Amaiur é sinónimo de vitória


Deputado Jon Idigoras arrasa parlamento espanhol

A vitória foi regada com cerveja. Ontem, foram poucas as herriko tabernas que não acabaram em festa. Os últimos índios da Europa, com um idioma incompreensível, desconhecido, vindo das entranhas de um continente que já não existe, mostraram uma vez mais porque é que resistem, depois de terem perdido a independência, há quase cinco séculos. Numa dessas últimas batalhas, a resistência basca, entrincheirada, foi derrotada pelas tropas castelhanas e aragonesas em Amaiur. Hoje, esse nome é sinónimo de vitória.

No dia e na hora precisa em que a campanha eleitoral começou já havia um detido. Joseba Compains, candidato da Amaiur ao senado espanhol, foi perseguido, revistado e agredido pela polícia enquanto colava, nas ruas de Iruñea, os primeiros cartazes da coligação da esquerda independentista. Nas semanas seguintes, houve localidades cercadas pela polícia espanhola. Onde havia comícios da Amaiur lá estavam as barreiras para impedir que se chegasse às iniciativas dos independentistas bascos.

Fustigada pelos principais partidos, pela comunicação social e pelas forças da repressão, a Amaiur confirmou a avalanche independentista das eleições municipais. Depois da estrondosa vitória do Bildu, que obteve o primeiro lugar em número de eleitos e o segundo em número de votos, a nova coligação, à qual se somou o partido Aralar, repetiu o feito. Novamente primeiro lugar em número de eleitos e segundo em número de votos. Desta vez, a barreira dos cinco deputados foi ultrapassada e sete deputados vão a Madrid acompanhados de três senadores.

Mas a festa também foi regada de lágrimas. É que em 1984 e em 1989, neste mesmo dia, o Estado espanhol, sob a presidência do PSOE, assassinou, respectivamente, um senador e um deputado do Herri Batasuna. Também se chorou por todos os que não estão. Os que foram assassinados, os que caíram em combate e os que estão presos. É que a decisão da ETA de abandonar a luta armada deixou em evidência a raiz do conflito: a violência do Estado espanhol.

Do PSOE ao PP, todos quiseram destacar as primeiras eleições em paz e liberdade. Com isso justificaram a afluência às urnas no País Basco, a mais elevada do Estado espanhol. Estranho é que, nas primeiras eleições “em paz e liberdade”, a maioria dos bascos opte por reforçar o apoio à esquerda independentista e ao Partido Nacionalista Basco e retire força ao PSOE e ao PP. Quem quiser que acredite nas mentiras. Eu prefiro as palavras do antigo deputado do Herri Batasuna Jon Idigoras: “Tirem as vossas sujas mãos do País Basco! Deixem-nos viver em paz!”

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21 Responses to Amaiur é sinónimo de vitória

  1. paulo says:

    nem uma palavra para todos aqueles que a eta assassinou.
    bruno o sectrarismo tem limites, é que a eta assassinou mais de 800 pessoas, muitas das quais simples cidadãos que estavam no local errado, à hora errada.
    mas só contam os assasinatos dos gal e afins….

    • Bruno Carvalho says:

      Os independentistas foram os únicos que reconheceram como vítimas os que sofreram dos dois lados da barricada. Mas gente como o senhor insiste sempre em cair em cima de todos os que defendem a esquerda independentista. Há uns que estão sempre obrigados a pedir desculpa mas os culpados do conflito nunca têm de pedir desculpa por nada. Uns são sectários e a tudo estão obrigados, outros têm liberdade para tudo, até para condecorar assassinos e torturadores.

  2. Ontem, em Madrid, o ar era rarefeito. Com a imagem do caudilho pelas paredes, o ritual de ida às urnas, parecia ter outra solenidade: renovados na fé, era vê-los, os fiéis, a deixarem o voto sagrado à virgem santíssima.

