Amanhã vou à manif, “sem violência, mas sem fraquezas!”

O slogan é dos pequenos produtores da região de champagne que nas duas primeiras décadas do século XX impuseram a Região Demarcada da produção deste néctar, para protegerem a pequena propriedade e evitarem a sua própria proletarização.

Sábado, dia 21, vou à manif, unida com todos os que lá estiverem, pela derrota integral do Governo de Passos Coelho. A Rubra, como dezenas de outros grupos, defendeu na Plataforma do 15 Outubro, uma plataforma de dezenas de organizações que chamou esta manifestação, o convite aos sindicatos e aos indignados e a todos aqueles que sabem que à frente está a luta colectiva ou o desespero individual.

Pergunto-me: amanhã vamos lá estar todos? Há alguma exigência desta manifestação que leve a CGTP a ficar de fora dela?

Voltamos ao passado. Há quase 40 anos, PCP e PS digladiavam-se sobre a estrutura sindical em Portugal. O PCPdefendia uma única central (unicidade sindical) e o PS mais do que uma. Ninguém da minha geração percebe – e com razão – porque ainda hoje se grita nas manifs «CGTP, unidade sindical», slogan que não diz nada a alguém com menos de 40 anos.

O PCP queria estrategicamente construir uma única central dos trabalhadores – a Intersindical – porque a dominava politicamente e porque esta era uma fonte de força, quadros e dinheiro para o PCP (esta é aliás, creio, uma das principais razões por que o PCP resistiu ao fim da URSS melhor do que outros PC europeus). O PS queria um movimento operário fraco e construir uma central alternativa, a UGT, ancorada nos sectores de serviços.

É intolerável que o Estado defina uma única central sindical – isso é uma forma de corporativismo – e é lamentável que os trabalhadores tenham aceitado participar numa central sindical, a UGT, cujo objectivo não era fortalecer com lutas e quadros a resistência, mas dividir os trabalhadores.

A unicidade é uma lei imposta pelo Estado que regula a forma como os trabalhadores se devem organizar. Ora, como os trabalhadores se organizam é algo que só a eles diz respeito e não pode nem deve estar na lei qualquer limite a essa organização. Imaginem que só existia a UGT e uma lei que impedia outras centrais sindicais?

Unidade não é unidade de pensamento mas unidade de acção – é inaceitável que a CGTP diga quem participa ou não nas suas manifestações, fazendo por vezes corredores de polícias à volta e limitando o uso de faixas ou panfletos. É normal e salutar que os trabalhadores, estudantes, movimentos populares de activistas, precários, desempregados, saibam caminhar juntos nas mesmas manifestações tendo quem quiser o seu jornal, a sua faixa, os seus panfletos, o seu pensamento. Unidade não é unicidade. Unidade significa juntar o que é diferente, respeitando as diferenças.

É incompreensível que a CGTP se recuse a aderir e apoiar estas manifestações, ancoradas num poderoso movimento de precários e desempregados que realizaram em 9 meses 3 manifestações gigantescas – facto único na história do país.

É uma infantilidade que movimentos de indignados assumam à partida que não participam nas manifestações convocadas pela CGTP, metendo no mesmo saco os milhares de trabalhadores que lá estão e a direcção burocrática da CGTP.

A derrota do Governo está na linha de ruptura que escolhemos (e de que aqui não falei, mas certamente não passa pela renegociação da dívida), mas também está noutro caminho: na exigência da adesão da CGTP à manifestação de 21 de Janeiro, convocada pelo 15O, e na participação de todos os movimentos na manifestação de 11 de Fevereiro, convocada pela CGTP.

Todos juntos, lado a lado, cada um com a sua política (e o seu pensamento) nas mãos. E se o logramos certamente também com uma garrafa de champagne, para celebrar a vitória.

“Sem violência, mas sem fraquezas!”

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

44 respostas a Amanhã vou à manif, “sem violência, mas sem fraquezas!”

  1. rms diz:

    aaahhhhhhh afinal o problema disto tudo são o PCP e a CGTP.

    • Raquel Varela diz:

      Sim, rms, é exactamente isso que está lá escrito. Ainda bem que existem pessoas com a sua seriedade analítica, que seria o mundo sem isso.
      rms signfica?

