“Martha Marcy May Marlene”, de Sean Durkin

A orfã e problemática jovem Martha é recebida por uma comunidade / seita isolada do Mundo, caracterizada pela eliminação total da individualidade, desde logo pela mudança no nome, em que apenas a inicial é preservada. Quando, progressivamente ao longo de dois anos, Martha (ou Marcy May, ou Marlene) percebe que a realidade é bem mais perversa do que a aparência inicial, decide fugir. O destino é a casa da irmã, onde Martha tenta começar uma vida nova, num processo atribulado de libertação dos fantasmas do passado.

A ideia base do filme é, desde logo, bem interessante. Assim, aspectos como a manipulação dos sentimentos e da substituição total do indivíduo pelo suposto bem comum, a transformação da identidade ou a memória são temas a suscitar reflexões bem apelativas, mas que poderiam ser facilmente desaproveitadas. Não faltam por aí exemplos, mas lembro-me de A Última Memória, com Robin Williams,  que, não sendo um mau filme (longe disso), acaba por se perder numa certa toada de suspense perfeitamente dispensável e que desperdiça a questão da memória e da manipulação enquanto pontos de partida primordiais.

Contudo, o que é mais incrível em Martha Marcy May Marlene é precisamente a concretização destas ideias… a intensidade psicológica que Durkin introduz neste seu filme de estreia, as suaves transições entre os dois momentos fundamentais da estrutura narrativa (para melhor percebermos a fusão das duas realidades na cabeça de Martha ou Marcy May) ou o cuidado prodigioso como o realizador gere os diálogos e principalmente os silêncios. E, para além de tudo isto, Durkin tem o mérito de não dar ao filme laivos de um thriller cliché (a influência do mestre Kubrick escapa-o da tentação) e de construir um final que não revela mais do que o necessário.

Enfim, resumindo as coisas de forma muito clara, Martha Marcy May Marlene é talvez o grande acontecimento de cinema que me passou pelos olhos nos últimos largos meses, superando provavelmente os notáveis Inquietos, Sangue do Meu Sangue e Uma Separação.

9/10

P.S.: Genial é também a cover de “Marcy’s Song”, interpretada durante o filme. Tanto, tanto de Cash…

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