Política, neutralidade e espírito | artigo de Fernando Mora Ramos


 

 

 

 

 

O chavão não tem força conceptual, vive da repetição, é reactivo, tique mental que afirma um já pensado que não chegou a ser pensamento. O chavão cavalga a onda, surfa no fluxo do ruído e circula entre os detritos do lixo comunicativo com o peso da coisa arrumada lançando névoas de vulgaridade sobre a clareza do potencialmente entendível. Quando se diz que uma política cultural é uma política do espírito confunde-se expressamente o que será uma política com o que foi um adestramento do povo e tenta-se tirar disso um efeito definitivo, um ponto final no assunto, contaminando-se de propósito instrumental fascizante o que seja “uma política”, qualquer seja ela. A política do espírito foi ideológica, orientada para a conformação do povo à pobreza, viveu da multiplicidade convergente da acção de organismos do Estado – educação, interior, propaganda, turismo, eventos, como agora – e forçava o consenso empolando valores nacionais – culturais – supostamente únicos: passado glorioso além-mar, fé ocidental mata-mouros e virtudes rurais de odor primaveril, tudo embrulhado numa aura de felicidade campónia em que a povo era décor, alegre no trabalho, inocência nos rostos mais pose espontânea ordenada, muitas ceifeiras e nenhuma Catarina, claro.

A política do espírito consistiu em formas eficazes de mistificar o real. Foram formas políticas de propaganda ligadas ao restaurar da “alma portuguesa” de rastos com as políticas liberais, no dizer dos “restauradores”. Já uma política cultural, em democracia, é estruturar condições livres – democráticas – de criar, de fazer cultura, isto é, não só de produzir cultura e arte de modo livre pelos que são profissionais e criadores, apoiados pelo Estado de modo legitimado constitucionalmente mas não tutelado paternalmente, mas também de fazer o contrário do que tenha sido orientar o espírito para uma concepção única, a passividade adestrada pelo consenso corporativo, passividade “espontaneamente agradecida” como gostariam os governantes que se verificasse com a política de espírito agora dominante, a “austeridade”, este voto renovado na pobreza como futura libertação que se vende em todos os horário e bancas – é curioso que esta via da austeridade vem directamente do espírito salazarento das virtudes da pobreza, excelsas e únicas, mexilhão aplaudindo a onda do mando com fé.

Uma política do espírito é sim a vulgata da austeridade como uma inevitabilidade, a ideia do poupar e do menos gastar, do pagar ao rico o que não deves com o que não tens, depois de infinitas estatísticas de conveniência financeira te acusarem e culparem – que legitimidade têm estas taxas de juro obscenas, o saque da qualidade de vida de um povo pela destruição dos serviços públicos? E de onde lhes vem, aos credores, a acumulação financeira que possuem e usam como arma de guerra exercendo uma chantagem constante e antidemocrática? De algum lado virá, será virtuoso? Somos todos culpados de viver acima das posses? Mas que posses e quem? O exercício cidadão da vontade popular democrática será específico da crise, puro sofrimento e nada relacionado com os valores fundacionais da modernidade? Igualdade, fraternidade, solidariedade, condições de acesso idênticas à educação, à saúde e aos bens culturais e artísticos? Nada disto diz nada?

Se pouparmos, se aceitarmos os cortes, se formos consensuais, se aceitarmos o horizonte de pobrezinhos, seremos compensados num além que fará crescer a economia – dela nem se fala a sério – mas que não se sabe onde vive e que não se divisa mais qualificado que um mítico purgatório de classe menos que média baixa, pobreza envergonhada e desemprego duradouro, já que o paraíso só mesmo para quem frequenta hotéis de cinco, seis e novidade do último marketing turístico, sete estrelas: às portas do céu golfes e saunas te esperam quando, depois de empobreceres enriqueceres num amanhã que canta num Eldorado de acesso publicitário.

Quando se diz política cultural também se diz política económica e nisso não há catequese alguma, nem nenhum pecado verbal original. E dizer política significa nobilitar o estatuto daquilo que é, ou possa vir a ser, um programa. Então o que será uma política? É justamente a inscrição de um desígnio de acção íntegro – inteiro, completo ou tendente a -, de uma direcção para concretizar medidas articuladas num programa face a uma realidade que delas necessita. Um ordenamento, um plano director, uma coerência integrada de medidas, são formas de política. Já a não política, a neutralidade hipócrita, só pode fingir-se, e assume pela inacção ou ausência, entregar à selva as coisas do real para que o predador mor as ordene pela força do seu poder selvagem e não democrático – a lei da selva não tem sujeito ético e pelos vistos a lei legislada e a não aplicada também não.