      • rms diz:

        são as iniciais do meu nome. Para mais informações verificar o meu perfil ou verificar o endereço de email que preencho neste comentário.

        “O PCP queria estrategicamente construir uma única central dos trabalhadores – a Intersindical – porque a dominava politicamente e porque esta era uma fonte de força, quadros e dinheiro para o PCP (esta é aliás, creio, uma das principais razões por que o PCP resistiu ao fim da URSS melhor do que outros PC europeus)”.

        Fonte de quadros e dinheiro para o PCP em que medida? As quotas que pago ao meu sindicato, é o CESP, se fores continuar com o inquérito, são para o PCP? É mau. Então, pago-as duas vezes. Uma fonte de quadros para o PCP? Os militantes do PCP são eleitos para cargos na CGTP por serem do PCP? É que são os trabalhadores que escolhem os seus representantes. Diz que é uma espécie de democracia directa.

        “Unidade não é unidade de pensamento mas unidade de acção – é inaceitável que a CGTP diga quem participa ou não nas suas manifestações, fazendo por vezes corredores de polícias à volta e limitando o uso de faixas ou panfletos.”

        Inaceitável é que a unidade na acção seja parasitada por movimentos para se propagandearem quando lá estão, precisamente, pessoas de muitas sensibilidades políticas e outras, impingindo-lhes os seus jornais, panfletos ou que seja, dando-lhe um cariz deste ou daquele partido, deste ou daquele movimento. É a tal unidade.

        “Todos juntos, lado a lado, cada um com a sua política (e o seu pensamento) nas mãos. E se o logramos certamente também com uma garrafa de champagne, para celebrar a vitória.”

        É um ponto de vista interessante, que vás lado a lado com as políticas de todos. Olha que o todos é muito abrangente. Eu, não vou.

        Quanto ao resto, não vale a pena argumentar para além do facto de ser a mesma visão que a burguesia tem da CGTP e do movimento sindical unitário.

        Essa tentativa de dividir trabalhadores entre empregados efectivos, precários e desempregados é um serviço que o capital agradece, saúda e promove, bastando para isso ver o espaço mediático que tiveram nos media e comparando-o com o que tem qualquer acção de massas da CGTP.

        • Pedro Pinto diz:

          Cara Raquel, o Governo – depois de ler os seus posts – vai avançar com leis anti-sindicais: ingerência na organização e contas, limitação de mandatos. Viva o Governo, cara Raquel, que vai pôr na ordem os sindicatos dominados pelos comunistas, como diz…

  2. Augusto diz:

    Em França existem várias centrais sindicais, tal como em Espanha ou em Italia , umas mais combativas que outras, mas conseguem conviver, e muitas vezes fazem greves e manifestações conjuntas, em Portugal, até nisso somos únicos.

    Temos uma Central controlado pelo PCP, em que os sectores minoritários são tolerados, e uma UGT criação do PS e do PSD .

    Nunca se discutiu a existência de uma Central Sindical PLURAL , que não esteja ao serviço de partidos, e das suas agendas politicas, e sim dos trabalhadores sindicalizados e da defesa dos seus interesses.

    • Luigi Fare Niente diz:

      ‘this is a ruling class strugle,stupid!’

      Sem o querer ofender mas sim,uma espécie de plagio,chamara a atenção que estamos em plena guerra de classes(a capitalista subsidiária) e,quem produz riqueza.Obviamente,q o patronato compra ‘centrais sindicais’ para confundir,….,i.e,dividir para reinar pela simples razão e,agora cada vez mais pq são minoritários essa gente,se assim se pode falar desta horda de ‘arianos’…..

  3. Tiago Mota Saraiva diz:

    Raquel, com este post deves ter conquistado milhares de pessoas que estavam indecisas sobre participar ou não na manifestação de amanhã.

  4. Pedro Penilo diz:

    A Raquel tem um charme arrasador. Ela encarna em si mesma o próprio motivo.