  3. Sr. Paulo!

    Se quer fazer contabilidade aos mortos, faça o favor de ser minimanente rigoroso. Mesmo sem contar com a violência da “democrática” monarquia espanholista, QUANTAS VÍTIMAS O ESTADO DE CASTELA FEZ NO PAÍS BASCO desde FILIPE V a FRANCISCO FRANCO? Pois…

  4. João Lopes says:

    A organização ETA é responsável por mais de 800 mortos. Muitos deles em actos de matança indiscriminada como o atentado ao Hipercor em Barcelona. Atentar à vida humana indiscriminadamente é um acto de terror. Seja esse acto perpetrado por uns assassinos com gorros ou por Sarkozys e Obamas que bombardeiam indiscriminadamente a Líbia.
    Choraram pelos que estão presos? Não sei quem chorou e não sei a que presos são esses. Mas gostaria de saber se alguém neste mundo chora por um assassino chamado Txapote que está preso. Há um portal (não me lembro do endereço) sobre as vítimas bascas. De acordo com esse portal o conflito basco causou 470 vítimas mortais cuja responsabilidade é imputada ao estado espanhol e françês. É pena não me lembrar desse endereço porque vale a pena ser visitado. É que entre homens e mulheres que morreram devido a vítimas de emboscadas ou outras causas há lá uma vítima que era um bombista da ETA. Morreu a manipular um explosivo (!!!). Imputar esta morte à lista dos caídos em combate pela independência basca é a apologia expressa do terrorismo. É também um insulto pôr no mesmo saco um bombista da organização terrorista ETA ao lado de homens e mulheres desarmados abatidos a tiro pela polícia. Tenho muita pena que os partidários deste estranho conceito de independência (o terrorismo e o aventureirismo nunca libertou nenhum povo) brinquem com coisas tão sérias.

    • Bruno Carvalho says:

      João, é engraçado ver, como mesmo com a suspensão da luta armada por parte da ETA, tu e outros (a maioria de extrema-direita) continuam a agitar o fantasma do “terrorismo”. Neste momento, o único que usa a violência é o Estado espanhol e, ainda assim, consegues escrever todo um comentário a falar da actividade da ETA. Estão centenas de presos atrás das grades sem alguma vez terem pegado numa arma ou montado um engenho explosivo. Mas tu consegues manipular a realidade ao nível dos melhores ideólogos da propaganda espanholista e fascista. Dói-te que a maioria do povo basco tenha dado apoio a uma coligação que tem no seu seio como principais protagonistas dirigentes da esquerda independentistas e até ex-combatentes da ETA? Pois que doa. Porque é a melhor prova de que com todos os seus erros, nunca deixou de haver um massivo apoio à independência e ao socialismo e aos que lutam por esses objectivos, sejam ou não bombistas.

      A ETA e a esquerda independentista, em conjunto com outras forças patrióticas bascas, reconheceram que há vítimas dos dois lados. O Estado espanhol recusa-se a faze-lo mas tu, como os bons militantes do PP, aplaudes e pouco te importa o que diga a ETA. Mas há um ponto que temos em comum, João. É que eu, como tu, não reconheço os protagonistas da guerra como vítimas. Para mim, o militante da ETA que morre a manipular um explosivo não é uma vítima, é um combatente. Para mim, um soldado espanhol, um polícia, um banqueiro, um dirigente do PP ou do PSOE não são vítimas, são parte do conflito. Vítimas são todos aqueles inocentes que morreram em atentados da ETA e pelos quais aquela organização sempre lamentou (o que não chega, estou de acordo). Mas vítimas são também todos aqueles que foram presos, torturados e assassinados pelo Estado espanhol que nunca, em tempo algum, sequer lamentou.

      Eu estou contente por haver uma decisão da ETA em deixar as armas. Tu, pelos vistos, e a extrema-direita, não. Isso é o que lamento.

  5. João Lopes says:

    Bruno: Eu conheço-te pessoalmente. Tenho respeito e consideração por ti. O facto desse respeito não ser recíproco não me leva a descer ao teu nível e à tua imaturidade.

