Há quem faça greves gerais e quem faça happenings

Há quem pare o país, e quem ache mais importante mandar garrafas de cerveja aos polícias.

Ha quem tenha como objectivo parar a política de austeridade e criar soluções alternativas, e há quem tenha como objectivo ocupar as escadas exteriores da Assembleia da República.

Há quem queira mostrar a força que os trabalhadores podem ter num país, há quem queira mostrar a força que uma multidão pode ter a empurrar barreiras metálicas.

A cada um, afinal, o seu sentido daquilo que é importante em política e daquilo que é politicamente importante na situação actual.

Mas montar-se às cavalitas de uma extraordinária greve geral e do movimento sindical, para a marcar mediaticamente com tão transcendentes objectivos e práticas, revela uma dupla pequenês, para além doutras que existam:

A pequenês de carneiros à cornada ao cão do pastor, em vez de ao dono da agropecuária que paga ao pastor.

A pequenês de quem se mete a reboque de quem tem a força e a capacidade de mobilizar uma greve geral para, mobilizando pessoas em nome dela, fazer o seu happeninguesinho.

Há quem faça greves gerais. E há quem pareça fazer tudo para que os media não falem delas, mas de fait divers.

Bem-vindos à equipa dos produtores de notícias sobre futebol, entende-lhes a mão, sorrindo, Miguel Relvas.

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33 respostas a Há quem faça greves gerais e quem faça happenings

  1. Augusto diz:

    No gabinete do Miguel Relvas, não há certamente nenhum destes revoltados…….

    Quando em pleno Chiado e já no final da manifestação, depois de passarem os estudantes da Universidade de Coimbra, eu contei QUATORZE carrinhas de policia de choque, isso sim merece denuncia , não só pelos custos do aparato, mas tambem pelas mostra INTIMIDATORIA que essa presença significa .

    No entanto há quem esteja mais preocupado com os coitadinhos da Policia de Choque, do que com alguns portugueses , e não são garotos, que já atingiram o limite , e que estão dispostos a tudo.

    Afinal até havia policias, QUE NÂO OS DE CHOQUE, que há dias diziam, que a vontade deles era derrubar as barreiras do Parlamento, e juntarem-se á contestação.

    Mas quem dizia isso , não recebe um chorudo ordenado como aquele que recebem os senhores da policia de choque, e vive em camaratas miseráveis.

    Afinal ontem era o Maltez e os seus cães policias e os seus policias cães.

    Hoje não há Maltez, mas há quem se preocupe com os FILHOTES do Maltez.

  2. diz:

    E há quem seja conceituoso (e já se deva ter “reformado” da politica faz muitos anos)

    “Alguns usaram mesmo os paus das bandeiras vermelhas para criarem uma barreira que impediu os “indignados” de avançar e de se misturarem com o resto da multidão. “Estão a separar os trabalhadores ligados à CGTP do movimento dos precários? É muito triste”, diz uma manifestante. Calados, os sindicalistas das bandeiras em barreira baixam a cara. Não dizem nada.”

  3. JMM diz:

    nada mais certo. é isto que eu penso.

  4. Pingback: GREVE GERAL - Page 10

  5. Leo diz:

    Nem percebo porque é que lhes dá protagonismo. Não sabe o que a casa gasta?

  6. diz que diz:

    😮
    eu a bater palmas ao P.Granjo

    desde o incidente de querer marcar “forums” em dia de greve que tinha perdido a esperança…

    • paulogranjo diz:

      Por acaso, hoje até estive durante um bocado num forum de professores universitários. Era muito pequenino e o delegado sindical que o convocou bastante à pressa chamou-lhe “assembleia”, mas também era “contra a austeridade e a asfixia do ensino superior”.
      Isto, depois de ter visitado os comerciantes lá da minha zona e de ter estado num dos piquetes de greve na faculdade onde dou aulas. E antes de participar num desfile e numa concentração.
      Ou seja, reforçou-se a minha convicção de que há muitas formas de luta possíveis numa greve geral (e em geral, mesmo sem greve), que umas não impedem as outras e que todas devem ser utilizadas, desde que sejam viáveis e contribuam para os objectivos em causa – os da greve e os do procsso em que a greve se insere.

      • Carlos Vidal diz:

        O que significa que a ocupação das escadas exteriores da Assembleia pode não ser apenas um happening.

        • paulogranjo diz:

          Pois podem, Carlos.
          Mas também por isso tive o cuidado de escrever “desde que (…) contribuam para os objectivos em causa”.
          Não me parece, de todo, que fosse o caso hoje. E o único contributo que tiveram foi ocuparem os telejornais com isso, em detrimento da própria greve.

          • Carlos Vidal diz:

            É verdade, porque o que se passou foi um não-evento. Ou seja, não se passou nada de facto.
            O pouco foi extrapolado, aproveitado para criar névoa.
            E se fosse um evento? Subida, ocupação de um espaço público que, paradoxalmente, está interditado como que por um cordão sanitário. Uma Assembleia Popular no cimo das escadas, uma tomada de palavra naquele lugar poderia ser algo curioso…..