  5. Vítor Vieira diz:

    A CGTP é uma “fonte de força, quadros e dinheiro para o PCP” e por isso é que “o PCP resistiu ao fim da URSS melhor do que outros PC europeus”. Pois. Como habitualmente, a ideia que o PCP era o “lacaio do social-fascismo soviético”. Caramba, Raquel: passados tantos anos ainda não conseguiu libertar-se desses chavões? Essas teses de que o PCP é sustentado por outros (preferencialmente pelo estrangeiro… mas agora é mais difícil afirmar tal coisa) é uma criação da Direita fascista a que os “esquerdistas” aderiram em massa. Uma mentira, cem mil vezes repetida, até pode ser aceite por toda a gente como sendo uma verdade. Mas continua a ser mentira. Já agora: pergunte-se porque razão a Festa do “Avante” está sempre sob fogo…

    • Raquel Varela diz:

      Estimado Vitor,
      Como sabe nunca na vida achei que o PCP era «social-fascista». Certamente haverá alguma confusão nessa sua afirmação.
      Pelo contrário, acho que a revolução dos cravos e a CGTP permitiram ao PCP uma certa independência financeira da URSS.
      Saudações

    • Augusto diz:

      Vitor Vieira, a chamada ajuda internacionalista, que eu saiba NUNCA foi questionada pelo PCP, faz parte da história do partido.

      O debate de ideias , que infelizmente nunca foi muito do agrado de certa esquerda em Portugal, é que leva, a que qualquer frase menos do agrado dos militantes do PCP, seja logo tomada como um ataque ao partido, e aos seus sagrados principios.

      Já agora chavões, vejo eu semanalmente escritos no Avante.

  6. Kirk diz:

    Provavelmente a Raquel tem razao quando se interroga porque é que a CGT nao adere á manif de 21 janeiro; mas conhecendo nós a Intersindical, não teria sido mal feito, logo que foi decidida a manif., entrar em conversaçoes com aquela com vista á unificação de esforços. Até porque vai haver uma outra, esta da CGT, em 11 de Fevereiro e esta profusao de lutas só pode contribuir para algum cansaço pelo menos para quem tem que se deslocar de longe, de locais distantes de Lisboa. É que os animos não estão ainda no que poderiamos chamar “em ponto de rebuçado”. Já viram quanto custa uma ida a Lisboa a uma manif a quem seja de longe? Pode argumentar-se que a luta que temos á frente não se compadece com isso, mas isso ainda não é verdade.
    Penso que a manif de dia 21 foi marcada antes da de dia 11 e assim nao me parece bem que a CGT faça a marcação para uma data tão perto daquela da sua manifestação sabendo que vai criar alguma desmoibilização, porque muita gente ou vai a uma ou vai a outra.
    Por outro lado tb a plataforma 15O devia ter contactado cedo a intersindical e nao ficar á espera que eles se atrelassem (fossem a reboque) porque sabemos muuuiiiito bem que eles não farão isso. E isto não é ingenuidade; é passar para eles a responsabilidade de nao aderir e não dar azo a desculpas do género “vocês deviam ter dito alguma coisa em tempo util para oficializar a colaboração e nao disseram nada”.
    K

    • Raquel Varela diz:

      Bom dia,
      Que eu saiba, o 15O reuniu-se com a CGTP pessoalmente, para além do convite por escrito, tudo isto há mais de um mês.

      • Tiago de Lemos Peixoto diz:

        Depois do que ouvi em plenários que demonizavam por completo a CGTP ( fundamentados em acusações erradas e sem fundamento, como já expliquei no post de ontem em que as mesmas farpas foram lançadas à CGTP), espanta-me pouco que a CGTP possa ter algumas reservas quanto a trabalhar com o 15O.

        Aliás, eu participei em plenários da mesma plataforma e tenho sérias reservas quanto a trabalhar, cooperar, ou participar nos actos desta plataforma, e pouca fé na credibilidade e capacidade de actuação da mesma enquanto colectivo, pelo menos enquanto esta não fizer um visionamento d’A Vida de Brian. Fá-lo-ei amanhã em enorme medida porque o João Proença acabou por ser inadvertidamente um excelente mobilizador. Mas fá-lo-ei como cidadão desafecto a qualquer plataforma, partido, sindicato ou movimento social.

      • kirk diz:

        Entao peço desculpa pelo equivoco. Nao ouvi falar dessa reunião.

        K

    • Rocha diz:

      Caro Kirk,

      Epá essa do cansaço já não cola! Cansado estou eu de todas as semanas o governo impor novas medidas para me roubar até ao ar que eu respiro!