    • Bruno Carvalho says:

      Também tenho respeito e consideração por ti mas não tenho culpa que alinhes no mesmo argumentário que a extrema-direita espanhola. A Esquerda Unida defende a autodeterminação do povo basco e reconhece que há muitos bascos que estão presos sem nunca terem tocado numa arma. A Esquerda Unida denuncia a tortura e condena as ilegalizações. E no actual contexto histórico não volta o seu discurso contra a ETA e a esquerda independentista, apoia o diálogo e o processo de paz. Como vês, aqui os únicos que não conseguem ler um texto que valoriza a vitória da Amaiur sem lançar um discurso de ódio contra a ETA és tu e os partidos da direita espanhola.

  6. Miguel Lopes says:

    “É que a decisão da ETA de abandonar a luta armada deixou em evidência a raiz do conflito”

    Eu só gostava de entender como é que o povo basco alcançará a sua autodeterminação sem uma força militar. Plano Ibarretex 2? Pedem por favor? Fazem beicinho?

    Bietan Jarrai?

    • Bruno Carvalho says:

      Eu acho que o abandono da luta armada foi a opção correcta. Isso não quer dizer que ache que alcancem a independência e o socialismo através da participação nas instituições. Este é o momento de dar prioridade e protagonismo à luta de massas e acumular forças para os tempos que se avizinham.

      • Miguel Lopes says:

        Então não é um abandono da luta armada, é uma pausa. Um interregno, provavelmente para acumular forças nas instituições e melhor reconstruir a estrutura militar.
        Mas é óbvio para qualquer mamífero que ninguém sai debaixo da coroa espanhola sem a coacção das armas. Eles têm que ser derrotados para abrirem mão disso. Só hippies liberalóides é que têm essas ilusões.

  7. Pedro Moirinha says:

    Foi um enorme e orgulhoso passo para o povo basco. Nós, que deste lado damos o apoio possível, sentimos esta vitória como nossa, também. Bruno, foi o sinal notório do crescimento da esquerda independentista e da indignação face ao regime fascista espanhol. Estamos na luta, sempre…

  8. closer says:

    Uma coisa é certa: as eleições mostraram cabalmente que a generalidade dos bascos não se revêem nas instituições espanholas

  9. ert says:

    bruno, uma questão: se houvesse uma organização, que funcionasse como a eta, mas que fosse nacionalista espanhola e de direita, mas que também promovesse assasinatos de politicos da esquerda independentista, para defender o estado espanhol, o bruno também teria essa posição que tem em relação á eta? é que o estado espanbhol pode cometer alguns abusos sim, mas isso não devia servir de argumento para defender aqueles que mataram os opositores politicos. Se o estado espanhol tortura, a eta devia então agir de uma forma radicalmente diferente.Porque uma coisa é justiça, outra é a vingança

    • Bruno Carvalho says:

      Isso já aconteceu, ert. O Estado espanhol patrocinou meia dúzia de organizações de extrema-direita para assassinar políticos da esquerda independentista. Aliás, nem deve ter lido a referência que fiz a isso no texto. Mas o Estado espanhol também assassinou militantes da esquerda independentista através do seu exército e da polícia. Mas elas não funcionavam como a ETA porque há uma diferença clara em quem oprime e quem é oprimido. A ETA surge como reacção à ocupação espanhola sobre o País Basco. Podemos não concordar com ela mas é inegável que existe uma razão histórica e política para a existência da ETA. E o Estado espanhol não comete alguns abusos. Comete demasiados abusos e não é apenas sobre militantes da ETA, é também sobre centenas de cidadãos bascos que nunca pegaram numa arma. Já agora, está contente ou não com a decisão da ETA de abandonar a luta armada? E condena ou não a violência do Estado espanhol, que, neste momento, é a única?

