O medo, suicídio e eutanásia da cidadania (3)

(continua daqui)

O medo, nosso inimigo

Em si mesma, a manipulação do medo como instrumento político nada tem de original. É, aliás, quase um truísmo afirmar que o medo (seja pela nossa integridade física, seja de perdermos algo que consideremos importante) é um dos elementos centrais de qualquer relação de poder.

Tão pouco será original a manipulação do medo da insegurança, para convencer os cidadãos a prescindirem dos seus direitos (primeiro, em relação aos supostos agentes do perigo, depois, em relação a si próprios), em benefício da sua protecção.

É, pelo menos, já suficientemente relevante no séc. XVIII para justificar a tal frase de Benjamim Franklin, tantas vezes citada. Mas torna-se, talvez, ainda mais relevante na nossa época, que surge marcada por um particular centramento na questão da segurança. É um bom exemplo disso a velocidade com que, mal Ulrich Beck cunhou essa expressão, se espalhou a crença de que nos países capitalistas desenvolvidos vivemos na “sociedade do risco”. Ao aceitar e repetir essa ideia, contudo, não o fazemos no sentido que lhe atribuiu esse autor (o de vivermos em sociedades que produzem ininterruptamente riscos tecnológicos incontroláveis e de consequências imprevisíveis), mas julgamos viver nas sociedades mais perigosas de sempre. Isto, mesmo se é difícil apontar, noutros locais do globo ou momentos da história, sociedades onde os seres humanos tenham estado mais salvaguardados da violência aleatória, da fome, da doença, de acidentes trágicos e de outros perigos mortais ou muito graves.

Talvez não seja, por isso, surpreendente que a utilização do medo para restringir direitos – embora bem mais antiga – tenha atingido níveis extremos de eficácia na sequência dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001. Nesse caso, perante um ataque terrorista traumático e perante a repetida enfatização de que ele era apenas a ponta de um icebergue de ameaça permanente e generalizada, uma sociedade retoricamente muito ciosa dos seus direitos individuais não se limitou a tolerar que eles fossem pontualmente desrespeitados, nos casos em que estivessem em causa assustadores suspeitos de terrorismo. Aprovou e apoiou convictamente, através do Patriot Act, a instauração de um estado de excepção em que qualquer suspeita por parte das autoridades policiais permite, arbitrária mas legalmente, retirar a um cidadão os mais importantes direitos, garantias e formas de protecção de que este goza.

Aquilo que esperam de nós é algo de semelhante, embora por certo mais moderado, em virtude da enorme discrepância entre os perigos que alegadamente ameaçam quem vive de um lado e do outro do Atlântico. Mas, afinal, se tolerámos que cidadãos europeus fossem impedidos de entrar no país devido ao crime de trazerem consigo panfletos pouco agradáveis para a NATO ou as forças policiais, porque razão não deveremos, a bem da nossa segurança nas ruas, aceitar que as pessoas suspeitas de poderem querer ser violentas sejam ilegalmente esquadrinhadas, ou que o mesmo nos aconteça a nós, caso o nosso desagrado também nos torne suspeitos? Não se justificará esse preço, para que possamos ser protegidos do terrível caos dos “tumultos mais graves desde o PREC”?

Aquilo que se espera de nós, afinal, é que esqueçamos a frase de Steve Biko que lapidarmente concentrou páginas e páginas de Gramsci: “A mais poderosa arma nas mãos do opressor é a mente do oprimido.”

Porque, uma vez dado esse passo, uma vez tolerado o desrespeito pelos direitos de cidadania dos outros, por eles parecerem (às ‘autoridades competentes’) suspeitos de poderem colocar em risco a ordem pública, tudo se simplifica. Rápida e facilmente acharemos normal que, quando nos assustam, percamos as nossas liberdades individuais. Os nossos direitos serão coisas para tempos normais; e os tempos de excepção serão de cada vez que nos convençam disso.

O nosso medo de tumultos e insegurança, solicitamente instigado por quem de direito, tornar-se-á o instrumento do suicídio da nossa cidadania.

Por isso, a intolerância para com abusos sobre os direitos de cidadania é, hoje, mais necessária do que nunca.