      Havia de haver manifestações e greves e ocupações de praças todas as semanas! Ou então, se não exercitamos os músculos da luta, vamos ter esperar pelo dia que estivermos em pele e osso e só nos vai restar a insurreição como modo de sobrevivência – sim eu disse sobrevivência, porque este governo está a matar-nos (quem não o sentiu deve andar em boas vidas pequeno-burguesas)!!!

      • kirk diz:

        Porra, Rocha, se as massas populares tivessem a sua genica já tinham conquistado o poder há muito!
        Ó Rocha, alguma coisa contra a pequena burguesia? Ou mesmo a média? Explique lá uma coisa, o que vão fazer sem os pequeno burgueses e mesmo alguns médio burgueses que enchem as cúpulas dos partidos a começar no PC , a continuar no BE e a terminar no Ruptura/FER, que é o unico da extrema’squerda que conheço?
        K

        • Rocha diz:

          Não são as cúpulas que fazem as revoluções ou as greves ou as manifs ou toda e qualquer luta, SÃO AS MASSAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

          • Raquel Varela diz:

            Claro,quem faz as revoluções são as massas quem as dirige são as organizações. Em história é a diferença entre sujeitos sociais (classes e suas fracções) e sujeitos representativos (partidos, sindicatos, organizações). A revolução de Outubro teria acontecido (fome, guerra) mas a tomada de poder não teria acontecido sem os bolcheviques.

          • Rocha diz:

            A ideia de vanguarda levada ao extremo – um grupo de iluminados a guiar a “carneirada” – é extremamente suicida para qualquer luta.

            E acho aliás que esta é uma das grandes fraquezas das esquerdas em Portugal desde PCP, ao BE, Ruptura, Rubra, etc…

            Quando a vanguarda nem sequer acredita minimamente na habilidade, sabedoria e força das massas para lutar, a vanguarda é apenas mais um peso morto para as massas carregarem às costas.

            Dito de outra forma, quando a vanguarda é um corpo estranho e tido como superior (e exterior) às massas, a sua capacidade de liderar é pouca ou nenhuma. Como é exemplo aquela mentalidade de auto-engano em que se pensa que o líder é o “dono do rebanho”, e não venha apenas acusar a CGTP porque atitudes dessas são bastante comuns na esquerda portuguesa.

            A vanguarda ou é apenas uma parte da classe trabalhadora que se mostra mais esclarecida (com todo o sentido de humildade e aprendizagem mútua que está implícito) ou então a vanguarda é mais uma personagem secundária do circo trágico-cómico em que este país se transformou.

            É preciso também estar com as massas, estar no meio delas e entendê-las. É preciso largar toda a merda da vaidade e toda a merda do ego. É preciso ter a coragem de estar na dianteira da luta. A verdadeira vanguarda é aquela que mais dá o corpo à luta, é aquela que mostra maior capacidade de resistência e ofensiva perante os golpes deste Capitalismo Senil.

            Vanguarda é coisa que nunca existirá sem uma decisiva unidade das massas exploradas. Essa unidade é das principais tarefas de qualquer vanguarda que se preze.

          • Atalhus diz:

            Ó Rocha, também és da opinião que se deve acabar com os ricos?

  7. Camarro diz:

    Cara Raquel Varela

    Acha mesmo que um post deste género contribui para a mobilização para amanhã? Eu sou militante do PCP e sempre participei nas manifestações promovidas pela plataforma 15 de Outubro.

    Mas, voltando ao seu post. Acha que ele contribui para um clima de aproximação entre a Plataforma e o movimento sindical e o PCP? Como é que pode proferir as afirmações constantes no seu post e depois “exigir?!” que a CGTP participe na manifestação de amanhã?

    Todo o esforço que alguns militantes do PCP puseram na aproximação destes dois movimentos – destaco aqui o seu colega de blog, TMS – pode ser comprometido por um post deste género.

    Raquel, fiquei desempregado há relativamente pouco tempo. Sabe quanto custa ir do Barreiro até Lisboa de transportes? Eu digo-lhe: + – 6 €. Tenho que lhe dizer o seguinte. Entre ir amanhã ou no dia 11, pois… irei no dia 11. É que 6 € começam a fazer mossa na carteira…

    • Raquel Varela diz:

      Caro Camarro,
      Ficámos todos convencidos que você estava mesmo, mesmo, mesmo, a pensar ir amanhã, mas afinal, só vai à de dia 11. Acha que teve efeito em todos os militantes do PCP ou só em si? É porque eu quero mesmo saber se tenho esse dom, tão evocado nesta caixa de comentários.

