Como povo, passámos tempos piores do que este e soubemos levantar-nos do chão. Não desanimamos nem desistimos. Por isso 2012 é o ano de apresentar e operacionalizar as alternativas. De ganharmos coragem e responsabilidade. É a minha última crónica, não vos digo adeus, digo-vos até já! vemo-nos nas ruas.

Olá a todas e a todxs,
Um das bases fundadoras da democracia é a liberdade, e foi em nome da liberdade que eu fui convidada para fazer esta crónica na antena 1, há 2 anos.
Fui informada de que hoje é a última vez que vos falo. Tenho diante de mim 2 grandes profissionais da rádio, o Ricardo Alexandre e o António Macedo, com quem tive a honra de partilhar o inicio das manhãs de 3ª f e com quem aprendi muito, como aprendi com outros que não estão aqui, como a Alice Vilaça e o José Guerreiro, que fazem um excelente serviço público. A minha crónica era um espaço para mostrar o que de novo de passa em Portugal e no mundo. Para a fazer todas as semanas tive que estudar economia, sociologia, ecologia, política, história, a história do nosso país e a história das pessoas no mundo, como é que nós evoluímos, como é que nós saímos das cavernas e conseguimos hoje construir a paz, sistemas democráticos, como a longa luta pela justiça social e por uma vida digna foi decorrendo ao longo do tempo. Estudei como as pessoas que vivem aqui construíram este país, e como as que querem continuar a viver aqui e não querem ser obrigadas a emigrar podem lutar para defenderem os seus direitos e a democracia.
Ao longo dos 2 anos de fazer as crónicas, o número pessoas me escreviam no fim de cada emissão, na net, por mail, por carta, por mensagem, aumentou semana a semana. Para além do trabalho de investigação que fazia para cada crónica, comecei a dar voz ao que sentia e ao que as pessoas, cada vez mais pessoas, me escreviam.
As pessoas que me escreviam são as pessoas que vivem em Portugal, que estão a sofrer o ataque mais violento aos seus/nossos direitos fundamentais desde o 25 de Abril de 1974. Direitos que estão na nossa Constituição e que são a base fundadora da nossa democracia.
A nossa democracia está a ser atacada, e denunciar estes ataques e quem está a atacar os nossos direitos, a nós cidadãos, pessoas, e encontrar e propôr soluções concretas para sairmos desta crise foi sendo imperioso para mim. Porque cada vez mais as pessoas me escreviam no fim das crónicas, desesperadas, atiradas para a precariedade e para a pobreza, sem saberem como se defender. Fui a porta-voz de muitas pessoas que não têm voz, que encontro no metro, na rua, na mercearia, na escola.
Isto é uma radio pública. Paga com o nosso dinheiro, do nosso trabalho, do esforço que as gerações antes de nós fizeram, do esforço que todos fazemos para podemos viver em liberdade.
Para que serve uma radio pública ? Para que serve o serviço público?
Para dar voz às pessoas, para ser a expressão do que pensa um país, na sua diversidade e complexidade, nas suas diferentes opiniões ? ou para ser a voz do dono ? o serviço público tem como missão informar, e como tal tem que informar os ataques à nossa democracia.
Tive a honra de partilhar este tempo com o Pedro Rosa Mendes, o António Granado, o Gonçalo Cadilhe, a Rita Matos, um tempo de diversidade, como deve ser o serviço público.
Numa democracia o serviço público serve para ser a voz das pessoas. Numa ditadura serve para ser a voz do dono, ou seja do governo. Na nossa situação actual, temos um governo que nos manda a nós portugueses emigrar, e ataca os nossos direitos fundamentais. Por isso a rádio pública ser a voz do governo, não é sequer ser a voz daqueles senhores que alguns de nós elegeram, porque este governo é a voz da chaceler alemã, é a voz dos banqueiros alemães.
Os governos deixaram de nos representar, obedecem ao governo alemão que obedece aos banqueiros. E este sistema não funciona, estas medidas de austeridade não podem funcionar, porque são uma desculpa para irem destruindo aos poucos a democracia. E sem democracia entramos nas ditaduras disfarçadas onde temos mais pobreza, mais injustiça social, mais corrupção. Este sistema não serve as pessoas, serve os banqueiros. Por isso temos que criar novas formas de nos organizarmos e vivermos em sociedade.
Em muitos sítios do mundo há já projectos para tentar refundar a democracia, da Islândia, aos EUA, ao Brasil. Que têm a mesma ideia de base: os cidadãos não podem confiar mais na democracia representativa, porque ela já deixou de ser democracia, deixou de representar as pessoas. As pessoas, nós, temos que nos informar e juntar com amigos, colegas, vizinhos, no trabalho, na escola dos filhxs, no colectivo, no bairro, na associação, na junta de freguesia, na colectividade, vamos ter que nos juntar e auto-organizarmo-nos. Vamos ter que ser nós, pessoas, a estar à altura da gravíssima situação que vivemos, porque quem nos governa não está.