É essa violência que o novo tirano dos povos, os respeitáveis credores, os mercados especulativos, têm concretizado como tragédia em marcha – na Grécia há jovens alunos a desmaiar em escolas por terem fome. A ordem da selva é a lei do mais forte e uma política é justamente o combate pelo direito de todos contra a imposição da lei do mais forte. Enfim, será necessário salvar a política dos políticos? Ou a fome será mesmo uma das formas de aceder ao tal progresso e à tal modernidade?

Fernando Mora Ramos/Encenador na província

[nota: a propósito das declarações de Francisco José Viegas, retirado daqui]

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8 respostas a Política, neutralidade e espírito | artigo de Fernando Mora Ramos

  1. O Rural diz:

    Saimos de uma governação de autênticos ditadores para uma governação de duvidosos democratas.

    Com a ditadura caminhamos a chicote, com a democracia fomos atráz da cenoura.

  2. Caros amigos,

    Esta é uma luta regional de interesse nacional e insere-se num movimento mais vasto de resistência a um certo neo-fascismo institucionalizado. Agradecia, se possível a vossa colaboração aqui no cinco dias na divulgação da petição a solicitar a suspenção imediata de portagens na Via Do Infante, via estruturante da vida colectiva dos residentes nesta região.
    Deixo à vossa consideração.
    Aqui: http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N18627

    Um abraço
    João Martins

  3. Antónimo diz:

    Eu cá gostava que o texto do Mora Ramos fosse ao menos um pedacinho legível. Quem não sabe do que trata fica na mesma. Quem o lê sem prefácio nem sabe a quem se dirige.

    Podia ser eficaz na resposta (como António Pinto Ribeiro falando de Pacheco Pereira, por exemplo) mas preferiu ser hermético, escrever para os iniciados na sua coisa.

  4. silva diz:

    O QUE É DEVERAS PREOCUPANTE É NESTE PAÍS PESSOAS COM TÍTULOS DE DOUTOR, ENGENHEIRO ,ADVOGADO, ETC , ESCONDEREM-SE ATRÁS DESSES TÍTULOS, PARA INFERNIZAREM QUEM TRABALHA POR CONTA DE OUTREM, TENHO VISTO AQUI E NOUTROS SITES, O CASO PARECE – ME ILEGAL DO DESPEDIMENTO COLECTIVO DE 112 PESSOAS DO CASINO ESTORIL, COM FAVORES DE ESTADO, ISTO MOSTRA QUE NUNCA ESTE PAÍS SE ENDIREITA COM ESCUMALHA DESTA QUE SE ESCONDE ATRÁS DE TÍTULOS, PARA FAZER MAL A QUEM QUER QUE SEJA.
    O MAIS GRAVE É A FALTA DE INVESTIGAÇÃO E DE JUSTIÇA, QUE NESTE CASOS DEVIA PUNIR QUEM SE APROVEITA DE CERTOS CARGOS A SEU BELO PRAZER PREJUDICANDO O ELO MAIS FRACO.

    ISTO TEM O NOME DE COBARDIA, FALTA DE CIDADANIA E UM ACTO CRIMINOSO CONTRA A HUMANIDADE.

  5. JgMenos diz:

    É necessário salvar a política dos políticos! A fome vem directamente das suas acções.
    Esgrimem chavões e não soluções, e tão miserável é o ditador que o faz visando a quietude dos povos ao seu domínio como o ‘democrata’ que visa o voto para estabelecer o seu domínio. O ditador acena com a desgraça logo que findo o seu domínio, o ‘democrata’ acena com o paraíso logo que o seu domínio se estabeleça.
    «Então o que será uma política? É justamente a inscrição de um desígnio de acção íntegro – inteiro, completo ou tendente a -, de uma direcção para concretizar medidas articuladas num programa face a uma realidade que delas necessita. ».
    Só que ‘integro’ haverá de ser de INTEGRIDADE- a mais vilipêndiada das virtudes!

  6. Ana Paula Fitas diz:

    Carissimo Pedro Penilo,
    Antes de mais, um grande abraço para o meu querido amigo Fernando Mora Ramos :))
    … e muito, muito obrigado pela publicação!
    Bom Ano a ambos!
    Um abraço.

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