Por que não pode ser João Proença um traidor.

A UGT roeu, finalmente, a corda. Depois de décadas a enganar os trabalhadores, a central sindical criada pelo PS e por outras forças de direita já não consegue esconder os motivos por que foi criada e a que interesses realmente serve. Acossado pela imprensa, João Proença estrebucha como um porco antes da matança. Dispara em todas as direcções e vem agora acusar a CGTP de o pressionar a assinar o acordo com o governo e patrões. É inevitável que a revolta nos leve a imaginar uma lista imensa de epítetos com os quais gostaríamos de vestir o secretário-geral da UGT de cada vez que nos cruzássemos com ele na rua. Mas traidor não é um deles. Não pode ser. João Proença nunca esteve do nosso lado para que possa receber essa benesse. Ele cumpriu o seu papel desde o primeiro instante ao serviço do PS e da classe que essa organização representa desde que foi fundada, em 1973, com o apoio dos Estados Unidos da América e do seu protectorado alemão.

Cito apenas duas experiências mais pessoais. Em Abril de 2009, durante a pré-campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, membros da UGT foram apanhados, na Avenida da Liberdade, por militantes comunistas, a destruir propaganda da CDU. Arrancavam-na e substituiam-na por cartazes daquela central sindical. Foi roubada, então, quase meia centena de pendões da coligação PCP-PEV. Durante a última greve geral, pese a meritória participação de trabalhadores filiados na UGT, o comportamento dos seus dirigentes foi a de total oportunismo. Limitaram-se a estar onde estava a comunicação social. Hoje, lendo o pré-aviso de greve conjunto, entregue pela CGTP e pela UGT, em Novembro, podemos perguntar-nos sobre quem é esta figura que tão depressa diz estar do lado dos trabalhadores como tão depressa assina um acordo ao lado do governo mais à direita desde Marcelo Caetano.

É justo que João Proença seja visto como kapo, que eram os presos que policiavam os campos de concentração ao serviço dos nazis e que recebiam todo o tipo de privilégios consoante a brutalidade usada. Ou cipaio como os soldados indianos que serviam no exército colonial britânico, e que também é o nome com que os independentistas bascos designam aqueles que no País Basco são polícias ao serviço da ocupação espanhola. Mais do que traidor, qualquer uma destas designações encaixa melhor no secretário-geral da UGT. Não, não lhe devemos dar o privilégio da traição. Nem à central sindical que representa.

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