Como povo, passámos tempos piores do que este e soubemos levantar-nos do chão. Apesar daqueles que nos deviam liderar nos dizerem que nada valemos, somos melhores do que eles pensam. Somos melhores do que nós próprios pensamos. Nós não estamos condenados a esta humilhação. Sim, sairemos da nossa zona de conforto. Não para emigrar, mas para, como, cantava o Sérgio Godinho, fazer outra terra no mesmo lugar. Não será seguramente com esta gente. Será com gente que nos represente. Nós saberemos encontrá-la. Não desanimamos nem desistimos. Porque não há luta sem esperança, nem esperança sem luta.
Por isso 2012 é o ano dos desafios, de apresentar e operacionalizar as alternativas. De ganharmos coragem e responsabilidade. É o ano de perdermos o medo.
É a minha última crónica, não vos digo adeus, digo-vos até já!, vemo-nos nas ruas.

Raquel Freire, Lisboa, 24 1 2012.

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22 respostas a Como povo, passámos tempos piores do que este e soubemos levantar-nos do chão. Não desanimamos nem desistimos. Por isso 2012 é o ano de apresentar e operacionalizar as alternativas. De ganharmos coragem e responsabilidade. É a minha última crónica, não vos digo adeus, digo-vos até já! vemo-nos nas ruas.

  1. A.Silva diz:

    Até já!

  2. É realmente a palavra chave… responsabilidade,… de tomar nas nossas mãos a responsabilidade de mudar o que queremos que seja mudado, de fazer o que queremos que seja feito, de inverter os valores que queremos ver invertidos, de não deixar que as palavras signifiquem outra coisa que não aquilo que realmente significam e que uma promessa feita à sociedade deixe de ser um vocábulo vazio.

    Rumo ao futuro.

  3. maria povo diz:

    habituei-me a ouvir a raquel na antena1 e adorei muitas das suas crónicas. viu-se que foi um trabalho competente e informado, informando! serviço público do melhor!! vou ter saudades!
    espero que continue a “pôr” as crónicas aqui e se possivel gravadas!!
    e como diz sérgio godinho: “o fascismo é uma minhoca que se entranha na maçã, ou vem de botas cardadas ou com pezinhos de lã”…
    cheira-me a censura..

    até já!!!!

  4. Em total solidariedade com a Raquel e com a defesa democracia. Ver http://macloule.blogspot.com/

    Depois de no governo anterior Sócrates ter sofrido de uma verdadeira obcessão com o controlo da informação eis que o actual governo regressa com o pior dos tempos de Sócrates. Quem se demite? O Ministro Relvas ou o Director de Informação da rádio em causa? Para acompanhar, exigir e esclarecer. Já não é só o fascismo financeiro. Aqui é o pior dos tiques das práticas fascistas, mesmo fascistas…

  5. TU não merecias isto,nós não merecíamos isto,”TERMINOU A CANÇÃO OU SEQUER A COMEÇASTE? figurões de monstros com medo,ficção covarde,casta de impotentes,nauseabundos que não sentem o cheiro,nem qualquer outro sentido,
    OS GRITOS QUE VAZAM DE TI,provocam em nós um frémito.

  6. patrícia diz:

    “ouvem-se já os clamores!..”

    até já, Raquel, e obrigada.

  7. JgMenos diz:

    ‘Numa democracia o serviço público serve para ser a voz das pessoas.’
    Está errado, nesta democracia o serviço público serve para dar voz aos partidos políticos.
    Mais ninguém tem voz sem assegurar os meios;e se ainda quer ser paga – mais difícil!!!
    ‘…os cidadãos não podem confiar mais na democracia representativa, porque ela já deixou de ser democracia, deixou de representar as pessoas’.
    Vai então para a rua criar uma democracia não representativa? Estou comovido!

