações” de que me consigo lembrar, uma “demarcação” refere-se a um acto político, uma manobra espectacular, um golpe de cintura. Lembro-me por exemplo da “demarcação” que Negri e os seus amigos tomaram nos anos 70/80, que consistia em assinar um pacto renunciando à luta que decorria contra o estado Italiano em troca de uma aministia, piorando a situação judicial de todos os que recusavam essa manobra, e que ganhou o nome de “dissociação”. “Demarcação” que as Comissões de Utentes das diferentes auto-estradas teimam em publicitar de cada vez que mãos anónimas sabotam uma infraestrutura das portagens nas ex-SCUT. De facto a política não é uma coisa única de partidos… Se queres mesmo usar essa expressão, parece-me que neste caso os fascistas foram demarcados logo no início, a soco e pontapé.”

O Enforcado, excitado pela compreensão: Exactamente. Isso. Demarcação. De todas as maneiras e feitios. A soco, a pontapé e a megafone. Se percebes, e bem, que os reformistas se demarcam da revolta do povo, compreenderás que a revolta do povo se demarque dos fascistas. Não era o que deveria ter acontecido? Não foi isso precisamente que haveis feito em pessoa?

O Cruzado, apesar de algo baralhado, não se verga às evidências: “É indiferente as posições da Plataforma, pois os momentos mais alegres são feitos de indivíduos e não de estruturas como ela.”

O Enforcado, interjeitando: Mas foi essa estrutura que garantiu a organização do protesto e foi dela que se destacaram alguns dos mais bravos guerreiros. Terias ganho sem eles? Estarás capaz de te fazer ao mar sozinho? Porque desdenhar uma armada que no caminho do mar partilha, de igual para igual, o direito à palavra, à proposta e ao voto?

O Cruzado, irado de fé, responde sôfrego mas de um fôlego só: “Eu gostava mesmo era que não fosse capaz de as fazer, por serem atacadas ou desertadas, consideradas um instrumento de colocação da discussão em falsas perguntas que só podem ser replicadas com falsas respostas, e porque, numa situação de luta real em que se tenha conquistado a possibilidade de colocar outras perguntas, uma assembleia que pretende ser algo mais do que um local de conhecimento e partilha e se propõe ser um local de tomada de decisão imediatamente cria uma separação entre a decisão e a acção, entre os indivíduos que decidem e os que agem.”

O Enforcado, incrédulo, insiste nas perguntas: Mas o que tens tu contra o uso da palavra? O exercício popular da proposta? A troca de ideias, de sentidos, de caminhos? Porque não falas, não propões e nada fazes? O que te trava, de armas e bagagens, contra os diferentes inimigos do povo?

O Cruzado, satisfeito por ver que o seu argumento é, pelo menos, entendido: “Também isso é política, essa arte da separação. Se antes se perguntava “qual a diferença entre umrepresentante de esquerda e um de direita? – Nenhuma, ambos são representantes”, hoje pode-se dizer “qual a diferença entre uma assembleia dos indignados e um comício da CGTP? – nenhuma, ambos são palco para políticos extra-partidários”.

O Enforcado, procurando fazer ver o impossível: Mas se o problema são os representantes porque não tomas a palavra, a proposta, o voto, ou simplesmente avanças sobre os infiéis? Porque motivo ficam centenas de pessoas a ouvir os discursos, a levar a cabo as propostas definidas colectivamente, a partir dali para a acção politica quotidiana e engrossar as fileiras da resistência?

O Cruzado, reconhecendo o ponto de vista: “Não me entendas mal, o problema não é só quem sobe ao palco e tem os discursos mais entediantemente inflamados, mas a morte lenta de todos os outros, o processo de desumanização e alienação de todos os que nelas participam. O espectáculo não é só feito pelos seus actores, mas também pelos seus espectadores.”

Enforcado, baralhado, aviva a memória do Cruzado: Mas a culpa não era toda da plataforma? Não são as suas organizações o mal dos males, a razão de toda a servidão?

O Cruzado, percebendo, com perspicácia, o sarcasmo, começa a perder a santa paciência: “Para a Plataforma tudo é provocação, o mundo inteiro se explica através da provocação, pois tudo o que não corresponde ao estipulado pela Plataforma está contra “o movimento”. A Plataforma é a legítima representante do “movimento”…

O Enforcado, de novo confuso: Mas tu não fazes parte do movimento? Não estavas na rua? Não combates o mesmo inimigo, a mesma austeridade, os diferentes tipos de fascismo, a mesma falta de crença no homem e no futuro?