          • paulogranjo diz:

            Déjà vu…

          • Carlos Vidal diz:

            Claro, por isso é que escrevi “algo curioso……”
            Ficando as reticências como espaço aberto.

  7. Augusto diz:

    Depois de ao longo do dia, ter-mos assistido a provocações sucessivas da Policia de Choque e até da GNR, contra os piquetes de greve, e até contra concentrações de trabalhadores, a única preocupação do Paulo Granjo, sãos PEQUENOS incidentes junto á Assembleia da Republica.

    O que escreveria o sr Paulo Granjo, se estivessemos em Outubro de 1975 , e a Assembleia da Republica estivesse cercada por trabalhadores da construção civil ?

    Nem quero imaginar…….

    E depois os outros é que são provocadores.

    • paulogranjo diz:

      Ah… Aqueles meninos estiveram nos piquetes a ser provocados? E por isso é que fizeram aquela cégada?
      É que, das duas uma: ou é isso que você está a querer dizer ou, não sendo, não percebe pativana do sentido daquilo que lê.
      E, sim, preocupa-me que, depois de um dia de greve geral com muito sucesso e com sucessos que (conforme referiu o Carvalho da Silva na concentração) foram inéditos, a imagem forte que passou nos telejornais fosse aquele pequeno incidente. Pequeno, mas estúpido.

  8. Curiosamente, por Espanha, as parangonas sobre a nossa greve parecem tomar outro sentido: http://www.publico.es/dinero/408798/una-huelga-general-sin-incidentes-paraliza-portugal

  9. Vim a este fórum do Avante, onde aliás FAÇO QUESTÃO DE NUNCA VIR, para me divertir um bocadinho: “montar-se às cavalitas de uma extraordinária greve geral e do movimento sindical” parece-me uma formulação sublime, de uma força quase poética, como é apanágio do que este escriba costuma oferecer.

    (Apenas fico sem entender como é que a 12 de Março éramos 200 mil a descer a Avenida sem termos uma “extraordinária greve geral e movimento sindical” para subir para as cavalitas?)

    • paulogranjo diz:

      Precisamente. O 12 de Março foi uma manifestação extraordinária, até pelo facto de uma grande percentagem das pessoas que vieram para a rua nunca terem, visivelmente, participado antes numa manifestação. Apelou-se a um problema essencial e extremamente violento para grande parte da população (e ao qual, estou convencido, se continua a dar insuficiente importância) e criou-se um espaço para a expressão individual e livre de protesto, sans dieu ni maître, e a mobilização foi incrível.

      Embora bem mais fracote, também o 15 de Outubro seria uma manifestação necessária (para as pessoas), mesmo se não estivesse integrada numa mobilização internacional. E a que muita gente aderiu, estou convicto, independentemente dos objectivos declarados internacionalmente, mas motivados pela situação decorrente da troika e das medidas governativas. Foi uma manifestação necessária, tal como é previsível que muitas outras o venham a ser, nos meses e anos mais próximos.

      Hoje, de facto, foi uma situação de “montar-se às cavalitas” e de “ir a reboque”, até com traços de medir forças e se afirmar como vanguarda – expressos por exemplo no facto de, indo a manifestação terminar no sítio onde o movimento sindical (convocador e organizador da greve) tinha uma concentração marcada, não ser apresentada como indo juntar-se a esta, mas como indo terminar em “assembleias populares”. É como aqueles gajos que vão à festa de anos de alguém e tudo fazem para serem o centro das atenções e para que ninguém ligue ao dono da casa.

      Agora vocês decidam-se, raios! Tão depressa me chamam “anti-comunista desde pequenino” e “filho-da-outa fascista” como sucursal do Avante…

      • Está explicado o problema. O problema é que alguém foi fazer a festa, no terreno “dos donos” da luta política. Curiosamente, foram muitos mil a chegar depois de sair a meia-dúzia. De resto, por terem enchido as ruas da cidade sem aparato, o “extraordinário” 12 de Março, o “fraquinho” 15 de Outubro e o inquietante 24 de Novembro, andam bem mais cotados do que o Paulo quer pintar, especialmente entre as centrais e os diferentes comités.

        • Nuno Rodrigues diz:

          O Renato teixeira é o chamado se não come com a esquerda, come com a direita, o que interessa é comer.

          Se os sindicalistas da CGTP, por alguma razão especifica, começassem a mobilizar para o 12 de Março, era certinho: OPORTUNISMO POLÍTICO!

          Puseram.se ás cavalitas mesmo. São canalhas. Vigaristas. E otários. Otários porque tentaram deitar abaixo o que demorou meses a construir como fazem sempre com a luta organizada. E a luta foi da CGTP, com os TRABALHADORES! Os indignados, esse movimento sem cara, está expressamente convidado a ficar em casa, ou a não se portar mal nas manifestações, fazendo de uma invasão a uma escadaria uma revolução anarquista.