  8. orlando diz:

    Foram muitas as cronicas que escutei da Raquel na Antena 1. É bom ouvir opiniões que vão de contra a corrente, como a sua, e dos seus companheiros que faziam este programa. Parece que voltámos ao tempo do fascismo, quem não interessa rua. Mete nojo esta democracia gasta e caduca, em que a voz do dono é aquela que muitos seguem. Mete nojo existirem pessoas que se vendem para dar voz ao dono. Tenho nojo de certas pessoas que vivem neste país, que acham de devemos pensar todos da mesma maneira, Tenho nojo dos que tentam silenciar uma parte da sociedade. Tenho nojo dos jornalistas que não fazem bem o seu trabalho. Tenho nojo daqueles que se dizem democratas e não são mais do que pequenos ditadores. Tenho nojo de pessoas racistas, xenófobas, homofóbicas.
    Espero continuar a escutar as suas cronicas por aí, num blog qualquer, numa rádio livre de preconceitos, onde possa existir verdadeiros pós e contras e onde a liberdade de dizer e de pensar seja lema implantado.
    Obrigada Raquel, foi um prazer conhece-la, nós por certo encontramos-nos na luta.

  9. Al cunhal diz:

    Dizes sempre o mesmo muda a K7.

  10. Luis Almeida diz:

    Comovente por ser verdade e muito sentido, querida Raquel!
    Eu estou há muitos anos no PCP e nunca me senti defraudado! Também porque sinto que a tática, a estatégia, a linha política, etc. não são determinadas apenas pelo Comité Central e muito menos pelo Jerónimo sozinho. Em cada decisão e cada acção está lá um bocadinho de mim…
    Aliás, o Partido serve mais a minha agenda pessoal que eu a dele. Era eu que, modestamente e à escala da minha pessoa, queria “transformar o mundo”. A partir do momente em que me foi claro que não podia fazê-lo sozinho nem desorganizado a adesão foi natural…
    Mas, é claro, que não tenho a pretensão ( nem o desejo, amo demais muitos não-comunistas ) de que o PCP consiga o almejado “governo patriótico e de esquerda” – por antinomia ao “anti-patriótico de direita” que é a associação de malfeitores que nos governa – sem uma ampla aliança de todos os que amam Portugal ( com exclusão, talvez, dos belmiros e amorins que têm a pátria nos “off-shores”). Os tais 99% ( ena, somos tantos!) contra os 1%, de que fala o Occupy Wall Street ( agora “accross America”)…
    Nem tenho a pretensão de pretender que todos vejam o mundo como eu o vejo: existência de grupos chamados classes que têm interesses próprios, divergentes e até antagónicos dos de outras classes, etc.
    ( O Waren Buffett até admitiu: ” what is happening is just class warfare. And MY class is winning…”)
    Não.
    O que eu quero é o povo reaja, se posível unido e organizado, para por ter termo a esta “apagada, vã e vil tristeza”.
    Por vezes, falar do passado não é um exercício de nostalgia, são lições para o presente e para o futuro, quer no que foi postivo como para o que foi negativo. Sou suficientemente velho ( 68 ) para o poder afirmar, já vi quase tudo…
    Positivo: no curto tempo que durou o chamado PREC os goverantes – a começar por esse homem ímpar e impoluto que foi Vasco Gonçalves – estavam, DE FACTO, do lado dos governados. Numa prova de grande confiança no povo começou tudo ” a mexer a partir de baixo”. O povo avançava ocupando as fábricas dos fugiram para o Brasil, os latifúndios imensos ( a sul do Tejo ) que os agrários absentistas tinham deixado ao abandono, etc, etc. Logo depois, o poder instituído respaldava essas ocupações legislando-as ( não é a existência que precede a essência ?). O controle das fábricas pelas Comissões de Trabalhadores, o Serviço Nacional de Saúde ” universal, geral e gratuito” – a que o PS e a direita, em revisão contitucional acrescentaram apenas o advérbio de modo “tendencialmente” antes do “gratuito”, abrindo assim as portas às taxas “moderadoras”, agora a preços insustentáveis – a universalidade das pensões de reforma e dos 13º e 14º meses, e muitos etcéteras.
    Negativo: a destruição lenta mas inexorável de todas essas conquistas ( tornadas “direitos” e não “caridade” ) nos 35 anos seguintes. E os culpadados não são anónimos. Têm rosto e têm nome! São os mesmos ( PS, PSD e CDS ) que, agora com o freio nos dentes, estão a lançar o país numa situação atroz.
    De perda de soberania em perda de soberania, de “soberana” já quase só nos resta a dívida.
    Que eles ( as duas Troikas, a interna e a externa ) sabem que nós sabemos que eles sabem ser IMPAGÁVE!
    “Eles” têm, pois, que ser travados pelos 99% para evitar o desastre total.
    Perdoe-me este longo desabafo, minha corajosa amiga!