O Cruzado, de novo sem argumentos e finalmente sem nuvens de fumo, chama pelo superior poder dos mestres: “Face a uma sociedade podre, vocês lutam por um protesto cívico, mensurável, educado. Um protesto que permaneça ao vosso nível: de joelhos. Não, não queremos as vossas reformas, o vosso colaboracionismo, os vossos empregos alienantes, as vossas reivindicações de esquerda reaquecidas tantas vezes que nos dão vómitos.”

Enforcado, já invocando a vida: Fala por palavras tuas que te compreendo melhor, não faças sequer representar as tuas ideias. Não cites, cria. Não reproduzas, inventa. Não vedes que há quem lute pela divisão do trabalho para que ele não seja tripalium só para alguns? Não vedes que os 1% que se combate não é o 0,00000001% que dizes fazer parte? Não vedes que mesmo nessa escala há representantes e representados? Que também têm mestres? Que também há quem colabore mais ou menos de joelhos? Não vedes que a pureza que reivindicas não sendo de raça é de ideias, o que não faz dela uma forma inferior de racismo?

Cruzado, galvanizado, interrompe: “Mais grave ainda , o que fazes, ao nomear um grupo de indivíduos como autores seja do que for quando por alguma razão esse “seja o que for” é anónimo, é dos jogos mais sujos que a polícia e os jornais fazem há anos, aqui e não só. E este simples facto já era razão para levares na tromba.”

O Enforcado, impávido e sem ceder ao medo, insiste: “As razões que encontras para me dar na tromba são as mesmas que te levam a fazer parte do movimento e a lutares contra o sistema que nos oprime, contra as leis, as regras e o Estado dos Senhores em que vivemos? Poderei dormir tão tranquilo quanto tu os deixas dormir a eles?

O Cruzado, sem esclarecer, adverte com uma ponta de rancor e uma vez mais recorrendo à representação que o havia deixado furioso: “Considerar as ideologias e a política como parte integrante deste sistema de dominação. “A nossa única relação com a política é uma relação de guerra”, diziam Os Cangaceiros (http://theanarchistlibrary.org/HTML/Os_Cangaceiros__A_Crime_Called_Freed… ), pondo em palavras o que muitos sempre sentiram ao longo do tempo.”

O Enforcado, já desarmado mas ainda em nome do Diabo, dá sinais de estar a perder a esperança de vir a conseguir resgatar esta alma do descanso divino: Mas que tens tu contra a política, a ideologia? Não percebes que há umas boas e outras más? Que tu próprio levas a cabo uma e professas a outra? Que o individuo, mesmo que crente na acção individual e fiel cruzado da individualidade, é sempre o actor político e uma entidade dotada de um conjunto de ideias às quais se chama de ideologia? Que política é essa que trazes nos braços e que vontade levam as tuas ideias?

Cruzado, quase a perder a fé: “Falo precisamente dessas vontades individuais que se encontraram e partilharam aquele momento como sendo o que tornou possível os fascistas terem sido postos a andar.”

O Enforcado, já morto de cansaço: Mas já vimos que foram todos, que só sendo todos é que foi possível ter ganho…

O Cruzado, lembrando infiéis ainda mais infiéis, procura provar que nem todos têm a fibra de um verdadeiro Cruzado: “No 12 de Março, como toda a gente sabe, os fascistas participaram na manif, para vergonha de todos “nós”, sem qualquer resposta, como desta vez o mesmo iria acontecer caso alguns indivíduos não tivessem decidido o contrário.”

O Enforcado, agora recorrendo à psicologia invertida: Então de que te lamentas se desta vez foi perfeito. Ninguém os tolerou e foram corridos como Deus manda. As diferentes plataformas, os vários indignados, os múltiplos cidadanistas, e outras declinações de infiéis, indivíduos e colectivos também, presentes no acto. Não achas que essa é uma unidade a preservar para o futuro?

O Cruzado, deixando cair a máscara: “Contigo, com a Plataforma, com os Indignados (R) e com a ideologia cidadanista não quero fazer nada no futuro, tal como nunca fiz nada no passado. A única coisa que quero relativamente a isso é que percam o papel de representantes, porta-vozes ou recuperadores que têm tido, da mesma forma que quero que esse saco dos indignados rompa finalmente.”