  8. Nuno diz:

    Posso introduzir mais polémica neste diálogo, tão marcada por um ressentimento de pessoas ligadas ao PCP, e dizer que, como autonomista como defino, me revi na mobilização defendida pela Raquel, chegando quase a ver traços do conceito de “Multidão”?
    Posto isto, e prevendo que rejeitará esta referência, tenho a dizer que um texto como este é, na minha opinião, muito mais mobilizador do que os discursos da CGTP. Não só atendendo ao próprio perfil sociológico das pessoas que têm participado nestas manifestações, mas principalmente por não se centrar numa política e visão única dirigida a um só segmento – o qual quase que já nem pode ser o operariado, nem para a própria CGTP.
    Esta opinião, a qual admito não estar muito aprofundando nem me despertar o menor interesse para tal, é apenas a de quem não segue cegamente as directrizes de nenhum comité.
    Peço desculpa à Raquel, pela referência autonomista, e pela confusão que decerto irá causar, ainda que esta, perspectivo, me dará um certo gosto.

    • Raquel Varela diz:

      Sem desculpas, toda a discussão política vale a pena – as discussões que aqui não valem a pena são as que reagem às diferenças políticas com o clássico «não estás comigo, estás contra mim».
      A minha diferença com os autonomistas não é na crítica justa à burocracia da CGTP – é que ao contrário dos negristas, eu acho que a classe operária precisa de partido para ter consciência de classe – sem partido faz espasmos, manifestações e revoltas e motins, e tudo acaba em retrocesso. Mais, a classe operária sem partido, passe-se a caricatura, bate na mulher, alcooliza-se, vê televisão e frequenta os centros comerciais.
      E entre um partido monolítico reformista e a espontaneidade do motim, que leva no final a derrotas clamorosas, há muitas fórmulas. Por exemplo, um partido revolucionário com democracia interna.
      Saudações

      • subcarvalho diz:

        Desculpa lá Raquel, mas esta pérola – “a classe operária sem partido, passe-se a caricatura, bate na mulher, alcooliza-se, vê televisão e frequenta os centros comerciais.” – mesmo com caricatura, é do mais preconceituoso que tenho lido. Aliás, tem muito de “discussões que aqui não valem a pena são as que reagem às diferenças políticas com o clássico «não estás comigo, estás contra mim.”
        Uma releitura da História operária, contradiz tudo isso.

        • Raquel Varela diz:

          Subcarvalho,
          Se há coisa que a história está e a esquerda em particular é cheia de preconceitos sobre a classe operária.
          Os que fizeram greve no passado antes de a fazerem foram cobardes, partiram para as greves e as manifestações
          quando já estavam desesperados, muitas vezes anos depois de uns quantos, poucos, corajosos, terem ido à frente sem ninguém atrás. Até aí ficaram quietos a perder tudo. A classe operária, uma boa parte dela, não é feita, nem foi no passado, de operários conscientes e corajosos. São milhares de gente enfiada como animais em bairros guetto, no passado em bairros de lata. Muitas vezes com muitos, demasiados filhos e poucos cuidados básicos humanos como higiene, fraternidade, doçura e outras qualidades de quem não vive só para subsistir. É uma classe cobarde a não ser quando se torna numa classe corajosa – mas entre ser e tornar, entre estar e poder vir a ser existe a mudança. Ela não é uma classe em si, porque em si tem muito pouco a dizer, ela pode ser uma classe para si e quando é, é extraordinária e enche-nos de vida e emoção, como no 25 de Abril.
          Sabe também que no 25 de Abril havia umas dezenas de membros do PCP presos e da extrema-esquerda e que todos os outros milhões foram para França ou ficaram calados a aguentar um país brutal durante 48 anos. E também sabe que nas manifestações estão 100 000 pessoas, não estão os 4 milhões e meio de população activa, e certamente nestas últimas nunca lá estiveram os mais pobres, os que mais sofrem, os que menos ganham e que são da classe operária. E que estão em casa a ver televisão, muito provavelmente a chamarem «pretos» ao vizinho do lado.
          Ser revolucionário é acreditar na capacidade da classe operária mudar o mundo, mas isso não cai do céu e muito menos sem a luta consciente dos dirigentes políticos. E sem estes, dizia o velho Trotsky, estamos a levar, pelo menos franjas desta classe para a extrema-direita e para a guerra e não para a emancipação.