    • JgMenos diz:

      Ai que saudades!
      Aquelas barra de ouro no Banco de Portugal! E o povo tão bem organizado! E os camaradas soviéticos tão contentes! E a muralha d’aço!!!
      Vai-te catar…

      • De diz:

        (Catar?
        Mais um a, publicamente, expressar a sua rotina habitual?
        E nós com isso?
        Com catano)

        Leio o texto de Luís Almeida e acho-o um testemunho exemplar.
        Leio o de JgMenos e vejo a centelha de ódio…e um pouco mais
        Percebe-se assim um pouco melhor a defesa de Cavaco Silva pelo personagem em questão.

        Também uma questão de classes…e de classe

  11. Luis Almeida diz:

    Há muitos anos vi um filme de gostei muito realizado por Joseph Losey e com Dirk Bogarde no papel porincipal, dois notáveis britânicos entretanto já falecidos.
    Chamava-se “The singer, not the song”.
    Adaptando o nome do filme, peço aos eventuais leitores do meu comentário acima que atentem mais na razoabilidade da minha “song” do que naquilo que eu, partidariamente, sou enquanto “singer”.
    Como é, aliás, de esperar de quem não seja sectário…

  12. António diz:

    Resumindo e concluindo: Que se foda a democracia e esta merda do voto popular, porque o povo não vota em quem eu quero!!! Assim sendo não brinco mais. Vou arranjar os amigos a ver se conseguimos passar da democracia representativa para a democracia “amostral”….

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  15. Luis Almeida diz:

    António, com toda a paciência lhe digo: há-de chegar um momento histórico em que será a direita a não querer democracia representativa nem voto popular. Ou você ainda não se deu conta que o capital financeiro global – Grupo Bilderberg, G20, Vaticano, etc – fomenta a crise à escala global para os povos melhor se submeterem a a um governo mundial, totalitário ( um neo-fascismo!) sob seu controle em que os governos nacionais, como o nosso e os da UE, seriam meros fantoches, com a aparência de alguma soberania mínima, mas sob o diktat real dessa ÍNFIMA minoria que controla o mundo?
    Os tais 1% de que fala o Movimento Occupy Wall Street contras os restantes 99% que somos nós…
    A propósito, a chamada imprensa “de referência”, canais públicos incluídos, não relata minimamente o que se está a passar nos EUA, nomeadamente que o Movimento, que começou em Nova Iorque, se estendeu já a 400 cidades americanas! E os portugueses, claro, ignoram isto…
    O que eles querem é um mundo de amos e escravos ao seu serviço e a delapidação dos recursos naturais em seu proveito, ainda que à custa de tornarem o planeta inabitável para futuras gerações!
    Tantas provas disso, tantas evidências!
    Quer melhor do que, esta: para melhor servirem a agenda DESTA UE ( a que está ao seu serviço e não dos povos europeus) a nomeação, sem eleições (!!!) dos substitutos de Papandreo na Grécia e de Berlusconni na Itália, só porque já não serviam inteiramente os seus propósitos?
    Até um euro-deputado conservador como Nigel Farage denunciou a falta de democracia com que altas figuras exercem funções no PE sem terem sido eleitos por ninguém. É só ver no Youtube…
    No fundo é disto que se trata, eles ( os 1% que têm tudo) contra nós ( os 99% que sempre teve pouco e a quem querem tirar mesmo esse pouco ).
    Sobre a democracia representativa no nosso país falarei noutro post, que este já vai longo…
    Entretanto, abra os olhos e esteja atento aos sinais…

  16. raquel freire diz:

    obrigada a todxs pela solidariedade e pela partilha.
    vou continuar sim.

    antónio, olhe que o luís tem razão: abra os olhos.

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