A História avança com a luta e a luta avança com a História

No dia 1 de Janeiro entramos directamente em 1958. Nesse ano, os trabalhadores agrícolas portugueses encetavam uma luta histórica pela jornada de trabalho de oito horas. Também nesse ano, dezenas de milhares de portugueses abandonavam o país por motivos económicos. No poder, estavam os avós políticos dos que hoje nos governam.

A História avança com a luta e a luta avança com a História

Há quem diga que é ficção. Outros insistem que existiu. A verdade é que houve povos em que o jus primae noctis, como direito ou não, foi uma realidade. Os proprietários feudais aproveitavam-se do poder económico para abusar das mulheres e filhas dos servos que lhes trabalhavam as terras. Entretanto, séculos passaram e a História avançou. Mudaram as formas de produção, a burguesia substituiu a nobreza e a classe trabalhadora emancipou-se.

Ao longo dos séculos XIX e XX, a confrontação de classes agudizou-se e traduziu-se em importantes vitórias para milhões de explorados. A Comuna de Paris, a Revolução de Outubro, a tomada do poder na China e a vitória do povo cubano, em 1959, foram só alguns desses momentos. Foi tal o prestígio do papel da União Soviética na vitória sobre o nazi-fascismo que o mundo capitalista foi obrigado a recuar e a ceder importantes direitos à classe trabalhadora.

Portugal não foi alheio a essa dinâmica. Protagonistas da revolução mais profunda na Europa Ocidental desde a Comuna de Paris, os trabalhadores e o povo arrancaram conquistas históricas à burguesia e ao fascismo. Mas esse acontecimento não surgiu através de geração espontânea. A classe trabalhadora teve de aprender, ganhar experiência e desenvolver-se com a práxis. Percebeu a necessidade de se organizar e de como se organizar. O desenvolvimento de uma consciência socialista utópica para uma consciência socialista científica, e a posterior aplicação da teoria leninista, foi fundamental para a construção de um movimento operário robusto e consequente.

Durante 48 anos, a luta que se travou no campo e nas cidades não só fez avançar o modo de organização dos trabalhadores, e vice-versa, como também criou as condições para que Abril não fosse uma transição à espanhola. A luta pela jornada de trabalho de oito horas, já referida, por exemplo, foi levada a cabo, de forma mais incisiva, a partir de 1958. Em Maio de 1962, milhares de trabalhadores agrícolas recusaram estar mais do que oito horas no campo e no fim desse ano, apesar de não estar oficializado, o combate traduziu-se em vitória.

A importância da experiência histórica

Poucos jovens saberão que o que há hoje nem sempre foi assim. Há em todo o processo de formatação ideológica do capitalismo a necessidade de se apagar a memória história. Os manuais escolares não devem ilustrar aquilo que nos trouxe direitos e conquistas fundamentais. Também não devem ilustrar aquilo que há mais de 35 anos os vem destruindo. Sobretudo, valoriza-se a participação individual, a resignação e o colaboracionismo. Não é por acaso que os media dão mais força a modelos de luta que remetem para o que de embrionário e inconsequente havia no século XIX.

Depois da queda do socialismo no Leste Europeu, vive-se um importante recuo histórico. Enfraquecidas as organizações que antes haviam protagonizado o que de melhor aconteceu em todo o século XX, e mantendo-se a rejeição ao capitalismo, potencia-se a desorganização, o divisionismo, apaga-se a análise científica da realidade e criam-se teorias que dão mais valor à metáfora e ao folclore.

Se queremos que 1962 e 1974 se repitam, e sem lugar a mais derrotas, se queremos que a História não recue aos tempos do jus primae noctis, devemos tomar o exemplo daqueles que protagonizaram a histórica luta pelas oito horas e a revolução de Abril. Desconhecer a experiência do movimento operário, ao longo dos séculos, é dispensar ferramentas que nos evitam a repetição de erros. Face aos novos desafios, exigem-se novas reflexões e a adaptação da teoria às novas realidades. Mas também se exige rejeitar derrotas evitáveis.

A História não é uma constante de progresso e desenvolvimento. Depois de civilizações como a grega e a romana, ninguém diria que a Europa ia cair na longa noite da Idade Média. Como ninguém acredita ser possível recuar-se até ao século XIX.  Mas a verdade é que a burguesia avançará tanto quanto os trabalhadores deixarem. Cabe a nós impedi-lo e organizar o contra-ataque.