          • subcarvalho diz:

            mas o que é que isso tem que ver com a necessidade de uma partido para mudar esta situação?
            por algum acaso o partido comunista, que existe há já 92 anos, conseguiu mudar essa situação que descreve?…não!
            porque a mudança tem de ser individual e em autonomia, coletivamente.
            qualquer imposição, de lideres ou vanguardas, acaba sempre por não ter efeito a longo prazo.
            só a auto-gestão conseguirá mudar esse paradigma..
            digou eu…

      • Nuno diz:

        É, de facto, uma diferença fundamental. Mas, parece-me, tal concepção está, ao mesmo tempo, presa à ideia da classe operária como a única capaz de um processo revolucionário, ainda que acreditando na necessidade de dirigentes. A grande diferença parece-me ser neste ponto.
        Na minha opinião, a definição de multidão tem a vantagem de não se restringir a classe operária, mas juntá-la num mesmo conjunto político com muitos dos elementos que normalmente participam em tais tipos de manifestações e se podem ser conotados com o designado trabalho imaterial. Não se trata de uma anarquia pura, mas de a procura de elementos de ligação entre tal heterogeneidade que possa dar consciência a um projecto político capaz de produzir uma movimento revolucionário.
        Aliás, algo que o comprova, é. precisamente, outra ideia muito importante nesta tendência, que é precisamente o conceito de “Comum”, o qual só faz sentido tomando como pressuposto o uso e gestão colectiva de um determinado bem, também ele material ou imaterial, e sustentáculo de relação social.
        Apesar das diferenças ideológicas, até amanhã (ou, atendendo às horas, daqui a pouco). Cumprimentos.

  9. ricardosantos diz:

    depois do que se passou no primeiro 1ºDE MAIO EM LIBERDADE FICOU TRAÇADO O DESTINO foi a policia militar na assembleia dos metalurgicos foi o assalto ao sindicato dos metalurgicos e muitos outros acontecimentos e a ultima foi a não assinatura do pedido de fiscalização do oe para o oe de 2012 mas é tudo a bem da democrcia os outros diziam a bem da nação.

  10. vítor dias diz:

    Concluo deste extraordinário e luminoso post da Raquel Varela e sobretudo das suas alusões ao malfadados «serviços de ordem» das manifestações da CGTP que, no sábado, provocadores da polícia infiltrados poderão livre e impunemente derrubar barreiras ou mesmo cuspir em colegas polícias que estejam à sua frente na medida em que a manifestação não terá qualquer serviço que desarme e desarticule tais provocações.

    Assim é que é trabalhar !

    • Raquel Varela diz:

      Conclui demasiado rápido.
      É que a Plataforma do 15O tem medidas de segurança – por isso e apesar do elevado número de infiltrados policiais não houve feridos nem um descontrole da manifestação, ainda que estivéssemos todos enjaulados naquela praça, e poucas horas depois o 15O montou um serviço de denúncia que como sabe foi de uma eficácia nunca vista. Podem aliás contar com ele amanhã desde o início – cada provocador terá 20 máquinas em cima. Nunca, na história deste país, infiltrados foram denunciados com tanta rapidez e sem qualquer sombra para dúvidas.
      O que nunca vai ver, se de nós Rubra depender, é fazermos acordos com a polícia, impedirmos gente de entrar na manifestação, determinarmos que só a bandeira x ou y é que pode andar lá.
      Saudações e até amanhá
      Raquel

      • vítor dias diz:

        Poderosa, histórica e avassaladora confissão ou informação: a manifestação de amanhã também tem «serviços de segurança» !.

        Aguardam-se posts inflamados e críticos do Zé Neves, do Miguel Serras Pereira e de mais umas boas dezenas de bloggers.

        Deus lhe pague, Raquel, sinal de que nunca irá receber.

      • Vasco diz:

        Ups, falou cedo de mais. Concordando eu com o sucedido, parece-me que ontem impediram uns tipos de entrar na manif, não foi? Nunca e sempre, minha cara, é muuuuito tempo…

  11. Alfredo Campos diz:

    Antes de mais, a ideia de que ninguém com menos de 40 anos percebe a origem de “CGTP, Unidade Sindical”, é no mínimo cómica. Tenho 31 e já sei há uns bons anitos.

