Carta aberta de desempregados em dia de greve geral: “FAZEMOS GREVE PORQUE QUEREMOS TRABALHO!”

A greve geral começa daqui a poucas horas e do seu sucesso dependem não só os direitos dos trabalhadores, precários com e sem contrato, mas também o futuro dos desempregados. Este que pode ser o mais importante momento da luta política do último ano é determinante para que tenhamos também capacidade de influenciar social e economicamente o destino de todos nós.

Apesar da força de uma greve vir da capacidade dos trabalhadores bloquearem a economia, dando provas do seu inestimável valor na sociedade, a adesão dos desempregados a esta forma de luta é fundamental. Uns dirão que, por não termos lugar na cadeia de produção, somos irrelevantes. Outros ainda deixarão escorregar um sorriso irónico, uma interjeição sarcástica ou alguma condescendência por nos juntarmos aos piquetes, à manifestação ou que tomemos a palavra, a proposta e o voto na assembleia popular. Muitos dos desempregados terão mesmo a tentação de o fazer sobre si próprios, num acto de penitência individual em sintonia com o castigo que o capitalismo e a moral judaico-cristã nos quer convencer que merecemos. Nada mais errado.

Um desempregado é parte integrante do sistema económico e o seu papel cumpre duas funções fundamentais para que a brutalidade laboral continue a ser a melhor estratégia para que os patrões maximizem os seus lucros. Por um lado, como exército de reserva de pessoas que acabarão por aceitar qualquer trabalho e em quaisquer condições, garantimos a sobre exploração dos que ainda encontram um lugar no chão de fábrica. Por outro, a rápida, barata e qualificada mão-de-obra que consistimos, faz com que todos sejam descartáveis permitindo que quem nos agiota continue a grande marcha para a austeridade absoluta, ou seja, a total aniquilação dos direitos dos trabalhadores.

Porque temos toda a legitimidade, a rua não pode deixar de ser o palco das nossas aspirações. A greve geral dos trabalhadores, face à sua importância no actual contexto político, deve ser por nós abraçada sem qualquer complexo. Porque a primeira grande reivindicação de um desempregado é emprego, não podemos deixar de lutar pelos nossos postos de trabalho.

Ao final do dia não ficará tudo resolvido. Este ou aquele sector, dependendo da envergadura da greve, vai ter capacidade de minimizar as agressões que lhes estão a ser impostas e novas jornadas de protesto se seguirão. A quem não tem trabalho, porém, continuará a faltar trabalho e por isso mesmo esta luta tem que continuar com outra urgência. A organização de uma grande manifestação de desempregados, a criação de gabinetes de apoio a quem não sabe o que fazer quando se vê nesta situação, o lançamento dos alicerces de uma organização de classe que nos represente, são tarefas que nos dizem respeito e tarefas que podemos começar. Este é um desafio enorme mas a alternativa é a resignação, a desistência, a capitulação. Não escolhemos a nossa condição mas temos a obrigação de lutar para acabar com ela.

Na Argentina, em França ou no Brasil, quem está nesta circunstância já deu passos em frente que nós teremos que aprender a dar. No Egipto, no Estado Espanhol ou nos EUA têm sido indispensáveis nos movimentos que estão a mudar a relação de força dos 99%. Há que ser capaz de forjar as nossas organizações, as nossas iniciativas, os nossos sindicatos. Há que ser capaz de interferir na agenda, incomodar a troika e derrotar as intenções da absoluta minoria que nos quer reduzir a mercadoria. Não devemos continuar escondidos atrás de estatísticas, do medo, da vergonha ou da desmoralização própria de quem vê a sua vida privada de vida.

Fazemos greve porque queremos trabalho. Fazemos greve porque não abrimos mão do nosso futuro. Fazemos greve porque reivindicamos a nossa condição de trabalhadores.

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22 Responses to Carta aberta de desempregados em dia de greve geral: “FAZEMOS GREVE PORQUE QUEREMOS TRABALHO!”

  1. De diz:

    Um bom post!!!

    (Também por isto:
    “Não devemos continuar escondidos atrás de estatísticas, do medo, da vergonha ou da desmoralização própria de quem vê a sua vida privada de vida.)

  2. António diz:

    NO DIA 24 DE NOVEMBRO, EU TRABALHO!.

    Porque Portugal precisa…

    • Renato Teixeira diz:

      Só por cima do piquete. Onde é que é mesmo o seu local de trabalho?