  10. orlando diz:

    Eu também estive na manif convocada pela CGTP, deixei-me ficar um pouco mais depois desta acabar e o que vi foi de facto revoltante. Não creio que atirando garrafas de cerveja aos policias e querendo subir as escadas da A.R. se ganhem pessoas para a luta. O objectivo dos indignados foi, ao que vejo, atingido, ganharam destaque publico pois as noticias só falam deles, até parece que um dia de greve como o foi hoje, não passou de um “motim” como uma estação de rádio referiu. Felizmente essa não é a minha luta nem a luta da maioria dos trabalhadores que hoje aderiram à greve. O que eu vi, depois de ter acabado a manif dos que fizeram greve, foi um grupo de pessoas que tendo o mesmo direito de se indignarem que eu, julgam que se ganham pessoas para a luta com manifestações deste género. A anarquia nunca foi a minha praia.

    • anon diz:

      Manifs boas são aquelas com um tipo de microfone uns decibeis acima do aceitavel lá à frente a comandar o rebanho. Depois chegada à hora toca o hino, tira-se o colete e vai tudo para casa que se faz tarde.

      • Leo diz:

        Afinal o que é que a incomoda? O tipo do microfone, o hino ou o colete?

        • Nuno Rodrigues diz:

          É o ir para casa. Porque os indignados não trabalham no dia a seguir. Não têm filhos e provavelmente nem pais. Uma casa para criar, não têm de organizar a luta para o dia a seguir. Não é dificil. Os indignados, esses, tão nos sindicatos, nos movimentos civicos, em partidos políticos. Quem quer fazer da indignação uma profissão é que vai para os indignados. E eles ficam chateados com isso.

  11. izucijeniz diz:

    Gosto muito do cartoon.
    Só que um pouco de auto-crítica no texto não faz mal a ninguém.

    ” montar-se às cavalitas de uma extraordinária greve geral e do movimento sindical”
    “A pequenês de quem se mete a reboque de quem tem a força e a capacidade de mobilizar uma greve geral para, mobilizando pessoas em nome dela, fazer o seu happeninguesinho.”

    O movimento 15Out não se põe às cavalitas de ninguém ao marcar assembleia popular após discursos das centrais sindicais? E será então uma assembleia ou um happening?

    • paulogranjo diz:

      Chegou a haver assembleia? (Não é ironia; é uma curiosidade inocente. Mas a questão não é relevante.)

      Quando falei de happening, referia-me ao remake da ocupação da escadaria da AR.

      Mas, sem querer abrir nenhuma polémica acerca do assunto (tanto mais que considero, em abstracto, positivas e louváveis todas as formas de participação cidadã e de participação política, independententemente da avaliação que eu faça – tal como cada um dos outros faz as deles – acerca da sua relevância e eficácia), também as “assembleias populares” me parecem, em grande medida, happenings.
      No entanto, conforme disse, nem era a elas que me referia, nem me parece ser altura para andar a criar divisões em torno do que o que é que cada um acha desta ou daquela forma de acção cidadã.

    • joao pedro marques pires diz:

      Basta de conversa fiada, estes movimentos pequeno burguêses cheios de meninos copo de leite bem calçados e bem vestidos com a cabeça cheia de ganzas e cervejolas,vem agora tentar “ensinar”quem anda nestas coisas da verdadeira LUTA organizada, que aliás é a unica forma de atingir algum objectivo,fazem-me lembrar aqueles comentadores de futebol que mudam de canal para canal,não sabem quanto pesa uma bola nem quanto mede o campo!Tenham juízo!!!

  12. dfz diz:

    Em primeiro lugar, o número de pessoas associadas ao grupo dos indignados era várias vezes superior ao associado à manifestação da CGTP, o que me leva a perguntar, porquê “às cavalitas”?
    Em segundo lugar, existindo muitas pessoas que não são sindicalizadas (porque será? pergunto-me…), acabam por se unir e manifestar, num dia de greve, direito que exercem como cidadãos e não como membros de um sindicato, levando-me a perguntar novamente, porquê “às cavalitas”?
    Concordo que a luta deveria ser mais unificada e deveriamos deixar de separatismos pseudo-idealistas que não nos levam a lado nenhum, até porque o que separa é, neste momento, de menor importância.
    Mas é necessário que seja dada a devida relevância a um facto, não foi um grupo de jovens enervados que se elevou contra as forças policiais (ou deveria dizer forças de opressão?). Foi uma multidão, contendo todo o tipo de pessoas, de vários grupos sociais, de várias idades, que não suportando mais esta surdez estúpida e arrogante de uma classe política, decidiu deitar abaixo uma barreira (num momento, inanimada e noutro, humana) que separava o povo do maior símbolo de poder desse mesmo povo.
    A pergunta que deixo em jeito de reflexão é: independentemente dos movimentos, partidos, sindicatos, grupos, enfim, independentemente dos ideais que nos movem, como podemos ficar impávidos perante um governo que coloca barreiras físicas entre o edíficio que representa o supremo poder do povo e esse mesmo povo?

  13. paulogranjo diz:

    Fernando Lopes:
    Tal como pediu, retirei o seu comentário.

  14. ana diz:

    e repetiu-se. compreendo a parte da indignação por se ocultar a importância da greve geral. Mas não compreendo a parte das cavalitas. Afinal a greve é sobre as pessoas, os trabalhadores ou sobre a cgtp?

    triste…

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