    Segundo, eventualmente devido à diversidade programática dos vários grupos ligados ao 15 de Outubro, por exemplo o manifesto aprovado em coimbra é frontalmente anti-sindical. Não se pode dizer que não se quer sindicatos e a seguir querer a sua participação: compreende-se, dá jeito para fazer número, enfim…

    Terceiro, quanto às manifestações esmagadoras, dependerá da definição de esmagadoras. Por acaso, quer a nível nacional quer em Coimbra, foram-se reduzindo em dimensão. A primeira em Coimbra teve cerca de 400, a segunda 100, a terceira 30 (estive nas três).

    Quarto, foram-se reduzindo na proporção inversa à da participação daqueles que, ululando contra partidos e particularmente PCP, crescentemente monopolizaram as Assembleias Populares: rupturas, rubras, etc. Os mesmos que aproveitam depois as manifestações para distribuir a sua propaganda.

    Quinto, nada disto é de admirar, posto que um dado grupo já anunciou o interesse em criar um partido que agregue estes movimentos. Enfim, hão-de enganar uns quantos, depois esvazia, como outros no passado.

    Terminando, por tudo isto, não é nada estranho que sindicatos e militantes partidários prefiram não participar, posto que estas manifestações, se indirectamente também contribuem para a corrosão do poder, e só nisso são positivas, ao mesmo tempo também tresandam a anti-sindicalismo e anti-partidarismo, enquanto simultaneamente são palco de intervenção de indivíduos que de apartidários pouco têm, e as parasitam com a sua propaganda.

    • PS diz:

      O “Manifesto da Acampada Coimbra” a que te referes foi elaborado e aprovado há 8 meses, no “calor do momento”. Além de ser um documento que ficou parado no tempo e que pouca ou nenhuma influência tem no “movimento” actual em Coimbra, o seu conteúdo, a sua forma e as suas possíveis interpretações não foram devidamente debatidos e ponderados (na minha opinião) na altura. Mas posso garantir que a ideia não era ser “anti-sindical” (que significa ser contra o sindicalismo). E mesmo como está, a passagem a que te referes é susceptível de outras interpretações. Mas não estou aqui a defender esse manifesto.

      Quanto às manifs, não sei a quais te referes.. se 400 foram no 12 de Março, no 15 de Outubro foram 1000 e no dia da Greve Geral seriam perto de 100.

  12. Ulisses diz:

    É fatal como o destino, depois do episódio João Proença tinha que aparecer um post como este, está nos livros, mas confesso que é monótono ver este tipo de actuação vezes e vezes sem conta, já era tempo de inventar algo de novo.

    • Raquel Varela diz:

      Está danado?

      • Ulisses diz:

        Danado porquê Raquel? O problema nem sequer é meu, é seu, a falta de imaginação é sua. Continue, mas deixe que lhe diga que é uma delícia ver acontecer na sua manifestação de hoje exactamente aquilo de que acusa a CGTP. Está a ver como se escreve direito por linhas tortas?

  13. Maria Torres diz:

    Vamos todos fumar umas ganzas, beber umas cervejolas e gritar, armados em esquerda caviar com toda a inconsequência possível…..até à próxima reunião caviar….que isto de se lutar todos os dias, a toda a hora não é para nós esquerda caviar, dá muito trabalho e poca visibilidade…A esquerda caviar é ridicula e composta por pessoas que andam à procura do mesmo de tachos, auto-promovere-se ao terem visibilidade nas televisões(dá sempre jeito para os ditos artistas desta esquerda caviar) e resolverem a sua vidinha.

    • Raquel Varela diz:

      Estimada Maria,
      Obrigada pelo convite mas não fumo ganzas, não bebo cerveja e não gosto de caviar. Há muitos cardápios para escolher na maravilhosa culinária lusitana.
      Saudações
      Raquel V.

  14. Uma coisa é estar lado a lado com trabalhadores, outra é estar lado a lado com centrais-sindicais autoritárias. Eu não luto ao lado de malta que mete quem mija fora do penico num quadrado de bófia.

Os comentários estão fechados.