Greve Geral, Ensaio Geral

A greve de 24 de Novembro cumpriu em grande medida os seus objectivos. Sendo que deve ser encarada, como já foi amplamente referido, como uma etapa mais no processo de luta. Nesse sentido parece-me que foi um óptimo ensaio geral para futuras Greves Gerais ainda mais participadas e combativas.

A greve foi quantitativamente e qualitativamente superior a outras greves gerais. É difícil obter dados quantitativos fiáveis, mas o que é facto é que os poucos autocarros que circularam estavam quase vazios e o trânsito automóvel não era assim tanto (em Lisboa). Qualitativamente foi a primeira vez que houve uma manifestação em dia de greve e bem participada (não ouvi números, mas pelo que vi CGTP+Indignados seriam no mínimo 10 000, estimativa por defeito). Para além disso houve os ataques às repartições de finanças e vários incidentes ao longo do dia, nomeadamente frente à Assembleia da República.

O pior que podia ter acontecido seria esta greve geral ser apenas mais uma, não foi, mesmo os cronistas do regime reconhecem que esta não foi uma greve como as outras. Esta foi a sua grande vitória.

Irei focar em mais detalhe dois assuntos:

– Para quê a Greve? Participação e aceitação das Massas. Que efeitos produz e tem o potencial de produzir.

Apesar do discurso “temos é de trabalhar” colar bastante, a debacle do sistema Europeu e a crise que vivemos é de tal ordem, que mesmo parte do mainstream mediático já se percebeu que o rumo definido por este governo não nos leva a lado nenhum e que sem alterações radicais o “trabalhar” vai ser apenas cavar mais fundo o buraco para onde nos vão empurrar, ou alegremente saltar, como tenciona o actual governo de cipaios do IV Reich.

– A questão dos “distúrbios” e agentes provocadores.

Houve em certos sectores alguma histeria a propósito de alguns distúrbios na greve geral. Houve infiltrados sem dúvida, mas não generalizemos, é interessante ver quem neste caso representa a voz da razão e serenidade, aqui também muito bem. Estes posts é certo, são provocações eles mesmos, mas os fariseus não deixam de ter alguma razão naquilo que dizem… Para mais, independentemente da sua origem, acho que os ataques e “tumultos” foram importantes para dar o sinal que esta greve (e sobretudo as futuras) não serão como o “habitual”.  Apesar da tentativa de os usar para criminalizar parte do movimento, o que prevaleceu foi a percepção de que a luta pode-se radicalizar bastante e que os ataques sofridos não vão passar sem resposta. Ainda antes de entrar na análise mais em detalhe, recomendo vivamente o livro “O que todo o Revolucionário deve saber acerca da Repressão” de Victor Serge. Podem encontrar aqui em inglês e também há uma versão em galego.


Para quê a Greve? Que efeitos produz e tem o potencial de produzir. Participação e aceitação das Massas. 

“O que é preciso é trabalhar”

Sobre o papel da greve, o Pacheco Pereira dá aqui uma óptima explicação (a sério). As alterações de hoje e esta conversa do Gaspar são apenas exemplos.

Entretanto a conversa do temos é que “trabalhar“, o que no fundo significa não questionar as decisões e o rumo actual, ainda pega mas está a desmoronar-se face à implacável realidade. O Euro e a União Europeia tal como a conhecemos vai desaparecer, a recessão vai ser Europeia e não apenas dos PIGS (e veremos se não mundial…). Mesmo a nível interno já há sinais de que os pressupostos em que se baseiam as políticas Passo-Gasparianas não têm correspondência no real. Portanto, a grande crise europeia, a maior desde os anos 30, não tem solução democrática dentro do actual paradigma da “austeridade”. A noção de que tem de se questionar o actual paradigma e a postura do governo cresce. A questão da soberania face à ocupação da Troika também alastra, foi interessante ouvir Ulrich e cada vez mais artigos deste teor. A postura do “bom aluno”, ou a total submissão do Governo perante a Troika está ameaçada.

A crise geral, tem produzido uma forte contestação em toda a Europa, um dos passos fundamentais é, tal como se fez um 15 de Outubro mundial, fazer uma greve geral europeia, ou pelo menos dos PIGS+Reino Unido, mesmo uma ibérica teria algum peso

A vinda da Troika foi uma grande janela de oportunidade para os extremistas neo-liberais aplicarem o seu programa a coberto da intervenção externa, um programa que dada a relação de forças no país, sem essa intervenção estrangeira não teriam o poder de aplicar. Só que os aprendizes de feiticeiro têm de lidar com duas realidades que não foram muito bem tidas em conta no seu plano:

– O escalar e acelerar da crise do Euro (que seria inevitável, mas que as suas acções ajudaram a acelerar, refiro-me ao derrube do governo Sócrates e vinda da Troika pela mão de Cavaco Silva);