O Enforcado, quase aliviado, ainda esboça um último desabafo retórico: Mas porquê, se fomos capazes de tão gloriosa vitória? O que serás capaz de fazer sozinho, numa barca pequena e leve? Porque não soam as sirenes? Porque permanece intacta a Banca, os Ministérios, o Parlamento, a minha tromba e o sossego dos senhores do mundo?

Por fim, o Cruzado, feliz por conservar a sua pureza mas zangado por se duvidar da sua firmeza, recorre novamente aos ditos divinos, às ameaças e às promessas que, como o ignóbil político da praça e o falso propagandista, deixa para que outros cumpram por ele a profecia: “Mas cuidado. Um navio que navega com inimigos a bordo é uma oportunidade demasiado boa para a perdermos. Estão-se a rir? Não nos temem porque não temos a força para abordar o navio? Perceberam mal. Não estamos interessados no vosso ouro, não queremos conquistar-vos. Queremos fazer-vos naufragar juntamente com toda a vossa carga de morte. Para tal não precisamos de uma majestosa frota, apenas de um barco de ataque. Pequeno e leve.”

Off-topic: Os anarquistas que me desculpem a redundância da primeira posta. Este, está visto, deixa o Durruti, onde quer que esteja, amargurado.

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8 respostas a Um auto à fé do indivíduo

  1. Rocha diz:

    Transcrevo um comentário do Indymedia. Que refere muito que tipo de anarquistas são estes do barquito de papel, os “anarquistas de brincar” ou os “insurrecionistas na adolescência”:

    “(…) Porque, partilhando o sentimento do ex-anarca, existe um discurso espectacular com bafo a ódio, um discurso auto-referente e autocomplacente, de “demarcação” simbólica, vindo de várias pessoas que se agregam no ideário anarquista. Discurso em si um bocado irritante (como todos os tiques, estilos, modas, pelo lugar-comum, etc, etc.), mas sobretudo oco, inconsequente. Esse discurso transpira uma via insurreccionista no abstracto, no fogo-fátuo, no petardo multicolorido, na pantufada ao careca, na piromania de carrinhos de brincar, na fisga ao pardal, enfim, no carnaval. Esse carnaval serve obviamente como factor de agregação e de pertença, de demarcação de território. Nada de mal, não fosse carregar um auto-ilusório ilusionismo. Ou, (sem chamar à colacção quem não conheço) “tentar encontrar novas formas, novas palavras, novos ânimos para se expressar e comunicar”, trata-se desses indíviduos que à pedrada, à pantufada, à barricada, se juntam aos pretos quando estes apanham do que “acontece”: o fascismo real, o normal, o que vem dos democratas e da sua guarda? Troque-se depois “pretos”, por todos aqueles destituídos, espoliados, explorados, que no dia-a-dia continuam sem resposta, inclusive, sem a resposta dos insurreccionistas.”

  2. Zebedeu Flautista diz:

    Sob a república, a pseudonação, o país legal, por assim dizer, representado pelo Estado, sufoca e continuará a sufocar o povo vivo e real. O povo, contudo, não terá a vida mais fácil quando o porrete que o espancar se chamar popular.

  3. De facto, comparado com o extraordinário sectarismo do anarquista em questão, só o extraordinário sectarismo do Renato Teixeira, que contudo ganha aos pontos no método utilizado.
    “Muito mais do que nos une é aquilo que nos separa”, invertendo a conhecida canção. Assim se esvai qualquer fogacho de unidade, e eis aqui, sucinta nestes posts (do anarquista “Barca não sei do quê” e do Renato), a explicação para o fracasso que se avista (mais uma vez) neste “movimento”.

  4. Viva o voto! O voto é que interessa!

    • Renato Teixeira diz:

      Interessa alguma coisa, mais ainda se acompanhado do direito à palavra e à proposta, em igualdade de direitos e com as mesmas condições para todos os que participam nas Assembleias.

      A alternativa é serem os estudantes, os desempregados e os activistas profissionais, a decidir às tantas da madrugada e depois de derrotada tudo e todos pelo cansaço. O que tem isso de Popular e de Democrático.

      • Realmente, que tem isso de democrático? Discutir a fundo as questões, ser inclusivo, atingir consensos… que merda! O voto é que é democrático!

        E já agora, o 15M espanhol e o movimento Occupy é completamente anti-democrático.

        • Renato Teixeira diz:

          Nas Assembleias onde o consenso não passa de uma técnica de bloqueio, sim.

          O voto não é contraditório com a discussão, a inclusão ou a tentativa de gerar consenso. Só não se fica por ai.

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