(texto completo aqui)

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4 respostas a O medo, suicídio e eutanásia da cidadania (3)

  1. Esteves diz:

    O texto está bem, destaca aspectos essenciais da estratégia de intimidação do neo-poder global, mas é pena que ao Paulo Granjo, tal como à esquerda em geral, ainda falte a coragem para unir os pontinhos e ver o desenho completo: a direita, sobretudo a americana, apercebeu-se muito rapidamente que os terroristas (esquerdistas ou islamistas) eram uns idiotas muito úteis. Daí a ser ela própria, a direita, a executar actos terroristas com bandeira de esquerda foi só um passinho. O grande mestre desses golpes de propaganda. foi Goebbels, claro, com o episódio do Reichstag. Depois os americanos perceberam o potencial da coisa e temos o “caso” do golfo de Tonkin, que depois se descobriu ter sido uma encenação. Por fim, e o mais espectacular de todos (e sinal de que a elite política-militar-empresarial americana já não teme o descontrolo da informação nem a inteligência das massas) a golpada do 11 de Setembro, na qual todos caímos como patos de ilustração, pois hoje sabe-se que aquilo foi golpe da CIA & Ca. (ou só não sabe quem prefere não ver). De resto, há muitas razões para acreditar que o papel dos serviço secretos no desencadear de “acontecimentos” é muito maior do que alguma vez nos foi ensinado por Hollywood e outras escolas de recreação. Portanto, um pouco mais de coragem, Paulo Granjo. A verdade é revolucionária, como diz Gramsci, e só a verdade toda é que é revolucionária.

    • paulogranjo diz:

      Temo que por aí ande, lá para a parte final, alguma dose de paranoia e teoria da conspiração em demasia. Que me parece ser de todo desnecessária (quando não contraproducente) nos tempos que correm, dada a extrema gravidade de acontecimentos bem reais a que assistimos no país e fora dele. Gravidade em si mesmos e pelo que indicam de uma translação política e económica que, precisamente, passa pelos mecanismos que o artigo aponta e que, junto com coisas como a galopante precarização e destruição do estado social, começa a recriar cenários desconfortavelmente próximos dos anos 30 e de tudo o que eles possibilitaram e trouxeram.

      • Esteves diz:

        Um dos problemas da esquerda actual é precisamente essa preocupação com o que possa revelar-se contraproducente, esse tacticismo de quem receia mais que tudo ser chamado “irresponsável” por respeitáveis comendadores televisivos. Nunca houve uma esquerda tão mansinha e acomodada como a do século XXI. Nem tão ceguinha. Em nome da respeitabilidade, recusam-se a ver o que entra pelos olhos dentro, e fazem-se involuntariamente cúmplices do tecno-fascismo que aí vem. Continuam a discutir os números de circo do palco político, como se não soubessem que nada daquilo é real, que o verdadeiro poder há muito manobra nos bastidores. E esses bastidores não são apenas os conselhos de administração das big corporations, nem os fóruns de Davos e quejandos, nem inner circle do Pentágono. Ás vezes, a esquerda actual parece ignorar o que foi a Baía dos Porcos, o que foram os atentados encriptados da direita em Itália, ou as tácticas de provocação, infiltração e propaganda usadas por todos os governos americanos. Em suma, a esquerda actual afecta uma candidez pasmosa, que seria impensável nos anos 60 e 70. Será que o Paulo acha que a CIA é uma personagem de Hollywood, como o James Bond e o McGyver? Acredita que a CIA existe para distribuir pacotes de leite às crianças subnutridas do 3º mundo?
        Quanto ao 11 de Setembro, o seu raciocínio é mais ou menos o seguinte: Se a CIA e seus congéneres americanos estiveram por trás de inúmeros golpes antidemocráticos na Ásia e na América latina e se projectaram ou efectuaram false-flag operations (ambos factuais, embora no início tenham sido considerados “teorias da conspiração”) ENTÃO nunca poderiam estar envolvidos no planeamento e execução dos ataques às torres gémeas. Há de convir que o raciocínio não faz sentido. Por trás da convicção que o Paulo verbaliza através de chavões como “paranóia” e “teoria da conspiração” existe apenas o seu wishful thinking de que a realidade não seja tão assustadora como parece. Mas isso é comprar esperança ao preço da mentira; que, como sabe, está cada vez mais barata no mercado.

  2. De diz:

    Gostei de ler.

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