– A crise é uma oportunidade para face ao medo introduzir mudanças radicais na sociedade portuguesa. Mas a falta de capital em Portugal, aliado a uma recessão generalizada europeia vai matar e afectar não só os grupos que os talibãs neo-liberais queriam esmagar (função pública, trabalhadores por conta de outrem da classe baixa e média baixa, quem vive de prestações sociais), mas uma enorme fatia da sua própria base social de apoio (pequenos comerciantes, empresários médios, quadros técnicos intermédios). A crise por eles desejada e incentivada, será de tal ordem que as medidas talibãs (tipo aumentar meia hora por dia de trabalho ou as privatizações a martelo…) não irão compensar minimamente a quebra que grande parte da própria base social de apoio a este governo irá sentir. As medidas talibãs irão de facto beneficiar um sector muito restrito no topo da pirâmide, tendo uma capacidade de influência completamente desproporcional face ao seu número, parece me mesmo assim uma base muito exígua de suporte ao Governo.

Quem vejo nas ruas a arregimentar as tropas são os mesmos de há muitos anos, esses sim, os verdadeiros acomodados, os mais resistentes à mudança, os mais corporativos dos corporativos. 

Quem nos diz isto, um dos argumentos muito invocados pelos cães de fila do regime, é nem mais nem menos que uma deputada “girl” do PSD. Este é o exemplo paradigmático da postura de fariseu… Temos um primeiro ministro que acaba o curso aos trinta e sete anos, arranja emprego (a maioria em empresas municipais e inter-municipais…) do padrinho Ângelo Correia, que diz que os direitos adquiridos são para acabar excepto os seus. O PSD envolvido até ao pescoço na máfia (aliás o PSD é a máfia do BPN) do BPN, em que meia dúzia roubou e agora todos pagamos, sendo que no final vende-se a mais um dos compadres… O PSD um dos partidos do regime que em parceria com o PS é responsável pelo descalabro das PPPs e de onde frequente ministros passam do governo para a administração de grandes empresas. Pois uma deputada do PSD vem falar em acomodados e interesses corporativos… Pois de facto os Sindicatos acomodaram-se, não participaram do saque à Republica da forma criativa e empreendedora como a máfia do seu partido fez. Nisso tem toda a razão.

Uma das linhas para a aceitação das massas ao aprofundar e radicalizar da luta é a componente justicialista.  O Carvalho da Silva fez bem em focar o assunto no seu discurso. O terreno é fértil e é de quem o apanhar. De facto é necessário uma operação mãos limpas com confisco de todos os bens das elites envolvidas no saque à República. Nenhum sacrifício tem uma unha de legitimidade sem antes se fazer uma operação destas. Isto a par com a auditoria e suspensão do pagamento da dívida são argumentos fortíssimos.

Sobre a participação e aceitação das massas, apenas mais uma nota. Esta Greve teve um aspecto qualitativo fundamental para o futuro. Para além da máquina sindical, muitos populares (sobretudo enquadrados pelos “Indignados”) participaram activamente na Greve. A manifestação que muito bem a CGTP convocou, foi um óptimo sinal dado à sociedade e ao próprio movimento (ao contrário do que algumas vozes mais papistas que o papa afirmaram neste blog). A interacção entre “Indigandos”, sectores populares não sindicalizados (estudantes, desempregados, ultra-precários, etc..) e sindicatos/CGTP foi muito positiva. Esta é uma aliança que é absolutamente fulcral manter e cultivar se se quer uma luta vitoriosa. Uma luta que cumpra com os desejos do Rui Ramos.

O Bruno falha um bocado no seu texto, primeiro quando fala do “desvio de atenção” mediático esquece-se que os media irão sempre jogar esse jogo, não foi por ter havido confusão na Assembleia que falaram menos da repressão sobre os piquetes. E devido ao que se passou, até se está a falar imenso de repressão!!!!! Segundo, evidentemente que a luta se deve levar aos lugares onde se dá a exploração, e que locais são esses? Há sectores com tradição e condições para a luta sindical mais clássica e a luta deve aí reforçar-se, estivadores, grande indústria, sector público. Mas e os centros comerciais? E os call centers? e o sector dos serviços privados em geral? e as pequenas empresas com um patrão e dois ou três empregados?  E as empresas familiares?

Mais, o objectivo da greve, o seu grande e principal objectivo, não é ser um ritual simbólico de descontentamento. É parar a produção. No século XIX isso fazia-se encerrando a fábrica, mas será assim nos dias de hoje? Os processos produtivos e a logística mudaram, nos dias que correm parar a produção, mais do que encerrar a fábrica, significa bloquear as redes, os canais, onde circulam a informação e os bens. Uma greve verdadeiramente geral tem de ter como objectivo bloquear esses canais se pretende de facto parar a produção. Sobre estas questões aconselho este texto (talvez um pouco intelectualizado de mais para o que seria necessário, mas cada um tem o seu estilo).