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12 respostas a A História avança com a luta e a luta avança com a História

  1. Marco diz:

    Este texto está excelente e sintetiza a minha própria visão da luta de classes nos últimos dois séculos, dos seus avanços e recuos, protagonistas e momentos de viragem.

    Falta no entanto, na minha opinião, o mea culpa dos revolucionários, em especial dos comunistas que diga-se – igualmente a bem da verdade histórica – não foram capazes de construir um alternativa robusta e duradoura ao capitalismo.

    Agora que as populações mundiais voltam a sentir na pele a feição intrinsecamente desumana da ideologia e do modelo económico “burguês” não há que olhar para o passado com nostalgia e complacência. Há que construir a alternativa.

    Mas para a sua afirmação e sucesso é tão necessário “glorificar” a luta dos trabalhadores e as suas organizações de classe, como deitar para a reciclagem da História o dogmatismo, o culto da personalidade a excessiva centralização das decisões e por aí a fora.

    O socialismo real morreu. Viva o socialismo.

  2. kirk diz:

    A jornada de 8 horas e o 1º de Maio:
    Em 1886, realizou-se uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago nos Estados Unidos da América.
    Essa manifestação tinha como finalidade reivindicar a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias e teve a participação de milhares de pessoas. Nesse dia teve início uma greve geral nos EUA. No dia 3 de Maio houve um pequeno levantamento que acabou com uma escaramuça com a polícia e com a morte de alguns manifestantes. No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos para o meio dos policiais que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket.

    Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, a segunda Internacional Socialista reunida em Paris decidiu por proposta de Raymond Lavigne convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o 1º de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago.
    K

  3. iskra diz:

    Direito de pernada… “traga cá a borrega” (direito dos senhores sobre as filhas dos servos)

  4. JgMenos diz:

    8x?, se não me engano eram 8×8=48 em 1958.
    Tanto quanto o século XIX está longe do ‘direito de pernada’ do século X, está o ano de 1958 distante do ano de 2011!
    Come-se melhor, tem-se melhor saúde, descansa-se dois dias por semana, e mais férias, e mais, e mais….e muito bem!
    Mas quem demasiado preza o passado não gosta de qualquer mudança, ainda que necessária e razoável; julgo que é a isso que se chama ser reacionário!
    E esta de apelar, a todo o pretexto, ao ‘coitadinhos dos trabalhadores’ cheira-me sempre a candidato a líder do proletariado – a gerir a mais-valia, está bem de ver!

    • Antónimo diz:

      Sim, claro que a mais-valia deve ficar com o dono dos meios de produção e quanto com mais ficar melhor. Antes líderes do proletariado que dos escravocratas e seus capatazes, que foram aqueles e não estes que no passado garantiram os dois dias com que no presente nos querem atirar para um passado ainda mais distante.

    • Carlos Carapeto diz:

      Sim; se esses homens e essas mulheres não tivessem tido a coragem de lutar no passado, o presente de certeza que era pior.

      Quem não conhece os sacrificios e os perigos por que passaram as pessoas que participaram nessas lutas não lhe assiste qualquer autoridade moral para falar sobre o assunto.
      Das duas uma; ou é um ignorante que despreza aqueles que clocaram as suas vidas e dos seus em risco para terem um futuro melhor.
      Ou então é mais grave; pertencem aos que se opunham às mudanças, espezinhavam os direitos mais elementares da vida humana.

      Recordo-me na minha infância os homens do Algarve saiam em debandada para as ceifas no Alentejo, assim como os “Ratinhos” da Beira Baixa.
      Trabalhavam de sol a sol, comiam aquilo que o patrão lhes queria dar ( aproveitavam essa época para abater o gado velho e doente) os miseráveis dormiam no restolho ou na eira como o gado, eram escolhidos na praça por o feitor como no tempo dos escravos.

      Isto acontecia em Portugal há menos de 50 anos. É terrivel demais para ser esquecido e perdoado.

      Sobre o que o Iska escreveu, nos finais dos anos cinquenta nos alvores da minha infãncia, assisti a um drama desses que me marcou para toda vida, ainda hoje sinto arrepios quando recordo essa tragédia.
      Foram muito duras as humilhações por que este povo passou às mãos dos poderosos.

      Cuidado! Como avisou o filosofo a história repete-se de formas diferentes.

  5. casper diz:

    1-Não sabia que as nossas semanas tinham 8 dias em 1958.
    2- 8×8=48?

  6. Zebedeu Flautista diz:

    O Passos está se a esticar admito. Se isto tudo for para a frente e entretanto juntar uns trocos vou abrir uma cena qualquer a ver se me safo à custa do trabalho alheio.

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