      • António diz:

        Mas é um piquete do tipo: “Os piquetes de greve desenvolvem actividades tendentes a persuadir os trabalhadores a aderir à greve, por meios pacíficos e sem prejuízo do reconhecimento da liberdade de trabalho dos não aderentes à greve.”
        Se for não há problema… Pelo contrário se for à boa maneira leninista-estalinista, se calhar passo…

    • Gentleman diz:

      Fazer greve e desfilar ao lado de quem, durante anos, se manteve calado perante o galopante endividamento? Não, obrigado.
      Quando sucessivos governos andaram a distribuir subsídios sem critério para as pessoas não trabalharem; quando os bancos impingiam todo o tipo de crédito ao consumo para endividar as famílias; quando na A. R. se fazem leis para despenalizar as falcatruas dos partidos; quando se construíram 10 estádios de futebol para entreter o povo; quando se retalhou o país de autoestradas; quando se fizeram obras sumptuárias nas escolas secundárias; quando nos preparávamos para construir várias linhas de TGV; quando o Estado gastou à tripa forra sem fazer contas…. onde estava o PCP e a CGTP? Todos muito caladinhos a aprovar ou pior: a reclamarem ainda mais despesa!
      Agora que o dinheiro se acabou e ficamos nas mãos dos credores e a ser governados por eles, estes irresponsáveis apelam a greves. Arregacem as mangas e vão trabalhar! Façam alguma coisa de útil para tirar o país do descalabro!

      • Renato Teixeira diz:

        “Tudo depende da bala e da pontaria”. Depois de ler o seu último comentário lembrei-me desta: http://www.youtube.com/watch?v=UAyS8cP5NX8

      • Carlos Carapeto diz:

        “Gentleman says:
        Quando sucessivos governos andaram a distribuir subsídios sem critério para as pessoas não trabalharem;”

        Quantos anos estiveste hibernado?

        Quem fez todas essas patifarias que mencionas foi quem governou durante o período estiveste em letargia profunda?

        Foi a tua familia politica que malbaratou a economia do país . Foram os Cavacos & Lda.

        Estamos reféns dos credores pagando com um palmo de língua de fora, aquilo que a burguesia roubou.

  3. Ricardo Heindrich diz:

    Os desempregados são merda. Escória da sociedade, gente calona e nojenta. Quem fará a greve amanhã é a merda do costume, o azeiteiro do metro e do comboio, o canalhazinha da repartição, o limpa-merda… E vós lá estareis para vos aproveitar dessa gente porcalhona sem educação. No meio da merda é que vocês estão bem.

    • Renato Teixeira diz:

      A parte da crise que não pode deixar de nos dar prazer é que também o Heindrich tem fortes possibilidades de ficar desempregado.

    • Carlos Carapeto diz:

      Ricardo Heindrich says:

      “23 de Novembro de 2011 at 15:14

      Os desempregados são merda. Escória da sociedade, gente calona e nojenta.”

      Vou tratar-te com o respeito que não mereces, nem te dignas tratar os demais.
      Porque a educação que recebi dos meus país não me permitem que falte ao respeito a alguém. Sou filho de dois pobres camponeses analfabetos, que com muitos sacrificios criaram cinco filhos, muitas vezes não tinham pão para lhe dar , mas que nunca lhe faltaram com a boa educação e os carinhos.

      E como se costuma dizer, casa de país escola de filhos. Não sei qual a educação que recebes-te dos teus país? Mas é facil imaginar!

      Não faltas-te só ao respeito às centenas de milhares de desempregados, que vivem no pesadelo incerto do futuro.
      Àqueles milhares de jovens que sofrem as agruras deste sistema que lhes esmaga os sonhos e as ambições.
      Aos milhares de trabalhadores qualificados que se esforçaram por aperfeiçoarem os seus conhecimentos profissionais.
      Aos milhares de pessoas que com empenho e dedicação na esperança de um futuro melhor obtiveram cursos universitários, e que acabaram por ver todas as perspetivas desmoronarem-se.
      Aos milhares de trabalhadores que honestamente durante parte das suas vidas deram o melhor de si, e chegados aos 50 anos se viram numa condição que nunca desejaram.

      Faltas-te ao respeito a todos estes, e às suas familias que vivem sufocados no mesmo drama.

      A tua falta de respeito e indiferença para com este pesadelo coletivo, prova és um monstro anti-social.

      A resposta que mereces é aquela que alguém já usou na Assembleia da Republica.

      NÃO SABES O QUE É A VIDA!

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