Até porque a mobilização de sectores mais dispersos/inorgânicos e dos batalhões disciplinados da CGTP não é antagónica, antes pelo contrário. Na próxima greve geral espero que as comissões de utentes e sobretudo o Povo se junte aos piquetes da carris e outras companhias de transportes. Com mil pessoas ou mais à frente das garagens da carris quero ver as “forças da ordem” e a reacção tentar quebrar esses piquetes…

Em síntese:

– A greve não foi uma greve como as outras e isso foi reconhecido universalmente. Foi uma vitória para os Sindicatos e Movimento Popular.

– O aprofundar da crise na Europa contribuí para combater o argumento reaccionário de que é preciso é “trabalhar” e não fazer greves;

– O desgaste do governo está a acentuar-se e a greve geral ajudou;

– O combate à corrupção (já está), mas deve estar mais presente nas propostas do movimento. Estilo “confiscação imediata de todos os bens de Dias Loureiro, Vara e resto da Corja”;

– A aliança “Indigandos”+CGTP passou o primeiro grande teste. É para manter e cultivar. A implantação orgânica e capacidade de mobilização quotidiana da CGTP está a anos luz de qualquer movimento dos Indignados ou 12 de Março, ou 15 de Outubro. Mas os “Indigandos” proporcionam a plataforma que permite largos sectores (em potencial até sectores mais vastos que a CGTP como se viu no 12 de Março e 15 de Outubro) se juntarem à luta, terem um papel activo e até minimamente enquadrado.

– Os “distúrbios”, independentemente da sua origem, contribuíram mais para vincar a repulsa popular perante o rumo seguido, do que para criminalizar o movimento popular;

– Se possível a próxima greve geral deve ser simultânea em vários países;

– A questão da auto-determinação do povo português e da independência nacional é um ponto importante desta luta (sinto-me muito MRPP e PCP neste aspecto e não só…).

 A questão dos “distúrbios” e agentes provocadores

Percebo a preocupação existente de defender o movimento da tentativa de o criminalizar. Mas uma coisa é certa, como ouvi há uns tempos numa paragem de autocarros “é preciso dar-lhes um susto do qual se lembrem por muito tempo”. Ora, o susto que vem do 25 de Abril e o mais geral vindo do resultado da segunda guerra mundial e desfecho da revolução russa está a esgotar o seu prazo de validade.

Assim sendo, havendo provas, ou muito fortes indícios, as provocações devem ser denunciadas. Mas dada a raiva difusa sentida na sociedade portuguesa não é de esperar certos actos mais subversivos? Estilo atirar “molotovs” a repartições de finanças… terão sido “agentes provocadores da PSP”, a “extrema-direita”, “anarquistas extremistas”, já pensaram na hipótese de pura e simplesmente ser pessoal altamente revoltado com a situação? E não será até positivo que surjam, de forma imprevista, de onde não se espera, acções radicais e subversivas? Não se cansam os porta-vozes do regime de dizer que o problema não são greves e manifestações dos sindicatos, mas actos de subversão desenquadrados? De facto essas vozes têm, em parte, razão. Qualquer Revolução ou alteração social profunda, tem sempre um certo carácter de violência subversiva imprevista e não controlada.

Sendo assim, como disse Carvalho da Silva (citado livremente) “qualquer acção dos trabalhadores é legitima face aos ataques em curso”. Ora aí está o discurso a ter face a estes actos.

Houve alguma histeria face a “infiltrados”, claro que os houve, mas mantenhamos a calma. Confundir estivadores com extrema-direita é entrar no delírio (só esta questão dava um tratado quer acerca do papel dos Estivadores nas lutas sociais, quer da aversão de certos sectores ao “suor da classe operária”) . Tod@s nós temos pré-conceitos, e uma certa extrema-esquerda defensora cega do politicamente correcto e que se bate contra o preconceito, está também ela cheia deles! Este é um momento que exige maturidade e humildade de tod@s nós, sobretudo porque a pressão só vai aumentar. Apontar gente que está do nosso lado na luta de ser isto e aquilo só porque tem aspecto e atitudes diferentes é exactamente aquilo que os provocadores querem. É que a sua missão mais do que criminalizar o movimento, é muitas vezes dividi-lo.

As provocações da polícia e acções da extrema-direita só terão tendência a aumentar. Que eu saiba, nesta greve não houve milícias de extrema-direita a atacar grevistas. Na próxima é muito provável que existam. Uma das melhores maneiras de prevenir essas acções é a protecção dos números. Os piquetes, sobretudo os mais estratégicos, devem ter uma forte componente popular aliada ao sindical.

Parece-me que também a própria localização do centro das manifes que se dirigem ao parlamento deve ser pensada. Deixo aqui algumas ideias para pensar. Penso que um novo posicionamento pode ajudar a prevenir provocações, é mais fácil de defender, tem melhores acessos e vias de fuga, é uma melhor posição para acções ofensivas. Pode perder um pouco simbolicamente, mas também  se está mais perto da residência oficial do primeiro ministro. É só uma ideia.


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Nota Final: Este é um texto longo e muitas coisas estão ditas, nem eu nem ninguém é dono da verdade e tem o mapa do caminho para a Revolução, só espero que seja um contributo mais positivo que negativo para a luta e a muita reflexão que ela implica. 

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