  10. ert says:

    bruno, vou começar pelo ultimo ponto que referiu.E quanto ás gal, de fato não me foquei muito nessa parte
    Relativamente á decisão da eta, devo confessar que caso seje verdade, é positivo e espero que desta vez eles cumpram om a sua palavra, porque nas ultimas vezes falharam, sendo que a ultima culminou num atentado em barajas, ceifando a vida de 2 imigrantes equatorianos.A eta vai ter de assumir uma vez por todas, que por mais legitimas que sejam as suas reivindicações, elas não só nunca justificam a barbárie, como também agrava a sua reputação e a repressão do estado espanhol.Ou seja , não existem meios barbáries e sangrentos que justifiquem nobres fins.Sou da opinião que todos até agora erraram neste processo.Se o oprimido também agir como um opressor não se torna melhor do que o opressor, mas sim que se tornará apenas igual.Isto é,da mesma maneira que me oponho ás alegadas torturas e abusos do estado espanhol, eu oponho-me e reprovo a morte de politicos só por estes pensarem de forma diferente(miguel angel blanco conhece?), de policias e funcionários de estado, de juizes como o josé maria lidón ou o luis portero.Isto para não falar da mutilação que a irene villa ou o actual politico Eduardo Madina, sofreram.
    Já ouviu falar do Ernest Lluch? há 1 ou 2 dias, fez 11 anos aquando do assasinato de este da parte de eta.Falo dele porque ele era um defensor do diálogo com a banda terrorista, mas isso pelos vistos não teve a menor importania para a dita cuja.Só desejo que o estado espanhol mude, como que a eta também mude de atitude, porque falando por mim, já basta de tanta imbecilidade tanto de um lado como doutro

    • Bruno Carvalho says:

      ert, eu não estou aqui para defender a ETA. Estou aqui para defender a verdade e a justiça. É falso que a ETA não tenha cumprido a sua palavra nas últimas negociações. Como agora, o Estado espanhol não deixou de prender e torturar cidadãos bascos. Proibiu manifestações e lançou a polícia contra os manifestantes. Ilegalizou partidos e organizações juvenis. Foi o Estado espanhol que rompeu todos os acordos.

  11. ert says:

    bruno nós sabemos o que os espanhois fizeram, mas será que por acaso, a eta deixou a luta armada? deixou de matar pessoas?Não causou nenhuma atentado no aeroporto, ou em estudios de televisão? Não.O que a eta faz hoje, devia te-lo feito há 5 anos atrás, deixando a luta armada e fazendo luta democrática, seguindo o exemplo da Ira norte-irlandesa

    • Bruno Carvalho says:

      A ETA está a seguir o exemplo do IRA. O governo espanhol é que não está a seguir o exemplo do governo inglês. Aliás, quem tenta puxar o exemplo irlandês para acusar a ETA de não seguir o exemplo do IRA demonstra que não percebe nada de história. O IRA, como a ETA, tentou negociar várias vezes com o governo britânico. O IRA, como a ETA, voltou à luta armada quando via que o governo britânico violava os acordos. Mas há uma diferença clara: Inglaterra sempre demonstrou mais vontade de negociar que o Estado espanhol. Talvez pelas pressões da comunidade irlandesa sobre o governo norte-americano e deste sobre o governo britânico. A verdade é que o IRA, de quem todos gostam de puxar o exemplo, foi uma organização com um nível de violência política bem superior ao da ETA.

  12. ert says:

    em 95 por cento do seu texto, estou de acordo bruno.O unico ponto em que estamos afastados, é que a eta já devia ter deixado as armas há muito tempo, ter percebido que os meios não justificam os fins e que as rejeicoes do estado espanhol não são razão para a violencia.E permiota-me acrescentar uma adenda: sempre fui contra a ilegalização do batasuna, mas este devia ter condenado os assasinatos, como aliás forças que integram a amaiur e o bildu sempre fizeram, como a EA e a Aralar

  13. Miguel Lopes says:

    “deixando a luta armada e fazendo luta democrática”

    Eis um hippie liberalóide asqueroso!
    A luta democrática já foi ganha. O Parlamento Basco, em representação do povo basco, já votou pela realização de um referendo que foi impedido pelo Tribunal Constitucional. O caminho institucional e democrático está blindado. Só a luta armada poderá ultrapassar este impasse!!!

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